Desmatamento no Cerrado avançou e agricultura crescou 533% em quatro décadas

Expansão acelerada da agricultura e das pastagens intensifica o desmatamento no Cerrado e impõe riscos à biodiversidade e à segurança hídrica

Entre 1985 e 2024, o Cerrado perdeu 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa — área superior ao território da Bahia. O dado alarmante consta na Coleção 10 do MapBiomas, que monitora o uso e a cobertura da terra no Brasil. A devastação já compromete 28% da vegetação original do bioma, que agora tem 51,2% de sua área coberta por formações naturais e 47,9% sob influência humana. O ritmo acelerado do desmatamento no Cerrado preocupa cientistas e organizações ambientais.

Foto frontal mostra vegetação savânica com sinais de degradação e áreas desmatadas no Cerrado.
Vegetação savânica, uma das formações mais atingidas pelo desmatamento no Cerrado. Foto: Getty Images.

A região conhecida como Matopiba — Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — concentra 48% da vegetação remanescente e respondeu por 39% da perda líquida de vegetação nos últimos 40 anos. Nos últimos dez anos, a área agrícola cresceu expressivamente, especialmente sobre vegetação primária e foi responsável por 73% do desmatamento recente. A formação savânica foi a mais atingida, com redução de 26,1 milhões de hectares.

A agricultura é o uso da terra que mais avançou no período, com crescimento de 533%, adicionando 22,1 milhões de hectares. Já as pastagens cresceram 44% e ainda representam o principal uso antrópico do Cerrado, ocupando 24,1% do bioma. Em 2024, 58% dos municípios têm predominância agropecuária, frente a 42% em 1985. Para os especialistas, compreender essa dinâmica é essencial para frear o avanço do desmatamento no Cerrado.

O levantamento também aponta pressões crescentes sobre os recursos hídricos. A superfície de água natural caiu 27,8%, enquanto áreas com água artificial, como hidrelétricas e aquicultura, aumentaram. Embora o bioma abrigue importantes nascentes, 90,8% das bacias hidrográficas perderam superfície hídrica natural.

Terras indígenas (97%), unidades de conservação (94%) e áreas militares (95%) são as que mais preservam a vegetação. Já imóveis rurais e zonas urbanas concentram os maiores índices de degradação. Especialistas alertam para a urgência de políticas que conciliem produção com conservação, de modo a assegurar a sustentabilidade ambiental e a segurança hídrica do país diante do avanço contínuo do desmatamento no Cerrado.

Imagem aérea da hidrelétrica de Serra da Mesa mostra reservatório e áreas alagadas no bioma Cerrado.
Reservatório da Usina de Serra da Mesa, maior lago artificial em volume do Brasil, localizado no Cerrado. Foto: AC Júnior.
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

Artigos Relacionados

A força transformadora da escuta

"Porque nenhuma transformação social começa pela imposição. Toda mudança...

Petrobras investe em petróleo na Amazônia, mas alta será menor que 5% 

Petrobras investe R$ 2,5 bi em petróleo na Amazônia, mas expansão em Urucu reacende debate sobre riscos ambientais e retorno social.

Mudanças climáticas favorecem avanço da resistência a antibióticos, diz estudo

Estudo liga mudanças climáticas ao avanço da resistência a antibióticos e alerta para riscos à saúde pública global.

O vale-tudo da politiquice

O velho vício da politiquice brasileira continua operando da...