Espécies marinhas estão desaparecendo antes mesmo de serem descobertas

Iniciativa científica reúne dados genéticos e morfológicos para identificar espécies pouco conhecidas e conter a perda acelerada da biodiversidade marinha diante das mudanças ambientais.

A perda de biodiversidade marinha nos oceanos avança em ritmo acelerado e já ameaça espécies que sequer foram descritas pela ciência. Pressionados por mudanças climáticas, destruição de habitats e organismos invasores, grupos pouco estudados, como os vermes marinhos, estão entre os mais vulneráveis à chamada “extinção silenciosa”.

Para enfrentar esse cenário, um consórcio de pesquisadores europeus lançou o projeto EuroWorm. A iniciativa da Universidade de Göttingen é voltada à catalogação de anelídeos marinhos, organismos segmentados que habitam praticamente todos os ambientes oceânicos. O objetivo é reunir informações genéticas e morfológicas dessas espécies em um banco de dados aberto, capaz de ampliar o conhecimento científico e acelerar a identificação de novas formas de vida.

Anelídeo marinho Phyllodoce rosea em ambiente oceânico, representando a biodiversidade marinha e a diversidade de vermes segmentados.
Phyllodoce rosea, um anelídeo marinho que ilustra a diversidade ainda pouco conhecida da biodiversidade marinha nos oceanos. Foto: © Hans Hillewaert

Esses animais desempenham funções essenciais nos ecossistemas, como a reciclagem de nutrientes, a oxigenação de sedimentos e o suporte às cadeias alimentares. Apesar disso, muitos permanecem desconhecidos. A estratégia do projeto inclui a coleta de amostras em regiões da Europa onde essas espécies foram originalmente registradas, contribuindo para uma compreensão mais ampla da biodiversidade marinha.

Após a coleta, os organismos passam por identificação morfológica, registro fotográfico em alta resolução e análises genômicas avançadas. Com isso, os cientistas pretendem compreender melhor as relações evolutivas entre os grupos e investigar como características como reprodução e adaptação ao ambiente se desenvolveram ao longo do tempo.

O material reunido será incorporado a coleções científicas e disponibilizado em plataformas digitais de acesso público, permitindo que pesquisadores de diferentes países, especialmente do Sul Global, utilizem os dados ou solicitem amostras para novos estudos.

Além de impulsionar a descoberta de espécies, a iniciativa reforça o papel dos museus de história natural como centros estratégicos de pesquisa. Segundo os coordenadores, a integração entre acervos históricos e tecnologias genômicas tem revelado uma diversidade ainda invisível, indicando que muitos avanços científicos começam a partir de espécimes coletados há décadas.

Com abordagem colaborativa e interdisciplinar, o EuroWorm busca documentar a biodiversidade marinha para orientar prioridades futuras de pesquisa em um cenário de rápida transformação ambiental.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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