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Idesam e PPBio apresentam produtos da bioeconomia amazônica na ExpoPIM 4.0

Alimentos e cosméticos desenvolvidos a partir da biodiversidade amazônica mostram como ciência e inovação impulsionam novos negócios sustentáveis na região. 


Produtos alimentícios inovadores e cosméticos naturais desenvolvidos a partir da biodiversidade amazônica serão apresentados pelo Idesam e pelo Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio) durante a ExpoPIM 4.0, que acontece de 18 a 20 de novembro, no Centro de Convenções Vasco Vasques, em Manaus.

A participação integra um estande que conecta ciência, indústria, startups, negócios de impacto e comunidades tradicionais para demonstrar o potencial da bioeconomia na geração de inovação e desenvolvimento sustentável. A visita é gratuita, mediante credenciamento no site expopim.com.br 

Ao longo de sua trajetória, o PPBio acumula resultados expressivos. Atualmente, são 37 projetos em execução e 67 projetos concluídos, com a participação de 43 empresas investidoras, que juntas já aportaram R$ 196 milhões em investimentos voltados à inovação na Amazônia. Outros indicadores também se destacam, como os 53 negócios apoiados, 245 produtos, processos ou serviços, 66 ICTs conectadas, 815 empregos diretos e 34 patentes registradas. 

As iniciativas apoiadas alcançam cinco estados da Amazônia Ocidental Amazônia Ocidental (Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima e Amapá) envolvendo uma rede de 79 instituições, entre universidades, Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs), incubadoras, aceleradoras e organizações parceiras, totalizando 61 municípios beneficiados na Amazônia Ocidental. 

Entre os destaques estão alimentos elaborados com ingredientes regionais como açaí, camu-camu, guaraná, cupuaçu e castanha-do-brasil, além de preparações gastronômicas que demonstram o potencial nutricional e econômico da biodiversidade amazônica. Também serão apresentados cosméticos naturais e dermocosméticos formulados com bioativos da floresta, como copaíba, andiroba, abacaxi e murumuru, resultado de projetos que integram pesquisa científica, inovação e cadeias extrativistas da sociobioeconomia.

Segundo Carlos Gabriel Koury, diretor de Inovação em Bioeconomia do Idesam, o programa demonstra o potencial da bioeconomia para o desenvolvimento regional. “O PPBio mostra que é possível integrar ciência, mercado e conhecimentos tradicionais para estruturar cadeias produtivas sustentáveis e posicionar a Amazônia como protagonista da economia do futuro”, afirma. 

O programa também acumula 34 registros de propriedade intelectual – entre marcas, patentes e softwares registrados ou em processo de registro, além de 55 capacitações realizadas e atuação em 18 setores da bioeconomia, fortalecendo a inovação e o desenvolvimento sustentável na região.

Sobre o Idesam 

O Idesam é uma organização amazonense com atuação na Amazônia Legal desde 2004 e tem como missão promover a valorização e o uso sustentável dos recursos naturais da Amazônia, buscando alternativas para a conservação ambiental, o desenvolvimento social e a mitigação das mudanças climáticas. Credenciado como Instituto de Ciência e Tecnologia, possui qualificação de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP). Entre os reconhecimentos conquistados, foi eleito a melhor organização ambiental da Região Norte pelo prêmio Melhores ONGs em 2020 e 2023. Também recebeu o Prêmio Empreendedor Social 2022, promovido pela Folha de S.Paulo e pela Fundação Schwab, na categoria Inovação e Meio Ambiente, e é credenciado como ator da Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas (2021–2030). 

Para saber mais, acesse: www.idesam.org 

Sobre o PPBio 

O Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio) é dedicado a transformar conhecimento em soluções para a interiorização e agregação de valor à bioeconomia amazônica, integrando projetos voltados ao desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação (CT&I) na região. Idealizado pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e coordenado pelo Idesam, o programa capta recursos provenientes dos investimentos obrigatórios previstos na Lei de Informática para impulsionar novos produtos, serviços e negócios da bioeconomia amazônica. 

Para mais informações, acesse: http://bioeconomia.org.br/ 

Mais informações: www.idesam.org 

Desmatar não é desenvolver: os riscos de flexibilizar a proteção da Amazônia

Alfredo Lopes analisou com maestria, em texto publicado no dia 04/03/2026, “O suicídio hídrico do agronegócio brasileiro” a respeito do Projeto de Lei 551/2019, de autoria do senador Mecias de Jesus, que propõe permitir a redução da reserva legal na Amazônia de 80% para 50% em propriedades rurais localizadas em estados onde mais de 65% do território já esteja protegido por unidades de conservação, terras indígenas ou áreas federais.

Vou adicionar alguns aspectos ao texto que apresenta razões mais do que contundentes para a inadequação deste projeto. Para além da chuva e do equívoco que é desmatar a Amazônia para mais “agro”, a redução das áreas protegidas afeta o ecossistema da floresta. A indicação de limite de 20% que existe na legislação atual é muito acertada e, para alguns, até excessiva. Há outros usos além de agricultura para o solo Amazônico.

Leia o texto citado aqui:

A começar com o uso industrial que já existe, poderíamos incrementar o uso científico da riqueza potencial da biodiversidade. Para que ela deixe de ser potencial, precisaremos estudá-la e não a doar, nem adicionarmos mais pasto ou soja. Há outras regiões no Brasil que ainda podem ser aproveitadas para a agricultura ou pecuária.

Não precisamos adicionar mais território a partir da floresta. O que precisamos é usar a floresta e os seus potenciais. A eventual flexibilização de uma das principais salvaguardas do Código Florestal para o bioma amazônico é perigosa e desnecessária. Afinal, nem usamos os 20%. Para que mais áreas?

 O fato de estarmos preservados não nos impõe a obrigação de destruir. Ao contrário, deveríamos nos esforçar para potencializar esta preservação. Não há desequilíbrio econômico – o que falta é um efetivo uso econômico destes territórios da região ou mesmo um maior uso dentro do que já existe.

