Desenvolvido na UFAM a partir de demanda do Idesam, sistema gratuito orienta pesquisadores e empreendedores sobre como proteger inovações e fortalecer a bioeconomia na Amazônia.
Um software desenvolvido na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) tem se destacado como uma solução prática para um desafio recorrente na Amazônia: orientar pesquisadores, empreendedores e comunidades sobre como proteger suas criações. Batizado de Sistema de Identificação e Proteção de Propriedade Intelectual (SIPPI), o programa conquistou o Prêmio FORTEC na categoria de software, representando a região Norte.
Criado no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para a Inovação (PROFNIT), o SIPPI surgiu a partir de uma demanda concreta do Idesam. A necessidade era tornar mais simples a tomada de decisão sobre o que deve ou não ser protegido e qual o tipo de registro mais adequado para cada inovação.
Software foi desenvolvido por pesquisadores da UFAM e impulsionado pelo Idesam. Foto: Divulgação.
A ferramenta funciona como um questionário interativo que conduz o usuário por etapas, avaliando aspectos como originalidade, aplicabilidade e potencial de patente. A proposta é democratizar o acesso à informação sobre propriedade intelectual, tema ainda pouco difundido entre iniciativas de base comunitária e negócios da bioeconomia.
De acordo com a equipe envolvida, o uso do sistema tem acelerado processos de orientação dentro do Idesam, reduzindo o tempo necessário para análise de projetos e ampliando o alcance das informações. A integração ao site da organização também facilitou o acesso de empreendedores e startups da região.
Outro destaque do projeto é o modelo de transferência de tecnologia adotado. O software foi licenciado de forma gratuita e não exclusiva, permitindo ampla utilização pela sociedade. A iniciativa marcou a primeira transferência desse tipo realizada pela UFAM para uma instituição sem fins lucrativos.
Além de apoiar decisões estratégicas, o SIPPI reforça a articulação entre universidade, setor produtivo e organizações da sociedade civil. Ao transformar conhecimento acadêmico em ferramenta prática, a solução contribui para fortalecer a segurança jurídica, estimular a inovação e impulsionar o desenvolvimento sustentável na Amazônia, incluindo iniciativas apoiadas pelo Idesam.
“O capital humano é, portanto, o primeiro alicerce dessa prontidão. Não se trata apenas de qualificação formal, mas de formação contínua, sensibilidade institucional e compromisso ético”.
Uma Corte de Contas não se mede apenas pela solidez de seus ritos, pela liturgia de seus pareceres ou pelo rigor técnico de suas decisões. Mede-se, sobretudo, pela sua capacidade de estar pronta. Pronta para compreender o tempo em que atua, para responder com agilidade às demandas da sociedade e para transformar controle em serviço efetivo ao cidadão.
Prontidão operacional, nesse contexto, não é uma expressão administrativa. É um compromisso institucional. Significa ter equipes preparadas não apenas para fiscalizar, mas para interpretar a realidade em movimento. Profissionais que dominam normas, mas também compreendem territórios, dinâmicas sociais e os desafios contemporâneos de uma gestão pública pressionada por urgências climáticas, desigualdades persistentes e exigências crescentes de transparência.
O capital humano é, portanto, o primeiro alicerce dessa prontidão. Não se trata apenas de qualificação formal, mas de formação contínua, sensibilidade institucional e compromisso ético. Servidores que entendem que cada auditoria, cada relatório e cada recomendação carregam impactos reais sobre a vida das pessoas. Que percebem que o controle não pode ser um fim em si mesmo, mas um instrumento de melhoria concreta da ação pública.
Tribunal de Contas do Amazonas
A esse esforço humano soma-se, de forma decisiva, a inteligência tecnológica. A inovação não é mais um diferencial. É uma condição de existência para instituições que pretendem acompanhar a complexidade do Estado contemporâneo. Ferramentas de análise de dados, inteligência artificial, monitoramento em tempo real e plataformas digitais ampliam a capacidade de atuação das Cortes de Contas, permitindo que o controle deixe de ser reativo e passe a ser preventivo, orientador e, em muitos casos, preditivo.
Essa combinação — pessoas preparadas etecnologia aplicada— redefine o papel da fiscalização. A Corte deixa de atuar apenas após o erro consumado e passa a atuar na origem dos processos, contribuindo para que políticas públicas sejam melhor desenhadas, executadas com mais eficiência e avaliadas com maior precisão. O controle se aproxima da gestão sem perder sua independência. E, nesse movimento, fortalece o próprio Estado.
Mas há um ponto ainda mais sensível nessa equação. A centralidade do cidadão. Toda a estrutura de prontidão operacional só se justifica se estiver orientada para ele. Não como conceito abstrato, mas como destinatário concreto das políticas públicas. O cidadão que depende de um sistema de saúde funcional, de uma escola de qualidade, de infraestrutura adequada, de políticas ambientais responsáveis. É para ele que o controle precisa fazer sentido.
Isso exige também uma mudança de linguagem e de postura.Cortes de Contas mais acessíveis, mais transparentes, mais abertas ao diálogo. Instituições que prestam contas não apenas aos gestores, mas à sociedade. Que traduzem seus achados em informações compreensíveis e úteis. Que utilizam canais digitais não apenas para divulgar, mas para escutar.
No contexto amazônico, essa discussão ganha contornos ainda mais profundos. A complexidade territorial, as assimetrias regionais e os desafios socioambientais exigem uma atuação ainda mais sensível e estratégica. A prontidão operacional aqui não é apenas desejável. É indispensável. Significa estar preparado para lidar com realidades diversas, muitas vezes invisibilizadas, e garantir que os recursos públicos cumpram sua função de promover dignidade, sustentabilidade e desenvolvimento.
Uma Corte de Contas pronta é, em última instância, uma instituição que compreende seu tempo e seu território. Que combina técnica com propósito. Que utiliza a inovação sem perder a dimensão humana. E que entende que sua missão maior não é apenas controlar, mas contribuir para que o Estado funcione melhor — e, assim, sirva melhor.
É nesse horizonte que se inscreve o verdadeiro significado da prontidão operacional: não como eficiência interna isolada, mas como capacidade de transformar controle em valor público.
