Após anos de pressão sobre a floresta, Acre chega às eleições de 2026 com queda no desmatamento, crise política e desafio de conciliar produção e conservação.
Esta é a segunda reportagem da série Eleições na Amazônia 2026: o saldo que chega às urnas, que analisa os principais desafios e avanços socioambientais herdados pelos estados amazônicos às vésperas da próxima disputa eleitoral.
No Acre, a transição política ocorre em meio a contradições profundas. Nos últimos anos, o estado avançou em políticas de conservação, na valorização de populações tradicionais e na criação de mecanismos pioneiros de pagamento por serviços ambientais, uma inflexão relevante em sua agenda socioambiental.
No entanto, sob a gestão de Gladson Cameli (Progressistas), iniciada em 2019, o discurso de desenvolvimento assumiu contornos mais próximos da expansão agropecuária, da infraestrutura e da abertura de novas frentes produtivas, sem priorizar a conservação florestal.
No mesmo período, cresceu a pressão sobre a cobertura vegetal, os índices de desmatamento se elevaram e o estado passou a conviver com o risco de replicar, em partes de seu território, o modelo de ocupação já observado em outras áreas da Amazônia, marcado pela conversão de floresta em pastagens e monoculturas.
Essa trajetória foi interrompida em abril de 2026, quando Cameli renunciou ao governo para concorrer a uma vaga no Senado. A sucessão ocorreu em um contexto politicamente sensível, semanas depois, o ex-governador foi condenado pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça a mais de 25 anos de prisão por organização criminosa, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações, no âmbito da Operação Ptolomeu.
Foi nesse cenário que Mailza Assis (Progressista) assumiu o Executivo acreano. A segunda mulher a governar o estado herdou uma agenda marcada por ativos e passivos. De um lado, instrumentos como o Sistema de Incentivo a Serviços Ambientais, o Programa REM e novas oportunidades de financiamento climático mantêm o Acre presente no debate sobre governança ambiental.
De outro, persistem desafios estruturais: conter o desmatamento, proteger terras indígenas e comunidades tradicionais, ampliar a adaptação a eventos climáticos e reconstruir a credibilidade institucional do estado junto a parceiros nacionais e internacionais.
A promessa de conciliar agronegócio, obras e conservação
Desde sua campanha para governador do Acre, Gladson Cameli apresentou uma agenda voltada à aceleração do crescimento econômico, com ênfase no fortalecimento do agronegócio, na ampliação da infraestrutura e na atração de investimentos.
O então candidato defendia que o estado precisava superar entraves produtivos e avançar em direção à industrialização, especialmente a partir da produção rural de grãos, carne, manejo florestal e melhoria da logística de transportes.
No discurso inicial, a expansão econômica aparecia associada à promessa de manter a floresta em pé. Cameli afirmava que era possível fortalecer o agronegócio sem ampliar o desmatamento, com uso de áreas já abertas e respeito ao Código Florestal Brasileiro.
Em entrevista ao G1 durante a campanha de 2022, ao tratar de turismo e agronegócio, ele afirmou que falar em agronegócio não significava falar em desmatamento, mas em reduzir burocracias, aproveitar áreas abertas e criar mais infraestrutura para regiões como o Juruá, a Serra do Divisor e territórios ligados à cultura indígena e aos povos da Amazônia.
Entre as principais promessas estavam a criação de uma câmara setorial do agronegócio, o fomento ao turismo ecológico, o fortalecimento da infraestrutura de transportes e a implantação de programas de manejo e conservação florestal.
No campo da bioeconomia e do desenvolvimento sustentável, uma das propostas mais emblemáticas era o Projeto Mais Floresta, que previa a desburocratização do licenciamento ambiental para exploração de madeira sob manejo sustentável, a criação do Selo Verde Acreano para certificar a origem dos produtos locais e a redução de tributos para tornar a indústria florestal mais competitiva.
O plano também incluía medidas voltadas à transição energética, como o aproveitamento de subprodutos florestais e a universalização de placas solares em comunidades rurais e ribeirinhas isoladas. Essa frente acabaria se tornando uma das entregas mais concretas da gestão, com a estruturação do Programa Mais Luz para o Acre, voltado ao atendimento energético de famílias em áreas remotas.
O descompasso entre promessa e execução
Apesar do escopo amplo das promessas, o balanço do primeiro mandato indicou uma distância significativa entre o planejamento apresentado e a execução das metas. Levantamento realizado pelo G1 mostrou que Cameli não cumpriu 66% das promessas feitas para o primeiro mandato como governador do Acre; apenas 21% foram consideradas cumpridas e 13% tiveram execução parcial.
