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Eleições na Amazônia 2026: Acre tenta equilibrar agro, floresta e clima após ciclo de contradições

Após anos de pressão sobre a floresta, Acre chega às eleições de 2026 com queda no desmatamento, crise política e desafio de conciliar produção e conservação.

Esta é a segunda reportagem da série Eleições na Amazônia 2026: o saldo que chega às urnas, que analisa os principais desafios e avanços socioambientais herdados pelos estados amazônicos às vésperas da próxima disputa eleitoral.

No Acre, a transição política ocorre em meio a contradições profundas. Nos últimos anos, o estado avançou em políticas de conservação, na valorização de populações tradicionais e na criação de mecanismos pioneiros de pagamento por serviços ambientais, uma inflexão relevante em sua agenda socioambiental.

No entanto, sob a gestão de Gladson Cameli (Progressistas), iniciada em 2019, o discurso de desenvolvimento assumiu contornos mais próximos da expansão agropecuária, da infraestrutura e da abertura de novas frentes produtivas, sem priorizar a conservação florestal.

No mesmo período, cresceu a pressão sobre a cobertura vegetal, os índices de desmatamento se elevaram e o estado passou a conviver com o risco de replicar, em partes de seu território, o modelo de ocupação já observado em outras áreas da Amazônia, marcado pela conversão de floresta em pastagens e monoculturas.

Essa trajetória foi interrompida em abril de 2026, quando Cameli renunciou ao governo para concorrer a uma vaga no Senado. A sucessão ocorreu em um contexto politicamente sensível, semanas depois, o ex-governador foi condenado pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça a mais de 25 anos de prisão por organização criminosa, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações, no âmbito da Operação Ptolomeu.

Foi nesse cenário que Mailza Assis (Progressista) assumiu o Executivo acreano. A segunda mulher a governar o estado herdou uma agenda marcada por ativos e passivos. De um lado, instrumentos como o Sistema de Incentivo a Serviços Ambientais, o Programa REM e novas oportunidades de financiamento climático mantêm o Acre presente no debate sobre governança ambiental. 

De outro, persistem desafios estruturais: conter o desmatamento, proteger terras indígenas e comunidades tradicionais, ampliar a adaptação a eventos climáticos e reconstruir a credibilidade institucional do estado junto a parceiros nacionais e internacionais.

A promessa de conciliar agronegócio, obras e conservação

Desde sua campanha para governador do Acre, Gladson Cameli apresentou uma agenda voltada à aceleração do crescimento econômico, com ênfase no fortalecimento do agronegócio, na ampliação da infraestrutura e na atração de investimentos. 

O então candidato defendia que o estado precisava superar entraves produtivos e avançar em direção à industrialização, especialmente a partir da produção rural de grãos, carne, manejo florestal e melhoria da logística de transportes.

No discurso inicial, a expansão econômica aparecia associada à promessa de manter a floresta em pé. Cameli afirmava que era possível fortalecer o agronegócio sem ampliar o desmatamento, com uso de áreas já abertas e respeito ao Código Florestal Brasileiro. 

Em entrevista ao G1 durante a campanha de 2022, ao tratar de turismo e agronegócio, ele afirmou que falar em agronegócio não significava falar em desmatamento, mas em reduzir burocracias, aproveitar áreas abertas e criar mais infraestrutura para regiões como o Juruá, a Serra do Divisor e territórios ligados à cultura indígena e aos povos da Amazônia

Entre as principais promessas estavam a criação de uma câmara setorial do agronegócio, o fomento ao turismo ecológico, o fortalecimento da infraestrutura de transportes e a implantação de programas de manejo e conservação florestal. 

No campo da bioeconomia e do desenvolvimento sustentável, uma das propostas mais emblemáticas era o Projeto Mais Floresta, que previa a desburocratização do licenciamento ambiental para exploração de madeira sob manejo sustentável, a criação do Selo Verde Acreano para certificar a origem dos produtos locais e a redução de tributos para tornar a indústria florestal mais competitiva. 

O plano também incluía medidas voltadas à transição energética, como o aproveitamento de subprodutos florestais e a universalização de placas solares em comunidades rurais e ribeirinhas isoladas. Essa frente acabaria se tornando uma das entregas mais concretas da gestão, com a estruturação do Programa Mais Luz para o Acre, voltado ao atendimento energético de famílias em áreas remotas. 

O descompasso entre promessa e execução

Apesar do escopo amplo das promessas, o balanço do primeiro mandato indicou uma distância significativa entre o planejamento apresentado e a execução das metas. Levantamento realizado pelo G1 mostrou que Cameli não cumpriu 66% das promessas feitas para o primeiro mandato como governador do Acre; apenas 21% foram consideradas cumpridas e 13% tiveram execução parcial. 

O resultado evidencia uma das principais marcas do período, a tentativa de conciliar crescimento econômico, expansão produtiva e conservação ambiental esbarrou em baixa capacidade de entrega, prioridades redirecionadas e avanços limitados em parte das agendas prometidas. 

Se algumas iniciativas, como a energia limpa em comunidades isoladas, ganharam forma, outras propostas ligadas à bioeconomia, ao manejo florestal e à certificação verde avançaram de maneira fragmentada, sem alcançar a centralidade anunciada no discurso inicial.

Contraponto: uma entrega concreta na transição energética

Apesar do baixo cumprimento geral das promessas de campanha, a transição energética foi uma das frentes que avançaram na gestão de Gladson Cameli. Em dezembro de 2023, o governo sancionou a Lei nº 4.280, que criou o Programa Mais Luz para o Acre, voltado ao custeio da instalação e manutenção de placas solares em comunidades isoladas.

A iniciativa foi estruturada em parceria com o Grupo Energisa, a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos, a Secretaria da Fazenda e a Secretaria de Planejamento. O programa complementa o Luz para Todos, do governo federal, e busca levar energia limpa a famílias que vivem fora do Sistema Interligado Nacional, especialmente em áreas rurais, ribeirinhas, indígenas e extrativistas.