“Entre riquezas extraídas e ausência de compensações, a Amazônia segue distante de um projeto real de prosperidade”
Há um crescente desafio aos fatos. Temos muitos imaginários e poucos fatos compartilhados, para uma conversa franca. Temos tido grande dificuldade no diálogo pela simples razão de encontrarmos dificuldade de compartilhar fatos em comum. Quanto mais difícil for o encontro de uma base comum para conversas, mais distante estaremos uns dos outros. As fronteiras do aceitável e do inaceitável se tornam fundamentais para a construção de um ambiente em comum e onde se consegue construir um diálogo.
Se entendermos que as desigualdades regionais do país não devem ser reduzidas, poderemos encontrar diferentes motivadores para isso: culturais, divinos, formação histórica que não pode ser modificada, questões econômicas e uma diversidade de motivos inalteráveis. A questão é que eles são razões que buscam a manutenção da desigualdade.
Para quem vive nas regiões mais ricas do país, não consegue conceber ou aceitar a necessidade de alocar recursos para reduzir a desigualdade do Norte ou do Nordeste frente ao Sudeste.
Há um fato incontestável da desigualdade regional? Certamente há. Mas, para aqueles que não querem contribuir para a redução desta desigualdade, abundarão razões para explicar o quanto isso é justo e adequado. Contudo, o que temos é um cenário onde não só a desigualdade é mantida, quanto ela é aumentada e, mais ainda, seguimos a tratar as regiões periféricas como áreas para extrair recursos, sem investir.
Existe petróleo na Amazônia? Certamente há um público grande interessado em extrair. Não há uma base comum de entendimento sobre como serão geradas compensações para a região. Há uma desigualdade, não há uma conversa ou plano para reduzir a desigualdade. Há pobreza e isolamento? Não há um plano para reduzir a pobreza ou isolamento. Os planos seguem sendo planos de extração e não de construção de prosperidade.
📷 Daniel Chamba/Fundacion EcoCiencia
É oportuno extrair petróleo na costa do Amapá ou no Amazonas? Como serão as compensações ambientais? Como serão investidos na região os recursos da riqueza gerada? Há potencial de terras raras ou vários outros minerais na região Amazônica? Certamente. Como a região aproveitará este potencial, além da geração de poucos empregos? Não há planos de compensação ou contrapartida. Até existem grupos políticos que querem simplesmente ceder para estrangeiros em troca de algo que não é visível ou declarável publicamente.
Se não conseguirmos encontrar espaços de diálogos entre coisas importantes, que deveriam ser simples, como buscar harmonia entre regiões, como construir reduções de desigualdades, como esperar um respeito amplo pela democracia? Há um desafio antigo no Brasil que é a capacidade de compartilhar fatos e enfrentar estes fatos.
O que vemos agora, com a democracia sendo atacada, é uma ampliação desta prática para outros campos. Precisamos nos reencontrar com a capacidade de diálogo para enfrentar os desafios nacionais, em um projeto de país. Sem isso, não haverá Amazônia preservada ou próspera. O que teremos no futuro é uma sequência da destruição que já ocorreu em outros biomas nacionais.
“Com startups em expansão e a bioeconomia ganhando escala, o desafio agora é integrar o ecossistema de inovação do Amazonas ao Polo Industrial de Manaus”
Quando a pauta recai sobre o Polo Industrial de Manaus, os números insistem em contrariar previsões adversas. Mantêm trajetória ascendente mesmo diante dos abalos globais que reconfiguram cadeias produtivas e mercados. Esse desempenho não apenas chama atenção. Ele exige reflexão e, sobretudo, convoca à continuidade de uma mobilização estratégica.
É nesse contexto que se insere a recente agenda dos Conselhos de Desenvolvimento, tanto o da Suframa quanto, de forma mais direta, o do Estado do Amazonas, o CODAM.
Há momentos em que os números falam alto. E há momentos em que eles revelam, por trás de si, uma mudança de mentalidade. A 319ª reunião do CODAM oferece um pouco dos dois.
Os mais de R$ 444 milhões em investimentos avaliados, os R$ 7,8 bilhões aprovados apenas em 2025 e o acumulado de R$ 64 bilhões em poucos anos indicam vitalidade econômica. Trata-se da reafirmação de que o Amazonas permanece como um dos principais polos industriais do país, sustentando empregos, renda e capacidade produtiva em uma região historicamente desafiada.
Mas o que emerge com maior nitidez vai além da consistência industrial. O que se desenha é a consolidação de duas vocações naturais e complementares que passam a orientar, de forma mais consciente, o projeto de desenvolvimento do estado.
De um lado, a bioeconomia. Não como conceito abstrato, mas como expressão direta da maior riqueza amazônica. A floresta passa a ser compreendida como ativo produtivo, científico e estratégico. Um caminho que integra saberes tradicionais, pesquisa aplicada e geração de valor, com especial potencial em cadeias como a de fitoterápicos e cosméticos, que ganham centralidade nas diretrizes nacionais de desenvolvimento dabioeconomiae apontam para uma nova fronteira industrial baseada na biodiversidade .
Imagem gerada por IA
De outro lado, a tecnologia da informação e comunicação. Uma vocação construída ao longo de décadas com o Polo Industrial de Manaus, que agora se reposiciona diante da economia digital, da indústria avançada e das novas cadeias globais de valor. Esse movimento ganha nova intensidade com a expansão do ecossistema de startups, impulsionado pelas universidades, pelo Polo Digital de Manaus e pela emergência do chamado Jaraqui Valley, que consolida uma cultura de inovação na região.
Esses dois vetores não competem. Eles se potencializam.
A bioeconomia oferece densidade territorial, identidade e base material. A tecnologia oferece escala, inteligência e capacidade de inserção global. Quando articuladas, estruturam uma nova economia amazônica, capaz de transformar biodiversidade em valor agregado e conhecimento em desenvolvimento.
Mas essa articulação ainda não está plenamente realizada.
O dinamismo das startups e do ecossistema de inovação precisa avançar em direção a uma integração mais consistente com o Polo Industrial de Manaus. É nessa conexão que reside uma das maiores oportunidades estratégicas do estado: transformar inovação em indústria, pesquisa em produto, e conhecimento em competitividade.
É nesse ponto que se impõe uma reflexão mais estruturante.