O resultado evidencia uma das principais marcas do período, a tentativa de conciliar crescimento econômico, expansão produtiva e conservação ambiental esbarrou em baixa capacidade de entrega, prioridades redirecionadas e avanços limitados em parte das agendas prometidas.
Se algumas iniciativas, como a energia limpa em comunidades isoladas, ganharam forma, outras propostas ligadas à bioeconomia, ao manejo florestal e à certificação verde avançaram de maneira fragmentada, sem alcançar a centralidade anunciada no discurso inicial.
Contraponto: uma entrega concreta na transição energética
Apesar do baixo cumprimento geral das promessas de campanha, a transição energética foi uma das frentes que avançaram na gestão de Gladson Cameli. Em dezembro de 2023, o governo sancionou a Lei nº 4.280, que criou o Programa Mais Luz para o Acre, voltado ao custeio da instalação e manutenção de placas solares em comunidades isoladas.
A iniciativa foi estruturada em parceria com o Grupo Energisa, a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos, a Secretaria da Fazenda e a Secretaria de Planejamento. O programa complementa o Luz para Todos, do governo federal, e busca levar energia limpa a famílias que vivem fora do Sistema Interligado Nacional, especialmente em áreas rurais, ribeirinhas, indígenas e extrativistas.
Segundo o governo do Acre, até o fim de 2022, mais de 2,3 mil residências já haviam sido beneficiadas. O modelo substituiu, nessas comunidades, o uso de pequenos geradores movidos a diesel ou gasolina por sistemas solares com baterias, reduzindo a dependência do transporte de combustível por rios e ramais.
Além dos painéis, o programa incluiu a instalação da estrutura elétrica interna das casas, com fiação, lâmpadas de LED, tomadas, interruptores e orientações para o uso e a manutenção dos equipamentos. A medida ajudou a ampliar a autonomia energética de comunidades historicamente afetadas pelo isolamento e pela dificuldade de acesso à rede convencional.
A agenda de energia solar também avançou em prédios públicos. Um dos exemplos foi a usina fotovoltaica instalada na Cidade da Justiça do Acre, em Rio Branco, com produção estimada de 66 mil kWh por mês e expectativa de reduzir em cerca de 50% a conta de energia do Tribunal de Justiça do Acre.
Na prática, a experiência mostrou que a energia solar pode ser uma das alternativas mais viáveis para enfrentar o déficit histórico de eletrificação em áreas isoladas da Amazônia acreana. Embora não resolva sozinha os desafios socioambientais do estado, a política representa uma entrega concreta em meio a um balanço marcado por promessas parcialmente cumpridas e metas ambientais ainda pendentes.
A floresta pressionada pelo avanço da fronteira agropecuária
A expansão agropecuária durante a gestão de Gladson Cameli teve impactos diretos sobre a cobertura florestal do Acre. O avanço de pastagens, a fragilidade na regularização fundiária e a pressão sobre florestas públicas alimentaram um processo definido por analistas socioambientais como “rondonização”. O processo é definido como a reprodução no Acre de um modelo semelhante ao de Rondônia, marcado pela substituição da floresta por áreas de pecuária, monoculturas e ocupações irregulares.
Esse movimento foi favorecido por brechas nas regras estaduais de regularização fundiária. Sem limites mais rígidos para ocupações irregulares em terras públicas, cerca de 4,6 milhões de hectares de matas nativas não destinadas ficaram mais expostos à grilagem. Terras indígenas também passaram a sofrer maior pressão de invasões, extração ilegal de madeira e abertura de pastagens, com cerca de 300 mil hectares de vegetação afetados.
Os dados do PRODES/INPE mostram que o desmatamento cresceu de forma acentuada entre 2019 e 2022. O Acre saiu de 707 km² desmatados em 2019 para 1.006 km² em 2022, quando atingiu o maior patamar da década. O pico ocorreu em meio ao avanço das frentes de desmatamento, especialmente em áreas próximas à divisa com Rondônia e Amazonas, região conhecida como Amacro, pressionada pela grilagem e pela abertura de áreas para pastagem.
Fiscalização e financiamento ajudam a frear o desmatamento
A partir de 2023, a curva começou a se inverter. Com a retomada de políticas de controle ambiental, fiscalização em campo e planos articulados de combate ao desmatamento, o estado registrou quedas sucessivas nas taxas de desmatamento. O dado mais recente representa uma redução de mais de 72% em relação ao pico de 2022.