Precisamos parar de acomodar o discurso destruidor no meio do discurso de desenvolvimento. Romper a visão de que só na economia agrária é que há espaço para o progresso nacional. Este hábito do passado precisa ser transcendido, até porque ele carece de uma lógica mínima, quando se verificam os indicadores de desenvolvimento humano dos diferentes tipos de atividades econômicas do país.

“A floresta amazônica não é apenas um patrimônio ambiental”, como afirmou o Alfredo Lopes e adicionou “ela funciona como infraestrutura climática da produção agrícola do país”. O Amazonas é um hábil Estado industrial. O Pará é um hábil Estado de produção mineral. O Amapá tem um belo histórico mineral e poderá ter um futuro próspero na indústria petrolífera. E tudo isso sem ampliar arcos de desmatamento. Precisamos aproveitar os potenciais da floresta. Quando teremos investimentos maiúsculos no desenvolvimento científico para uma indústria a partir da floresta, tal qual foi feito para a atividade agrícola?

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Biodiversidade amazônica

Por que temos tanta resistência em cruzar as fronteiras extrativas? Elas exigem diálogo institucional e adição de valores. Elas exigem trabalho árduo e alta dose de fracasso para se chegar ao sucesso. Parece que insistimos nos ganhos fáceis e rápidos e, por isso mesmo, menos rentáveis e mais destrutivos.

A Amazônia nos impõe uma calma por sua grandeza. Uma temperança por conta de suas forças, mas, ao mesmo tempo, uma potência oculta que precisa ser desbravada com mais cuidado, pelo bem da “fábrica de chuva da Amazônia” e pelo bem de uma prosperidade única que poderemos extrair desta biodiversidade.

O petróleo, a guerra e a memória dos anos 70

Há crises que parecem novas, mas na verdade são ecos de velhas lições. O agravamento das tensões militares no Golfo Pérsico recoloca o petróleo no centro da geopolítica mundial. O risco de interrupções no fornecimento ou de disparada de preços reacende um fantasma que o mundo conhece bem desde a década de 1970.

Para o Brasil e para a Amazônia industrial, essa memória tem um significado particular. Em 2026 completam-se cinquenta anos do período mais agudo da grande crise do petróleo que marcou a economia mundial e redefiniu estratégias energéticas em diversos países.

Quando o petróleo virou arma

Em outubro de 1973, durante a guerra do Yom Kippur entre Israel e uma coalizão de países árabes, os membros árabes da OPEP decidiram reduzir a produção e impor embargo petrolífero a nações consideradas aliadas de Israel. O efeito foi imediato. O preço do barril, que girava em torno de três dólares, saltou para cerca de doze dólares em poucos meses.

Era uma quadruplicação abrupta do preço da principal fonte de energia da economia mundial.

Meio século depois do grande choque do petróleo, as tensões no Golfo Pérsico reacendem o alerta energético global e lembram ao Brasil - e à Amazônia industrial - que crises desse tipo exigem prudência estratégica, logística resiliente e visão de futuro
Foto: Arvind Valla/Unsplash

A economia mundial em choque

Entre 1973 e 1979 o mundo mergulhou em um fenômeno econômico então pouco compreendido. A combinação de estagnação econômica com inflação elevada passou a ser conhecida como estagflação. Países industrializados sofreram desaceleração produtiva, aumento do desemprego e forte pressão sobre os custos industriais.

O Brasil viveu esse choque com especial intensidade. No início da década de 1970, mais de 80% do petróleo consumido no país era importado. A conta externa disparou e tornou-se um dos fatores que pressionaram o endividamento brasileiro ao longo daquela década.

A resposta estratégica do Brasil

A resposta brasileira foi estratégica. O país lançou o Programa Nacional do Álcool, acelerou a exploração petrolífera nacional e reorganizou políticas industriais voltadas à redução da vulnerabilidade energética. A Petrobras ampliou investimentos em exploração e abriu caminho para as descobertas que, décadas depois, culminariam no pré-sal.

Crises energéticas raramente são apenas crises. Elas costumam redefinir estratégias nacionais. 

Biocombustível, a revolução bioenergética do Brasil

Neste cenário de tensões no Golfo Pérsico e volatilidade do petróleo, ganha relevância estratégica uma transformação silenciosa em curso no Brasil. O país construiu ao longo das últimas décadas um dos mais robustos programas de biocombustíveis do planeta, combinando políticas públicas, inovação tecnológica e escala agrícola.

O biodiesel, introduzido em 2004 pelo Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel, já alcança mistura obrigatória de 15% no diesel comercializado no país, enquanto o RenovaBio consolidou um sistema de metas de descarbonização e mercado de créditos de carbono para o setor de transportes. Em um mundo novamente exposto à instabilidade geopolítica do petróleo, essa infraestrutura energética renovável ganha um significado que vai além da agenda climática.

Trata-se de um instrumento concreto de segurança energética e competitividade econômica. Para uma economia industrial dependente de transporte rodoviário e cadeias logísticas extensas como a brasileira, acelerar a expansão dos biocombustíveis deixa de ser apenas uma política ambiental e passa a integrar o núcleo das estratégias nacionais de soberania energética.

O Golfo e o nervo do petróleo mundial

O Golfo Pérsico concentra uma das maiores reservas de petróleo do planeta e abriga rotas marítimas vitais para o comércio mundial de energia. Pelo Estreito de Ormuz transita aproximadamente um quinto do petróleo comercializado globalmente.

Qualquer escalada militar naquela região repercute imediatamente no mercado internacional. O primeiro reflexo costuma ser a volatilidade do preço do barril. O segundo aparece nos custos logísticos e nos seguros marítimos. O terceiro se manifesta na instabilidade cambial que acompanha os momentos de tensão geopolítica.

Para economias industriais, esses três fatores formam uma equação delicada.

