Há algo de muito podre sob o céu da brasilidade

4 de março de 2026 amanheceu como tantos outros dias na história brasileira. O sol nasceu, os mercados abriram, o Congresso seguiu em sessão, os tribunais continuaram julgando. A aparência da normalidade persiste. Mas basta folhear o noticiário para perceber que há algo inquietante na atmosfera nacional.

No centro da tempestade está mais um escândalo financeiro de grandes proporções. A prisão do banqueiro ligado ao Banco Master trouxe à superfície suspeitas de lavagem de dinheiro, espionagem digital e manipulação de informações sensíveis. Investigações apontam invasões de sistemas policiais, monitoramento clandestino e um esquema de intimidação que teria alcançado jornalistas, investigadores e adversários. Não é apenas a história de um banqueiro. É o temor de que, ao abrir a boca, ele exponha conexões que atravessam a elite econômica e o sistema político.

A política, aliás, continua a produzir seus próprios sintomas. Em Brasília, disputas sobre investigações, blindagens e privilégios ocupam o centro da agenda. Parlamentares discutem benefícios corporativos enquanto a confiança pública nas instituições se esvai lentamente. O Judiciário intervém, o Congresso reage, o Executivo calcula seus movimentos. As engrenagens do Estado giram, mas o ruído entre elas é constante.

No pano de fundo, a economia avança sem entusiasmo. O crescimento modesto, acompanhado por uma dívida pública crescente, mantém o país numa espécie de equilíbrio frágil. O Brasil não colapsa, mas também não encontra o impulso necessário para sair de seu labirinto estrutural.

céu da brasilidade

Esse cenário revela algo mais profundo que um conjunto de crises simultâneas. Ele expõe um padrão que atravessa décadas. O país convive com ciclos repetidos de escândalo, investigação, indignação pública e acomodação política. A cada episódio, surge a esperança de que finalmente se romperá o pacto informal que mistura poder econômico, influência política e privilégios institucionais. Mas a engrenagem sempre encontra meios de se recompor.

O resultado é uma sensação difusa, quase física, de desgaste moral. Não se trata de afirmar que tudo está perdido. O Brasil possui instituições capazes de investigar, imprensa que revela, e uma sociedade que reage. Porém, a persistência dessas crises indica que os problemas não são episódicos. São estruturais.

O país que abriga a maior floresta tropical do planeta, uma economia continental e uma democracia vibrante convive também com a impressão recorrente de que suas estruturas de poder operam sob um véu de interesses cruzados.

Por isso, ao olhar o noticiário deste início de março, a sensação que emerge não é apenas de indignação. É de inquietação histórica. Como se o país estivesse, mais uma vez, diante de um espelho que revela suas contradições mais profundas. E ao observar esse reflexo, torna-se difícil evitar a velha frase que atravessa séculos de literatura política. Há algo de muito podre sob o céu do Brasil.

Belmiro Vianez Filho
Belmiro Vianez Filho
Empresário do comércio, ex-presidente da ACA e colunista do portal BrasilAmazôniaAgora e Jornal do Commercio.

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