A queda recente do desmatamento no Acre não pode ser atribuída a um único fator. Depois do pico registrado em 2022, o estado passou a combinar fiscalização em campo, uso de inteligência territorial e retomada de instrumentos de financiamento ambiental. O Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas do Acre (PPCDQ/AC), em vigor para o período de 2023 a 2027, tem como objetivo reduzir o desmatamento e a degradação da vegetação nativa, além de prevenir queimadas e incêndios florestais por meio de ações interinstitucionais.
Na prática, a estratégia passou por operações integradas entre órgãos estaduais e federais, cruzamento de alertas de satélite, embargos de áreas desmatadas ilegalmente, aplicação de multas e apreensão de equipamentos usados em crimes ambientais, como tratores, motosserras e madeira extraída de forma irregular. Mais do que ampliar a capacidade técnica de monitoramento, a presença mais constante do Estado no território ajudou a reduzir a sensação de impunidade que alimentava a abertura clandestina de áreas.
Outro fator decisivo foi a retomada do Fundo Amazônia. O projeto Rumo ao Desmatamento Ilegal Zero no Acre recebeu R$ 97,8 milhões para fortalecer a prevenção, o controle e o combate ao desmatamento ilegal e aos incêndios florestais, além de apoiar ações de ordenamento territorial e produção agrícola sustentável. A iniciativa é alinhada ao PPCDQ/Acre e beneficia assentados da reforma agrária, pequenos agricultores, extrativistas, povos indígenas e estudantes da rede pública.
Os resultados começaram a aparecer nos dados mais recentes. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente do Acre, a taxa registrada no ano florestal de 2024–2025 ficou 43% abaixo da meta estabelecida para 2025 no PPCDQ. O avanço reforça a importância da combinação entre comando e controle, financiamento climático, apoio a populações tradicionais e fortalecimento da economia da floresta em pé.
Ainda assim, a redução não elimina os passivos acumulados. Apesar da queda, o saldo do período ainda revela forte pressão sobre o interior da floresta acreana. A perda de cobertura vegetal se concentrou em municípios como Feijó, Sena Madureira e Rio Branco, mas também avançou sobre Tarauacá, Brasiléia, Xapuri, Manoel Urbano, Cruzeiro do Sul, Capixaba e Porto Acre. O aumento das queimadas e dos incêndios rurais em terras indígenas e assentamentos completou o quadro de degradação ambiental.

Crise hídrica expôs vulnerabilidade climática do Acre
Além do desmatamento, o Acre também chega ao novo período eleitoral pressionado por eventos climáticos cada vez mais extremos. A estiagem prolongada tem reduzido o nível de rios, igarapés e açudes, comprometendo o abastecimento de comunidades rurais, ribeirinhas e áreas urbanas. O caso mais sensível é o do Rio Acre, principal manancial de Rio Branco e de outros seis municípios localizados às suas margens, onde vive mais da metade da população acreana.
A crise hídrica já havia sido reconhecida por Gladson Cameli em seu plano de governo. Durante a campanha, ele prometeu investir em obras de barragens, canais laterais, contenção de encostas e alternativas para o abastecimento de água, além de tratar o esgoto despejado no manancial. No entanto, sua gestão não executou grandes obras capazes de reduzir os impactos das secas e enchentes extremas que atingem populações ribeirinhas, indígenas e comunidades rurais.
Nos períodos mais críticos, a resposta continuou concentrada em medidas emergenciais. Famílias passaram a depender de caminhões-pipa e caixas d’água instaladas em pontos estratégicos. Em 2022, na capital de Rio Branco, a Operação Estiagem atendeu 17 comunidades rurais em 2021; no ano seguinte, esse número subiu para 21. A quantidade de pessoas assistidas com fornecimento emergencial de água também cresceu, passando de 8,3 mil para mais de 14 mil em 2022.
O problema, porém, vai além da falta de chuvas. A degradação das margens do Rio Acre, a perda de mata ciliar para a expansão agropecuária, desvios de cursos d’água para abastecimento de açudes e o despejo de esgoto sem tratamento agravaram a vulnerabilidade do manancial. O saldo da gestão Cameli, nesse ponto, é o de uma promessa reconhecida, mas não transformada em política estruturante de adaptação climática.
A agenda ambiental como ativo político e financeiro
Apesar do discurso e das políticas iniciais mais alinhadas à expansão agropecuária, a gestão de Gladson Cameli não rompeu totalmente com a arquitetura ambiental construída pelo Acre nas décadas anteriores. Com o tempo, o governo passou por uma inflexão pragmática, manteve e reativou instrumentos de captação de recursos ligados à conservação, como o Programa REM Acre – Fase II e o Sistema de Incentivo a Serviços Ambientais, o Sisa.
