O Amazonas – assim como toda a Amazônia – costuma ser narrada ao mundo como um território de conflitos. Floresta e mineração. Conservação e exploração. Desenvolvimento e preservação. Mas há outra história possível em construção.
Uma história em que a maior floresta tropical do planeta se transforma também em um vasto laboratório de conhecimento, onde ciência, tecnologia e biodiversidade se encontram para desenhar novas formas de produzir riqueza sem destruir o patrimônio natural da região.
A pergunta que se colocou na elaboração do Plano Estratégico de Desenvolvimento – PED foi decisiva. Que economia o Amazonas deseja construir nas próximas duas décadas?
Além do planejamento, e visão estratégica, é preciso priorizar o investimento na formação de uma nova geração capaz de transformar biodiversidade em inovação, ciência em oportunidades e floresta em desenvolvimento sustentável.
Nesta primeira entrevista ao Brasil Amazônia Agora, o economista Farid Mendonça Júnior – um dos construtores do PED assinado em co-autoria pelo senador Omar Aziz – reflete sobre os desafios e as oportunidades desse processo. Ao longo da conversa, ele aponta a juventude amazônica como protagonista de uma transformação que poderá redefinir o papel da região no século XXI.
Se o projeto for bem-sucedido, o Amazonas deixará de ser vista apenas como fronteira ambiental/industrial do planeta. Passará a ser reconhecida também como território de inovação, ciência e futuro.
Coluna Follow-Up
Confira a entrevista exclusiva:
Amazonas, ciência e juventude, a equação que pode reinventar a economia regional
Que tipo de economia o Amazonas quer construir para os próximos 20 anos e qual será o papel da juventude nesse processo?
O Amazonas precisa começar agora a construir uma economia mais diversificada, inovadora e ambientalmente sustentável. O objetivo é claro. Crescer sem destruir a floresta.
Durante décadas, o desenvolvimento do estado esteve fortemente apoiado em um único modelo produtivo, a Zona Franca de Manaus. Esse modelo foi fundamental para consolidar a economia regional e proteger a floresta ao gerar emprego e renda na capital. Mas o desafio das próximas duas décadas é ampliar essa base.
Isso significa fortalecer cadeias produtivas regionais, desenvolver a bioeconomia, ampliar serviços ambientais, impulsionar o turismo sustentável e investir muito mais em ciência e tecnologia.
O Amazonas possui ativos extraordinários. Uma biodiversidade única no planeta. Uma posição estratégica na Amazônia. Um potencial científico ainda pouco explorado.
Nesse novo cenário, a floresta deixa de ser vista apenas como patrimônio natural. Ela passa a ser entendida como fonte de conhecimento, inovação e riqueza sustentável.
E é exatamente nesse ponto que entra o papel da juventude.
A nova geração será responsável por liderar setores emergentes ligados à bioeconomia, à tecnologia, ao empreendedorismo digital e à economia criativa. Jovens pesquisadores, empreendedores e profissionais qualificados terão a missão de transformar conhecimento científico em novos produtos, negócios e soluções para a sociedade.
Em outras palavras, o futuro econômico do Amazonas dependerá da capacidade de formar uma geração preparada para inovar, empreender e liderar um modelo de desenvolvimento compatível com os desafios ambientais e tecnológicos do século XXI.
Que novos perfis profissionais surgirão no Amazonas a partir da bioeconomia, da transição energética e da indústria 4.0?
A transformação econômica que está em curso exigirá profissionais com formação técnica sólida, visão interdisciplinar e capacidade de inovar.
A bioeconomia, por exemplo, abre um campo enorme de oportunidades. Pesquisadores em biotecnologia, especialistas em produtos naturais, gestores de cadeias produtivas da biodiversidade e profissionais capazes de transformar recursos da floresta em medicamentos, cosméticos, alimentos e novos materiais de alto valor agregado.
A transição energética também cria novas demandas. Especialistas em energias renováveis, bioenergia e gestão de sistemas energéticos descentralizados serão fundamentais para levar soluções sustentáveis para comunidades isoladas da Amazônia.

Ao mesmo tempo, a digitalização da economia e a chamada indústria 4.0 ampliam a necessidade de profissionais em tecnologia da informação, ciência de dados, inteligência artificial, automação industrial e logística inteligente.