O avanço desses dois eixos exige mais do que políticas públicas bem formuladas. Exige uma arquitetura permanente de diálogo entre setor público, iniciativa privada, academia e sociedade.
Interinstitucional, porque nenhum ator responde sozinho à complexidade amazônica.
Transversal, porque bioeconomia e tecnologia atravessam agendas econômicas, ambientais e sociais.
Multidisciplinar, porque a Amazônia exige a convergência entre ciência, engenharia, economia e saberes tradicionais.
O lançamento do Plano Estadual de Bioeconomia e da Revista de C,T & I demonstram o fortalecimento das agendas de ciência, tecnologia e inovação indicando que esse movimento começa a ganhar forma. Ainda em consolidação, mas com direção clara.
(Reprodução/Bruno Leão)
O desafio agora é garantir convergência e, sobretudo, integração produtiva e eficiente, por este motivo o Polo Digital apoia eventos como Amazônia Inteligente, evento voltado a fomentar a adoção da IA na região, que será realizado entre os dias 16 e 18 de junho e promove a ExpoAmazônia Bio & TIC anualmente.
Sem tecnologia, a bioeconomia tende a permanecer restrita a nichos de baixo valor agregado. Sem conexão com o território e com as cadeias da floresta, a inovação tecnológica perde relevância estratégica na Amazônia.
A potência está na integração.
O CODAM pode assumir um papel ainda mais ambicioso nesse processo, consolidando-se como espaço de articulação entre esses dois grandes vetores, conectando decisões econômicas à ciência, à inovação e à sustentabilidade, e aproximando o ambiente industrial das novas dinâmicas do empreendedorismo tecnológico.
Se essa engrenagem operar de forma contínua, o Amazonas não apenas seguirá atraindo investimentos. Poderá oferecer ao país e ao mundo um modelo de desenvolvimento ancorado na floresta, orientado pela tecnologia e sustentado por uma governança colaborativa.
E isso já não é apenas uma possibilidade. É uma vocação em afirmação.
“Carimbo e o algoritmo sintetizam um impasse que vai além da tecnologia: trata-se de um desafio político e institucional, que exige liderança, transformação cultural, capacitação de servidores e revisão de processos, sob a compreensão de que a eficiência é condição de relevância do serviço público no século XXI”
A modernização tributária avança, mas a pública segue presa a rotinas analógicas. Sem incorporar inteligência e eficiência à gestão, o Brasil corre o risco de arrecadar melhor e entregar pior.
A transformação tecnológica já não é uma agenda de futuro. Ela se tornou critério de sobrevivência institucional. Enquanto empresas, universidades e até pequenos empreendedores incorporam inteligência artificial para ampliar produtividade, reduzir custos e qualificar decisões, uma parte significativa do serviço público brasileiro ainda opera sob uma lógica analógica, fragmentada e ineficiente. O contraste não é apenas simbólico; ele produz efeitos concretos sobre a qualidade da política pública, a confiança social e a capacidade do Estado de responder aos desafios contemporâneos.
Envato
O custo invisível da burocracia analógica
O problema não se resume à ausência detecnologia, mas à persistência de um modelo mental. A cultura do carimbo, da fotocópia, do protocolo físico e da tramitação burocrática não é apenas um resquício do passado. Ela representa um sistema de incentivos que valoriza o procedimento em detrimento do resultado. Nesse ambiente, o tempo do cidadão perde relevância, a eficiência deixa de ser prioridade e o custo invisível da ineficiência se acumula na forma de atraso, desperdício e descrédito institucional.
Ampliar a capacidade de entrega do serviço público
A inteligência artificial, nesse contexto, não deve ser compreendida como um luxo tecnológico ou uma agenda futurista. Trata-se de uma ferramenta estratégica para reorganizar o funcionamento do Estado. Automação de processos, análise preditiva, atendimento inteligente ao cidadão, integração de bases de dados e auditoria em tempo real são apenas algumas das aplicações possíveis. O impacto direto é a redução de gargalos operacionais, maior precisão na tomada de decisão e ampliação da capacidade de entrega do setor público.
Não é sobre gastar menos, é sobre gastar melhor!
Há uma dimensão ainda mais relevante: a qualidade do gasto público. Sistemas inteligentes permitem rastrear ineficiências, identificar desvios, priorizar investimentos com base em evidências e avaliar políticas com maior rigor. Em um país que historicamente debate a escassez de recursos, a inovação tecnológica redefine a equação. Não se trata apenas de gastar menos, mas de gastar melhor.
Reforma tributária e inteligência administrativa
Esse ponto se conecta diretamente com a reforma tributária. A simplificação do sistema de arrecadação é um avanço necessário, mas insuficiente se não vier acompanhada de uma transformação equivalente na máquina pública. Não faz sentido modernizar a entrada de recursos mantendo estruturas arcaicas na sua gestão e aplicação. A racionalidade tributária precisa encontrar correspondência na racionalidade administrativa.
Serviços lentos
Sem essa convergência, corre-se o risco de produzir um sistema mais eficiente na arrecadação e igualmente ineficiente na entrega. A frustração social tende a crescer quando o cidadão percebe que paga de forma mais organizada, mas continua recebendo serviços lentos, opacos e desconectados de suas necessidades.
Fortalecendo a transparência
A inovação tecnológica no serviço público, portanto, não é apenas uma agenda de eficiência. Ela é uma agenda de legitimidade. Estados que operam com baixa capacidade de resposta perdem autoridade moral, alimentam a desconfiança e abrem espaço para soluções improvisadas ou populistas. Por outro lado, governos que incorporam tecnologia com inteligência ampliam sua capacidade de coordenação, fortalecem a transparência e reconectam o cidadão ao sentido do coletivo.
Inclusão territorial e justiça social
Na Amazônia, esse debate assume contornos ainda mais estratégicos. A complexidade territorial, a diversidade social e os desafios logísticos exigem um Estado mais inteligente, não mais pesado. Tecnologias digitais e inteligência artificial podem reduzir distâncias, integrar políticas públicas e levar serviços a regiões historicamente desassistidas. A inovação, nesse caso, não é apenas eficiência administrativa; é instrumento de inclusão territorial e justiça social.