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Foto: Kyle Glenn/Unsplash

A Amazônia na linha de impacto

No caso do Polo Industrial de Manaus, a questão ganha contornos ainda mais específicos. A competitividade da indústria instalada na Amazônia depende de um sistema logístico complexo, fortemente conectado ao transporte marítimo e às cadeias globais de suprimento.

Eletrônicos, bens de informática, duas rodas e outros segmentos industriais operam com componentes que percorrem longas rotas internacionais antes de chegar ao coração da floresta.

Uma crise energética global não atinge apenas o preço dos combustíveis. Ela altera prazos, encarece fretes, amplia riscos operacionais e pode provocar interrupções em cadeias produtivas que já funcionam sob grande pressão logística.

Logística sob estresse climático

Nos últimos anos, a Amazônia tem enfrentado outro desafio adicional. Eventos climáticos extremos, especialmente as grandes vazantes do rio Amazonas, têm mostrado a fragilidade estrutural da infraestrutura regional.

Quando tensões energéticas globais se somam a vulnerabilidades logísticas locais, o sistema torna-se mais sensível a choques externos.

Prudência estratégica

Diante desse quadro, prudência estratégica é uma palavra-chave.

O primeiro passo é o planejamento logístico preventivo. Empresas e entidades representativas do Polo Industrial de Manaus precisam acompanhar com atenção o comportamento do frete internacional, dos prazos de transporte e da disponibilidade de insumos críticos.

Em momentos de instabilidade energética, a gestão de estoques e o planejamento de suprimentos tornam-se instrumentos de segurança industrial.

Planejar antes da tempestade

O segundo ponto é a eficiência energética. A indústria mundial vive uma transição gradual para modelos produtivos menos intensivos em combustíveis fósseis. Quanto maior a eficiência energética das operações industriais, menor a exposição a choques externos no mercado de petróleo.

Nesse aspecto, o Polo Industrial de Manaus possui condições favoráveis para ampliar o uso de fontes renováveis e tecnologias mais eficientes.

Segurança energética amazônica

O terceiro eixo envolve segurança energética regional. A Amazônia convive com um paradoxo que se torna cada vez mais evidente. Enquanto o mundo discute transição energética e descarbonização, milhares de comunidades amazônicas ainda dependem de sistemas de geração baseados em combustíveis fósseis caros e poluentes.

Transformar a região em um laboratório de inovação energética, com forte presença de energia solar e soluções híbridas, não é apenas uma agenda ambiental. É também uma estratégia de resiliência econômica.

O valor estratégico da indústria amazônica

O modelo da Zona Franca de Manaus, frequentemente mal compreendido fora da região, mostra-se cada vez mais relevante em um mundo que redescobre o valor da segurança produtiva e da diversificação geográfica das cadeias industriais.

Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas, mudanças climáticas e disputas por recursos naturais, estruturas industriais consolidadas e ambientalmente responsáveis tornam-se ativos estratégicos.

Cinquenta anos depois

Cinquenta anos depois do grande choque do petróleo que transformou a economia mundial, a história volta a lembrar uma lição essencial.

Crises energéticas não são apenas momentos de risco. São também momentos de decisão.

E aqueles que compreendem a natureza dessas transformações costumam sair delas mais fortes.

O Trabalho de Conclusão de Curso Precisa Ser Reinventado

No entanto, quando chega o momento mais decisivo da formação acadêmica, pedimos ao estudante que enfrente um problema sozinho. O Trabalho de Conclusão de Curso, o TCC, permanece estruturado como um exercício de individualismo acadêmico em um mundo que exige inteligência coletiva.

A ideia original do TCC é nobre e continua válida. Trata-se de demonstrar que o aluno assimilou o conhecimento adquirido ao longo da graduação e é capaz de aplicá-lo com rigor metodológico. O problema não está no princípio do trabalho final, mas no formato que ele assumiu ao longo do tempo. Um único aluno, um único orientador, um único tema, geralmente restrito a uma única disciplina.

Nenhum problema relevante da sociedade cabe dentro de uma única área do conhecimento. Uma comunidade que precisa de saneamento básico não depende apenas de engenharia. Envolve saúde pública, economia, legislação ambiental, gestão de recursos e organização social. A fragmentação disciplinar pode produzir especialistas altamente qualificados, mas raramente produz soluções completas.

Esse descompasso entre formação acadêmica e realidade prática torna-se ainda mais evidente em regiões como o interior do Amazonas.

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Reais problemas das regiões amazônica – (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real).

Municípios como Tefé, Coari, Maués ou São Gabriel da Cachoeira não precisam de mais trabalhos acadêmicos arquivados em bibliotecas universitárias. Precisam de soluções concretas para desafios concretos. Logística para produção agrícola, cadeias produtivas sustentáveis, modelos de negócios baseados na bioeconomia, estratégias para geração de renda que respeitem o ecossistema amazônico.

Quando observamos experiências de universidades líderes em inovação, percebemos que essa compreensão já orienta muitos modelos de formação. Instituições como MIT e Stanford estruturam grande parte de seus projetos finais em equipes multidisciplinares. O objetivo não é apenas aprofundar conhecimento técnico, mas desenvolver soluções completas para problemas reais.

Nesses ambientes, os estudantes aprendem desde cedo que tecnologia, mercado, impacto social e viabilidade econômica fazem parte da mesma equação.

O contraste com o modelo predominante no Brasil é evidente. Aqui, o TCC frequentemente se transforma em um exercício de solidão intelectual. O estudante escolhe um tema, muitas vezes alinhado mais aos interesses acadêmicos do orientador do que às demandas da sociedade, desenvolve sua pesquisa de forma isolada e apresenta o resultado a uma banca que avalia principalmente rigor metodológico e domínio teórico.

Eles raramente avaliam algo essencial: a capacidade de transformar conhecimento em valor real para a sociedade.

É nesse ponto que emerge uma possibilidade de transformação profunda. O TCC pode deixar de ser apenas um rito de passagem acadêmico e tornar-se um instrumento de mentofatura coletiva. Mentofatura significa produzir valor a partir do conhecimento articulado entre múltiplas dimensões técnicas, econômicas, sociais e estratégicas.

