Bio & TIC: a agenda que pode reposicionar o Amazonas

Quando a pauta recai sobre o Polo Industrial de Manaus, os números insistem em contrariar previsões adversas. Mantêm trajetória ascendente mesmo diante dos abalos globais que reconfiguram cadeias produtivas e mercados. Esse desempenho não apenas chama atenção. Ele exige reflexão e, sobretudo, convoca à continuidade de uma mobilização estratégica.

É nesse contexto que se insere a recente agenda dos Conselhos de Desenvolvimento, tanto o da Suframa quanto, de forma mais direta, o do Estado do Amazonas, o CODAM.

Há momentos em que os números falam alto. E há momentos em que eles revelam, por trás de si, uma mudança de mentalidade. A 319ª reunião do CODAM oferece um pouco dos dois.

Os mais de R$ 444 milhões em investimentos avaliados, os R$ 7,8 bilhões aprovados apenas em 2025 e o acumulado de R$ 64 bilhões em poucos anos indicam vitalidade econômica. Trata-se da reafirmação de que o Amazonas permanece como um dos principais polos industriais do país, sustentando empregos, renda e capacidade produtiva em uma região historicamente desafiada.

Mas o que emerge com maior nitidez vai além da consistência industrial. O que se desenha é a consolidação de duas vocações naturais e complementares que passam a orientar, de forma mais consciente, o projeto de desenvolvimento do estado.

De um lado, a bioeconomia. Não como conceito abstrato, mas como expressão direta da maior riqueza amazônica. A floresta passa a ser compreendida como ativo produtivo, científico e estratégico. Um caminho que integra saberes tradicionais, pesquisa aplicada e geração de valor, com especial potencial em cadeias como a de fitoterápicos e cosméticos, que ganham centralidade nas diretrizes nacionais de desenvolvimento da bioeconomia e apontam para uma nova fronteira industrial baseada na biodiversidade .

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Imagem gerada por IA

De outro lado, a tecnologia da informação e comunicação. Uma vocação construída ao longo de décadas com o Polo Industrial de Manaus, que agora se reposiciona diante da economia digital, da indústria avançada e das novas cadeias globais de valor. Esse movimento ganha nova intensidade com a expansão do ecossistema de startups, impulsionado pelas universidades, pelo Polo Digital de Manaus e pela emergência do chamado Jaraqui Valley, que consolida uma cultura de inovação na região.

A bioeconomia oferece densidade territorial, identidade e base material. A tecnologia oferece escala, inteligência e capacidade de inserção global. Quando articuladas, estruturam uma nova economia amazônica, capaz de transformar biodiversidade em valor agregado e conhecimento em desenvolvimento.

O dinamismo das startups e do ecossistema de inovação precisa avançar em direção a uma integração mais consistente com o Polo Industrial de Manaus. É nessa conexão que reside uma das maiores oportunidades estratégicas do estado: transformar inovação em indústria, pesquisa em produto, e conhecimento em competitividade.

O avanço desses dois eixos exige mais do que políticas públicas bem formuladas. Exige uma arquitetura permanente de diálogo entre setor público, iniciativa privada, academia e sociedade.

  • Interinstitucional, porque nenhum ator responde sozinho à complexidade amazônica.
  • Transversal, porque bioeconomia e tecnologia atravessam agendas econômicas, ambientais e sociais.
  • Multidisciplinar, porque a Amazônia exige a convergência entre ciência, engenharia, economia e saberes tradicionais.

O lançamento do Plano Estadual de Bioeconomia e da Revista de C,T & I demonstram o fortalecimento das agendas de ciência, tecnologia e inovação indicando que esse movimento começa a ganhar forma. Ainda em consolidação, mas com direção clara.

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(Reprodução/Bruno Leão)

O desafio agora é garantir convergência e, sobretudo, integração produtiva e eficiente, por este motivo o Polo Digital apoia eventos como Amazônia Inteligente, evento voltado a fomentar a adoção da IA na região, que será realizado entre os dias 16 e 18 de junho e promove a ExpoAmazônia Bio & TIC anualmente.

Sem tecnologia, a bioeconomia tende a permanecer restrita a nichos de baixo valor agregado. Sem conexão com o território e com as cadeias da floresta, a inovação tecnológica perde relevância estratégica na Amazônia.

O CODAM pode assumir um papel ainda mais ambicioso nesse processo, consolidando-se como espaço de articulação entre esses dois grandes vetores, conectando decisões econômicas à ciência, à inovação e à sustentabilidade, e aproximando o ambiente industrial das novas dinâmicas do empreendedorismo tecnológico.

Se essa engrenagem operar de forma contínua, o Amazonas não apenas seguirá atraindo investimentos. Poderá oferecer ao país e ao mundo um modelo de desenvolvimento ancorado na floresta, orientado pela tecnologia e sustentado por uma governança colaborativa.

E isso já não é apenas uma possibilidade. É uma vocação em afirmação.

Vania Thaumaturgo
Vania Thaumaturgo
Vania Thaumaturgo, engenheira, gestora do Polo Digital de Manaus e Head de Relações Institucionais da Bertha Capital

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