Mudança de cultura organizacional
O desafio central não é tecnológico, é político e institucional. Exige liderança, mudança de cultura organizacional, capacitação de servidores e revisão de processos. Exige, sobretudo, a compreensão de que eficiência não é inimiga do serviço público, mas sua condição de relevância no século XXI.
Manter a capacidade de servir
Persistir na lógica do carimbo diante de um mundo orientado por dados e inteligência é mais do que atraso. É abdicar da capacidade de servir. E um Estado que perde essa capacidade deixa de cumprir sua razão de existir.
Em balanço de 39 meses, Marina Silva destaca reconstrução institucional, aumento de orçamento e queda do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, com impacto direto nas emissões.
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, deixou o comando da pasta nesta quarta-feira (1º), após apresentar um balanço de sua gestão iniciada em janeiro de 2023. Em discurso de mais de 50 minutos, em Brasília, Marina Silva destacou avanços na recomposição institucional do ministério e na redução do desmatamento em biomas estratégicos.
Segundo a ministra, ao assumir o cargo, encontrou uma estrutura fragilizada, que exigia reconstrução em diversas frentes. Ao longo de 39 meses, a gestão ampliou a capacidade operacional do sistema ambiental federal, com a incorporação de mais de 1,5 mil servidores distribuídos entre órgãos como Ibama, ICMBio e o Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
O fortalecimento institucional também foi acompanhado de aumento expressivo de recursos. O orçamento anual do ministério cresceu 120%, passando de R$ 865 milhões, em 2022, para R$ 1,9 bilhão em 2025. Para Marina Silva, esse avanço foi essencial para recuperar a governança e ampliar a execução de políticas públicas ambientais.
Os resultados, segundo ela, já aparecem nos indicadores. Em 2025, o desmatamento na Amazônia caiu 50% em relação a 2022, enquanto no Cerrado a redução foi de 32,3%. A diminuição da devastação evitou a emissão de 733,9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. Dados mais recentes indicam a continuidade dessa tendência, com nova queda de 33% na Amazônia e de 7% no Cerrado entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026.
Foto: Picture Aliance Zuma Press Wire
A ampliação das ações de fiscalização também foi destacada. As operações do Ibama na Amazônia cresceram 80%, enquanto as do ICMBio avançaram 24%. No mesmo período, aumentaram as áreas embargadas e houve redução de 50% da mineração ilegal na região.
Ao encerrar sua fala, Marina Silva defendeu a continuidade das políticas ambientais sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva e a nomeação de João Paulo Ribeiro Capobianco para o ministério. “Não existe civilização se o negacionismo prevalece. Se prevalece, talvez não exista nem planeta.”
A Amazônia costuma ser pensada a partir da floresta. O verde domina o imaginário, o discurso político e até a agenda internacional. Mas há um outro território, menos visível e igualmente decisivo, onde os sinais de alerta já são concretos.
Esse território é a água.
Nos rios amazônicos, a vida está sendo empurrada para seus limites fisiológicos. Temperaturas em elevação, oxigênio em queda e eventos extremos mais frequentes estão redesenhando o funcionamento de um dos sistemas mais complexos do planeta.
A ciência já percebeu o que ainda passa despercebido no debate público: os peixes da Amazônia estão operando no limite. E esse limite está sendo ultrapassado.
Nesta entrevista, o pesquisador Adalberto Luís Val, cofundador do portal Brasil Amazônia Agora, uma das principais referências em biologia aquática na região em toda ciência mundial, explica como funciona esse sistema invisível, quais são os sinais mais preocupantes e o que está em jogo para a biodiversidade, a economia e a segurança alimentar de milhões de pessoas. Confira.
BAA Entrevista
Quem é Adalberto Val?
Adalberto Luis Val construiu sua trajetória científica mergulhando onde poucos olham com atenção: a vida invisível dos rios amazônicos. Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), ele se tornou uma das principais referências mundiais no estudo da fisiologia de peixes tropicais, revelando como esses organismos resistem — e até onde conseguem resistir — às condições extremas da região.
Ao longo de décadas de pesquisa, ajudou a decifrar os mecanismos que permitem a sobrevivência em ambientes com pouco oxigênio, altas temperaturas e variações intensas ao longo do ano. Esse conhecimento hoje é central para compreender os impactos das mudanças climáticas sobre a Amazônia.
Membro da Academia Brasileira de Ciências e da The World Academy of Sciences (TWAS), Val também coordena o INCT ADAPTA, uma rede que conecta ciência, clima e saúde para antecipar riscos e orientar decisões sobre o futuro da região.
Adalberto Val, no encontro das águas do Rio Negro com o Solimões – Keiny Andrade / Fundação Bunge
BAA –Quando se fala em Amazônia, a imagem mais imediata é a floresta. Mas existe um outro universo, igualmente complexo e decisivo: o sistema aquático. Qual é a dimensão ecológica e biológica desse mundo submerso?
Adalberto Val: A Amazônia aquática é um universo extraordinário, ainda pouco compreendido. A região funciona como um grande sistema anfíbio, onde a água não compõe apenas a paisagem, ela organiza a vida.
Há diferentes tipos de água – brancas, pretas e claras – que drenam solos distintos e criam ambientes com características físicas e químicas muito variadas. Esse mosaico resulta de milhões de anos de processos geológicos que moldaram tanto o território quanto os organismos que nele vivem.
Existe um dinamismo evolutivo muito intenso. É ele que explica a enorme diversidade e as adaptações únicas da biota aquática amazônica.
Outro elemento central são os pulsos de inundação. Os ciclos de cheia e vazante estruturam o funcionamento da vida na região, impondo desafios contínuos para espécies aquáticas e terrestres. Na Amazônia, o rio não acompanha a vida. Ele define a vida.
BAA –Suas pesquisas mostram que pequenas variações na temperatura da água já provocam impactos relevantes na fisiologia dos peixes. O que está acontecendo hoje nos rios amazônicos e quais são os riscos mais imediatos?
Adalberto Val: O que observamos hoje é uma combinação preocupante de fatores: aumento da temperatura da água, redução do oxigênio dissolvido e maior frequência de eventos extremos, como secas severas. Esses fatores atuam de forma combinada e ampliam o estresse sobre os peixes.
