PPBio conecta investimentos de P&D da Zona Franca de Manaus a projetos de inovação, conservação ambiental e uso sustentável da biodiversidade.
A Embrapa Amazônia Ocidental promoveu, na manhã de quarta-feira (6), em Manaus, a palestra “Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio)”, com o objetivo de aproximar pesquisadores, analistas e bolsistas de pós-graduação das oportunidades de financiamento voltadas à bioeconomia amazônica.
Realizado no Auditório Caiaué, o encontro contou com o apoio do Idesam e apresentou caminhos para a captação de recursos do Polo Industrial de Manaus (PIM) destinados a projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação na região.
A atividade foi conduzida por Karol Barbosa, coordenadora do PPBio no Idesam. Durante a palestra, ela explicou como o programa atua na conexão entre empresas incentivadas pela Zona Franca de Manaus, instituições de ciência e tecnologia, startups e iniciativas ligadas ao uso sustentável da biodiversidade amazônica.
O PPBio é uma política pública da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), coordenada pelo Idesam, e tem como finalidade fomentar soluções associadas à conservação ambiental, ao desenvolvimento territorial e à valorização dos recursos naturais da Amazônia.
Na prática, o programa funciona como um mecanismo de articulação entre os investimentos obrigatórios em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) das indústrias incentivadas e projetos capazes de gerar inovação, renda e impacto positivo nos territórios amazônicos.
Atualmente, o PPBio reúne cerca de R$ 196 milhões em investimentos e conecta empresas, startups e comunidades locais com 19 Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs). O programa também soma 51 negócios incentivados, mais de 240 soluções inovadoras apoiadas e contribuição para a geração de mais de 800 empregos.
“A aproximação entre as instituições amplia a base de projetos financiados na região, unindo a experiência da Embrapa em pesquisa agropecuária e florestal aos mecanismos de fomento geridos pelo Idesam”, destacou Karol Barbosa.
Para a chefe-adjunta de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Amazônia Ocidental, Kátia Emídio, a iniciativa representa uma oportunidade de ampliar o acesso das equipes técnicas a novas fontes de fomento e fortalecer a aplicação prática do conhecimento científico produzido pela instituição.
“Aproximar os nossos pesquisadores e bolsistas do PPBio abre caminhos concretos para transformar o conhecimento científico em bioprodutos e soluções de mercado, conectando diretamente a nossa expertise em bioeconomia com o fomento do Polo Industrial de Manaus”, afirmou.
Após a apresentação, Karol Barbosa respondeu perguntas dos participantes e detalhou que o acesso aos recursos do PPBio ocorre exclusivamente por meio de editais e chamadas públicas. As oportunidades devem ser acompanhadas no portal oficial de chamadas do Idesam.
Os projetos apoiados pelo programa abrangem áreas consideradas estratégicas para a Amazônia, como bioeconomia, cadeias produtivas sustentáveis, conservação ambiental, manejo florestal, restauração, mitigação climática e neutralização de carbono.
Ao aproximar instituições de pesquisa, setor produtivo e instrumentos de financiamento, o PPBio busca ampliar a transformação do conhecimento científico em soluções sustentáveis. A iniciativa também evidencia o papel da bioeconomia como caminho para gerar inovação, conservar a biodiversidade e valorizar os territórios amazônicos.
Haddad parte de uma constatação desconfortável. O Brasil ingressa no próximo lustro carregando um paradoxo estrutural. É uma potência territorial, ambiental, energética e mineral, mas convive com crescimento medíocre, desigualdade persistente, baixa capacidade de coordenação estatal e sucessivos ciclos de curto-prazismo eleitoral.
Comentários de Alfredo Lopes
Paulo Roberto Haddad escreveu um texto raro no debate econômico brasileiro contemporâneo. “Brasil: A Grande Transformação” não é apenas um ensaio sobre política econômica, tampouco uma coletânea de propostas técnicas para o próximo ciclo eleitoral. Trata-se de uma reflexão de fôlego histórico sobre o esgotamento de um modelo de gestão pública baseado em improvisos incrementais, austeridade fragmentada e ausência de horizonte estratégico. O trabalho recoloca no centro da discussão nacional uma palavra que praticamente desapareceu do vocabulário político brasileiro: planejamento.
Haddad parte de uma constatação desconfortável. O Brasil ingressa no próximo lustro carregando um paradoxo estrutural. É uma potência territorial, ambiental, energética e mineral, mas convive com crescimento medíocre, desigualdade persistente, baixa capacidade de coordenação estatal e sucessivos ciclos de curto-prazismo eleitoral. O autor descreve com precisão esse modelo de “ajustes incrementais”, onde governos passam décadas apagando incêndios sem enfrentar as causas profundas do atraso nacional.
O mérito maior do trabalho talvez esteja justamente em recuperar a dimensão civilizatória da economia. Haddad recoloca a política econômica no terreno da sociedade, da cultura institucional e da visão de futuro. Seu diálogo com Karl Polanyi, Keynes, Ignácio Rangel, Celso Furtado, Hirschman e Schumpeter não é ornamental. Serve para lembrar que grandes ciclos de desenvolvimento nunca nasceram da mera estabilidade monetária, mas da combinação entre liderança política, projeto nacional, inovação tecnológica e capacidade de mobilização coletiva.
Ao revisitar o Plano de Metas de JK, os ciclos industriais do pós-guerra e a própria experiência internacional das “grandes transformações”, Haddad mostra que os períodos de expansão sustentada surgem quando uma nação rompe a lógica defensiva da administração cotidiana e assume uma agenda reestruturante. Seu argumento central é cristalino: o Brasil precisa voltar a pensar em ciclos históricos e não apenas em mandatos.
Há, ao longo do texto, um embate permanente entre duas concepções de país. De um lado, a austeridade fiscal concebida como fim em si mesma, subordinando toda a vida nacional ao equilíbrio contábil. De outro, a ideia de desenvolvimento sustentável entendido em sua dimensão integral: competitividade econômica, equidade social e sustentabilidade ambiental. Haddad não ignora a gravidade fiscal brasileira. Pelo contrário. Reconhece a necessidade do ajuste, mas questiona a crença quase religiosa de que o crescimento virá espontaneamente como consequência automática da estabilidade monetária.
Nesse ponto, o texto ganha densidade política. O autor identifica o avanço de um populismo administrativo que, em momentos de exaustão econômica, substitui reformas estruturais por decisões imediatistas, fisiológicas e eleitorais. A crítica não se limita a governos específicos. É dirigida a uma cultura política nacional que desaprendeu a pensar o longo prazo.
Mas a obra não se encerra na crítica. Haddad propõe caminhos concretos. Seu conceito de “Grande Transformação” passa pela reorganização do orçamento público, por um novo pacto de planejamento participativo, pela reconstrução da capacidade indutora do Estado e por um amplo programa de investimentos estruturantes. É particularmente relevante sua defesa de uma nova revolução industrial associada àbioeconomia, à produtividade ecológica e à transição energética.
Para a Amazônia, o texto oferece contribuições estratégicas de enorme atualidade. Haddad rejeita simultaneamente dois extremos que empobrecem o debate regional: o extrativismo predatório e o ambientalismo contemplativo. Sua defesa da bioeconomia amazônica aparece vinculada à industrialização do conhecimento, às cadeias de valor, à agregação tecnológica e à geração de renda local. A floresta em pé deixa de ser apenas um símbolo moral e passa a integrar uma arquitetura econômica concreta.
Há também uma dimensão geopolítica importante. O autor percebe que o mundo caminha para uma reorganização profunda das cadeias produtivas, marcada pelo protecionismo tecnológico, pela disputa mineral, pela transição energética e pela fragmentação da globalização liberal. Seu diagnóstico sobre o “tarifaço” de Trump e o retorno das estratégias nacionais de desenvolvimento industrial é particularmente agudo.
Em vários momentos, o ensaio alcança grande força literária e filosófica. As referências ao “Paradoxo de Alice”, ao “Paradoxo de Pollyanna” e à tradição crítica europeia ajudam a construir um texto que ultrapassa o tecnicismo convencional da economia acadêmica. Haddad escreve como alguém que conhece profundamente as engrenagens do Estado, mas que ainda preserva a inquietação intelectual diante do destino do país.
Seu trabalho é, no fundo, uma advertência. O Brasil corre o risco de entrar na segunda metade do século XXI ainda discutindo os mesmos impasses do final do século XX: desigualdade extrema, baixa produtividade, dependência primária, fragmentação territorial e destruição ambiental. A ausência de um projeto nacional não produz neutralidade. Produz decadência administrada.
“Brasil: A Grande Transformação” recoloca no debate público a ideia de que desenvolvimento não nasce da inércia dos mercados nem da liturgia burocrática dos ajustes fiscais. Desenvolvimento é construção política, institucional e civilizatória.