Segundo o governo do Acre, até o fim de 2022, mais de 2,3 mil residências já haviam sido beneficiadas. O modelo substituiu, nessas comunidades, o uso de pequenos geradores movidos a diesel ou gasolina por sistemas solares com baterias, reduzindo a dependência do transporte de combustível por rios e ramais.

Além dos painéis, o programa incluiu a instalação da estrutura elétrica interna das casas, com fiação, lâmpadas de LED, tomadas, interruptores e orientações para o uso e a manutenção dos equipamentos. A medida ajudou a ampliar a autonomia energética de comunidades historicamente afetadas pelo isolamento e pela dificuldade de acesso à rede convencional.

A agenda de energia solar também avançou em prédios públicos. Um dos exemplos foi a usina fotovoltaica instalada na Cidade da Justiça do Acre, em Rio Branco, com produção estimada de 66 mil kWh por mês e expectativa de reduzir em cerca de 50% a conta de energia do Tribunal de Justiça do Acre.

Na prática, a experiência mostrou que a energia solar pode ser uma das alternativas mais viáveis para enfrentar o déficit histórico de eletrificação em áreas isoladas da Amazônia acreana. Embora não resolva sozinha os desafios socioambientais do estado, a política representa uma entrega concreta em meio a um balanço marcado por promessas parcialmente cumpridas e metas ambientais ainda pendentes.

A floresta pressionada pelo avanço da fronteira agropecuária

A expansão agropecuária durante a gestão de Gladson Cameli teve impactos diretos sobre a cobertura florestal do Acre. O avanço de pastagens, a fragilidade na regularização fundiária e a pressão sobre florestas públicas alimentaram um processo definido por analistas socioambientais como “rondonização”. O processo é definido como a reprodução no Acre de um modelo semelhante ao de Rondônia, marcado pela substituição da floresta por áreas de pecuária, monoculturas e ocupações irregulares.

Esse movimento foi favorecido por brechas nas regras estaduais de regularização fundiária. Sem limites mais rígidos para ocupações irregulares em terras públicas, cerca de 4,6 milhões de hectares de matas nativas não destinadas ficaram mais expostos à grilagem. Terras indígenas também passaram a sofrer maior pressão de invasões, extração ilegal de madeira e abertura de pastagens, com cerca de 300 mil hectares de vegetação afetados.

Os dados do PRODES/INPE mostram que o desmatamento cresceu de forma acentuada entre 2019 e 2022. O Acre saiu de 707 km² desmatados em 2019 para 1.006 km² em 2022, quando atingiu o maior patamar da década. O pico ocorreu em meio ao avanço das frentes de desmatamento, especialmente em áreas próximas à divisa com Rondônia e Amazonas, região conhecida como Amacro, pressionada pela grilagem e pela abertura de áreas para pastagem.

Fiscalização e financiamento ajudam a frear o desmatamento

A partir de 2023, a curva começou a se inverter. Com a retomada de políticas de controle ambiental, fiscalização em campo e planos articulados de combate ao desmatamento, o estado registrou quedas sucessivas nas taxas de desmatamento. O dado mais recente representa uma redução de mais de 72% em relação ao pico de 2022.

A queda recente do desmatamento no Acre não pode ser atribuída a um único fator. Depois do pico registrado em 2022, o estado passou a combinar fiscalização em campo, uso de inteligência territorial e retomada de instrumentos de financiamento ambiental. O Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas do Acre (PPCDQ/AC), em vigor para o período de 2023 a 2027, tem como objetivo reduzir o desmatamento e a degradação da vegetação nativa, além de prevenir queimadas e incêndios florestais por meio de ações interinstitucionais.

Na prática, a estratégia passou por operações integradas entre órgãos estaduais e federais, cruzamento de alertas de satélite, embargos de áreas desmatadas ilegalmente, aplicação de multas e apreensão de equipamentos usados em crimes ambientais, como tratores, motosserras e madeira extraída de forma irregular. Mais do que ampliar a capacidade técnica de monitoramento, a presença mais constante do Estado no território ajudou a reduzir a sensação de impunidade que alimentava a abertura clandestina de áreas.

Outro fator decisivo foi a retomada do Fundo Amazônia. O projeto Rumo ao Desmatamento Ilegal Zero no Acre recebeu R$ 97,8 milhões para fortalecer a prevenção, o controle e o combate ao desmatamento ilegal e aos incêndios florestais, além de apoiar ações de ordenamento territorial e produção agrícola sustentável. A iniciativa é alinhada ao PPCDQ/Acre e beneficia assentados da reforma agrária, pequenos agricultores, extrativistas, povos indígenas e estudantes da rede pública.

Os resultados começaram a aparecer nos dados mais recentes. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente do Acre, a taxa registrada no ano florestal de 2024–2025 ficou 43% abaixo da meta estabelecida para 2025 no PPCDQ. O avanço reforça a importância da combinação entre comando e controle, financiamento climático, apoio a populações tradicionais e fortalecimento da economia da floresta em pé.

Ainda assim, a redução não elimina os passivos acumulados. Apesar da queda, o saldo do período ainda revela forte pressão sobre o interior da floresta acreana. A perda de cobertura vegetal se concentrou em municípios como Feijó, Sena Madureira e Rio Branco, mas também avançou sobre Tarauacá, Brasiléia, Xapuri, Manoel Urbano, Cruzeiro do Sul, Capixaba e Porto Acre. O aumento das queimadas e dos incêndios rurais em terras indígenas e assentamentos completou o quadro de degradação ambiental.

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Crise hídrica expôs vulnerabilidade climática do Acre

Além do desmatamento, o Acre também chega ao novo período eleitoral pressionado por eventos climáticos cada vez mais extremos. A estiagem prolongada tem reduzido o nível de rios, igarapés e açudes, comprometendo o abastecimento de comunidades rurais, ribeirinhas e áreas urbanas. O caso mais sensível é o do Rio Acre, principal manancial de Rio Branco e de outros seis municípios localizados às suas margens, onde vive mais da metade da população acreana.