Mesmo pequenas elevações de temperatura já são críticas. Os peixes amazônicos vivem próximos dos seus limites térmicos naturais, o que reduz a margem de segurança diante do aquecimento. Ao mesmo tempo, a água mais quente diminui a disponibilidade de oxigênio e aumenta a demanda metabólica. Surge um desequilíbrio direto entre o que o organismo precisa e o que o ambiente oferece.
Os efeitos são claros: queda no desempenho fisiológico, maior vulnerabilidade e, em situações extremas, mortalidade em massa – fenômeno que já vem sendo registrado na região.
BAA –O aumento de alguns graus na temperatura da água pode parecer pequeno. Por que isso é tão crítico?
Adalberto Val: Para os peixes, essa variação é significativa porque eles são ectotérmicos. A temperatura do corpo depende diretamente da água. Quando a água aquece, o metabolismo acelera. Isso aumenta a demanda por energia e por oxigênio.
O problema é que a água quente retém menos oxigênio. Cria-se um descompasso entre necessidade e disponibilidade. Esse desequilíbrio compromete funções essenciais como crescimento, reprodução e resposta ao estresse. Em situações mais severas, pode levar ao colapso fisiológico.
Foto: André Dib
BAA –A redução do oxigênio dissolvido é um dos focos de suas pesquisas. Como isso afeta a sobrevivência dos peixes?
Adalberto Val: Na Amazônia, o oxigênio não é um recurso estável. Ele varia intensamente e molda a própria organização da vida aquática. Em áreas como várzeas e igapós, a combinação de matéria orgânica e atividade microbiana reduz rapidamente o oxigênio, criando ambientes naturalmente desafiadores.
Nessas condições, o que está em jogo é a capacidade de manter processos vitais ao longo do tempo. A limitação de oxigênio afeta o funcionamento dos tecidos, altera rotas metabólicas e compromete o equilíbrio interno dos peixes. Isso se traduz em menor eficiência energética, crescimento reduzido e impactos na reprodução.
Além disso, o oxigênio define onde cada espécie pode viver. Espécies mais sensíveis são excluídas de ambientes críticos, enquanto as mais tolerantes ocupam esses espaços. Com o avanço das mudanças ambientais, esse quadro se intensifica. O oxigênio passa a ser um dos principais limites para a resiliência dos peixes amazônicos.
BAA –Espécies como tambaqui e pirarucu são exemplos de adaptação a ambientes extremos. Como isso é possível?
Adalberto Val: Esses peixes desenvolveram um conjunto sofisticado de adaptações ao longo da evolução. No caso do pirarucu, há a capacidade de respirar ar diretamente, funcionando como um sistema respiratório complementar. Isso permite sobreviver em ambientes com baixo oxigênio.
Outras espécies aumentam a eficiência das brânquias ou ajustam o transporte de oxigênio no sangue. A hemoglobina, por exemplo, pode ter propriedades que facilitam a captação e liberação de oxigênio em condições adversas. Há também flexibilidade metabólica. Esses organismos conseguem reduzir o gasto energético e reorganizar suas funções para suportar períodos de estresse. Essas adaptações são resultado direto das condições únicas da Amazônia.
BAA –Existe um limite para essa capacidade de adaptação diante das mudanças climáticas?
Adalberto Val: Sim, e esse é um ponto muito importante. Essas adaptações levaram milhões de anos para se consolidar. O problema é que as mudanças atuais estão ocorrendo em uma velocidade muito maior. Há um descompasso entre o ritmo das mudanças ambientais e a capacidade de resposta evolutiva.
O limite aparece quando mecanismos como respiração, metabolismo e equilíbrio interno deixam de sustentar o funcionamento do organismo. A partir desse ponto, o desempenho cai, a reprodução é afetada e a sobrevivência fica comprometida. Além disso, os estressores atuam de forma combinada. Temperatura, oxigênio e poluição se reforçam mutuamente. Mesmo espécies altamente adaptadas podem ultrapassar seus limites.
BAA – Como essas mudanças impactam a base alimentar da região?
Adalberto Val: A pesca é a base da segurança alimentar para milhões de pessoas na Amazônia. Alterações na temperatura, no oxigênio e no regime de cheias afetam diretamente o crescimento, a reprodução e a sobrevivência dos peixes. Isso reduz os estoques e torna a oferta mais instável.
Eventos extremos, como secas severas, podem provocar mortalidade em larga escala. Há também o risco de contaminação por poluentes, comprometendo a qualidade do pescado. O resultado é um sistema menos previsível e mais vulnerável. Proteger os peixes amazônicos é proteger a alimentação e a saúde das populações da região.
BAA – Como o desmatamento afeta os rios amazônicos?
Adalberto Val: O impacto é profundo e muitas vezes subestimado. A retirada da floresta aumenta a erosão, eleva a carga de sedimentos e altera a qualidade da água. Isso reduz o oxigênio, modifica a disponibilidade de nutrientes e afeta diretamente os organismos aquáticos.
Há também o aquecimento da água e a liberação de contaminantes, como o mercúrio. Além disso, o desmatamento interfere no ciclo hidrológico, alterando o regime de chuvas e o pulso de inundação. Quando esse pulso perde regularidade, todo o sistema perde previsibilidade.
BAA – Qual é a missão central do ADAPTA e seus principais resultados?
Adalberto Val: O ADAPTA busca entender como os organismos amazônicos respondem às mudanças ambientais. É uma iniciativa interdisciplinar que integra fisiologia, ecologia, genética e saúde. Um dos principais resultados foi demonstrar que muitos peixes já vivem próximos dos seus limites fisiológicos.
Também evidenciamos que fatores como temperatura, oxigênio e poluição atuam de forma combinada. Outro avanço importante foi mostrar a conexão entre ambiente, peixes e saúde humana, especialmente no caso da contaminação por mercúrio.
Além disso, o projeto formou novos pesquisadores e fortaleceu redes de colaboração.
BAA – Como a ciência pode orientar políticas públicas?
Adalberto Val: A ciência transforma conhecimento em ação. Ela permite identificar espécies vulneráveis, definir períodos de defeso e orientar o manejo pesqueiro. Também ajuda a monitorar contaminação e garantir segurança alimentar. Outro ponto é a antecipação de riscos. Compreender os efeitos de temperatura, oxigênio e poluição permite prever cenários futuros.