Imagine uma equipe formada por estudantes de Engenharia Química, Administração, Direito e Biologia trabalhando juntos para desenvolver uma cadeia produtiva sustentável do buriti no interior do Amazonas. O engenheiro desenvolve o processo de extração e processamento do óleo. O biólogo analisa os impactos ecológicos e a regeneração da espécie. O administrador estrutura o modelo de negócio. O jurista cuida da regulação ambiental e da propriedade intelectual.

Projetos desse tipo poderiam transformar o TCC em algo muito mais relevante do que um documento arquivado. Poderiam se tornar incubadoras de empreendimentos regionais, plataformas de inovação social e laboratórios de desenvolvimento territorial.

Essa mudança também exigiria uma transformação nos critérios de avaliação universitária. Hoje as instituições medem o sucesso dos TCCs por indicadores internos, como número de trabalhos defendidos ou publicações derivadas. Raramente se pergunta quantos desses projetos geraram soluções implementadas, negócios sustentáveis ou melhorias concretas nas comunidades.

A adoção de projetos multidisciplinares exige mudanças institucionais relativamente simples. Sistemas de coorientação entre professores de diferentes áreas, equipes formadas por estudantes de cursos distintos, parcerias com municípios e comunidades para identificação de problemas reais e critérios de avaliação que incluam viabilidade prática e impacto social.

Em muitas regiões do mundo desenvolvido, encontrar problemas reais que justifiquem projetos multidisciplinares é um desafio. No interior amazônico, esses problemas estão presentes em abundância. Logística fluvial, saneamento em comunidades isoladas, aproveitamento de recursos da biodiversidade, turismo sustentável, segurança alimentar, saúde comunitária.

Cada um desses desafios poderia se transformar em dezenas de projetos universitários com impacto direto no território.

trabalho de conclusão

Há quem argumente que o TCC individual desenvolve autonomia, disciplina e responsabilidade. Esse argumento é verdadeiro, mas incompleto. Projetos multidisciplinares desenvolvem essas mesmas qualidades e acrescentam competências que se tornaram indispensáveis no mundo contemporâneo. Colaboração, comunicação entre especialidades, liderança compartilhada, visão sistêmica e capacidade de transformar conhecimento em soluções aplicáveis.

A Universidade do Estado do Amazonas tem diante de si uma oportunidade rara. Não por ser a maior ou a mais rica instituição do país, mas porque o contexto regional exige essa transformação com urgência. Quando os formandos deixam a universidade e encontram poucos espaços no mercado formal de trabalho, o caminho natural passa a ser a criação de soluções próprias.

Mais do que formar especialistas isolados, a universidade pode formar equipes capazes de identificar problemas, integrar conhecimentos e construir soluções economicamente viáveis e socialmente relevantes.

Em última análise, reinventar o Trabalho de Conclusão de Curso significa redefinir o papel da universidade. Não apenas transmitir conhecimento acumulado, mas organizar inteligência coletiva para enfrentar os desafios concretos da sociedade.

Entre continuar produzindo trabalhos acadêmicos que terminam nas prateleiras das bibliotecas e transformar o TCC em um instrumento de inovação territorial, a escolha parece cada vez mais evidente.

A universidade pode continuar formando especialistas solitários para um mercado que muitas vezes não existe. Ou pode começar a formar equipes capazes de criar o futuro. E essa transformação pode começar exatamente onde a formação universitária se encerra: no Trabalho de Conclusão de Curso.

Guerra no Golfo: o teste que pode redesenhar o poder mundial

“A guerra no Golfo volta a expor a fragilidade energética do planeta e revela como o petróleo continua sendo uma das engrenagens centrais da disputa pelo poder mundial”

O mundo volta a olhar para o Golfo Pérsico com a sensação incômoda de déjà-vu histórico. A escalada militar envolvendo Irã, Israel e forças americanas na região recoloca em cena um dos territórios mais sensíveis da geopolítica global. Não se trata apenas de mais uma guerra regional. O que está em jogo é o equilíbrio que sustentou o fluxo de energia e a estabilidade estratégica do planeta nas últimas três décadas.

Desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos mantiveram uma rede de bases militares espalhadas pelo Golfo. Bahrein, Catar, Kuwait, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos se tornaram peças de uma arquitetura de segurança desenhada para garantir duas coisas fundamentais. A proteção das rotas marítimas e a defesa das principais infraestruturas energéticas do mundo.

Esse sistema sempre funcionou como uma espécie de guarda-chuva geopolítico. Enquanto ele permanecia intacto, o petróleo e o gás do Golfo continuavam fluindo, e os mercados globais operavam sob a premissa de que a maior potência militar do planeta estava pronta para intervir.

A atual escalada coloca essa premissa em teste.

GUERRA NO GOLFO
Foto: Atta Kenare/AFP

Durante anos, o Irã desenvolveu uma estratégia militar profundamente diferente da lógica convencional das grandes potências. Em vez de competir diretamente com a superioridade aérea e naval americana, Teerã investiu em uma arquitetura de guerra assimétrica.

Essa estratégia combina três pilares principais. Saturação de mísseis balísticos, uso extensivo de drones e uma rede de forças aliadas e milícias distribuídas por diferentes territórios do Oriente Médio.

A lógica é clara. Tornar qualquer presença militar adversária vulnerável, cara e arriscada. Bases fixas, pistas de pouso, radares e centros logísticos tornam-se alvos potenciais. Mesmo quando não são destruídos, passam a operar sob permanente ameaça.

O objetivo nunca foi derrotar os Estados Unidos em uma guerra convencional clássica. O objetivo sempre foi outro. Criar um ambiente estratégico no qual a superioridade americana deixe de ser confortável.

Se essa equação se confirma, a mudança não é apenas militar. É psicológica.


Por décadas, bases militares americanas no Golfo representaram a presença incontestável da maior potência do planeta. Elas eram o símbolo físico da capacidade de Washington de projetar força em qualquer direção.