A crise hídrica já havia sido reconhecida por Gladson Cameli em seu plano de governo. Durante a campanha, ele prometeu investir em obras de barragens, canais laterais, contenção de encostas e alternativas para o abastecimento de água, além de tratar o esgoto despejado no manancial. No entanto, sua gestão não executou grandes obras capazes de reduzir os impactos das secas e enchentes extremas que atingem populações ribeirinhas, indígenas e comunidades rurais.

Nos períodos mais críticos, a resposta continuou concentrada em medidas emergenciais. Famílias passaram a depender de caminhões-pipa e caixas d’água instaladas em pontos estratégicos. Em 2022, na capital de Rio Branco, a Operação Estiagem atendeu 17 comunidades rurais em 2021; no ano seguinte, esse número subiu para 21. A quantidade de pessoas assistidas com fornecimento emergencial de água também cresceu, passando de 8,3 mil para mais de 14 mil em 2022.

O problema, porém, vai além da falta de chuvas. A degradação das margens do Rio Acre, a perda de mata ciliar para a expansão agropecuária, desvios de cursos d’água para abastecimento de açudes e o despejo de esgoto sem tratamento agravaram a vulnerabilidade do manancial. O saldo da gestão Cameli, nesse ponto, é o de uma promessa reconhecida, mas não transformada em política estruturante de adaptação climática.

A agenda ambiental como ativo político e financeiro

Apesar do discurso e das políticas iniciais mais alinhadas à expansão agropecuária, a gestão de Gladson Cameli não rompeu totalmente com a arquitetura ambiental construída pelo Acre nas décadas anteriores. Com o tempo, o governo passou por uma inflexão pragmática, manteve e reativou instrumentos de captação de recursos ligados à conservação, como o Programa REM Acre – Fase II e o Sistema de Incentivo a Serviços Ambientais, o Sisa.

Essa continuidade não ocorreu apenas por compromisso ambiental. Ela também respondeu a interesses financeiros e institucionais. Em um estado com baixa capacidade de investimento próprio, os mecanismos de governança climática se tornaram estratégicos para manter parcerias internacionais, preservar a reputação do Acre e garantir a entrada de recursos externos. Nesse contexto, a cooperação com a Alemanha e o Reino Unido ganhou peso na sustentação de políticas voltadas a populações tradicionais, agricultura familiar, extrativismo e povos indígenas.

O Programa REM Acre – Fase II, financiado pelo banco alemão KfW e pelo governo britânico, foi o principal canal desse reposicionamento. Os recursos ajudaram a custear ações de apoio à agricultura familiar, ao extrativismo madeireiro e não madeireiro sustentável e à estruturação de órgãos voltados ao atendimento de comunidades isoladas, como a Secretaria Extraordinária de Povos Indígenas.

A permanência do Sisa também foi decisiva. Criado para organizar a política estadual de serviços ambientais, o sistema serviu como base técnica para que o Acre continuasse apto a acessar financiamentos nacionais e internacionais. Essa estrutura permitiu ao estado avançar na retomada de recursos junto ao Fundo Amazônia, com acesso a R$ 98 milhões, e preparar o caminho para novas oportunidades vinculadas ao mercado de carbono jurisdicional e a programas como o LEAF.

Na prática, a gestão Cameli estimulou um modelo de desenvolvimento associado à expansão produtiva, mas também preservou instrumentos ambientais porque eles se mostraram fundamentais para a captação de recursos, a interlocução internacional e a manutenção da imagem do Acre como território estratégico na agenda climática. O resultado é um balanço menos linear, houve pressão sobre a floresta, mas também a permanência de mecanismos que mantiveram aberta a possibilidade de financiar políticas de conservação e bioeconomia.

AC-405: da promessa de infraestrutura ao desgaste político

Na agenda de infraestrutura da gestão Gladson Cameli, a AC-405 foi apresentada como uma obra estratégica para a integração do Vale do Juruá. A rodovia liga Cruzeiro do Sul a municípios vizinhos, como Mâncio Lima, e foi tratada pelo governo estadual como peça importante para melhorar o deslocamento regional, estimular a economia local e ampliar a conexão entre áreas urbanas, produtivas e rurais.

Mas a duplicação e a ampliação do eixo viário também expuseram tensões socioambientais comuns em obras de infraestrutura na Amazônia. Movimentos socioambientais apontam o risco de aumento da pressão sobre a floresta no entorno da rodovia, especialmente em áreas próximas à Reserva Extrativista Japiim-Pentecoste e a zonas de amortecimento. 

A abertura de ramais secundários, legais e ilegais, pode facilitar invasões, extração irregular de madeira, grilagem e avanço de pastagens sobre áreas de uso tradicional. O conflito envolve também comunidades extrativistas, ribeirinhas e indígenas que dependem da floresta em pé para atividades como coleta de açaí, borracha, óleos medicinais e pesca de subsistência. 

Além do asfalto, a própria execução da obra demanda insumos como argila, piçarra e seixo, cuja retirada em margens de rios e igarapés pode gerar assoreamento, contaminação de cursos d’água e passivos ambientais quando não há recuperação adequada das áreas exploradas.

A AC-405 também se insere em uma discussão mais ampla sobre o modelo de desenvolvimento no extremo oeste do Acre. A sua ampliação ocorre em uma região sensível, próxima a terras indígenas e conectada a debates sobre corredores logísticos transfronteiriços, como o eixo Cruzeiro do Sul–Pucallpa, no Peru. 

Para organizações indígenas e indigenistas, o avanço da infraestrutura viária sem salvaguardas robustas pode intensificar impactos acumulados sobre territórios tradicionais, aumentar vulnerabilidades sociais e facilitar fluxos ilícitos em áreas de fronteira.