A ciência também orienta alternativas, como a piscicultura sustentável. Mas o mais importante é a integração entre ciência, gestão e conhecimento local.
BAA – A piscicultura pode ser parte da solução?
Adalberto Val: Sim, desde que orientada por ciência. A pesquisa tem avançado no desenvolvimento de dietas mais eficientes e no entendimento das exigências ambientais das espécies. Também contribui para melhorar a saúde dos peixes e reduzir perdas. Sistemas integrados, como a aquaponia, ampliam a eficiência e reduzem impactos. O desafio é produzir respeitando a biodiversidade e os contextos locais.
BAA – Quais são os sinais mais preocupantes hoje?
Adalberto Val: Os sinais já são evidentes. Há aumento da temperatura da água, alterações no regime de cheias e maior frequência de eventos extremos. O pulso de inundação está se tornando menos previsível. Os peixes estão operando cada vez mais próximos dos seus limites fisiológicos.
Além disso, os efeitos combinados ampliam os impactos. O ponto mais crítico é a velocidade dessas mudanças.
Foto: Akshay Chauhan/Unsplash
BAA – O que está em jogo nas próximas décadas?
Adalberto Val: Está em jogo a estabilidade dos sistemas aquáticos. Podemos ver uma reorganização das comunidades, com espécies mais tolerantes substituindo as mais sensíveis. Isso altera cadeias alimentares, produtividade e serviços ecossistêmicos. Há risco de perda de biodiversidade funcional.
Outro problema é a perda de previsibilidade ambiental. O futuro ainda pode ser influenciado pelas decisões que tomarmos agora.
BAA – Qual a importância de fortalecer a ciência na Amazônia?
Adalberto Val: É uma questão de soberania. A Amazônia precisa ser estudada por quem vive e trabalha na região. Isso garante observação contínua, respostas rápidas e integração com o conhecimento local. Também fortalece a capacidade científica nacional e reduz desigualdades regionais. Há ainda uma dimensão geopolítica. A Amazônia está no centro do debate global.
BAA – Que mensagem o senhor deixaria ao público?
Adalberto Val: A Amazônia não é apenas floresta. Ela é água. Nos rios está uma parte essencial da biodiversidade, da alimentação e do equilíbrio climático. Os sistemas aquáticos conectam a região ao restante do continente.
Proteger os rios significa proteger a vida. A Amazônia sempre foi resiliente, mas enfrenta mudanças rápidas. Agir com base na ciência e no conhecimento local é essencial. Proteger a Amazônia aquática é proteger o nosso futuro.
No pano de fundo, o que se revela é a potência do Polo Industrial de Manaus como plataforma de desenvolvimento sustentável. A indústria de duas rodas ajuda a demonstrar que é possível gerar riqueza, emprego e inovação mantendo a floresta em pé. Essa equação, tantas vezes ignorada ou distorcida no debate nacional, ganha concretude quando se observa a trajetória do setor.
Coluna Follow-Up
Abraciclo aos 50 anos é muito mais do que a marca institucional do setor de duas rodas na Amazônia. É um retrato consistente de como a indústria, quando bem estruturada, pode se tornar vetor de desenvolvimento regional, inovação tecnológica e organização produtiva em escala nacional – com raízes profundas fincadas no Polo Industrial de Manaus.
1976: nasce uma engrenagem estratégica
A história começa em 1976, mas o que se constrói ao longo dessas cinco décadas vai muito além da representação setorial. A entidade se consolida como uma engrenagem estratégica de um modelo industrial que ajudou a redesenhar a economia da Amazônia. O PIM, nesse contexto, não foi apenas território de produção. Tornou-se laboratório de escala, tecnologia e integração logística, com a Abraciclo atuando como articuladora silenciosa dessa transformação.
Manaus como plataforma industrial
A chegada da indústria de duas rodas a Manaus inaugura um novo capítulo. A produção local, inicialmente com bicicletas e depois com motocicletas, inaugura uma cadeia produtiva robusta, com capacidade de gerar emprego, renda e arrecadação. Ao longo do tempo, essa base industrial evolui, incorpora tecnologia, amplia portfólio e consolida o Brasil como um dos maiores mercados globais do setor.
Escala produtiva e competitividade global
Mas o diferencial da Abraciclo não está apenas na expansão produtiva. Está na capacidade de organizar o setor em torno de padrões técnicos, segurança e inovação. A introdução de sistemas como ABS e CBS nas motocicletas não foi apenas uma exigência regulatória. Foi resultado de articismo técnico, estudos aprofundados e diálogo institucional. O mesmo vale para iniciativas como o Motocheck-up e os estudos sobre acidentes, que ajudaram a qualificar o debate sobre mobilidade e segurança viária no país.
Salto de desenvolvimento tecnológico
No campo da inovação, o setor deu um salto relevante ao desenvolver, no Brasil, a tecnologia flexfuel para motocicletas. Trata-se de um marco industrial pouco valorizado no debate público, mas altamente significativo. Ele demonstra capacidade de engenharia local, adaptação tecnológica e resposta às especificidades do mercado brasileiro.
Segurança, sociedade, meio ambiente como vetores de inovação
Ao mesmo tempo, a Abraciclo constrói uma agenda que dialoga com temas contemporâneos. Mobilidade urbana, uso da bicicleta, sustentabilidade e educação no trânsito passam a integrar o repertório da entidade. Campanhas como a valorização da bicicleta mostram que o setor compreende sua inserção em um ecossistema mais amplo, onde indústria, inovação, sociedade, segurança e meio ambiente precisam convergir.
foto: Suraj Chilam Kruthi
A força institucional da Abraciclo
Há também um papel político-institucional relevante. A atuação em Brasília, a produção sistemática de dados e a interlocução com o poder público consolidam a Abraciclo como porta-voz qualificada de um segmento estratégico. Em um país onde políticas industriais muitas vezes carecem de continuidade, essa capacidade de articulação se torna um ativo decisivo.
Indústria e floresta: uma equação possível
No pano de fundo, o que se revela é a potência do Polo Industrial de Manaus como plataforma de desenvolvimento sustentável. A indústria de duas rodas ajuda a demonstrar que é possível gerar riqueza, emprego e inovação mantendo a floresta em pé. Essa equação, tantas vezes ignorada ou distorcida no debate nacional, ganha concretude quando se observa a trajetória do setor.