A nova realidade introduz uma nuance importante. Bases continuam sendo instrumentos de poder, mas também podem se tornar pontos de vulnerabilidade.

Mísseis de longo alcance, drones de baixo custo e ataques coordenados são capazes de atingir infraestruturas que antes pareciam intocáveis.

Mesmo danos localizados já alteram a percepção estratégica. O simples fato de que essas instalações podem ser atingidas muda o cálculo de risco, tanto para os militares quanto para os aliados regionais.

É nesse terreno que prosperam análises mais dramáticas, como as de comentaristas que já falam em derrota estratégica americana. Ainda é cedo para conclusões definitivas. Mas é evidente que a narrativa da invulnerabilidade absoluta deixou de existir.


No centro dessa disputa está um ponto geográfico que parece pequeno no mapa, mas gigantesco na economia global.

O Estreito de Ormuz.

Por ali passa cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta e uma parcela igualmente relevante do comércio global de gás natural liquefeito. Navios que atravessam essa passagem transportam energia essencial para a Ásia, Europa e diversas economias emergentes.

Qualquer instabilidade nessa rota provoca efeitos imediatos. Os preços do petróleo reagem, os seguros marítimos disparam e os mercados financeiros entram em alerta.

É por isso que o Golfo sempre foi tratado como um espaço de segurança estratégica para as grandes potências. Não apenas para os Estados Unidos, mas para todo o sistema econômico internacional.

Se essa região se tornar permanentemente instável, o impacto não será regional. Será global.


O conflito atual revela um fenômeno mais amplo que já vinha sendo observado em outras frentes. A tecnologia militar está mudando o equilíbrio entre ofensiva e defesa.

Sistemas relativamente baratos, como drones e mísseis de médio alcance, conseguem impor custos elevados a forças muito mais sofisticadas. Isso não elimina a superioridade tecnológica das grandes potências, mas reduz a margem de conforto com que elas operam.

Esse padrão apareceu na guerra da Ucrânia e começa a ser observado também em outras regiões do mundo.

O resultado é um ambiente internacional mais instável. Guerras se tornam mais difíceis de controlar, crises se espalham com maior rapidez e o custo de manter a ordem estratégica aumenta.

O planeta entra em uma fase de competição mais fragmentada, com potências regionais mais assertivas e alianças menos previsíveis.


Em um mundo mais tensionado energeticamente, territórios ricos em recursos naturais passam a ganhar importância estratégica crescente. Isso inclui regiões produtoras de energia, áreas com minerais críticos e ecossistemas capazes de influenciar o equilíbrio climático global.

A Amazônia está no centro dessa equação.

Ela concentra biodiversidade, água doce, biomassa, potencial energético e reservas minerais estratégicas. Em um cenário de instabilidade geopolítica e disputa por recursos, regiões como essa deixam de ser apenas um tema ambiental. Tornam-se ativos de poder.

Essa realidade exige algo fundamental do Brasil. Uma estratégia clara de soberania e desenvolvimento sustentável capaz de proteger o território e ao mesmo tempo transformá-lo em plataforma de inovação, ciência e economia de baixo carbono.

Sem essa visão, o país corre o risco de assistir à disputa global por seus ativos naturais sem protagonismo próprio.


Ainda é cedo para declarar vencedores ou derrotados no conflito que se desenrola no Golfo. A capacidade militar dos Estados Unidos continua sendo imensa, e qualquer guerra prolongada traria custos enormes também ao Irã.

Mas uma coisa já está clara.

O mundo entrou em uma fase em que nenhuma potência consegue agir sem enfrentar resistência significativa. O equilíbrio internacional torna-se mais frágil e mais complexo.

Crises regionais passam a ter consequências globais. Rotas energéticas se tornam vulneráveis. Alianças tradicionais começam a ser questionadas.

Quando isso acontece, a geopolítica deixa de ser um tema distante. Ela se transforma em parte da vida cotidiana das nações.

E o Golfo Pérsico, mais uma vez, volta a ser o palco onde o futuro da ordem internacional começa a ser escrito.

Mulher, o milagre cotidiano de gerar e compartilhar a vida

É execrável sob todos os pontos de vista a violência contra a mulher, que hoje se expressa de forma brutal na epidemia sinistra de feminicídios. O crime revela mais do que uma crise de segurança pública. Ele expõe uma deformação profunda da consciência social. Em um país que ainda convive com índices alarmantes de assassinatos de mulheres, falar sobre o feminino é também uma forma de defender a própria ideia de civilização e clamar eor providências urgentes

o milagre cotidiano
© JOÉDSON ALVES/AGÊNCIA BRASIL

Talvez por isso a melhor homenagem à mulher não seja apenas denunciar a barbárie, embora isso seja indispensável. A homenagem mais profunda consiste em reconhecer o papel civilizacional que ela exerce desde os primórdios da humanidade. A mulher é, por excelência, a referência maior na geração e na partilha da vida.

É no corpo feminino que a vida humana encontra seu primeiro abrigo. Durante nove meses, o mundo inteiro cabe dentro de um ventre. Ali se inicia uma história que depois será escrita por famílias, comunidades e sociedades inteiras. A maternidade, em sua dimensão biológica e simbólica, inaugura o primeiro pacto de cuidado da humanidade.

Mas a missão feminina não se limita ao milagre da gestação. Ao longo da história, mulheres têm sido educadoras naturais da sensibilidade humana. São elas que, em toda parte e no cotidiano das famílias, ensinam as primeiras palavras, as primeiras regras de convivência, os primeiros gestos de solidariedade. A mulher é assim, por multiplicas razões, a primeira professora da vida.

Nas comunidades, seu papel se expande. Mulheres organizam redes de cuidado, sustentam vínculos sociais, preservam tradições e constroem pontes entre gerações. Em muitas regiões da Amazônia, por exemplo, são elas que mantêm viva a transmissão de conhecimentos sobre alimentação, medicina tradicional, manejo da natureza e cultura local.