O caso ganhou dimensão ainda mais grave com os desdobramentos da Operação Ptolomeu. Após a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenar Gladson Cameli a mais de 25 anos de prisão no processo principal da operação, o tribunal tornou o ex-governador réu em uma ação penal focada exclusivamente no “Caso Colorado”.

Orçada em mais de R$ 46 milhões, a obra da AC-405 entrou no centro das apurações sobre irregularidades em contratos de infraestrutura, incluindo suspeitas de superfaturamento e pagamento por insumos naturais que teriam sido obtidos em jazidas públicas do próprio Estado. As denúncias também apontaram vínculos entre a Construtora Colorado e o núcleo familiar de Cameli, além de falhas no Deracre, órgão responsável pela fiscalização da obra.

Assim, a AC-405 passou a simbolizar mais do que uma promessa de integração regional. A obra condensou parte das contradições da gestão: de um lado, a defesa de infraestrutura como caminho para o desenvolvimento no Acre; de outro, os riscos socioambientais associados à abertura de novas frentes viárias e a crise de governança provocada por denúncias de corrupção em contratos públicos. 

Gladson Cameli em primeiro plano e Mailza Assis ao fundo durante agenda institucional no Acre.
Foto: Juruá em Tempo

Mailza Assis assume entre ativos ambientais e passivos políticos

Mailza Assis assumiu o governo do Acre em meio à dupla tarefa de administrar os passivos deixados pela gestão anterior e recuperar a credibilidade institucional do estado diante de parceiros nacionais e internacionais. Ao mesmo tempo, a nova governadora herdou uma estrutura ambiental relevante. 

Entre os principais ativos estão o Sistema de Incentivo a Serviços Ambientais, o Sisa, o Centro Integrado de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental, o Cigma, além de recursos pactuados pelo Programa REM Acre – Fase II e pela retomada de financiamentos junto ao Fundo Amazônia. Esses mecanismos mantêm o Acre conectado à agenda climática internacional e são estratégicos para a captação de recursos voltados à conservação, bioeconomia e adaptação climática. 

Os desafios, no entanto, permanecem expressivos. Embora o estado tenha registrado em 2025 o menor índice de desmatamento desde 2017, ainda carrega um histórico de pressão sobre municípios do interior, invasões em terras indígenas e conflitos ligados à ocupação irregular de áreas florestais. 

A isso se soma a vulnerabilidade crescente a eventos extremos, como cheias severas e secas prolongadas, que afetam sobretudo comunidades ribeirinhas, indígenas e populações isoladas. Em abril de 2026, uma enchente fora de época no Rio Gregório atingiu 140 famílias Yawanawá e Katukina/Noke Ko’í, em Tarauacá, inundando moradias, destruindo roças e comprometendo o acesso à água potável.

Além das ações emergenciais, o governo estadual afirmou que pretende adotar estratégias de médio e longo prazo para adaptação climática, com integração entre órgãos públicos, diálogo com as comunidades, fortalecimento da resiliência territorial, melhoria da infraestrutura e recuperação dos danos já existentes.

Nos primeiros meses, a gestão Mailza passou a apostar na chamada governança verde como eixo de reposicionamento. A estratégia inclui integrar secretarias, fortalecer o monitoramento ambiental, avançar na certificação de créditos de carbono e revisar mecanismos de repartição de benefícios do Sisa. O objetivo é transformar a estrutura herdada em resultados concretos, com mais proteção territorial, maior segurança para os financiamentos climáticos e respostas permanentes aos impactos da crise ambiental no Acre.

O balanço dos últimos mandatos no Acre mostra um estado atravessado por contradições. De um lado, a gestão de Gladson Cameli apostou em uma agenda de crescimento baseada no agronegócio, na infraestrutura e na ampliação da capacidade produtiva. De outro, precisou preservar mecanismos ambientais estratégicos, como o Sisa e o Programa REM, fundamentais para manter a interlocução com financiadores internacionais e sustentar políticas voltadas à floresta em pé, aos povos tradicionais e à bioeconomia.

O resultado desse período não cabe em uma leitura simples. Houve entregas concretas, como a expansão da energia solar em comunidades isoladas, e a manutenção de instrumentos importantes de captação climática. Mas o estado também acumulou passivos relevantes, como o avanço recorde do desmatamento em parte do período, pressão sobre terras públicas e indígenas, conflitos socioambientais ligados à infraestrutura e uma crise institucional agravada pelas investigações e pela condenação de Cameli no STJ.

Com Mailza Assis, o Acre inicia um novo ciclo sob a necessidade de reconstruir credibilidade e reposicionar sua agenda socioambiental. A governadora herda ativos importantes, como estruturas de monitoramento, recursos climáticos e programas de serviços ambientais, mas também assume o desafio de transformar esses instrumentos em políticas permanentes de adaptação, transparência e proteção territorial.

O futuro socioambiental do Acre dependerá menos do discurso de equilíbrio entre produção e conservação e mais da capacidade de colocá-lo em prática. Para que a floresta em pé deixe de ser apenas um ativo reputacional e financeiro, será preciso reduzir o desmatamento de forma contínua, fortalecer comunidades tradicionais e adaptação climática e ampliar a bioeconomia.

Brasilidade, a soberania inadiável

Coluna Follow-Up

Há momentos na história de uma nação em que as divergências se tornam mais visíveis do que os consensos. O Brasil vive um desses períodos.

A transição para o novo sistema tributário, a reorganização das cadeias produtivas globais, a disputa internacional por investimentos, a transformação tecnológica e a emergência climática colocam diante do país questões que desafiam antigas certezas e exigem novas formas de diálogo.

Nesse ambiente de mudanças, é natural que diferentes setores econômicos manifestem preocupações, apresentem estudos, defendam posições e busquem proteger seus interesses legítimos. Faz parte da democracia. Faz parte também do processo de aperfeiçoamento das instituições.

A recente controvérsia envolvendo a Zona Franca de Manaus e os mecanismos de preservação de sua competitividade deve ser compreendida sob essa perspectiva.