O futuro sobre duas rodas
Cinco décadas depois, a Abraciclo chega aos 50 anos com um legado que combina escala produtiva, densidade tecnológica e responsabilidade institucional. Mais do que celebrar o passado, o momento impõe uma leitura estratégica do futuro. Sobre duas rodas. A mobilidade está em transformação, novas tecnologias emergem, e a agenda ambiental se torna cada vez mais central
2026 – Indústria moderna, competitiva e sustentável
Permanece uma lição muito clara nesse percurso. Quando indústria, território e visão estratégica caminham juntos, o resultado vai além do crescimento econômico. É construção de um modelo que pode, sim, reposicionar a Amazônia como protagonista de uma nova economia – moderna, competitiva e sustentável.
Antes da indústria existir, alguém precisou começar
A Yamaha RD 50, lançada em 1974, a famosa cinquentinha, inaugurou a produção nacional de motocicletas e deu origem à indústria de duas rodas no Brasil.
Mas essa história começa ainda antes
Quando, nos anos 1970, a Yamaha passa a olhar para o Brasil – e especialmente para a Amazônia -, essa relação não começa do zero. Ela encontra um território onde já existia presença japonesa, experiência acumulada e uma afinidade cultural construída ao longo de décadas.
É nesse contexto que surge um personagem fundamental – e muitas vezes pouco lembrado.
A Importadora TV Lar, sob a liderança do Comendador José dos Santos Azevedo, já atuava na importação de motocicletas Yamaha quando identificou, nos primórdios da Zona Franca de Manaus, uma oportunidade estratégica. Mais do que manter relações comerciais, Azevedo avançou para uma articulação decisiva: associou-se aos japoneses como sócio minoritário, contribuindo para viabilizar a implantação da operação que viria a se consolidar como Yamaha Motor da Amazônia.
Esse movimento não foi trivial.
Segundo relatos de contemporâneos, José dos Santos Azevedo representou um dos grandes ativos dessa aproximação, funcionando como elo entre culturas, interesses e visões de longo prazo. Sua atuação reforçou, e atualizou, uma sintonia histórica entre Japão e Amazônia que já vinha sendo construída desde o início do século XX.
Se a Yamaha representou o impulso industrial e a Zona Franca ofereceu as condições, a TV Lar ajudou a construir a ponte.
E isso muda a forma de contar essa história.
Porque revela que, antes da fábrica, houve conexão. Antes da produção, houve relação. E antes da indústria, já existia presença.
Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas feiras no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal BrasilAmazoniaAgora.
Pesquisas mostram que cada árvore na Amazônia funciona como uma “floresta em miniatura”, reunindo redes de fungos, insetos e microrganismos que regulam o clima e sustentam a biodiversidade.
A ciência levou décadas para responder com precisão a uma pergunta aparentemente simples: o que é uma árvore? Na Amazônia, a resposta desafia definições tradicionais. Uma castanheira adulta, que pode ultrapassar 50 metros de altura, não funciona como um organismo isolado, mas como um ecossistema completo. Com microclima próprio, redes subterrâneas de comunicação, fauna associada e diversidade química interna, ela reúne, em um único indivíduo, características de uma floresta em escala reduzida, revelando como cada árvore na Amazônia pode concentrar níveis extraordinários de complexidade biológica.
Longe de ser apenas uma metáfora, a ideia de “floresta em miniatura” descreve com precisão a estrutura de uma árvore amazônica. Em seus diferentes níveis, da raiz à copa, a árvore abriga comunidades distintas. No alto, bromélias e orquídeas ocupam os galhos e ajudam a formar pequenos reservatórios de água e matéria orgânica, essenciais para a vida de outras espécies. A textura da casca define quem consegue se estabelecer ali, superfícies rugosas favorecem a colonização, enquanto cascas lisas exigem adaptações específicas.
Exemplo de inquilinismo: plantas epífitas se desenvolvem sobre uma árvore. Foto: Pixabay
Grande parte da base desse sistema permanece invisível. No solo amazônico, geralmente pobre em nutrientes, fungos micorrízicos colonizam as raízes e formam redes que ampliam a capacidade de absorção de fósforo, potássio e outros elementos essenciais em camadas profundas do solo.
Em um único grama de solo amazônico, pesquisadores estimam a presença de mais de mil espécies de fungos. Essa rede não atua apenas na nutrição das plantas, mas também na comunicação. Por meio dessas conexões, árvores trocam carboidratos e sinais químicos, enquanto mudas jovens podem receber suporte de árvores maiores próximas, evidenciando interações cooperativas entre plantas, um processo fundamental para a sobrevivência de cada árvore na Amazônia.
Dentro dos tecidos da própria árvore, outra comunidade invisível atua: os endófitos, fungos e bactérias que vivem no interior das plantas sem causar danos aparentes. Pesquisas conduzidas pelo INPA e pela Embrapa já isolaram linhagens de fungos endofíticos em frutos amazônicos com atividade antimalárica contra o Plasmodium falciparum. Os resultados indicam que árvores saudáveis podem funcionar como reservatórios de compostos bioativos ainda pouco explorados.
Fungo na Amazônia atua na decomposição e na ciclagem de nutrientes, sustentando redes subterrâneas essenciais para a saúde das árvores e da floresta. Foto: Revista Amazônia.
No dossel, a densidade de vida alcança níveis que transformaram o entendimento científico sobre biodiversidade. Nos anos 1980, o entomologista Terry Erwin utilizou a técnica de nebulização de inseticida em árvores individuais na região de Manaus e encontrou uma diversidade de besouros muito acima do esperado. A partir desses dados, as estimativas globais de espécies de insetos foram revisadas, sugerindo que o número poderia chegar a até 30 milhões. Embora haja divergências em relação a esse número, o estudo comprovou a ampla existência de insetos nas florestas tropicais e impulsionou iniciativas de conservação.
Grande parte dos insetos coletados apresentava alta especificidade em relação à árvore hospedeira. Em estudos com diferentes tipos de floresta ao redor de Manaus, cerca de 40% das espécies de besouros foram registradas em apenas um ambiente, enquanto apenas 1% ocorria em todos eles. Nesse contexto, cada árvore pode funcionar como uma unidade ecológica própria, abrigando comunidades altamente especializadas.
