Descoberta de fósseis antecipa origem de animais complexos em milhões de anos

Análise de fósseis raros com tecidos moles indica que grupos ancestrais de animais já existiam milhões de anos antes do previsto, redefinindo marcos da evolução biológica.

Uma descoberta no sudoeste da China está levando cientistas a revisar o surgimento da vida animal complexa, um dos marcos clássicos da evolução. Fósseis encontrados na província de Yunnan indicam que organismos com estruturas sofisticadas já existiam antes da chamada explosão cambriana, evento que há décadas é tratado como ponto de partida da diversificação dos animais.

Os exemplares foram identificados na biota de Jiangchuan e somam mais de 700 fósseis datados entre 554 milhões e 539 milhões de anos. O conjunto revela uma comunidade rica do período Ediacarano, com espécies que apresentam características mistas, algumas típicas de formas primitivas e outras associadas a grupos modernos.

A explosão cambriana, iniciada há cerca de 539 milhões de anos, sempre foi considerada o momento de rápida expansão da complexidade biológica. No entanto, os novos dados sugerem que esse processo começou antes. De acordo com os pesquisadores, animais que até então eram associados apenas ao Cambriano já estavam presentes milhões de anos antes.

Entre os fósseis analisados estão possíveis ancestrais de deuterostômios, grupo que inclui desde equinodermos até vertebrados, como peixes e humanos. Também foram identificados organismos com simetria bilateral semelhantes a vermes, além de formas que lembram estruturas iniciais de estrelas-do-mar e pepinos-do-mar.

Pepino-do-mar, animal marinho relacionado a grupos identificados em fósseis do Ediacarano
Fósseis indicam organismos com simetria bilateral semelhantes a vermes e formas iniciais de estrelas-do-mar e pepinos-do-mar. Foto: Frédéric Ducarme

O sítio também revelou organismos com tentáculos e mecanismos de alimentação mais complexos do que o esperado para a época. Parte dos exemplares apresenta morfologias inéditas, o que dificulta seu enquadramento nos grupos conhecidos e sugere uma diversidade ainda pouco documentada.

Para os cientistas, o conjunto fossilífero registra uma fase de transição entre dois momentos-chave da história da vida: o Ediacarano e o Cambriano. Essa conexão ajuda a preencher lacunas entre evidências fósseis e estudos genéticos, que já apontavam para uma origem mais antiga de diversos grupos animais.

Outro aspecto relevante da descoberta está no modo de preservação. Os fósseis foram registrados como compressões carbonáceas, um tipo raro que permite a conservação de tecidos moles, como estruturas digestivas e partes relacionadas à alimentação. Esse nível de detalhe é incomum, já que o registro fóssil costuma preservar principalmente partes duras, como conchas e esqueletos.

Segundo os pesquisadores, essa característica pode explicar a ausência de evidências semelhantes em outros locais. Em vez de indicar que esses organismos não existiam, a falta de registros pode estar associada às condições específicas necessárias para sua preservação.

Os resultados reforçam a ideia de que a evolução animal não ocorreu de forma abrupta, mas sim ao longo de um processo mais gradual, com a complexidade biológica emergindo antes do que se imaginava.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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