De um lado, setores industriais de outras regiões procuram assegurar condições equilibradas de concorrência dentro do novo sistema tributário. Referimo-nos à ação da Fiesp contra a Zona Franca de Manaus. De outro, a Amazônia e suas instituições econômicas, representadas aqui pela indústria da floresta, recordam ao país que a Constituição Federal não tratou a Zona Franca como um benefício setorial transitório, mas como um instrumento permanente de integração nacional, ocupação territorial, desenvolvimento regional e proteção ambiental.

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O que está em curso vai muito além de uma discussão tributária. O país é chamado simultaneamente a enfrentar os desafios da reindustrialização, da transição energética, da transformação digital, da segurança alimentar, da competitividade internacional e da liderança ambiental.

Poucas vezes na história recente tantos temas estruturantes estiveram sobre a mesma mesa. É justamente por isso que os debates precisam ser conduzidos com prudência, profundidade e senso de responsabilidade nacional.

Interesses legítimos, destino compartilhado

O risco surge quando o debate passa a ser interpretado como uma disputa entre vencedores e vencidos.

A experiência brasileira demonstra que as grandes soluções nacionais jamais nasceram da eliminação de um interesse legítimo em favor de outro. Elas surgiram da construção paciente de convergências capazes de acomodar diferenças sem destruir os fundamentos da cooperação.

O problema começa quando a defesa de uma parte passa a exigir a deslegitimação da outra.

As trincheiras costumam produzir aplausos imediatos. Raramente produzem soluções duradouras. Quando os debates econômicos se transformam em disputas regionais, perde-se a capacidade de enxergar o quadro maior. A energia que deveria ser direcionada para enfrentar desafios globais acaba consumida em conflitos internos.

O mundo atual oferece desafios suficientemente complexos para que o Brasil desperdice recursos políticos, intelectuais e institucionais em antagonismos domésticos.

Quando se observa a questão com serenidade, percebe-se que a discussão não se limita à competitividade de um setor ou de uma região. O verdadeiro debate envolve a capacidade do país de preservar sua coesão federativa enquanto constrói um ambiente econômico moderno, eficiente e competitivo.

Trata-se de encontrar um ponto de equilíbrio entre neutralidade tributária, desenvolvimento regional, segurança jurídica e integração nacional. Essa é uma tarefa que exige inteligência institucional e não simplificações.

Durante muito tempo, o Brasil acostumou-se a olhar para si mesmo através de suas limitações. A precariedade logística. A complexidade tributária. A baixa produtividade. As desigualdades regionais…

BRASILIDADE
Desigualdades –  Crédito: Prefeitura de Manaus

Todos problemas reais.

Mas o século XXI introduziu uma mudança silenciosa nessa narrativa. Enquanto continuávamos concentrados em nossas carências, o mundo passou a observar nossos ativos.

A maior floresta tropical do planeta. Uma das maiores reservas de água doce do mundo. Uma matriz energética comparativamente limpa. Capacidade agroalimentar estratégica.

Reservas minerais decisivas para a transição energética. Uma base industrial diversificada. Uma posição geográfica privilegiada. Talvez a pergunta mais importante deste momento histórico seja simples:

O século XXI desmontou a antiga visão periférica sobre a Amazônia. A floresta, a biodiversidade, os recursos hídricos, os serviços ambientais, a bioeconomia e sua posição geopolítica transformaram a região em um dos ativos estratégicos mais importantes do planeta.

Defender a Amazônia não é defender apenas uma região. É proteger um patrimônio brasileiro de relevância global.

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O mesmo raciocínio vale para São Paulo. Seu parque industrial, sua capacidade tecnológica, sua infraestrutura financeira, suas universidades e centros de pesquisa constituem uma das maiores concentrações de inteligência produtiva do hemisfério sul.

A força econômica paulista ajudou a construir o Brasil moderno. Reconhecer esse papel não diminui a importância de outras regiões. Pelo contrário. Ajuda a compreender a dimensão da responsabilidade compartilhada que repousa sobre os diferentes polos do desenvolvimento nacional.

A competição real não ocorre entre Manaus e São Paulo. Ela ocorre entre o Brasil e os demais polos globais de inovação, produção, tecnologia e investimento. Enquanto discutimos nossas diferenças internas, o mundo reorganiza cadeias produtivas, redefine mercados estratégicos e acelera a corrida tecnológica.

O desafio brasileiro não é decidir qual região vencerá. O desafio brasileiro é garantir que o país inteiro avance.

O verdadeiro desafio brasileiro não consiste em escolher entre competitividade e desenvolvimento regional.

Nem entre indústria e floresta. Nem entre crescimento econômico e sustentabilidade. A questão estratégica é como transformar esses ativos em uma vantagem nacional coerente.

A soberania contemporânea não depende apenas de fronteiras protegidas. Ela depende da capacidade de transformar recursos naturais, conhecimento científico, infraestrutura produtiva e inteligência institucional em prosperidade compartilhada.

A Amazônia e São Paulo não representam alternativas excludentes. Representam dimensões complementares da mesma estratégia nacional.

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A disputa contemporânea não ocorre entre os estados brasileiros. Ela ocorre entre países capazes de coordenar seus ativos estratégicos e países incapazes de fazê-lo.

Enquanto o Brasil debate a distribuição de incentivos, outras nações articulam políticas industriais, segurança energética, inovação tecnológica e acesso a recursos críticos.

A pergunta relevante não é quanto ganha Manaus. Nem quanto ganha São Paulo. A pergunta é quanto perde o Brasil quando seus principais ativos deixam de atuar de forma complementar.

O momento exige a recuperação de uma tradição brasileira frequentemente esquecida. Uma tradição baseada na capacidade de dialogar sem abrir mão das convicções. Um ecumenismo inteligente das forças produtivas.

Não se trata de buscar unanimidades artificiais. Trata-se de identificar aquilo que une antes de enfatizar aquilo que separa. A boa política econômica nasce justamente dessa capacidade de construir pontes entre interesses legítimos.