Essa continuidade não ocorreu apenas por compromisso ambiental. Ela também respondeu a interesses financeiros e institucionais. Em um estado com baixa capacidade de investimento próprio, os mecanismos de governança climática se tornaram estratégicos para manter parcerias internacionais, preservar a reputação do Acre e garantir a entrada de recursos externos. Nesse contexto, a cooperação com a Alemanha e o Reino Unido ganhou peso na sustentação de políticas voltadas a populações tradicionais, agricultura familiar, extrativismo e povos indígenas.
O Programa REM Acre – Fase II, financiado pelo banco alemão KfW e pelo governo britânico, foi o principal canal desse reposicionamento. Os recursos ajudaram a custear ações de apoio à agricultura familiar, ao extrativismo madeireiro e não madeireiro sustentável e à estruturação de órgãos voltados ao atendimento de comunidades isoladas, como a Secretaria Extraordinária de Povos Indígenas.
A permanência do Sisa também foi decisiva. Criado para organizar a política estadual de serviços ambientais, o sistema serviu como base técnica para que o Acre continuasse apto a acessar financiamentos nacionais e internacionais. Essa estrutura permitiu ao estado avançar na retomada de recursos junto ao Fundo Amazônia, com acesso a R$ 98 milhões, e preparar o caminho para novas oportunidades vinculadas ao mercado de carbono jurisdicional e a programas como o LEAF.
Na prática, a gestão Cameli estimulou um modelo de desenvolvimento associado à expansão produtiva, mas também preservou instrumentos ambientais porque eles se mostraram fundamentais para a captação de recursos, a interlocução internacional e a manutenção da imagem do Acre como território estratégico na agenda climática. O resultado é um balanço menos linear, houve pressão sobre a floresta, mas também a permanência de mecanismos que mantiveram aberta a possibilidade de financiar políticas de conservação e bioeconomia.
AC-405: da promessa de infraestrutura ao desgaste político
Na agenda de infraestrutura da gestão Gladson Cameli, a AC-405 foi apresentada como uma obra estratégica para a integração do Vale do Juruá. A rodovia liga Cruzeiro do Sul a municípios vizinhos, como Mâncio Lima, e foi tratada pelo governo estadual como peça importante para melhorar o deslocamento regional, estimular a economia local e ampliar a conexão entre áreas urbanas, produtivas e rurais.
Mas a duplicação e a ampliação do eixo viário também expuseram tensões socioambientais comuns em obras de infraestrutura na Amazônia. Movimentos socioambientais apontam o risco de aumento da pressão sobre a floresta no entorno da rodovia, especialmente em áreas próximas à Reserva Extrativista Japiim-Pentecoste e a zonas de amortecimento.
A abertura de ramais secundários, legais e ilegais, pode facilitar invasões, extração irregular de madeira, grilagem e avanço de pastagens sobre áreas de uso tradicional. O conflito envolve também comunidades extrativistas, ribeirinhas e indígenas que dependem da floresta em pé para atividades como coleta de açaí, borracha, óleos medicinais e pesca de subsistência.
Além do asfalto, a própria execução da obra demanda insumos como argila, piçarra e seixo, cuja retirada em margens de rios e igarapés pode gerar assoreamento, contaminação de cursos d’água e passivos ambientais quando não há recuperação adequada das áreas exploradas.
A AC-405 também se insere em uma discussão mais ampla sobre o modelo de desenvolvimento no extremo oeste do Acre. A sua ampliação ocorre em uma região sensível, próxima a terras indígenas e conectada a debates sobre corredores logísticos transfronteiriços, como o eixo Cruzeiro do Sul–Pucallpa, no Peru.
Para organizações indígenas e indigenistas, o avanço da infraestrutura viária sem salvaguardas robustas pode intensificar impactos acumulados sobre territórios tradicionais, aumentar vulnerabilidades sociais e facilitar fluxos ilícitos em áreas de fronteira.
O caso ganhou dimensão ainda mais grave com os desdobramentos da Operação Ptolomeu. Após a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenar Gladson Cameli a mais de 25 anos de prisão no processo principal da operação, o tribunal tornou o ex-governador réu em uma ação penal focada exclusivamente no “Caso Colorado”.
Orçada em mais de R$ 46 milhões, a obra da AC-405 entrou no centro das apurações sobre irregularidades em contratos de infraestrutura, incluindo suspeitas de superfaturamento e pagamento por insumos naturais que teriam sido obtidos em jazidas públicas do próprio Estado. As denúncias também apontaram vínculos entre a Construtora Colorado e o núcleo familiar de Cameli, além de falhas no Deracre, órgão responsável pela fiscalização da obra.