Essas competências serão essenciais não apenas para modernizar empresas, mas também para tornar a gestão pública mais eficiente e melhorar os serviços oferecidos à população.
No Amazonas do futuro, os profissionais mais valorizados serão aqueles capazes de integrar tecnologia, ciência e sustentabilidade.
Como a inteligência artificial e a tecnologia podem se tornar aliadas da floresta?
A tecnologia pode desempenhar um papel decisivo na proteção e valorização da floresta amazônica.
Ferramentas de inteligência artificial e sensoriamento remoto já permitem monitorar desmatamento, queimadas e crimes ambientais praticamente em tempo real. Isso amplia a capacidade de fiscalização e proteção do território.
Ao mesmo tempo, sistemas digitais podem garantir rastreabilidade em cadeias produtivas sustentáveis, assegurando que produtos da floresta tenham origem legal e ambientalmente responsável.
A tecnologia também acelera a pesquisa científica. Com apoio de inteligência artificial, pesquisadores conseguem identificar propriedades medicinais e industriais da biodiversidade amazônica com muito mais rapidez.
Além disso, plataformas digitais podem conectar comunidades do interior a mercados nacionais e internacionais, ampliando oportunidades de renda.
Quando orientada por uma estratégia de desenvolvimento sustentável, a tecnologia deixa de ser apenas ferramenta de automação e se transforma em instrumento de valorização da floresta.
O Amazonas pode se tornar referência mundial em economia de base florestal. O que ainda falta para isso acontecer?
O estado possui todas as condições naturais para assumir essa liderança. A biodiversidade amazônica está entre as mais ricas do planeta.
O desafio é transformar esse potencial em desenvolvimento concreto.
Para isso, alguns obstáculos estruturais precisam ser enfrentados. Infraestrutura e logística continuam sendo gargalos importantes. Muitas regiões do interior ainda enfrentam dificuldades de transporte, acesso à energia e conectividade digital.
Outro ponto central é o fortalecimento da segurança jurídica e do ordenamento territorial, com avanços na regularização fundiária e no zoneamento econômico-ecológico.

Também será necessário ampliar os investimentos em ciência, tecnologia e inovação, fortalecendo universidades, centros de pesquisa e parcerias com o setor produtivo.
A bioeconomia depende diretamente da capacidade de transformar conhecimento científico em produtos competitivos no mercado global.
Se esses fatores forem consolidados, o Amazonas poderá se posicionar como referência internacional em desenvolvimento sustentável baseado na floresta.
Como garantir que o desenvolvimento gere também redução das desigualdades no estado?
Uma das maiores distorções históricas do Amazonas é a concentração da atividade econômica em Manaus.
Enquanto a capital se desenvolveu, muitos municípios do interior permaneceram com baixos níveis de renda, infraestrutura e oportunidades.
Por isso, uma das estratégias centrais do plano é promover a interiorização do desenvolvimento.
Isso envolve investimentos em infraestrutura, expansão da conectividade digital, acesso à energia e estímulo a cadeias produtivas regionais.
Atividades como fruticultura, piscicultura, turismo sustentável e produtos florestais podem gerar renda local e reduzir a dependência econômica da capital.
Políticas voltadas ao empreendedorismo, à economia criativa e à inovação também podem ampliar oportunidades para jovens e pequenos produtores.
O objetivo é que a geração de riqueza beneficie um número maior de comunidades e contribua para reduzir desigualdades históricas no território amazonense.
Se o Amazonas não construir agora um projeto consistente de desenvolvimento, qual será o custo dessa omissão?
O custo pode ser alto.
Sem planejamento de longo prazo, o estado corre o risco de permanecer dependente de poucos setores e vulnerável a mudanças externas.
Do ponto de vista econômico, isso significa perda de competitividade e dificuldades para acompanhar as transformações tecnológicas e ambientais que estão redesenhando a economia global.
Do ponto de vista social, a ausência de um projeto consistente tende a ampliar desigualdades regionais e limitar oportunidades de emprego qualificado.
O mundo vive uma transição para modelos econômicos baseados em inovação e sustentabilidade. Se o Amazonas não se posicionar agora nesse novo cenário, poderá perder uma oportunidade histórica.
O custo da omissão não será apenas econômico. Será também social, ambiental e geracional.
As próximas gerações sentirão diretamente as consequências das escolhas feitas agora.