Quem sabe seja hora de as forças produtivas brasileiras construírem uma agenda comum. Uma agenda baseada em consensos fundamentais.

Nenhum desses objetivos pertence exclusivamente a uma região. Todos pertencem ao país.

Da reforma tributária à transição econômica, o Brasil precisa de um pacto de maturidade institucional capaz de colocar o interesse nacional acima das disputas circunstanciais.

As discordâncias continuarão existindo. E devem continuar. O que não pode acontecer é que elas obscureçam aquilo que verdadeiramente importa.

O Brasil não será mais competitivo porque uma região venceu outra. Não será mais soberano porque um setor prevaleceu sobre os demais. Não será mais forte porque transformou divergências legítimas em antagonismos permanentes.

Sua força nascerá da capacidade de reconhecer que floresta, indústria, ciência, tecnologia, trabalho e território são partes de uma mesma construção histórica.

Nem São Paulo. Nem Manaus. O Brasil. Porque a brasilidade, diante dos desafios do nosso tempo, deixou de ser apenas um sentimento de pertencimento.

Tornou-se uma exigência estratégica. E uma soberania que já não pode ser adiada.

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Os rios estão avisando

As secas recentes revelaram a vulnerabilidade da Amazônia diante das mudanças climáticas e dos fenômenos oceânicos que afetam o regime das águas. O impacto vai muito além da navegação, atingindo comunidades, serviços públicos e a própria capacidade de planejamento da economia regional. Enquanto a indústria já incorpora o risco climático em suas estratégias, a região ainda carece de uma política permanente de adaptação, infraestrutura resiliente e inteligência preventiva.

As evidências já deixaram o campo das projeções para ocupar o terreno concreto dos fatos. Os extremos climáticos observados na Amazônia nos últimos anos, particularmente os efeitos devastadores das estiagens de 2023 e 2024, transformaram aquilo que antes era tratado como excepcionalidade em variável permanente do planejamento regional.

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Foto Secom


A maior seca registrada em mais de um século no Amazonas não produziu apenas imagens impactantes de embarcações encalhadas, comunidades isoladas e paisagens alteradas. Ela expôs a vulnerabilidade estrutural de uma região cuja circulação de pessoas, mercadorias, medicamentos, alimentos e insumos depende essencialmente do comportamento dos rios.

As estimativas relacionadas ao agravamento dos fenômenos associados ao El Niño e às oscilações climáticas globais reforçam um cenário que recomenda prudência, mas sobretudo ação. Não se trata mais de discutir se novos episódios ocorrerão. A questão central passou a ser o grau de preparação institucional, logística e econômica para enfrentá-los.

O setor industrial já compreendeu essa mudança. O planejamento anual das empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus passou a incorporar a variável climática como fator estratégico de produção. Estoques mais robustos, antecipação de compras, revisão de cronogramas, contratação de soluções emergenciais de transporte e adaptações logísticas deixaram de ser medidas extraordinárias para integrar a rotina de gestão. 

A experiência recente demonstrou que os prejuízos não se restringem ao ambiente empresarial. O desabastecimento afeta cadeias inteiras de serviços públicos e privados. Comunidades ribeirinhas enfrentam dificuldades de acesso à água, saúde, educação e alimentação. A interrupção da navegação compromete desde a chegada de medicamentos até o deslocamento de estudantes. Entre 2023 e 2024, centenas de milhares de amazonenses sentiram diretamente os efeitos desse desequilíbrio hidrológico. 

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Porto flutuante – insumos da industria

Algumas respostas emergenciais foram adotadas. Dragagens, portos provisórios, reforço de estoques e operações especiais de abastecimento evitaram um cenário ainda mais grave. Mas as próprias instituições envolvidas reconhecem que medidas emergenciais não podem substituir uma política permanente de adaptação climática e infraestrutura resiliente.

A Amazônia exige um novo conceito de prevenção. Isso significa monitoramento contínuo, inteligência climática, investimentos em hidrovias, portos adaptáveis, sistemas multimodais de transporte, proteção das populações vulneráveis e planejamento integrado entre governos, setor produtivo, universidades e centros de pesquisa.

A lição deixada pelos últimos anos é inequívoca. O custo da prevenção será sempre menor que o custo da improvisação.

Os rios da Amazônia continuam sendo o principal sistema circulatório da região. Quando eles adoecem, toda a economia, toda a logística e toda a vida social sentem os efeitos. Ignorar os sinais emitidos pelas águas seria um erro que a realidade recente já demonstrou ser caro demais.

Providências imediatas de prevenção não representam uma opção administrativa. Tornaram-se uma exigência estratégica para quem pretende preservar o abastecimento, proteger a população e garantir a continuidade do desenvolvimento regional em um tempo de mudanças climáticas cada vez mais intensas.

Adalberto Val leva a Amazônia ao pódio da ciência mundial

Alguns prêmios costumam  reconhecer uma descoberta. Outros celebram uma carreira. A Le Cren Medal pertence a uma categoria ainda mais rara: distingue cientistas cuja trajetória ajudou a redefinir um campo inteiro do conhecimento.

Foi esse reconhecimento que alcançou o pesquisador Adalberto Luis Val, um dos mais respeitados cientistas brasileiros da atualidade e da comunidade científica mundial e cofundador do portal Brasil Amazônia Agora. A Sociedade de Biologia de Peixes das Ilhas Britânicas anunciou a concessão da Le Cren Medal ao pesquisador brasileiro, em reconhecimento a quase cinco décadas dedicadas ao estudo da fisiologia dos peixes amazônicos e das respostas da vida às condições ambientais extremas da maior floresta tropical do planeta.  

A escolha carrega um simbolismo que ultrapassa a trajetória individual do homenageado.  Pela primeira vez, uma parcela significativa do conhecimento produzido na Amazônia ocupa posição de destaque em uma das mais tradicionais comunidades científicas internacionais dedicadas à biologia experimental.