Assim, a AC-405 passou a simbolizar mais do que uma promessa de integração regional. A obra condensou parte das contradições da gestão: de um lado, a defesa de infraestrutura como caminho para o desenvolvimento no Acre; de outro, os riscos socioambientais associados à abertura de novas frentes viárias e a crise de governança provocada por denúncias de corrupção em contratos públicos.

Mailza Assis assume entre ativos ambientais e passivos políticos
Mailza Assis assumiu o governo do Acre em meio à dupla tarefa de administrar os passivos deixados pela gestão anterior e recuperar a credibilidade institucional do estado diante de parceiros nacionais e internacionais. Ao mesmo tempo, a nova governadora herdou uma estrutura ambiental relevante.
Entre os principais ativos estão o Sistema de Incentivo a Serviços Ambientais, o Sisa, o Centro Integrado de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental, o Cigma, além de recursos pactuados pelo Programa REM Acre – Fase II e pela retomada de financiamentos junto ao Fundo Amazônia. Esses mecanismos mantêm o Acre conectado à agenda climática internacional e são estratégicos para a captação de recursos voltados à conservação, bioeconomia e adaptação climática.
Os desafios, no entanto, permanecem expressivos. Embora o estado tenha registrado em 2025 o menor índice de desmatamento desde 2017, ainda carrega um histórico de pressão sobre municípios do interior, invasões em terras indígenas e conflitos ligados à ocupação irregular de áreas florestais.
A isso se soma a vulnerabilidade crescente a eventos extremos, como cheias severas e secas prolongadas, que afetam sobretudo comunidades ribeirinhas, indígenas e populações isoladas. Em abril de 2026, uma enchente fora de época no Rio Gregório atingiu 140 famílias Yawanawá e Katukina/Noke Ko’í, em Tarauacá, inundando moradias, destruindo roças e comprometendo o acesso à água potável.
Além das ações emergenciais, o governo estadual afirmou que pretende adotar estratégias de médio e longo prazo para adaptação climática, com integração entre órgãos públicos, diálogo com as comunidades, fortalecimento da resiliência territorial, melhoria da infraestrutura e recuperação dos danos já existentes.
Nos primeiros meses, a gestão Mailza passou a apostar na chamada governança verde como eixo de reposicionamento. A estratégia inclui integrar secretarias, fortalecer o monitoramento ambiental, avançar na certificação de créditos de carbono e revisar mecanismos de repartição de benefícios do Sisa. O objetivo é transformar a estrutura herdada em resultados concretos, com mais proteção territorial, maior segurança para os financiamentos climáticos e respostas permanentes aos impactos da crise ambiental no Acre.
O balanço dos últimos mandatos no Acre mostra um estado atravessado por contradições. De um lado, a gestão de Gladson Cameli apostou em uma agenda de crescimento baseada no agronegócio, na infraestrutura e na ampliação da capacidade produtiva. De outro, precisou preservar mecanismos ambientais estratégicos, como o Sisa e o Programa REM, fundamentais para manter a interlocução com financiadores internacionais e sustentar políticas voltadas à floresta em pé, aos povos tradicionais e à bioeconomia.
O resultado desse período não cabe em uma leitura simples. Houve entregas concretas, como a expansão da energia solar em comunidades isoladas, e a manutenção de instrumentos importantes de captação climática. Mas o estado também acumulou passivos relevantes, como o avanço recorde do desmatamento em parte do período, pressão sobre terras públicas e indígenas, conflitos socioambientais ligados à infraestrutura e uma crise institucional agravada pelas investigações e pela condenação de Cameli no STJ.
Com Mailza Assis, o Acre inicia um novo ciclo sob a necessidade de reconstruir credibilidade e reposicionar sua agenda socioambiental. A governadora herda ativos importantes, como estruturas de monitoramento, recursos climáticos e programas de serviços ambientais, mas também assume o desafio de transformar esses instrumentos em políticas permanentes de adaptação, transparência e proteção territorial.
O futuro socioambiental do Acre dependerá menos do discurso de equilíbrio entre produção e conservação e mais da capacidade de colocá-lo em prática. Para que a floresta em pé deixe de ser apenas um ativo reputacional e financeiro, será preciso reduzir o desmatamento de forma contínua, fortalecer comunidades tradicionais e adaptação climática e ampliar a bioeconomia.