Num país cansado de improvisos, o texto de Paulo Roberto Haddad devolve ao debate econômico brasileiro algo quase esquecido: ambição histórica.
ANOTAÇÕES PARA O NOVO LUSTRO DA ECONOMIA BRASILEIRA: 2026 A 2030– A GRANDE TRANSFORMAÇÃO –X. BRASIL
Paulo R. Haddad –Membro da Academia Mineira de Letras/ Belo Horizonte – Maio/2026
A partir do início de 2026, deverá ocorrer um amplo conjunto de debates durante o processo eleitoral, relativo ao futuro da economia nacional e das economias estaduais. Elaborei 10 textos que, a partir de minhas experiências de planejamento nos três níveis de governo, durante algumas décadas, poderão eventualmente ser úteis como subsídios atualizados para propostas de planos, políticas públicas e projetos dos candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais.
Esses textos se referem ao resgate dos processos de planejamento de médio e de longo prazo, à avaliação das políticas públicas em andamento, à articulação das políticas macroeconômicas de curto prazo com as políticas de desenvolvimento sustentável (=crescimento econômico globalmente competitivo + equidade social + sustentabilidade ambiental) e às propostas da estrutura de novos planos de governo. O décimo texto irá conter um esboço de uma proposta para uma Grande Transformação do Brasil, no próximo lustro.
TEXTOS
I. Anotações Introdutórias: o Brasil que queremos
II. O que fazer com o planejamento nos estados?
III. O planejamento do desenvolvimento sustentável dos estados e municípios
IV. O futuro da Amazônia: savanização ou sustentabilidade?
V. A construção de uma nova política econômica: estabilização monetária com desenvolvimento sustentável
VI. Políticas sociais e regimes de desigualdades no Brasil
VII. Atualização das políticas ambientais no Brasil
VIII. Atualização das políticas de desenvolvimento regional no Brasil
IX. O futuro do capitalismo no Brasil
X. Brasil: a Grande Transformação
“A crença no progresso espontâneo pode cegar-nos quanto ao papel do Governo na vida econômica. Esse papel consiste, muitas vezes, em alterar o ritmo de mudança, apressando ou diminuindo, conforme o caso. Se acreditarmos que tal ritmo é inalterável ou, o que é pior, se acreditarmos ser um sacrilégio interferir com ele, então, não existe mesmo campo para qualquer intervenção”.
Karl Polanyi – “A Grande Transformação” (1943)
“Partimos ainda da necessidade permanente de planejamento, pois não basta traçar um plano, mas é preciso permanentemente aperfeiçoá-lo, em função de novos conhecimentos que se adquire sobre os fatores e às técnicas a empregar, bem como das variáveis independentes; e ainda em função de erros verificados no curso de execução dos programas. Erros sempre inevitáveis, embora o objetivo seja prever e evitar ou reduzir erros futuros”.
Pastas Rosas de Rômulo Almeida – SEPLAN/Bahia
INTRODUÇÃO: O ESTILO DE GOVERNAR
1.O futuro presidente da República e os futuros 27 governadores irão encontrar o País e os estados com graves problemas socioeconômicos e socioambientais, que deverão ser confrontados em um contexto de crise fiscal e financeira. O que fazer durante os seus mandatos de 2026 a 2030? Haverá saída alternativas ou terão que fazer mais do mesmo, como seus antecessores?
Em primeiro lugar, é preciso destacar que, nesse confronto, irão esbarrar numa série de restrições e condicionalidades para conceber e implementar ações que possam equacionar os graves problemas. A nova gestão do Governo Federal terá que controlar os déficits fiscais potenciais e os limites de endividamento do setor público consolidado, e os governos estaduais, quase todos, estarão com suas finanças em situação crítica.
Em segundo lugar, o País e as unidades da Federação, em sua maioria, estão vivenciando um processo de crescimento lento, o que impacta negativamente a expansão dos níveis da renda, do PIB, dos empregos de qualidade e da base tributável. Ou seja, menos recursos e mais restrições para enfrentar os velhos problemas.
Em terceiro lugar, a economia mundial, na era Trump, num contexto de superprotecionismo e num ambiente de negócios em elevado grau de incertezas e de risco, levará os agentes econômicos a postergar projetos de investimentos diretamente produtivos que se realizam no médio e no longo prazo. Em um ambiente de superprotecionismo, ocorrerão também imensas dificuldades para viabilizar o potencial exportador do País e obter financiamentos externos.
A experiência brasileira, desde 2014, quando se caracterizou a crise de crescimento na economia do país e em muitos estados, mostra que inúmeros governantes iniciaram os seus mandatos com o compromisso de implementar um conjunto de reformas de base, visando a modernizar o sistema político- institucional para a retomada do processo de desenvolvimento sustentável do País e de suas regiões, estados e municípios.
Como o processo de transformação é lento e politicamente desgastante, os governantes se impacientam, desaceleram o esforço reformista e assumem o estilo populista de governar, passando a ser guiados por uma perspectiva de ações de curto prazo. O sistema eleitoral, que permite a reeleição nos três níveis de governo, é um fator a mais para impulsionar a busca de resultados imediatistas durante os seus mandatos: decisões oportunísticas e fisiológicas são tomadas na gestão do primeiro mandato, para garantir a reeleição do segundo mandato.
2. O estilo de condução das políticas públicas para resolver os nossos problemas socioeconômicos e socioambientais tem sido, desde 2014, o que se denomina de ajustes incrementais. Segundo esse estilo de governar, mesmo sem uma visão do futuro, sempre que os formuladores das políticas públicas encontram um hiato ou um descompasso entre uma realidade observada e uma situação ideal, adotam, em seguida, medidas de comando e controle ou de mecanismos de mercado para preencher esse hiato. Ao se fechar um hiato, contudo, sempre se abrem outros; ao se resolver um problema, criam-se outros, e então esses passam, num momento seguinte, a serem percebidos politicamente como problemas e são realizadas novas tentativas com o objetivo de fechar os hiatos entre as situações ideais e a realidade.
Segundo Kenneth Boulding, esse estilo pragmático de governar, com foco no curto prazo e em ações casuísticas, pode ramificar-se quase indefinidamente, e há muitas situações em que se torna razoavelmente bem-sucedido como padrão de resolver problemas e mobilizar os potenciais de desenvolvimento de um país ou de uma região. E os gestores públicos se sentem gratificados com sua habilidade e pragmatismo quando vão vencendo as batalhas do dia a dia, em uma sequência interminável de novos problemas. Como diriam os franceses “à chaque jour suffit sa peine”.
A situação muda totalmente de figura quando a exaustão de um ciclo de prosperidade ocorre e a economia perde sua dinâmica de crescimento. O crescimento econômico não é um subproduto cronológico de um ajuste qualquer. Num contexto em que prevalecem, simultaneamente, uma crise social e uma crise ambiental, surgem problemas de grande dimensão, complexidade e transversalidade, que podem não ser percebidos e muito menos resolvidos, isoladamente, por nenhum protagonista ou instituição, que se encontram, muitas vezes, autocentrados nos seus interesses específicos de curto prazo ou imediatistas.
Emerge, pois, a necessidade complementar de um novo e indispensável estilo de governar, baseado em um enfoque de perspectiva ou de visão de futuro, através do processo de planejamento de longo prazo, no qual as ações programáticas sejam de natureza reestruturantes e não incrementais; vocacionadas para grandes mudanças e transformações econômicas, político–institucionais; inovadoras no sentido de buscar alternativas para a solução dos problemas estruturais. Esse novo estilo aparece nas experiências históricas de desenvolvimento de muitos países, com a denominação de Grande Transformação.
3. O estilo de governar segundo ações incrementais de curto prazo tem características operacionais, segundo a análise histórica de Barry Eichengreen, da Universidade de Stanford, na Califórnia*, levando ao populismo político-administrativo. O populismo está florescendo em um contexto de nossa história de fraco desempenho da economia (no século 21, estamos na terceira década perdida de desenvolvimento), de desigualdades sociais e regionais profundas (estamos entre os cinco países do mundo ocidental com maior concentração de renda e de riqueza, e sem políticas de desenvolvimento para as áreas economicamente deprimidas), de mobilidade social declinante (com milhões de brasileiros desempregados, subempregados ou desalentados) e precário campo de oportunidades para as novas gerações (a taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos ficou em 29,8% ao fim de 2020, antes da crise da pandemia da Covid-19).