No campo da ciência, da política, da economia e da educação, a presença feminina amplia horizontes e introduz novas perspectivas de liderança, frequentemente baseadas em cooperação, escuta e construção coletiva. A força feminina não se mede apenas por conquistas individuais, mas pela capacidade de transformar ambientes e gerar possibilidades para os outros.

Por isso, quando uma mulher é vítima da violência extrema do feminicídio, a perda ultrapassa o drama individual. Desaparece uma referência de cuidado, uma mediadora de afetos, uma construtora de relações humanas.

A mulher representa um paradigma que a sociedade contemporânea precisa redescobrir com urgência. O paradigma da vida. Em tempos marcados por conflitos, intolerância e fragmentação social, a cultura do cuidado, da escuta e da partilha torna-se um ativo estratégico para qualquer projeto de futuro.

Talvez seja esse o ensinamento mais profundo que a presença feminina oferece à humanidade. Gerar vida é um milagre. Compartilhar a vida é uma escolha diária.

E são as mulheres que, silenciosamente, continuam lembrando ao mundo que a civilização começa exatamente nesse gesto.

Olho no olho: o assunto é MULHER

Há momentos em que um país precisa olhar para si mesmo sem subterfúgios.

O Brasil encerrou 2025 com 1.568 feminicídios registrados. Quatro mulheres assassinadas por dia. Cada número dessa estatística corresponde a uma vida interrompida, a uma família devastada e a uma pergunta que ainda ecoa na sociedade brasileira: por que continuamos falhando em proteger nossas mulheres?

Essa tragédia não começa com o crime. Ela nasce antes, no território silencioso das violências invisíveis. No controle financeiro que aprisiona. No isolamento da vítima. Na humilhação cotidiana que desqualifica a palavra da mulher. Na cultura que relativiza o medo feminino.

Levntamento indica que o numero de feminicidios no Brasil supera em quase 39 por cento FOTO 04marco2026

Quando o feminicídio acontece, ele já percorreu um longo caminho de permissões sociais e falhas institucionais.

O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo para proteger mulheres. A Lei Maria da Penha estabeleceu um marco civilizatório. A tipificação do feminicídio reforçou o reconhecimento jurídico da violência de gênero.

Ainda assim, os números continuam crescendo. Isso revela uma verdade incômoda. A existência da lei não garante a presença do Estado. Metade dos feminicídios ocorre em municípios com menos de 100 mil habitantes. Em grande parte dessas localidades, faltam delegacias especializadas, casas de acolhimento e estruturas de proteção para mulheres ameaçadas.

Em muitas situações, denunciar significa percorrer dezenas de quilômetros até encontrar uma delegacia. Significa enfrentar o medo sem rede de apoio. Significa retornar para casa sabendo que o agressor continua livre. Quando o Estado não chega a tempo, a violência chega primeiro.

O ASSUNTO É MULHER

Outro dado exige reflexão urgente. Dos mais de 83 mil casos de violência sexual registrados no país, a maioria das vítimas são crianças e adolescentes com menos de 14 anos. Em dois terços das ocorrências, o crime acontece dentro da própria casa da vítima.

Isso revela um problema que ultrapassa a esfera criminal. Estamos diante de uma questão que envolve educação, políticas sociais, cultura e responsabilidade institucional.

O controle público tem um papel essencial nesse processo. Tribunais de Contas, Ministérios Públicos e demais instituições de fiscalização precisam incorporar o enfrentamento à violência de gênero como parte de sua agenda permanente de acompanhamento das políticas públicas.

O pacto nacional de enfrentamento ao feminicídio representa um passo importante ao reunir os três poderes em torno desse compromisso. Mas pactos precisam sair do papel e produzir resultados concretos.

Essa é uma responsabilidade compartilhada. Do Estado, que precisa garantir proteção e justiça. Da sociedade, que não pode tolerar nenhuma forma de violência. E dos homens, que precisam assumir seu papel na transformação de padrões culturais ainda marcados pelo machismo.

Não há neutralidade possível diante desse tema. Quando uma mulher é assassinada por ser mulher, não estamos diante de um drama individual. Estamos diante de uma falha coletiva. Por isso é preciso falar com clareza. Olho no olho.

O assunto é mulher. O assunto é vida. E a proteção da vida precisa ser uma prioridade absoluta do Estado brasileiro.

Mulheres ampliam participação na indústria e no mercado de motocicletas no Brasil

No Dia Internacional da Mulher, dados da indústria revelam uma transformação consistente no universo das duas rodas no Brasil. Entre 2015 e 2024, a presença feminina nas fábricas do polo de duas rodas de Manaus mais que dobrou, refletindo a ampliação de oportunidades na indústria e o avanço das mulheres em um setor historicamente associado ao público masculino.

Ao mesmo tempo, a participação feminina entre os condutores de motocicletas também cresce de forma significativa. Nos últimos dez anos, o número de habilitações concedidas a mulheres na categoria A aumentou 64%, indicando uma presença cada vez mais marcante tanto na cadeia produtiva quanto nas ruas e estradas do país.

Levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), analisado pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), mostra que em 2015 havia 1.511 mulheres empregadas nas fabricantes de motocicletas, bicicletas, peças e acessórios instaladas no Polo Industrial de Manaus (PIM).

Em 2024, esse contingente chegou a 3.134 colaboradoras, crescimento de 107%. Hoje, elas representam 17% da força de trabalho das empresas do setor. No mesmo período, o número de trabalhadores homens aumentou 55%, passando de 9.817 para 15.250 profissionais.

A presença feminina se distribui por diferentes áreas das empresas associadas à Abraciclo, desde as linhas de produção até posições técnicas e de liderança. Trajetórias como as de Joelma Costa, analista de gestão de pessoas, Rejane da Silva, operadora de produção de pintura, e Misleide Silva, supervisora fiscal e administrativa, ilustram essa evolução e reforçam o papel estratégico da diversidade no ambiente industrial.

