Alertas científicos mostram que fortalecer a infraestrutura do clima é essencial para reduzir mortes, proteger a biodiversidade e garantir segurança hídrica e econômica no Brasil.
O planeta vive um novo momento climático. O que especialistas chamam de “novo normal” não se resume ao aumento das temperaturas médias, mas a uma mudança estrutural no funcionamento da atmosfera. O sistema tornou-se mais instável, com ciclo hidrológico intensificado e eventos extremos mais frequentes, intensos e concentrados.
Diante desse cenário, discutir a infraestrutura do clima passou a ser uma questão central de planejamento nacional.
O termo “novo normal do clima” ganhou força no início dos anos 2000, quando cientistas constataram que o planeta não retornaria aos padrões de clima anteriores. Fenômenos antes considerados raros; como secas prolongadas, enchentes fora de época e ondas de calor intensas, deixaram de ser exceção e passaram a ocorrer com regularidade. Alguns pesquisadores preferem falar em “novo anormal”, diante de um cenário marcado pela instabilidade permanente.

No Brasil, essa transformação é visível na sucessão recente de extremos. Em 2024, a Amazônia enfrentou a pior seca já registrada, com rios em níveis mínimos históricos e impactos severos sobre transporte, economia e populações ribeirinhas. No mesmo ano, o Sul foi atingido por enchentes devastadoras. O verão de 2025 terminou como o segundo mais quente da história do país.
O ano de 2026 começou sob o mesmo padrão de instabilidade. Na Zona da Mata mineira, chuvas intensas deixaram mais de 70 mortos. Em Juiz de Fora, 229,9 mm foram acumulados em apenas três dias, mais do que o esperado para todo o mês. Embora o episódio tenha sido classificado como tragédia natural, os riscos eram conhecidos. Alertas já indicavam a vulnerabilidade da região a deslizamentos e enxurradas.

A narrativa da fatalidade mascara um problema estrutural. Os desastres não resultam apenas da instabilidade climática, mas da vulnerabilidade construída ao longo de décadas. Em 2025, o Brasil registrou 1.493 eventos hidrológicos, que afetaram mais de 336 mil pessoas e geraram prejuízos superiores a R$ 3,9 bilhões. Oito estados tiveram seca em 100% de seus territórios no mesmo ano.
A infraestrutura urbana foi projetada com base em séries históricas estáveis. O novo regime climático exige outro paradigma: cidades com uma infraestrutura do clima atual, capazes de absorver, infiltrar e escoar grandes volumes de água, além de planejar reservatórios, reuso hídrico, proteção de mananciais e mitigação de ilhas de calor.
Falar em infraestrutura do clima significa integrar drenagem, planejamento territorial, políticas habitacionais e gestão de recursos hídricos em uma estratégia preventiva. Uma vez que hoje ondas de calor e secas prolongadas já pressionam sistemas elétricos, hospitais, agricultura e abastecimento.
Leia também a edição última da Coluna Follow-Up com o artigo de Ronaldo Gerdes em:
O debate entre reconstruir ou prevenir no investimento público do Brasil
Apesar da crescente exposição aos riscos, as políticas de adaptação no Brasil ainda operam majoritariamente na lógica reativa, agindo apenas após desastres para reparar os danos. Na tentativa de avançar na infraestrutura do clima, o país lançou, em 2025, o Plano Clima de Adaptação, primeira estratégia nacional estruturada para reduzir as vulnerabilidades às mudanças climáticas.
O documento prevê incorporar risco climático aos investimentos federais em infraestrutura e ampliar a segurança hídrica e alimentar. No entanto, especialistas apontam lacunas de financiamento e desafios de implementação nos estados e municípios. No mesmo ano de anúncio do plano, houve corte de R$ 380 milhões no programa federal de gestão de riscos urbanos, reduzindo o orçamento da adaptação climática justamente quando a necessidade de prevenção aumenta.
A falta de investimentos preventivos amplia mortes e perdas materiais, eleva custos de reconstrução e aprofunda desigualdades sociais. Populações vulneráveis, que vivem em encostas, várzeas ou áreas precárias, são as mais atingidas por desastres naturais.

Radiografia brasileira: desigualdade e reincidência
Os dados do AdaptaBrasil indicam que cerca de 2,6 mil municípios estão em risco alto ou muito alto para desastres naturais, número que ainda exclui incêndios e ondas de calor. A reincidência confirma o perigo. O Rio Grande do Sul, ainda em reconstrução após o desastre de 2024, enfrentou novos eventos climáticos extremos em 2025.
Em São Paulo, o paradoxo entre a seca e as enchentes urbanas segue como tendência. Em janeiro de 2025, a capital registrou 125,4 mm de chuva em apenas um dia, o terceiro maior acumulado diário desde 1961. Já no Rio de Janeiro, temporais recentes provocaram alagamentos, deslizamentos e decretos de calamidade em municípios da Costa Verde e Região dos Lagos.
Na Amazônia, os impactos assumem outra escala. O Rio Negro, monitorado há 123 anos, registrou sete das dez maiores cheias nas últimas duas décadas, incluindo a histórica marca de 30,2 metros em 2021. Ao mesmo tempo, 2023 e 2024 trouxeram níveis mínimos recordes no período de seca. Esse contraste compromete transporte fluvial, pesca, abastecimento e comércio, além de provocar perdas na biodiversidade e alterar ciclos ecológicos fundamentais para o equilíbrio do bioma.
A ocupação urbana agrava o problema. Mais de 2,2 milhões de imóveis estão em áreas vulneráveis a inundações no país. A especulação imobiliária encarece regiões infraestruturadas e empurra populações de baixa renda para encostas e várzeas. Ao mesmo tempo, áreas mais altas e consideradas seguras começam a ser valorizadas diante das mudanças climáticas, fenômeno associado à chamada gentrificação climática.

Exemplos globais de adaptação climática: o que se pode aprender?
Experiências internacionais mostram que modernizar a infraestrutura do clima é possível. Na Holanda, o projeto “Room for the River” recuou diques e ampliou planícies de inundação, reduzindo picos de cheia e integrando áreas verdes ao planejamento urbano.
Em Singapura, o Green Plan 2030 combina infraestrutura verde, arborização em larga escala e proteção costeira para enfrentar calor extremo e elevação do nível do mar. Um outro exemplo são as cidades-esponja na China e Tailândia, conceito criado pelo arquiteto Kongjian Yu.
A proposta defende que áreas urbanas sejam planejadas para agir como uma “esponja”, capazes de absorver, infiltrar e armazenar a água da chuva por meio de soluções baseadas na natureza, como parques alagáveis, telhados verdes, pavimentos permeáveis e recuperação de áreas úmidas.
No entanto, iniciativas voltadas à infraestrutura do clima não são regra, os subsídios globais aos combustíveis fósseis somaram cerca de US$ 916 bilhões em 2024. A contradição é evidente: os aportes em atividades que agravam a crise climática continuam sendo feitos por governos e empresas, enquanto recursos para adaptação permanecem limitados. Nessa conta, o contribuinte é quem arca com os custos de reparações após desastres e as populações vulneráveis sofrem as consequências mais graves.
A tragédia não está apenas nos desastres climáticos, mas no sistema que permite que milhões vivam em áreas de risco, enquanto a prevenção segue subfinanciada. Investir em infraestrutura do clima é condição para estabilidade econômica, justiça social e sobrevivência urbana. O novo regime climático já está em curso, resta saber se o Brasil irá acompanhar essa agenda de adaptação de forma sistêmica e preventiva ou apenas reagir a cada nova calamidade.