As políticas econômicas de líderes populistas autoritários são danosas e destrutivas, e os seus impactos sobre as instituições são corrosivos. A melhor ilustração, no atual contexto brasileiro, foi a desconstrução das instituições que formulam e implementam as políticas públicas ambientais, resultando em perdas irreparáveis de nossos ativos e serviços ambientais em todos os Biomas, particularmente na Amazônia, tal como ocorreu na gestão passada (2019-2022) do Governo Federal.
Outra característica do estilo populista de governar: o populismo arregimenta a população contra a informação e o conhecimento científicos. Como ocorreu com o comportamento das autoridades do Governo Federal face às estratégias de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus: desautorização das recomendações dos cientistas brasileiros de padrão técnico internacional e a crença tipicamente medieval em propriedades imaginárias dos benefícios no tratamento precoce.
Como dizia o pensador austríaco Carl Menger, um dos mentores do liberalismo da Escola de Economia de Chicago, ainda em 1870: “Quanto mais elevada for a cultura de um povo, e quanto mais profundamente os homens investigarem a sua própria natureza, tanto menor será o número de bens imaginários”*.
Eichengreen ainda destaca duas características do estilo populista de governar que podem ser observadas nas práticas cotidianas. O populismo é divisivo e provoca, recorrentemente, desacordos e tensões entre interesses conflitantes na sociedade. E as atitudes que esses líderes estimulam têm a capacidade de promover o que há de pior entre os seus seguidores.
O Brasil tem, atualmente, grandes problemas estruturais que necessitam ser equacionados por meio de um processo de planejamento de longo prazo, destacando-se:
a) a necessidade de estruturar e implementar o terceiro ciclo de expansão do pós-II Grande Guerra visando a fazer crescer, de forma acelerada e sustentável, os níveis de renda, de emprego e da base tributável;
b) erradicar a miséria social e reduzir os níveis de concentração da renda e da riqueza nacional;
c) atenuar os desequilíbrios regionais de desenvolvimento;
d) conservar, preservar e equilibrar os nossos ecossistemas;
e) operacionalmente, adequar as estruturas dos orçamentos anuais e plurianuais aos objetivos de desenvolvimento sustentável (= competitividade sistêmica + equidade social + sustentabilidade ambiental) e da reforma do Estado.
Esses problemas socioeconômicos e socioambientais não podem ser equacionados através de uma sequência de ajustes de curto prazo, mas através de processos de planejamento de longo prazo visando a promover uma Grande Transformação. (ver Box 1)*
BOX 1
A GRANDE TRANSFORMAÇÃO
Quando se vive uma crise econômica muito profunda, capaz de nos atormentar, há uma tendência de acreditarmos, em algum momento, que se chegou ao fundo do poço e que tudo tende a melhorar a partir daí. Muitas vezes um espasmo mensal de crescimento no ciclo econômico passa a ser confundido com o início de uma nova fase de prosperidade da economia.
A expansão do emprego localizada em um setor específico faz surgir esperança de que as taxas de desemprego irão diminuir de forma generalizada, ou a ilusão de que o reequilíbrio de força entre as potências econômicas mundiais será alterado por causa de novo evento político e que o processo de globalização econômico-financeira vai se redinamizar e abrir novas oportunidades de comércio.
A dificuldade maior é que, em economia, muitas vezes, existe um fenômeno denominado de causação circular de efeitos acumulativos, de tal forma que uma ação gera reações que se acumulam e se aprofundam na mesma direção em um círculo vicioso e não na direção oposta de um reequilíbrio virtuoso. Nesse contexto, é indispensável que se concebam e se implementem grandes mudanças e transformações para sair do círculo vicioso.
Por exemplo, um país mais pobre e de baixa renda não dispõe da poupança necessária para financiar os investimentos que poderiam ampliar a sua capacidade produtiva com mais fábricas, mais áreas agricultáveis, mais infraestrutura econômica, social e mais empregos. Menor capacidade produtiva significa menor capacidade de gerar uma renda nacional maior, o que está associado com menor nível de poupança da sociedade. Fecha-se, assim, o círculo vicioso da pobreza, ou seja, pobreza gera mais pobreza.
O mesmo pode ser dito da recessão econômica: recessão econômica gera mais recessão econômica e não um eventual fundo do poço a partir do qual pode ocorrer um processo de retomada econômica. O fundo do poço da economia é uma imagem ilusória da “síndrome do W e do V”, segundo a qual após a queda do nível de renda e de emprego, em algum momento deverá emergir, pelas forças do mercado, a retomada do crescimento (V), ainda que possa vir a ocorrer um duplo mergulho seguido de uma dupla retomada (W).
Há três mecanismos através dos quais o processo recessivo de hoje pode se tornar o embrião da recessão econômica de amanhã. Em primeiro lugar, se a recessão se prolonga, cria-se uma capacidade ociosa nas fábricas e na infraestrutura da economia, o que não incentiva novos investimentos que poderiam propulsionar os níveis de emprego e de renda. Não se investe porque fica a impressão de que se investiu em excesso no passado; não há pois, efeito de aceleração. É o caso de uma profecia autoconfirmada.
Em segundo lugar, desempregados não têm renda para financiar os seus gastos de consumo, por isso reduzem a demanda de encomendas às empresas que são induzidas a desempregar mais. O desempregado de hoje poderá ser a causa do desempregado de amanhã, enredados pela causação circular acumulativa da recessão.
Em terceiro lugar, o governo, que poderia realizar investimentos adicionais em infraestrutura e ativar os efeitos multiplicadores de emprego e renda, não tem como financiá-los diante da redução persistente de receitas tributárias num regime recessivo.
Como interromper essa causação circular que acumula mazelas sociais e mal-estar econômico? Como iniciar um processo de causação circular onde o empregado de hoje poderá favorecer o empregado de amanhã, onde o gasto público se multiplique em receita pública e o consumo reative os negócios? É preciso não se limitar às práticas usuais de ajustes de curto prazo e avançar na estruturação de um modelo da Grande Transformação.
É necessário construir as bases de uma nova política econômica de ajuste com crescimento, a qual, de início, precisa acelerar a queda nas taxas de juros a fim de oxigenar as expectativas dos agentes econômicos. Não é possível conviver com taxas de juros nos limites da agiotagem financeira, que sufocam empresas e governos endividados e ampliam os ganhos especulativos dos detentores da riqueza financeira nacional.
Keynes dizia que o capitalismo somente poderia encontrar legitimidade se as pessoas de rendas mais modestas continuassem a acreditar que as pessoas mais ricas mereciam sua sorte graças às suas contribuições construtivas para a sociedade, e não graças à especulação e ao roubo.
EXPERIÊNCIAS HISTÓRICAS DA GRANDE TRANSFORMAÇÃO: QUANDO E POR QUÊ?
Há inúmeras experiências históricas de Grande Transformação (mudanças nos regimes econômicos, nos modelos de desenvolvimento, nas estruturas de inovações tecnológicas, etc.) em diversos países e regiões, em diferentes períodos. Destacaremos algumas dessas experiências que foram realizadas nos séculos 20 e 21, quase sempre como alternativa político-institucional à alguma crise prevalecente. É preciso compreender quando e por que ocorreram, a partir de lições do passado.
II.1. O PLANO DE METAS DE JK E A INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA
A inserção econômica e geopolítica do Brasil no contexto internacional depende, entre outros fatores, do modelo de crescimento que tem prevalecido em cada período de nossa história. Um modelo de crescimentosintetiza politicamente o conjunto de interesses conflitantes entre os diferentes grupos e classes, regiões e setores produtivos da sociedade e permite delimitar também os papéis que os recursos naturais desempenham em cada contexto macroeconômico global.
É possível mostrar que o atual modelo de crescimento do Brasil manifesta-se por meio do avanço de um processo mais intenso de globalização econômica e financeira, desde o início da década dos anos 1990, e que é preciso não confundir suas características estruturais com o modelo primário exportador de crescimento, que prevaleceu no período colonial e nos primeiros anos da República, cuja base econômica tradicional era predominantemente do primeiro beneficiamento de recursos naturais para exportação.
Na Figura 1 apresentada por Ignacio Rangel, um dos mais brilhantes economistas brasileiros do século passado, nascido no Maranhão (1914-1994), a economia brasileira é representada didaticamente por três estruturas produtivas: a economia de subsistência, a economia pré-capitalista (com mão de obra escrava) e a economia capitalista. De acordo com a Figura 1, quando se desloca verticalmente para cima fatores de produção (terra, capital técnico, trabalho) que têm usos alternativos, de uma estrutura para outra, ampliam-se a divisão social do trabalho e os ganhos de produtividade total dos fatores na economia brasileira.