Joelma lembra que sua experiência na indústria ampliou seu conhecimento sobre o processo produtivo. “Antes eu não sabia o que eram um selim, um garfo ou uma pedivela. Hoje conheço todas as etapas da fabricação de uma bicicleta, um produto que transforma sonhos em realidade e promove saúde e qualidade de vida. Também atuo em uma área que contribui para um ambiente de trabalho mais leve e humanizado”, relata.

Nas linhas de produção, o cuidado com a qualidade e a atenção aos detalhes se destacam no trabalho realizado por profissionais como Rejane da Silva, responsável pela adesivagem de bicicletas, etapa que exige precisão técnica para garantir acabamento de alto padrão. “É um trabalho delicado e técnico. Esse olhar atento faz diferença no resultado final”, afirma.

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Já Misleide Silva atua em um setor que exige atualização permanente diante de um consumidor cada vez mais informado. Para ela, o avanço das mulheres na indústria reflete uma mudança cultural. “A presença feminina mostra que competência não tem gênero. Nosso trabalho agrega organização, responsabilidade e visão estratégica. Estamos cada vez mais preparadas e conquistando espaço com mérito e profissionalismo”, diz.

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A expansão da participação feminina acompanha o crescimento do próprio setor. Hoje, a cadeia brasileira de duas rodas reúne 154.989 profissionais atuando em fábricas, concessionárias, lojas e serviços de manutenção de motocicletas, bicicletas, peças e acessórios. Desse total, 42.577 são mulheres, o equivalente a 27,5% do mercado de trabalho, enquanto 112.412 são homens.

Nas ruas brasileiras, o movimento também é evidente. Atualmente, 10.605.484 mulheres estão habilitadas para conduzir motocicletas no país. Embora ainda representem cerca de 25% dos condutores com carteira na categoria A, a evolução da última década é expressiva. Em 2015, eram 6.461.927 motociclistas.

Entre os homens, o crescimento no número de habilitações foi menor no mesmo período. O total passou de 23.058.789, em 2015, para 31.233.538 atualmente, avanço de 35%.

Esse aumento da presença feminina sobre duas rodas também se reflete em histórias como a da gerente de tecnologia Laura Schneider, conhecida como Lau. Ela tirou a habilitação recentemente e incorporou a motocicleta à sua rotina.

“Tirei minha CNH no ano passado e comecei a usar a moto no dia a dia. Gostei tanto que já fiz quatro cursos de pilotagem para aprimorar minhas técnicas, principalmente em relação à segurança. Pilotar exige responsabilidade, atenção constante e respeito à vida. Agora tenho o sonho de pilotar um modelo esportivo em um autódromo”, conta.

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A maior concentração de condutores habilitados na categoria A está entre pessoas de 31 a 40 anos, tanto entre mulheres quanto entre homens. Nesse grupo, são 3.641.174 motociclistas mulheres e 8.416.289 homens.

A faixa de 41 a 50 anos aparece em seguida, com 2.563.994 mulheres habilitadas e 7.569.366 homens.

A terceira posição revela diferenças entre os gêneros. Entre as mulheres, a maior presença está no grupo de 26 a 30 anos, com 1.584.646 habilitações. Entre os homens, o destaque é a faixa de 51 a 60 anos, que reúne 4.749.027 condutores.

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Energia, crise e poder: o lugar da Amazônia no novo tabuleiro global

Instabilidade energética, impasse climático e disputa geopolítica redesenham o mapa do poder mundial. Entre petróleo, inovação e floresta em pé, o Brasil precisa decidir qual papel deseja ocupar.

A cada nova tensão no Oriente Médio, o mundo redescobre sua dependência energética. A reportagem recente do New York Times, ao discutir os possíveis beneficiários de uma crise no abastecimento de petróleo e gás, descreve um fenômeno recorrente da economia internacional. Conflitos elevam preços, reorganizam mercados e transferem poder para quem controla as fontes de energia.

O que está em jogo, porém, vai além da volatilidade dos preços do petróleo. Crises energéticas sempre revelam algo mais profundo. Elas mostram quem possui capacidade de abastecer o mundo e quem depende dessa capacidade.

A história recente confirma esse padrão. A guerra na Ucrânia expôs a vulnerabilidade energética europeia. O risco de instabilidade no Estreito de Ormuz lembra que boa parte do petróleo mundial ainda depende de rotas geopolíticas frágeis. Sempre que essas fissuras aparecem, os mercados entram em alerta.

O mundo reage de duas maneiras. No curto prazo, recorre aos combustíveis fósseis disponíveis. No médio prazo, acelera a busca por alternativas.

LUGAR DA AMAZONIA

Foi exatamente essa tensão que marcou a última Conferência do Clima das Nações Unidas. Na COP realizada em novembro, a proposta de estabelecer um abandono progressivo dos combustíveis fósseis acabou sendo adiada. A resistência de grandes produtores e as incertezas sobre segurança energética falaram mais alto que a urgência climática.

O resultado foi um impasse global. O planeta precisa reduzir emissões rapidamente, mas a estrutura econômica que sustenta a economia mundial ainda depende fortemente do petróleo e do gás.

Nesse cenário, o mapa energético do século XXI começa a se reorganizar. E é nesse ponto que o Brasil e a Amazônia entram na equação.

Um país com três matrizes estratégicas

Poucos países reúnem uma combinação tão singular de ativos estratégicos. O Brasil é hoje um grande produtor de petróleo, com reservas significativas no pré-sal. Ao mesmo tempo possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, forte presença de hidrelétricas e expansão acelerada de energia solar e eólica.

Além disso, o país lidera tecnologias consolidadas de biocombustíveis e possui condições naturais para se tornar um dos principais produtores de hidrogênio verde.

Mas o elemento mais singular dessa equação não está nos campos de petróleo nem nas usinas solares. Está na Amazônia.

A floresta amazônica representa algo que nenhum outro território reúne na mesma escala. Biodiversidade, estoque de carbono, regulação climática e um imenso potencial científico ainda pouco explorado. Em um mundo pressionado pela crise climática, esses ativos começam a adquirir valor estratégico comparável ao das reservas de energia.