Adalberto val
Keiny Andrade

Ao longo de mais de quarenta anos de atuação no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Adalberto Val transformou os rios amazônicos em laboratórios naturais para compreender como organismos sobrevivem em ambientes marcados por baixa disponibilidade de oxigênio, variações extremas de temperatura, alterações químicas da água e pressões crescentes decorrentes das mudanças climáticas.  

Suas pesquisas contribuíram para consolidar uma nova compreensão sobre adaptação biológica, fisiologia comparada e conservação dos ecossistemas aquáticos tropicais. Os conhecimentos produzidos por sua equipe passaram a influenciar estudos em diferentes continentes, estabelecendo pontes entre a ciência amazônica e os grandes debates globais sobre biodiversidade, segurança alimentar e clima.  

A trajetória acadêmica de Val inclui a direção do INPA entre 2006 e 2014, a vice-presidência da Academia Brasileira de Ciências para a Região Norte, a coordenação do INCT-Adapta e o reconhecimento por instituições científicas nacionais e internacionais. Ao longo desse percurso, orientou mais de uma centena de pesquisadores e ajudou a formar gerações de cientistas comprometidos com a compreensão e a proteção da Amazônia.  

Seu maior legado provavelmente esteja inscrito em outra dimensão.

Em uma região frequentemente retratada apenas por seus conflitos ambientais, Adalberto Val ajudou a demonstrar que a Amazônia também é um território produtor de conhecimento sofisticado, ciência de fronteira e inovação intelectual. Seu trabalho mostrou que a floresta não é apenas objeto de estudo. É fonte de respostas para desafios que interessam ao mundo inteiro.

No Brasil Amazônia Agora, sua presença entre os fundadores sempre representou esse compromisso. O compromisso de afirmar que desenvolvimento sustentável exige ciência. Que soberania depende de conhecimento. E que o futuro da Amazônia será construído não apenas pela preservação de seus recursos naturais, mas também pela valorização de sua inteligência.

A Le Cren Medal chega, portanto, como reconhecimento internacional a um cientista. Mas também como homenagem à capacidade da Amazônia de produzir pensamento, formar talentos e oferecer contribuições originais para a humanidade.

Em um tempo de tantas incertezas globais, a premiação de Adalberto Val lembra que algumas das respostas mais importantes para o futuro continuam brotando dos rios, das florestas e dos laboratórios da Amazônia.  

 Adalberto Luís Val é natural de Campinas, no interior de São Paulo. Ele chegou a Manaus em 1981, junto com sua esposa, a pesquisadora Vera Maria Fonseca de Almeida-Val, para realizar seus estudos de mestrado e doutorado no INPA, na área de Biologia de Água Doce e Pesca Interior.

Em 1982, tornou-se servidor do instituto, onde consolidou sua carreira ao longo de 44 anos. Com Vera, fundou o Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), referência nos estudos sobre fisiologia, adaptação e evolução de peixes amazônicos. Atualmente, coordena projetos voltados a compreender como as mudanças climáticas afetam os peixes e a vida aquática da maior bacia hidrográfica do mundo.

Val é autor de mais de 280 artigos científicos, 22 livros e 78 capítulos de livros, além de ter orientado dezenas de estudantes de pós-graduação e pesquisadores de pós-doutorado. Sua produção acumula mais de 10 mil citações e já foi reconhecida com importantes prêmios nacionais e internacionais, incluindo a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico e o Award of Excellence da American Fisheries Society.

A diplomacia das águas 

Entre tarifas, tecnologia e soberania digital, Brasil e Estados Unidos atravessam uma nova fase de tensões. Na Amazônia, onde a experiência ensina que sobreviver nem sempre é resistir frontalmente, a lição parece apontar para outro caminho: firmeza estratégica, prudência e capacidade de diálogo“.

Coluna Follow-Up

A Amazônia guarda lições que raramente aparecem nos manuais de geopolítica. Quando a correnteza aperta, quem atravessa o rio não é necessariamente quem rema com mais força. Muitas vezes é quem conhece melhor as águas, respeita seus ciclos e compreende o momento de avançar, esperar ou mudar de rota.

A nova rodada de tensões entre Brasil e Estados Unidos parece caminhar exatamente por esse terreno.

De um lado, Washington amplia a pressão comercial sobre produtos brasileiros e incorpora à discussão elementos que vão além das tarifas tradicionais, alcançando temas regulatórios, tecnológicos e financeiros. De outro, Brasília sinaliza disposição para negociar aspectos da relação econômica bilateral, mas estabelece limites em áreas consideradas estratégicas para sua autonomia institucional.

A controvérsia em torno do Pix tornou-se o símbolo mais visível desse embate.

À primeira vista, trata-se de um sistema de pagamentos. Observado com mais atenção, porém, o debate alcança uma questão muito mais ampla: qual deve ser o espaço dos Estados nacionais na construção de infraestruturas digitais, na organização dos mercados e na proteção de seus interesses estratégicos em um ambiente econômico crescentemente concentrado?

Quando a disputa deixa de ser comercial

Seria simplista interpretar o episódio como mais uma divergência circunstancial entre governos. O pano de fundo é mais complexo.

As grandes potências atravessam um período de reorganização econômica e tecnológica. Cadeias globais de produção estão sendo redesenhadas. A disputa por dados, inteligência artificial, minerais estratégicos, energia e mercados consumidores tornou-se parte central da competição internacional.

Nesse contexto, instrumentos regulatórios passaram a ocupar um papel semelhante ao das tarifas aduaneiras do século passado.

O que antes era resolvido nas alfândegas agora frequentemente se desloca para as arenas da tecnologia, dos serviços financeiros, da propriedade intelectual e das plataformas digitais.

O caso brasileiro surge exatamente nesse cruzamento.

O Pix e a nova fronteira da soberania digital

O Pix representa uma experiência singular.