Na economia de subsistência, a produção destina-se ao autoconsumo, com baixo grau de divisão social do trabalho (exemplo: uma família camponesa cria o boi, tira o couro, trata o couro, e faz a sandália); as economias pré-capitalistas (nos ciclos do ouro e da cana de açúcar dos séculos 17 a 19, por exemplo) e capitalistas inserem-se na divisão internacional do trabalho, com elevados graus de produtividade, por meio de vantagens comparativas ou de vantagens competitivas.
A Grande Transformação ocorreu contudo, a partir do Plano de Metas do Presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961) com 31 metas estratégicas (30 principais + a Meta-Síntese: Brasília) de tal forma que o processo de substituição de importações colocou o Brasil, no início dos anos 1960, como a nação mais industrializada do Terceiro Mundo*.
O Polo Industrial de Manaus voltou a operar em ritmo acelerado no setor de duas rodas. Entre janeiro e abril deste ano, as fabricantes instaladas no PIM produziram 745.824 motocicletas, volume 10,6% superior ao registrado no mesmo período de 2025. Os dados são da Abraciclo e apontam o melhor resultado para um primeiro quadrimestre desde 2008.
O desempenho confirma a recuperação consistente do segmento, impulsionada pela expansão da demanda interna e pelo fortalecimento do uso da motocicleta como alternativa de mobilidade urbana, instrumento de trabalho e opção de lazer. Para o presidente da Abraciclo, Marcos Bento, o setor atravessa um momento de forte aquecimento produtivo.
Segundo ele, as fabricantes vêm operando em elevada capacidade para atender o crescimento do mercado, movimento que também reflete mudanças no perfil do consumo brasileiro.
Somente em abril, saíram das linhas de montagem 184.376 motocicletas, o maior volume já registrado para o mês nos últimos 18 anos. Na comparação com abril do ano passado, o crescimento foi de 6,4%. Em relação a março, houve retração de 13,3%, explicada principalmente pela diferença no número de dias úteis.
“Em abril tivemos dois dias úteis a menos em relação a março, impactando diretamente o resultado da produção”, observou Bento.
A liderança da produção continua concentrada nas motocicletas da categoria Street, que responderam por mais da metade do volume fabricado no quadrimestre. Foram 383.485 unidades, equivalentes a 51,4% da produção total. Em seguida aparecem os modelos Trail, com 148.785 unidades e participação de 19,9%, além das Motonetas, que alcançaram 97.800 unidades, representando 13,1% do total produzido.
O padrão se repetiu no desempenho mensal de abril, mantendo a predominância dos modelos voltados ao uso urbano e cotidiano.
No recorte por cilindrada, porém, o destaque ficou com os modelos de alta cilindrada, que cresceram 43,3% em relação ao mesmo período do ano passado. O avanço acompanha a ampliação da oferta de modelos voltados ao turismo, viagens e uso recreativo.
“Houve vários lançamentos direcionados ao consumidor que utiliza a motocicleta para lazer e deslocamentos de longa distância”, afirmou o presidente da Abraciclo.
Apesar do avanço das motos premium, os modelos de baixa cilindrada seguem sustentando a maior parte da produção nacional. Entre janeiro e abril, foram fabricadas 581.723 unidades dessa categoria, equivalentes a 78% do total produzido. As motocicletas de média cilindrada responderam por 142.735 unidades, ou 19,1%, enquanto as de alta cilindrada somaram 21.366 motocicletas, participação de 2,9%.
Em abril, a configuração permaneceu praticamente a mesma. As motos de baixa cilindrada lideraram com 145.992 unidades fabricadas, seguidas pelas de média cilindrada, com 32.330 unidades, e pelas de alta cilindrada, que atingiram 6.054 motocicletas.
No varejo, os indicadores também bateram recordes. De janeiro a abril, os licenciamentos totalizaram 782.364 motocicletas, crescimento de 19,1% sobre o mesmo período de 2025. Trata-se do melhor resultado da série histórica para um primeiro quadrimestre.
Em abril, os emplacamentos chegaram a 210.636 unidades. O volume representa alta de 15,3% em relação ao mesmo mês do ano anterior, embora tenha registrado leve retração de 5% frente a março. Considerando os 20 dias úteis do mês, a média diária de vendas ficou em 10.532 motocicletas.
As exportações também avançaram. No acumulado do quadrimestre, foram embarcadas 14.925 motocicletas produzidas no PIM, alta de 22,7% na comparação anual. Em abril, as exportações alcançaram 3.484 unidades, crescimento de 38% frente ao mesmo mês de 2025. Em relação a março, houve redução de 24,4%.
O desempenho reforça o peso estratégico do setor de duas rodas dentro da estrutura industrial da Zona Franca de Manaus, especialmente em um momento de expansão do mercado doméstico e aumento da demanda por soluções de mobilidade individual no país.
Acesse a apresentação com os números completos do Segmento de Produção de Motocicletas:
Fundada em 1976 e contando com 15 associadas, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares – ABRACICLO representa os fabricantes de veículos de duas rodas no país, tendo como principal missão promover o desenvolvimento sustentável e a competitividade do Setor de Duas Rodas, apoiando e defendendo a indústria nacional estabelecida no Polo Industrial de Manaus – PIM por meio dos pilares Política Industrial, Segurança Viária e Técnico.
A fabricação nacional de motocicletas, quase totalmente concentrada no Polo Industrial de Manaus (PIM), está entre as seis maiores do mundo. No segmento de bicicletas, com as principais fábricas também instaladas no PIM, o Brasil se encontra na quarta posição entre os principais produtores mundiais. No total, as fabricantes do Setor de Duas Rodas geram mais de 21,8 mil empregos diretos em Manaus/AM e mais de 154 mil em todo o Brasil.
“Reforma tributária e o desafio de modernizar o comércio brasileiro sem sufocar quem produz, emprega e movimenta a economia real”
Durante décadas, o setor comercial brasileiro aprendeu a sobreviver num ambiente tributário tão complexo quanto imprevisível. Não por acaso, muitos empresários transformaram a habilidade de interpretar normas fiscais em vantagem competitiva. Em certos casos, o contador passou a ser tão importante quanto o vendedor. Em outros, mais importante.
A reforma tributária muda esse eixo histórico.
Ainda existem dúvidas relevantes sobre transição, calibragem de alíquotas, funcionamento do cashback, impactos regionais e comportamento do consumo. Mas uma percepção começa a se consolidar entre empresários atentos: a reforma não será apenas uma mudança de imposto. Ela alterará cultura de gestão, precificação, estratégia logística, organização financeira e até a relação entre indústria, comércio e consumidor.
O comércio, especialmente no Amazonas e na Amazônia, precisa compreender isso antes que a mudança deixe de ser debate e vire rotina operacional.
Muitos empresários ainda observam a reforma apenas pela ótica do medo. E há razões para cautela. O varejo trabalha com margens apertadas, forte dependência de fluxo de caixa e elevada sensibilidade ao consumo popular. Qualquer alteração brusca em crédito tributário, prazo de compensação ou aumento de custo financeiro pode comprometer operações inteiras.
Mas talvez o maior risco seja outro: continuar administrando empresas novas com mentalidade tributária velha.
A reforma tende a reduzir parte da cumulatividade invisível que historicamente se espalhava pelas cadeias produtivas. Isso exige do setor comercial uma mudança profunda na forma de enxergar custos. Muitos negócios descobrirão que tinham preços mal estruturados, estoques desorganizados e operações excessivamente dependentes de distorções fiscais regionais.
O primeiro movimento deveria ser quase obrigatório:
Profissionalizar radicalmente a gestão tributária e financeira. Não basta mais terceirizar o tema para o escritório de contabilidade no fim do mês. O sistema de crédito financeiro previsto na reforma exigirá acompanhamento permanente, integração digital e controle rigoroso de entradas, saídas e aproveitamento de créditos.
Quem continuar tratando tributação como mera obrigação acessória provavelmente perderá competitividade.
O segundo ponto envolve estoque e logística.
A nova lógica tributária tende a favorecer eficiência operacional. Empresas com armazenagem desorganizada, múltiplos centros pouco eficientes e baixa integração tecnológica poderão sofrer mais. O imposto passará a acompanhar com mais precisão o destino do consumo. Isso altera decisões comerciais, rotas de distribuição e estratégias regionais.
Na Amazônia, onde logística nunca foi detalhe, essa discussão ganha dimensão ainda mais séria.
Há um aspecto pouco debatido: a reforma tributária poderá acelerar a concentração econômica caso pequenos e médios comerciantes não recebam apoio técnico e financeiro para adaptação. Grandes grupos possuem departamentos fiscais robustos, sistemas integrados e capacidade de investimento tecnológico. O pequeno empreendedor da periferia, do interior ou do comércio tradicional não dispõe da mesma estrutura.
Sem transição inteligente, o país corre o risco de simplificar o sistema para os grandes e complicar a sobrevivência dos menores.