Durante décadas, o poder geopolítico foi determinado por quem controlava petróleo, carvão e gás. No século XXI surge uma nova variável. A estabilidade climática passa a ser um ativo econômico.

O bioma deixa de ser visto apenas como fronteira ambiental ou patrimônio natural. Passa a ocupar posição central na arquitetura econômica do futuro. A floresta influencia o regime de chuvas da América do Sul, sustenta a agricultura continental e participa da regulação climática do planeta.

Ao mesmo tempo, abriga uma das maiores bibliotecas genéticas da Terra, base potencial de novas cadeias industriais ligadas à bioeconomia, à biotecnologia e à bioindústria.

A grande pergunta estratégica para o Brasil não é apenas se deve explorar petróleo ou proteger a floresta. A questão é como integrar esses dois mundos dentro de uma estratégia nacional de longo prazo.

O país pode optar por repetir o modelo clássico das economias exportadoras de commodities energéticas. Ou pode construir um caminho diferente, no qual energia renovável, inovação científica e bioeconomia amazônica se transformem em pilares de um novo paradigma de desenvolvimento.

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Foto divulgação

Nesse debate, a Zona Franca de Manaus oferece uma pista pouco compreendida fora da região. Ao concentrar indústria em uma área urbana e gerar empregos formais, o modelo contribuiu para preservar grandes extensões de floresta ao redor de Manaus. Trata-se de um exemplo raro de política industrial associada à conservação ambiental.

Essa experiência revela algo que o debate global frequentemente ignora. Desenvolvimento e conservação podem caminhar juntos quando a economia formal substitui atividades predatórias.

A nova geopolítica da sustentabilidade

À medida que o mundo busca reduzir emissões e diversificar fontes energéticas, países capazes de oferecer estabilidade ambiental, energia limpa e inovação científica ganharão peso no sistema internacional.

Nesse novo tabuleiro, a Amazônia pode desempenhar papel decisivo. Não como reserva de recursos a serem exauridos, mas como plataforma de conhecimento, ciência e soluções climáticas.

A COP realizada no ano passado mostrou que o mundo ainda hesita diante da transição energética. O abandono dos combustíveis fósseis foi adiado. A dependência continua.

Mas a direção histórica já está definida. A questão agora não é se a transição ocorrerá, mas quem liderará esse processo.

Se o Brasil compreender o alcance estratégico de seus ativos naturais e científicos, poderá ocupar uma posição singular nessa transformação. Caso contrário, continuará assistindo ao rearranjo do poder energético mundial a partir da periferia do sistema. A Amazônia, nesse contexto, não é apenas um território. É uma escolha de futuro.

Impacto das mudanças climáticas em Recife amplia riscos e desigualdades

Entre o avanço do mar, enchentes e desigualdade urbana, o impacto das mudanças climáticas em Recife revela como geografia, urbanização e políticas públicas moldam os riscos climáticos.

No Brasil, poucas cidades sintetizam de forma tão evidente a tensão entre ambição climática e vulnerabilidade urbana quanto o Recife. A capital pernambucana foi a primeira cidade do país a declarar oficialmente emergência climática, em 2019, devido ao  impacto das mudanças climáticas em Recife. Segundo avaliações associadas ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o município ocupa a 16ª posição entre as cidades mais ameaçadas pela elevação do nível do mar.

A declaração foi formalizada pelo Decreto nº 33.080, que determinou que o enfrentamento das mudanças climáticas passasse a orientar o planejamento urbano da cidade. A partir desse marco, o Recife estruturou, em parceria com a rede internacional ICLEI, o Plano Local de Ação Climática (PLAC), que estabelece metas como neutralidade de carbono até 2050 e uso integral de energia renovável nas operações municipais até 2037.

Apesar do pioneirismo institucional, a própria geografia da cidade amplia o impacto das mudanças climáticas em Recife. O município foi construído sobre uma região onde rios encontram o mar, formada por sedimentos, manguezais e terrenos naturalmente baixos. Grande parte do território está próxima ao nível do mar e é atravessada por rios, canais e áreas alagáveis, o que aumenta a vulnerabilidade tanto a inundações fluviais quanto ao avanço do oceano.

Rua alagada após chuva intensa ilustra o impacto das mudanças climáticas em Recife e os desafios de drenagem urbana em áreas vulneráveis da cidade.
Rua alagada no Recife. Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

Estudos conduzidos com apoio do Banco Mundial e da Universidade de Columbia indicam que cerca de 45,7% da linha costeira da cidade se encontra em zonas de alta vulnerabilidade. Os efeitos dessa dinâmica já aparecem no cotidiano urbano. Em bairros como Imbiribeira e Afogados, a chamada “inundação em dia de sol” tornou-se cada vez mais frequente: a elevação da maré faz com que a água retorne pelo sistema de drenagem e invada as ruas mesmo sem ocorrência de chuvas.

Ao mesmo tempo, a política de ocupação do solo revela contradições. Nas últimas décadas, grandes projetos urbanos avançaram sobre ecossistemas sensíveis, como manguezais e áreas de várzea, ambientes que funcionam como barreiras naturais contra enchentes.

A construção da Via Mangue, na Zona Sul, se tornou um exemplo emblemático desse conflito ambiental. A obra suprimiu áreas significativas de manguezal na bacia do Pina, um ecossistema essencial para o equilíbrio costeiro e para a proteção contra eventos extremos.

A vulnerabilidade climática do Recife também possui forte dimensão social. Hoje, estima-se que 206 mil pessoas vivem em áreas vulneráveis a eventos climáticos extremos em Recife. Nessas regiões, a combinação entre urbanização precária, solos instáveis e instabilidade climática cria um cenário de alta exposição a deslizamentos e enchentes, evidenciando como o impacto das mudanças climáticas em Recife se entrelaça com desigualdades sociais e desafios históricos de planejamento urbano.