Polêmica sobre agrotóxicos: Monsanto Papers revelaram influência oculta em estudo sobre glifosato

Documento que embasou a liberação do glifosato no Brasil é invalidado, 25 anos após sua publicação, por ocultar autoria real, omitir conflitos de interesse e ignorar estudos independentes.

Um estudo que por décadas serviu de base para alegações de segurança do glifosato, o herbicida mais utilizado no mundo, foi oficialmente retirado da literatura científica. A revista Regulatory Toxicology and Pharmacology anunciou a despublicação do artigo publicado em 2000, citando sérios problemas éticos, falhas metodológicas e indícios de influência indevida da Monsanto, fabricante do produto.

Assinado por Gary M. Williams, Robert Kroes e Ian C. Munro, o artigo afirmava que o glifosato e o produto Roundup não ofereciam risco cancerígeno. A publicação exerceu forte influência em decisões regulatórias, incluindo a reavaliação feita pela Anvisa, que em 2019 manteve o registro da substância no Brasil. Agora, com a retratação, o estudo perde sua validade científica.

A decisão da revista ocorreu após a constatação de omissões na autoria real do texto e no envolvimento de funcionários da Monsanto na redação. Parte das evidências veio à tona com os Monsanto Papers, documentos internos revelados em 2019 que indicam práticas como ghostwriting e conflitos de interesse não declarados. A análise da revista aponta ainda que os autores se basearam em dados não revisados por pares, fornecidos pela própria empresa, ignorando estudos já existentes à época que apontavam riscos.

Trator pulveriza glifosato em plantação de trigo no Rio Grande do Sul
O uso do glifosato voltou ao centro do debate após despublicação de estudo que atestava sua segurança. Foto: Ricardo Azoury/Olhar Imagem

No Brasil, o estudo foi citado em parecer técnico contratado pela Anvisa para revisar testes toxicológicos em animais e humanos. Segundo a toxicologista Karen Friedrich (Abrasco), o uso desse artigo como referência contribuiu para invalidar estudos independentes que indicavam relação entre o glifosato e o desenvolvimento de câncer.

A Bayer, que incorporou a Monsanto, afirma que o produto é seguro e respaldado por avaliações de agências reguladoras ao redor do mundo. Contudo, a empresa já gastou mais de US$ 11 bilhões em acordos judiciais nos EUA, onde enfrenta dezenas de milhares de processos relacionados ao uso do Roundup.

Para Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, a despublicação do artigo coloca em xeque a própria decisão da Anvisa. “A reavaliação de agrotóxicos no Brasil deve ser iniciada quando há informações científicas novas sobre os produtos que estão em uso”, afirma. Ele defende também que a venda desses agrotóxicos seja liminarmente suspensa, de modo a proteger a saúde das pessoas.

Para especialistas ouvidos pela Repórter Brasil, a retratação representa um marco que pode levar à reabertura da reavaliação do glifosato no país. Eles alertam para a necessidade de revisão urgente das políticas de aprovação de agrotóxicos à luz de novas evidências.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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