Por isso, entidades empresariais, federações comerciais, associações e governos estaduais precisam abandonar a postura meramente política diante da reforma e assumir papel pedagógico. Será necessário criar programas massivos de orientação empresarial, treinamento operacional e adaptação tecnológica.
A reforma exigirá alfabetização tributária em larga escala.
Outro ponto importante diz respeito ao relacionamento com o consumidor.
Durante muito tempo, o sistema tributário brasileiro permitiu esconder impostos dentro da cadeia produtiva. A nova lógica tende a tornar a tributação mais transparente. Isso pode alterar a percepção do cidadão sobre preço, carga tributária e responsabilidade do Estado.
O comércio precisará aprender a dialogar melhor com o consumidor sobre composição de preços, custos operacionais e impacto fiscal. Transparência deixará de ser apenas virtude institucional. Passará a ser estratégia de confiança.
No caso da Zona Franca de Manaus, o setor comercial também precisará acompanhar com atenção os mecanismos de compensação e manutenção da competitividade regional. Ainda existe uma disputa silenciosa sobre interpretação, regulamentação e operacionalização dos incentivos dentro do novo modelo tributário.
A insegurança jurídica nunca desaparece por decreto.
Por isso, empresários amazônicos não podem assistir à regulamentação da reforma como espectadores passivos. É indispensável participação ativa nas discussões técnicas, acompanhamento permanente do Congresso, diálogo com entidades nacionais e construção de inteligência regional.
A Amazônia já perdeu oportunidades demais por chegar atrasada aos processos decisórios. No fundo, talvez a reforma tributária imponha ao setor comercial uma pergunta desconfortável: o empresário quer apenas sobreviver ao novo sistema ou pretende aproveitar a transição para modernizar sua empresa? Porque há uma diferença importante entre os dois movimentos.
Sobreviver é defensivo. Modernizar é estratégico.
O Brasil entra lentamente num ambiente em que integração digital, rastreabilidade, eficiência logística, transparência fiscal e inteligência de dados deixarão de ser diferencial para se tornar condição mínima de permanência no mercado.
E talvez esteja aí uma ironia tipicamente brasileira: depois de décadas tentando sobreviver à complexidade do sistema tributário, o comércio nacional poderá descobrir que seu maior desafio não era o imposto em si, mas o atraso estrutural que aprendemos a normalizar para conviver com ele.
Em Itacoatiara, um laboratório de tecnologia instalado no segundo andar de uma loja da Bemol revela como a Amazônia começa a transformar pertencimento, inovação e floresta em uma nova utopia de desenvolvimento.
Coluna Follow-Up
Durante muito tempo, a Amazônia exportou seus filhos. Exportou inteligência, juventude, energia criativa e esperança. O roteiro era conhecido. O interior formava, expulsava e assistia partir. Manaus aparecia como passagem obrigatória. Depois vinham São Paulo, Brasília, exterior. A floresta permanecia como origem afetiva, mas raramente como lugar de futuro.
Itacoatiara e a nova geografia da oportunidade
Ali, às margens do rio Amazonas, um pequeno laboratório instalado no segundo andar de uma loja começa a desafiar, decididamente , esse destino histórico.
O cenário parece simples. Embaixo, o movimento cotidiano da Bemol. Crediário, eletrodomésticos, ferramentas, celulares, utilidades cotidianas, o fluxo habitual da vida amazônica. Acima, algo novo começa a se formar. Jovens aprendem programação, engenharia de software, análise de dados e inteligência artificial. Conectam-se a redes globais de tecnologia sem abandonar a própria cidade. Sem romper com o território. Sem transformar pertencimento em renúncia.
O Talent Lab talvez seja uma das imagens mais acabadas da Amazônia que começa a emergir no século XX. Porque além de ensinar tecnologia, reorganiza o sentido da permanência.
Durante décadas, desenvolvimento significou deslocamento. Crescer era sair. Prosperar implicava abandonar a floresta. O Talent Lab inverte essa lógica. Pela primeira vez, a tecnologia deixa de operar como vetor de fuga e passa a funcionar como infraestrutura de permanência qualificada.
Quando permanecer deixa de ser atraso
Isso altera profundamente a geografia simbólica da Amazônia.
No interior da floresta, jovens amazonidas começam a acessar o mercado global sem precisar romper os vínculos comunitários, familiares e culturais que moldam sua identidade. O centro da transformação não está apenas no emprego remoto ou na capacitação digital. Está na possibilidade inédita de combinar modernidade e enraizamento.
Há algo de histórico nisso.
E talvez seja impossível compreender plenamente essa experiência sem retornar a outra travessia amazônica, iniciada no século XIX, quando judeus marroquinos perseguidos pela intolerância religiosa encontraram na Amazônia uma nova Terra Prometida.
A herança dos judeus caboclos na economia do conhecimento
A diáspora sefardita que chegou pelos rios amazônicos não trouxe apenas comerciantes. Trouxe uma ética de adaptação, cooperação, aprendizado contínuo e inteligência territorial. Em Belém, Manaus e nas cidades do interior, formaram-se redes de confiança que ajudaram a estruturar parte importante da vida econômica regional. Surgiram os chamados judeus-caboclos, síntese singular entre tradição migrante e pertencimento amazônico.
Décadas depois, Samuel Benchimol transformaria essa experiência em pensamento. Seus quatro paradigmas do desenvolvimento amazônico, economicamente viável, socialmente justo, politicamente equilibrado e ambientalmente adequado, anteciparam uma compreensão rara de sustentabilidade como pacto entre produção, sociedade e floresta.
Iniciativas como o Talent Lab parecem atualizar essa herança.
Existe uma linha invisível ligando a antiga diáspora amazônica às novas redes digitais da floresta.
Antes, os rios conectavam comunidades dispersas ao comércio mundial. Agora, a tecnologia permite que pequenas cidades amazônicas dialoguem diretamente com a economia global do conhecimento. A lógica, porém, guarda impressionante continuidade. Permanecem a inteligência adaptativa, a confiança comunitária, a valorização da educação e a capacidade de transformar isolamento geográfico em singularidade estratégica.
O mais interessante é que esse movimento não nasce da lógica tradicional do desenvolvimento centralizado.
Ele emerge de articulações colaborativas.
Empresas, educadores, empreendedores, mentores, jovens talentos e instituições começam a formar uma
A floresta conectada ao mundo
Talvez esteja aí uma das mais sofisticadas profecias do legado de Samuel Benchimol promovidas pela geração contemporânea liderada intelectualmente por nomes como Denis Benchimol Minev.
A floresta deixa de ser vista apenas como reserva ambiental ou fronteira de exploração econômica. Passa a ser compreendida como território produtor de inteligência, criatividade e soluções globais.
Porque uma Amazônia capaz de formar engenheiros de inteligência artificial em Itacoatiara, cientistas de dados em Parintins e empreendedores tecnológicos no interior da floresta já não ocupa o lugar periférico que o Brasil historicamente lhe atribuiu.
O Talent Lab talvez ainda pareça pequeno diante da escala monumental dos desafios amazônicos. Mas toda transformação histórica começa assim, em lugares aparentemente improváveis.
Uma sala de aula. Uma rede de confiança. Uma ideia compartilhada. Um grupo de jovens que decide permanecer.
Talvez a nova Terra Prometida da Amazônia não seja um lugar a ser enterrado. Talvez ela já esteja sendo construída, discretamente, no segundo andar de uma loja às margens do rio Amazonas.
Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do BrasilAmazoniaAgora
Agora cabe decidir se vamos nos contentar com o que ela consegue recuperar sozinha ou se vamos assumir a responsabilidade de reconstruir aquilo que já começou a se perder.
Passada a COP30, um dado deveria orientar qualquer leitura séria sobre o futuro da Amazônia. A floresta se regenera. Mas não se recompõe. A diferença entre esses dois verbos é muito do que está em jogo.
Estudos recentes, incluindo pesquisas de longo prazo conduzidas por instituições como Yale, Unicamp e IPAM, consolidaram um diagnóstico que já não admite ambiguidades. Áreas da Amazônia atingidas por fogo e seca conseguem rebrotar relativamente rápido, mas retornam com outra estrutura ecológica.
Menos biodiversas. Menos densas em carbono. Mais vulneráveis a novos eventos extremos.
Metade das florestas que sobrevivem ao fogo passa a armazenar cerca de 40% menos carbono. Espécies mais sensíveis desaparecem e dão lugar a formações dominadas por vegetação mais resistente, porém ecologicamente simplificada. A regeneração, além disso, torna-se dependente da proximidade com áreas intactas, o que a fragmentação crescente dificulta.
A floresta volta. Mas volta menor do que precisa ser.