Acima do dossel, as árvores emergentes funcionam como pontos estratégicos para a fauna. É nelas que a harpia (Harpia harpyja), maior ave de rapina do Novo Mundo, constrói seus ninhos, escolhendo exemplares que se destacam na paisagem. Ao longo do ciclo reprodutivo, esses ninhos acumulam cerca de 35 quilos de restos de presas e excrementos, alterando a química do solo ao redor. O resultado é a redistribuição de nutrientes na floresta, um processo conhecido como “efeito harpia”, que revela o papel das árvores como centros ativos de circulação de matéria orgânica e espaços de alta biodiversidade.
Ninho de Harpia, as aves escolhem árvores específicas para nidificação. Foto: Duda Menegassi
Além de abrigar biodiversidade, as árvores amazônicas também ajudam a regular o clima. Uma castanheira adulta pode transpirar milhares de litros de água diariamente, alimentando os “rios voadores” que distribuem umidade pelo continente sul-americano. Mas sua continuidade depende de uma cadeia precisa de relações, desde a polinização feita por abelhas até a dispersão de sementes por animais como a cutia. Sem esses elos, a espécie deixa de se reproduzir, o que evidencia a interdependência ecológica de cada árvore na Amazônia.
A queda de uma árvore de grande porte não representa apenas a perda de um indivíduo, mas de uma rede inteira de relações biológicas. Espécies de fungos, insetos, aves e plantas associadas podem desaparecer junto com ela, muitas vezes por dependerem exclusivamente daquele organismo.
A floresta amazônica concentra cerca de um terço das espécies conhecidas no planeta, mas essa diversidade resulta da soma de múltiplas interações ecológicas estruturadas em torno de árvores individuais. Nesse contexto, conservar a floresta implica reconhecer que cada árvore sustenta um conjunto próprio de vida.
Foto: My Favorite Pet Sitter, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.
“A Abraciclo chega aos 50 anos com um legado que combina escala produtiva, densidade tecnológica e responsabilidade institucional. Mais do que celebrar o passado, o momento impõe uma leitura estratégica do futuro. Sobre duas rodas”
Abraciclo aos 50 anos é muito mais do que a marca institucional do setor de duas rodas na Amazônia. É um retrato consistente de como a indústria, quando bem estruturada, pode se tornar vetor de desenvolvimento regional, inovação tecnológica e organização produtiva em escala nacional — com raízes profundas fincadas no Polo Industrial de Manaus.
1976: nasce uma engrenagem estratégica
A história começa em 1976, mas o que se constrói ao longo dessas cinco décadas vai muito além da representação setorial. A entidade se consolida como uma engrenagem estratégica de um modelo industrial que ajudou a redesenhar a economia da Amazônia. O PIM, nesse contexto, não foi apenas território de produção. Tornou-se laboratório de escala, tecnologia e integração logística, com a Abraciclo atuando como articuladora silenciosa dessa transformação.
Manaus como plataforma industrial
A chegada da indústria de duas rodas a Manaus inaugura um novo capítulo. A produção local, inicialmente com bicicletas e depois com motocicletas, inaugura uma cadeia produtiva robusta, com capacidade de gerar emprego, renda e arrecadação. Ao longo do tempo, essa base industrial evolui, incorpora tecnologia, amplia portfólio e consolida o Brasil como um dos maiores mercados globais do setor.
Criação da Abraciclo em 1976
Escala produtiva e competitividade global
Mas o diferencial da Abraciclo não está apenas na expansão produtiva. Está na capacidade de organizar o setor em torno de padrões técnicos, segurança e inovação. A introdução de sistemas como ABS e CBS nas motocicletas não foi apenas uma exigência regulatória. Foi resultado de articismo técnico, estudos aprofundados e diálogo institucional. O mesmo vale para iniciativas como o Motocheck-up e os estudos sobre acidentes, que ajudaram a qualificar o debate sobre mobilidade e segurança viária no país.
Salto de desenvolvimento tecnológico
No campo da inovação, o setor deu um salto relevante ao desenvolver, no Brasil, a tecnologia flexfuel para motocicletas. Trata-se de um marco industrial pouco valorizado no debate público, mas altamente significativo. Ele demonstra capacidade de engenharia local, adaptação tecnológica e resposta às especificidades do mercado brasileiro.
Segurança, sociedade, meio ambiente como vetores m. de inovação
Ao mesmo tempo, a Abraciclo constrói uma agenda que dialoga com temas contemporâneos. Mobilidade urbana, uso da bicicleta, sustentabilidade e educação no trânsito passam a integrar o repertório da entidade. Campanhas como a valorização da bicicleta mostram que o setor compreende sua inserção em um ecossistema mais amplo, onde indústria, inovação, sociedade, segurança e meio ambiente precisam convergir.
A força institucional da Abraciclo
Há também um papel político-institucional relevante. A atuação em Brasília, a produção sistemática de dados e a interlocução com o poder público consolidam a Abraciclo como porta-voz qualificada de um segmento estratégico. Em um país onde políticas industriais muitas vezes carecem de continuidade, essa capacidade de articulação se torna um ativo decisivo.
Indústria e floresta: uma equação possível
No pano de fundo, o que se revela é a potência do Polo Industrial de Manaus como plataforma de desenvolvimento sustentável. A indústria de duas rodas ajuda a demonstrar que é possível gerar riqueza, emprego e inovação mantendo a floresta em pé. Essa equação, tantas vezes ignorada ou distorcida no debate nacional, ganha concretude quando se observa a trajetória do setor.
O futuro sobre duas rodas
Cinco décadas depois, a Abraciclo chega aos 50 anos com um legado que combina escala produtiva, densidade tecnológica e responsabilidade institucional. Mais do que celebrar o passado, o momento impõe uma leitura estratégica do futuro. Sobre duas rodas. A mobilidade está em transformação, novas tecnologias emergem, e a agenda ambiental se torna cada vez mais central
2026 – Indústria moderna, competitiva e sustentável Permanece uma lição muito clara nesse percurso. Quando indústria, território e visão estratégica caminham juntos, o resultado vai além do crescimento econômico. É construção de um modelo que pode, sim, reposicionar a Amazônia como protagonista de uma nova economia — moderna, competitiva e sustentável.