O equívoco estrutural: tratar regeneração como solução
A COP da Amazônia avançou ao consolidar o fundo de florestas tropicais como instrumento financeiro de escala. Reconheceu que a floresta em pé precisa ser remunerada. Mas deixou uma lacuna relevante.
Ao não diferenciar, de forma clara, a qualidade ecológica da floresta financiada, corre o risco de institucionalizar um erro técnico. Financiar hectares regenerados sem considerar sua integridade pode significar investir em uma Amazônia mais frágil.
A ciência já demonstrou que floresta secundária degradada não substitui floresta primária em termos de estoque de carbono, estabilidade climática, diversidade biológica e resiliência a extremos.
Ainda assim, grande parte dos mecanismos de financiamento climático segue operando por métricas agregadas, onde quantidade se sobrepõe à qualidade.
O ponto de inflexão: da regeneração ao rematamento
É nesse intervalo que a proposta defendida por Denis Minev ganha consistência.
Sua leitura parte de um diagnóstico econômico, não apenas ambiental. Ele já opera iniciativas a Fazer o que amanhãvançadas .O modelo vigente ainda torna mais rentável degradar do que restaurar. E enquanto esse vetor não for invertido, a floresta continuará perdendo qualidade, mesmo quando aparentemente se recupera.
O conceito de “rematamento” surge como resposta a essa distorção.
Não se trata de plantar árvores, nem de esperar a regeneração natural. Trata-se de reconstruir a floresta como sistema produtivo e ecológico integrado.
Na prática, isso significa utilizar o consagrado modelo SAF da Embrapa para recuperar áreas degradadas com sistemas agroflorestais de alta complexidade. Isso reintroduz diversidade funcional como alimentação, oleaginosas, castanhas, cacau, açaí , e não somente cobertura vegetal. Ou seja, estruturar cadeias econômicas baseadas em espécies nativas e transformar carbono e biodiversidade em ativos mensuráveis e monetizáveis
O que está em pauta não é somente restaurar paisagens, mas recompor funções ecológicas que a regeneração natural já não garante.
A nova economia da floresta: entre ciência e mercado
Os estudos recentes colocam uma pressão inédita sobre o desenho da economia verde.
Se a floresta regenerada armazena menos carbono e apresenta menor resiliência, o mercado de carbono precisa refletir essa diferença. Caso contrário, haverá uma distorção estrutural de valor.
Créditos baseados em florestas frágeis tenderão a superestimar seu impacto climático. Isso abre uma fronteira clara de inovação econômica.
A começar pela diferenciação de ativos florestais por qualidade ecológica, o que inclui a valorização de biodiversidade como componente financeiro e remuneração da conectividade entre áreas conservadas e atrai financiamento de restauração ativa e inteligente.
A Amazônia depois da Conferência
A Conferência das Partes em Belém tentou consolidar um consenso político: a floresta precisa valer mais em pé do que derrubada. A ciência, porém, já avançou além desse ponto.
A questão agora não é apenas manter a floresta. É evitar que ela se torne uma versão degradada de si mesma, mesmo quando permanece de pé.
Uma Amazônia que continua existindo, mas perde progressivamente sua capacidade de regular o clima, sustentar biodiversidade e gerar valor econômico de longo prazo.
Entre o retorno e a reconstrução
A regeneração natural continua sendo um ativo importante. Mas deixou de ser suficiente. A floresta que o mundo precisa não é apenas aquela que volta. É aquela que funciona.
O “rematamento”, ao articular restauração ecológica com viabilidade econômica, aponta nessa direção. Não como solução isolada, mas como parte de uma mudança mais ampla na forma de pensar a Amazônia.
A floresta já demonstrou que resiste. Agora cabe decidir se vamos nos contentar com o que ela consegue recuperar sozinha ou se vamos assumir a responsabilidade de reconstruir aquilo que já começou a se perder.
O motociclista amazonense faz parte dessa paisagem contemporânea. Não como personagem periférico, mas como expressão direta da economia real da região da campanha Maio Amarelo
Iniciativa da Abraciclo, FIEAM e CIEAM transforma o Maio Amarelo em ação prática de conscientização, prevenção e responsabilidade no trânsito de Manaus
A motocicleta como retrato da Amazônia urbana
Há um detalhe que costuma escapar das estatísticas frias do trânsito amazônico. Em Manaus, a motocicleta deixou há muito de ser apenas um veículo. Tornou-se ferramenta de trabalho, extensão da renda familiar, alternativa à precariedade do transporte coletivo e, para muitos jovens, a primeira experiência concreta de autonomia econômica.
Foto divulgação
Em torno dela gravitam entregadores, operários, técnicos, vigilantes, pequenos empreendedores e uma multidão silenciosa que sustenta a dinâmica urbana da capital. A moto hoje participa da engrenagem cotidiana da economia regional com uma intensidade poucas vezes observada em outras capitais brasileiras.
É nesse contexto que o “Pit Stop Educativo para Motociclistas”, promovido pela Abraciclo em parceria com FIEAM, CIEAM e uma ampla rede institucional, ganha relevância que vai além do calendário protocolar do Maio Amarelo.
Educação que dialoga com a realidade
A proposta da ação parte de uma percepção simples, mas frequentemente negligenciada. Segurança no trânsito não se constrói apenas com fiscalização ou campanhas publicitárias. Ela depende também de experiência prática, orientação contínua e aproximação direta com quem vive diariamente a pressão das ruas.
O evento reúne simuladores de embriaguez, velocidade e ponto cego, demonstrações de frenagem, orientações técnicas, distribuição de materiais educativos e interação direta com especialistas.
Há um componente pedagógico importante nessa escolha. Em vez da comunicação distante e burocrática, a iniciativa aposta na vivência concreta do risco e na construção de consciência a partir da experiência cotidiana do motociclista.
Numa cidade marcada por jornadas extensas, tráfego agressivo e infraestrutura desigual, esse tipo de aproximação produz um efeito social mais profundo do que simples campanhas de advertência.
A indústria além dos seus muros
A presença da Abraciclo, da FIEAM e do CIEAM também carrega simbolismo institucional relevante.
O setor de duas rodas representa uma das bases históricas doPolo Industrial de Manaus.Gera empregos, arrecadação, inovação tecnológica e inserção internacional da economia amazonense. Ao mesmo tempo, convive diretamente com os efeitos sociais da massificação do uso da motocicleta.
Quando a indústria participa ativamente da agenda de prevenção e educação no trânsito, amplia-se a compreensão do próprio conceito de desenvolvimento. Produzir riqueza sem compromisso com segurança, qualidade de vida e responsabilidade coletiva cria desequilíbrios que retornam à sociedade sob forma de custos hospitalares, acidentes e perda de capital humano.
Nesse aspecto, a iniciativa ajuda a desmontar uma visão estreita segundo a qual o setor produtivo estaria dissociado dos desafios urbanos da cidade.
Amazônia também é cidade
A Amazônia frequentemente aparece no debate nacional apenas como floresta, biodiversidade ou carbono. Pouco se fala da Amazônia urbana, congestionada, acelerada e desigual, onde milhões de pessoas enfrentam diariamente desafios concretos de mobilidade e sobrevivência.
O motociclista amazonense faz parte dessa paisagem contemporânea. Não como personagem periférico, mas como expressão direta da economia real da região.
Talvez o maior mérito do “Pit Stop Educativo” esteja justamente nessa percepção silenciosa. A de que desenvolvimento sustentável também passa pela preservação da vida humana nas cidades. E de que enxergar o outro no trânsito continua sendo uma das formas mais básicas — e mais difíceis — de civilidade coletiva.
“Preservar a floresta continuará sendo indispensável. Mas somente uma economia amazônica capaz de integrar ciência, infraestrutura, bioindústria, soberania territorial e inclusão produtiva em larga escala salvará a Amazônia de permanecer ambientalmente estratégica e socialmente desigual”
Entre a centralidade climática e a persistência da pobreza
A Amazônia tornou-se um dos ativos estratégicos mais importantes do planeta. O equilíbrio climático global, os mercados de carbono, a geopolítica ambiental, a biodiversidade e a segurança hídrica colocaram o território amazônico no centro das disputas econômicas e diplomáticas do século XXI.
Mas há uma contradição que começa a se tornar insustentável.
Enquanto a floresta ganha valor geopolítico internacional, amplas parcelas da população amazonense continuam submetidas a baixos indicadores de renda, infraestrutura precária, isolamento logístico, insegurança alimentar e baixa densidade econômica. A região produz estabilidade climática para o mundo, mas ainda não conseguiu transformar essa centralidade ambiental em prosperidade social distribuída.
Esse talvez seja o principal limite do atual modelo de governança amazônica. A conservação ambiental revelou-se indispensável para conter o avanço da devastação. Contudo, isoladamente, ela não organizou uma economia regional capaz de alterar estruturalmente as condições de vida da população do interior.
A floresta foi preservada em grande parte do território. A desigualdade também.
O esgotamento do paradigma conservacionista isolado
Durante décadas, a Amazônia foi pensada a partir de uma lógica predominantemente defensiva. Preservar tornou-se prioridade absoluta diante da velocidade da destruição ambiental e da expansão predatória sobre o território. Esse movimento teve importância histórica inequívoca.
Entretanto, a nova realidade econômica global exige uma inflexão mais sofisticada. A questão amazônica deixou de ser apenas ambiental. Tornou-se industrial, tecnológica, científica, energética, territorial e geopolítica.
A floresta em pé já não pode permanecer apenas como limite moral à exploração econômica. Ela precisa se transformar em fundamento ativo de reorganização produtiva regional. Esse deslocamento é decisivo.
Porque sociedades não se sustentam apenas sobre mecanismos de proteção ecológica. Sustentam-se sobre trabalho, renda, infraestrutura, circulação econômica, integração territorial, capacidade tecnológica e perspectivas concretas de mobilidade social.
Sem isso, a floresta preservada corre o risco de coexistir indefinidamente com bolsões permanentes de pobreza e dependência estatal.
Foto divulgação
A industrialização da floresta em pé
A bioeconomia amazônica dificilmente produzirá transformação estrutural enquanto permanecer confinada a projetos experimentais, cadeias artesanais fragmentadas ou nichos institucionais de pequena escala.
O Amazonas necessita de densidade econômica compatível com sua dimensão territorial e importância estratégica.
Isso implica construir uma nova etapa de agregação de valor baseada na biodiversidade, na ciência aplicada e na industrialização de cadeias produtivas ligadas à floresta.
Biotecnologia, química verde, fármacos, cosméticos avançados, biomateriais, alimentos funcionais, engenharia genética, nanotecnologia vegetal, bioinsumos agrícolas e novos materiais de baixo carbono tendem a compor parte significativa da economia global nas próximas décadas.
A pergunta estratégica é simples: a Amazônia participará dessas cadeias apenas como fornecedora de matéria-prima biológica ou como centro produtor de tecnologia, inteligência industrial e valor agregado?
A resposta definirá o futuro regional.
O Polo Industrial de Manaus e a nova convergência amazônica
Nesse contexto, o Polo Industrial de Manaus ganha papel ainda mais relevante.
A transição econômica amazônica não deverá ocorrer pela substituição da indústria pela bioeconomia, mas pela convergência progressiva entre indústria, tecnologia e floresta.
O Polo acumulou, ao longo de décadas, capacidades produtivas raras na Amazônia continental: engenharia industrial, integração logística, formação técnica, relações internacionais, manufatura avançada e experiência em escala produtiva.
O desafio histórico talvez esteja justamente em conectar essa infraestrutura econômica já existente às novas cadeias da bioindústria e da economia climática.
Sem escala industrial, a bioeconomia corre o risco de permanecer restrita à retórica diplomática ambiental.
Infraestrutura como condição de soberania
Nenhuma economia regional de alta complexidade se consolida sem infraestrutura compatível.
A ausência de logística integrada, energia confiável, conectividade digital, armazenamento, transporte multimodal e integração territorial continua funcionando como barreira estrutural ao desenvolvimento amazônico. O interior amazonense permanece economicamente fragmentado.
Isso significa que o debate ambiental precisará incorporar, definitivamente, uma agenda robusta de infraestrutura sustentável voltada à integração regional. Não como oposição à conservação, mas como condição para sua viabilidade econômica e social de longo prazo.
Sem circulação econômica, não existe bioeconomia de escala.
Sem integração territorial, não existe soberania amazônica.
Ciência aplicada e reorganização produtiva
A ciência amazônica produziu um patrimônio extraordinário de conhecimento sobre biodiversidade, ecologia e funcionamento dos ecossistemas tropicais.
Mas o novo ciclo histórico exige um passo adicional. Além de compreender a floresta, será necessário transformar esse conhecimento em engenharia produtiva, tecnologia industrial, inovação escalável e reorganização econômica territorial.
Universidades, institutos de pesquisa e centros tecnológicos precisarão assumir papel mais integrado às cadeias produtivas regionais. O conhecimento científico amazônico terá de se converter em propriedade intelectual, processos industriais, patentes, biofármacos, novos materiais e tecnologias exportáveis.
A floresta deixará de ser apenas objeto de estudo. Passará a ser também plataforma tecnológica.
Carbono, biodiversidade e retenção regional de riqueza
O mercado climático internacional abriu uma oportunidade inédita para a Amazônia. Carbono, biodiversidade e serviços ecossistêmicos passaram a possuir valor econômico crescente dentro da reorganização global da transição energética.
Entretanto, permanece uma assimetria evidente. A Amazônia produz estabilidade ambiental para o planeta, mas a captura financeira dessa riqueza ainda ocorre majoritariamente fora da região.
O novo contrato territorial amazônico exigirá mecanismos capazes de garantir retenção regional mais consistente dos benefícios econômicos associados aos ativos ambientais.
Caso contrário, a economia verde poderá apenas substituir antigas formas de dependência por novas modalidades de subordinação financeira internacional.
O Amazonas entrou num momento decisivo de sua trajetória histórica.
A floresta preservada continuará sendo condição indispensável de existência regional. Mas ela já não pode representar apenas contenção, limite ou proibição econômica. O novo contrato territorial proposto para a Amazônia exigirá exatamente a superação dessa contradição histórica.
Um modelo no qual a floresta em pé deixe de representar apenas um limite moral à exploração econômica e passe a funcionar como fundamento estratégico de uma nova economia regional baseada em alta complexidade tecnológica, agregação industrial, ciência aplicada, infraestrutura compatível, bioindústria, monetização inteligente dos serviços ambientais e capacidade distributiva suficiente para alterar estruturalmente os indicadores sociais do território.
Somente nesse ponto a governança ambiental deixará de operar como política setorial de conservação e passará efetivamente a constituir um projeto histórico de soberania, desenvolvimento e reorganização econômica para a Amazônia.
A Amazônia produz estabilidade ambiental para o planeta, mas a captura financeira dessa riqueza ainda ocorre majoritariamente fora da região.
Mais do que uma agenda ambiental, trata-se de uma disputa sobre soberania econômica.
Porque nenhuma região sustenta estabilidade social duradoura vivendo exclusivamente da contemplação de seus ativos naturais. A floresta em pé precisará produzir inteligência tecnológica, capacidade industrial, mobilidade econômica e fortalecimento institucional regional. Caso contrário, a Amazônia corre o risco de permanecer como grande fornecedora global de estabilidade climática enquanto suas populações continuam afastadas dos benefícios econômicos gerados pela própria preservação do território.
“O Amazonas precisa transformar suas vocações regionais em cidadania econômica concreta, reduzindo desigualdades e integrando o interior ao projeto estratégico de desenvolvimento do Estado”
Há um Amazonas que aparece nos relatórios de arrecadação, nas estatísticas do comércio exterior e nos indicadores da indústria instalada em Manaus. E há outro, espalhado pelas calhas dos rios, pelas estradas interrompidas, pelas comunidades isoladas e pelas pequenas cidades que seguem esperando que o desenvolvimento chegue para além do discurso.
Entre um e outro, abriu-se ao longo das décadas uma distância que já não cabe mais ser tratada como detalhe administrativo ou consequência inevitável da geografia.
O debate sobre o futuro do Estado começa a reencontrar uma pergunta antiga, embora constantemente adiada: de que forma o Amazonas pretende integrar sua população ao próprio projeto de desenvolvimento?
Crescimento concentrado e desigualdade persistente
Durante muito tempo, consolidou-se a compreensão de que bastaria proteger o Polo Industrial de Manaus para que os benefícios econômicos irradiados pela capital alcançassem naturalmente o interior.
Parte disso ocorreu. A Zona Franca de Manaus permanece essencial para a arrecadação, para a preservação florestal e para a sustentação da economia regional. Mas a experiência prática demonstrou que crescimento econômico concentrado não resolve sozinho desigualdades históricas, sobretudo em um território continental, marcado por enormes desafios logísticos, sociais e institucionais.
A realidade interiorana segue impondo seus sinais. Municípios dependentes quase exclusivamente do setor público, juventude sem perspectiva de trabalho qualificado, evasão educacional, precariedade energética, baixa conectividade digital, cadeias produtivas desorganizadas e enorme dificuldade de transformar riqueza natural em prosperidade local.
Em muitos casos, o cidadão amazônida continua observando a economia passar diante de si sem conseguir participar dela.
O interior como eixo referencial
Talvez esteja justamente aí a principal urgência do Amazonas contemporâneo: construir uma política econômica que não trate o interior como extensão periférica da capital, mas como centro estratégico de um novo modelo de desenvolvimento.
Isso exige planejamento, coordenação e escuta real. Não há mais espaço para projetos concebidos apenas em gabinetes ou reproduções automáticas de modelos externos.
O interior do Amazonas possui vocações econômicas próprias, distintas entre si, vinculadas à biodiversidade, à bioeconomia, à pesca manejada, à mineração responsável, ao turismo de natureza, à agroindústria regional, aos serviços ambientais, à ciência aplicada e às novas tecnologias voltadas à floresta em pé.
Potencial sem estrutura não gera prosperidade
Mas vocação econômica, sozinha, não produz desenvolvimento.
É preciso estrutura mínima para transformar potencial em oportunidade concreta. Energia confiável, internet, logística regional, assistência técnica, crédito inteligente, regularização fundiária, formação profissional e segurança jurídica ainda permanecem ausentes em grande parte do território.
Sem isso, o discurso da bioeconomia corre o risco de se transformar apenas em mais uma expressão elegante repetida em eventos internacionais.
Um mutirão pelo desenvolvimento regional
O Amazonas talvez precise substituir a lógica episódica dos anúncios pela construção de um grande pacto de desenvolvimento regional.
Um mutirão institucional envolvendo setor público, universidades, indústria, cooperativas, comunidades tradicionais, centros de pesquisa e iniciativa privada. Não como peça publicitária, mas como política permanente de Estado.
Há uma dimensão social decisiva nesse debate. Reduzir desigualdades econômicas não representa apenas melhorar indicadores. Significa ampliar cidadania.
Um cidadão que possui renda, qualificação, acesso à saúde, mobilidade e oportunidade econômica desenvolve pertencimento social, confiança institucional e perspectiva de futuro.
Sem isso, o vazio acaba ocupado pela informalidade predatória, pela criminalidade organizada e pelas economias ilegais que avançam justamente onde o Estado e o desenvolvimento legítimo não chegam.
O desenvolvimento precisa chegar às margens
O interior amazônico não pede favor. Pede integração econômica verdadeira. Pede condições para produzir, empreender, estudar e permanecer em seu território com dignidade.
Talvez esteja chegando o momento de o Amazonas compreender que o desenvolvimento sustentável da floresta não será decidido apenas nas grandes conferências climáticas, nos debates diplomáticos ou nos fóruns internacionais.
Ele será definido sobretudo na capacidade de transformar as necessidades concretas da população amazônida em prioridade econômica real.
O futuro do Amazonas dificilmente será construído apenas a partir de Manaus. Ele dependerá da inteligência coletiva de enxergar o interior não como problema fiscal ou desafio logístico, mas como parte central da solução econômica, social e ambiental que o Estado procura há décadas.
Nelson é economista, empresário e presidente do SIMMMEM – Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus; conselheiro do CIEAM e da CNI e vice-presidente da FIEAM.
A história dos pioneiros amazônicos talvez ensine exatamente isso: desenvolvimento regional nunca foi resultado de fórmulas prontas. Sempre foi fruto de adaptação, coragem e compreensão profunda da realidade amazônica.
Coluna Follow-Up
Há imagens que ajudam a compreender um território mais do que muitos relatórios técnicos. Uma delas pertence à Manaus dos anos 1950, quando peças de uma refinaria atravessaram oceanos e rios para serem montadas, praticamente no braço, em plena Amazônia.
Não havia ainda a robustez institucional da Zona Franca de Manaus, nem o vocabulário contemporâneo da transição energética, do ESG ou da bioeconomia. Havia uma região tentando sobreviver ao colapso do segundo ciclo da borracha e procurando, entre isolamento logístico, precariedade energética e abandono político, uma maneira de continuar existindo economicamente.
Debate da ADI 7.963 e a recordação do passado
A ação discute o dispositivo da reforma tributária que preserva tratamento diferenciado, restrito e condicionado, para a atividade de refino localizada na Zona Franca de Manaus. Formalmente, trata-se de uma controvérsia tributária. Materialmente, porém, o que está em debate é algo mais profundo: o direito da Amazônia de adaptar seus instrumentos econômicos às suas próprias condições territoriais e históricas.
Amazônia como conceito abstrato
Quase sempre distante de sua geografia concreta. Poucas regiões do planeta convivem simultaneamente com distâncias tão grandes, dependência fluvial tão intensa, sazonalidade extrema dos rios e fragilidade logística tão permanente. Nessas circunstâncias, energia não é apenas insumo econômico. É infraestrutura civilizatória.
Combustível, na Amazônia, significa tudo que envolve transporte de alimentos, funcionamento de hospitais, geração elétrica para municípios isolados, abastecimento industrial, circulação de pessoas e continuidade mínima da vida econômica regional.
Talvez por isso a figura de Moysés Israel retorne com tanta força à memória de quem acompanhou sua trajetória. Em idade já avançada, quando muitos prefeririam apenas contemplar suas realizações, ele seguia frequentando as discussões da Federação das Indústrias. Não estava ali apenas por causa da Fieam, do CIEAM ou das entidades empresariais. Estava por causa do Amazonas.
Seu percurso ajuda a compreender algo que parte do país ainda reluta em enxergar: os pioneiros da industrialização amazônica jamais pensaram energia, indústria e infraestrutura como privilégios fiscais. Pensavam como sobrevivência regional, integração territorial e construção de futuro.
Após o esgotamento do ciclo da borracha, Moysés Israel, Isaac Sabbá, Benchimol, Benzecry e tantos outros empreendedores de diferentes origens ajudaram a construir novas alternativas econômicas para o Estado. Organizaram empresas de beneficiamento de produtos florestais, abriram caminhos comerciais e trouxeram para Manaus uma refinaria numa época em que a Amazônia ainda parecia distante até mesmo da imaginação econômica brasileira.
Não havia romantização da floresta. Havia realidade.
E talvez seja precisamente isso que o debate contemporâneo às vezes perde de vista.
A discussão em torno da refinaria da Amazônia não deveria ser reduzida à caricatura simplista de “subsídio ao combustível fóssil”. Essa leitura ignora tanto a história quanto a complexidade regional. A própria geração daqueles pioneiros compreendia que o Amazonas não poderia depender eternamente de um único modelo econômico.
Moysés insistia na interiorização do desenvolvimento, na educação, na formação técnica, no fortalecimento da UFAM, da UEA, do SENAI, do CETAM e na necessidade de diversificação produtiva.
Sua geração nunca enxergou a refinaria como ponto final. Via-a como ponto de partida. Esse detalhe importa bastante.
Porque defender a estabilidade energética da Amazônia não significa negar a transição energética. Significa reconhecer que nenhuma transição séria se constrói sobre colapso logístico, fragilidade territorial ou desorganização econômica.
A Amazônia precisa avançar na bioeconomia, nas energias renováveis, na ciência, na inovação e nas novas matrizes produtivas da floresta em pé. Mas precisa fazê-lo a partir da sua realidade física e social, não de abstrações formuladas à distância.
O próprio espírito da Zona Franca de Manaus nasceu dessa compreensão. Seu diferencial competitivo nunca foi concebido como privilégio. Foi concebido como mecanismo de compensação territorial para integrar economicamente uma região submetida a desafios que o restante do país raramente experimentou.
É justamente isso que reaparece agora no debate pós-reforma tributária.
A Emenda Constitucional 132 preservou o diferencial competitivo da ZFM e atribuiu ao Congresso a tarefa de construir os mecanismos necessários para mantê-lo funcional dentro do novo sistema tributário. A controvérsia atual gira, no fundo, em torno dessa liberdade de adaptação.
Se qualquer recalibragem passar a ser interpretada como violação automática do modelo histórico, o risco será transformar a Zona Franca numa peça constitucional imóvel, incapaz de responder às mudanças econômicas, energéticas e tecnológicas do século XXI.
A Amazônia, que sempre precisou se reinventar para sobreviver, poderá acabar aprisionada justamente no momento em que mais necessita de flexibilidade para construir sua transição. Por isso a memória importa.
Ela recorda que antes das teses jurídicas existia o território. Antes dos discursos globais existia o isolamento. Antes dos conceitos modernos existia a luta concreta para manter a Amazônia integrada, abastecida e economicamente viva.
A história dos pioneiros amazônicos talvez ensine exatamente isso: desenvolvimento regional nunca foi resultado de fórmulas prontas. Sempre foi fruto de adaptação, coragem e compreensão profunda da realidade amazônica.
Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes editor do brasilamazoniaagora.com.br