Criado pelo Banco Central do Brasil, tornou-se uma infraestrutura pública capaz de reduzir custos de transação, ampliar a inclusão financeira e transformar hábitos de consumo em poucos anos. O seu valor simbólico, civilizacional e popular é inestimável. 

O seu sucesso despertou atenção internacional e também desconfortos previsíveis em setores que historicamente operaram com modelos de negócio baseados em custos mais elevados de intermediação.

Não surpreende, portanto, que o sistema tenha migrado da pauta financeira para o centro de uma discussão comercial.

Mas talvez a pergunta mais relevante não seja econômica.

A questão fundamental é saber até que ponto um país pode desenvolver soluções próprias para atender seus interesses nacionais sem que isso seja interpretado como ameaça aos interesses de terceiros.

Essa discussão não se restringe ao Brasil, ela atravessa hoje diversos países que procuram equilibrar integração global e autonomia estratégica.

O que realmente está em jogo entre Brasília e Washington

A relação entre Brasil e Estados Unidos possui densidade histórica, econômica e política suficiente para sobreviver a turbulências ocasionais.

Os dois países permanecem importantes parceiros comerciais, investidores relevantes e atores centrais em temas que vão da segurança energética à estabilidade climática.

Por isso mesmo, dificilmente o desfecho será encontrado em discursos inflamados ou gestos de enfrentamento. A tendência mais provável é que prevaleça o terreno da negociação.

O governo brasileiro já sinalizou disposição para discutir temas tarifários, comerciais e regulatórios. Ao mesmo tempo, procura preservar instrumentos considerados essenciais para sua governança econômica. “O Pix é inegociável”, disse o presidente Lula.

Esse equilíbrio será decisivo.

A Amazônia no tabuleiro das grandes potências

A Amazônia costuma aparecer nas manchetes globais associada à floresta, à biodiversidade e às mudanças climáticas. Todos esses elementos permanecem centrais.

Mas existe uma dimensão menos observada.

A região tornou-se cada vez mais relevante para temas como segurança energética, minerais estratégicos, bioeconomia, infraestrutura logística, soberania territorial e integração sul-americana.

Em um cenário de crescente competição internacional, essa centralidade tende a aumentar.

Assim, a Amazônia supera a sua condição exclusiva de objeto de interesse ambiental e passa a integrar discussões relacionadas ao futuro da economia mundial.

Por que a Zona Franca deve prestar atenção

Os impactos imediatos das medidas em debate talvez sejam limitados para grande parte das empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus. Afinal, as exportações representam parcela relativamente modesta do faturamento total do modelo.

Mas os efeitos indiretos merecem atenção.

Ambientes de incerteza costumam afetar decisões de investimento, planejamento produtivo, estratégias logísticas e expectativas de mercado.

Empresas passam a revisar cenários, cadeias de suprimento tornam-se mais cautelosas e projetos de expansão são reavaliados. Para uma economia baseada em ciclos industriais de longo prazo, previsibilidade institucional continua sendo um dos ativos mais valiosos.

Neste caso, previsibilidade institucional é mais importante do que a própria tarifa.

A lição que vem da floresta

A experiência amazônica oferece uma referência útil para momentos como este.

Os povos da floresta aprenderam, ao longo dos séculos, que relações duradouras exigem firmeza sem arrogância, prudência sem passividade e diálogo sem submissão. Nenhum desses atributos pode ser confundido com fraqueza, pelo contrário, são frequentemente sinais de maturidade.

O valor estratégico da prudência

Nem toda disputa precisa produzir vencedores e derrotados.

Nas relações internacionais, resultados sustentáveis costumam surgir quando os interesses legítimos das partes encontram pontos de convergência. O Brasil possui razões consistentes para defender instrumentos considerados estratégicos para seu desenvolvimento.

Os Estados Unidos possuem interesses que procurarão preservar.

A questão está em construir pontes capazes de acomodar essas diferenças sem ampliar desnecessariamente os custos econômicos e políticos para ambos os lados.

A sobrevivência dos que enxergam a paisagem inteira

Os rios amazônicos oferecem uma metáfora apropriada para o momento. Eles raramente seguem em linha reta, contornam obstáculos, adaptam-se ao relevo, absorvem afluentes, mudam de direção quando necessário e continuam avançando.

As relações entre Brasil e Estados Unidos talvez estejam entrando em mais uma dessas curvas históricas. A pressa dificilmente será boa conselheira. A Amazônia conhece bem esse tipo de travessia.

Na floresta, a sobrevivência raramente pertence ao mais barulhento, ela costuma favorecer quem compreende a paisagem inteira.


Follow Up é publicada às quartas, quintas e sextas feiras no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal https://brasilamazoniaagora.com.br.

Super El Niño 2026-2027: O que o Amazonas precisa fazer antes que seja tarde

Relatórios internacionais indicam alta probabilidade de formação de um dos eventos climáticos mais intensos das últimas décadas. Especialistas defendem medidas urgentes para proteger populações vulneráveis, garantir abastecimento e reduzir riscos de uma nova seca histórica. 

O planeta está diante de um dos alertas climáticos mais sérios dos últimos anos. A NOAA — Agência Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos — publicou em 14 de maio de 2026 seu relatório mais recente sobre o ENOS (El Niño-Oscilação Sul) e os números são inequívocos: há 82% de probabilidade de o El Niño se consolidar entre maio e julho de 2026, com chance superior a 96% de persistência até o início de 2027 (NOAA/CPC, maio 2026).

Não se trata de um El Niño ordinário. O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) e o Climate Prediction Center dos Estados Unidos apontam que, no trimestre entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, há chances praticamente iguais — cerca de 25% cada — de o fenômeno atingir intensidade moderada, forte ou muito forte. Esta última categoria é o que cientistas e a imprensa internacional têm chamado de “Super El Niño”: anomalias de temperatura superficial do Oceano Pacífico iguais ou superiores a 2,0°C acima da média histórica.

Uma nota técnica conjunta publicada em abril de 2026 pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), Funceme e CENSIPAM confirma que o oceano subsuperficial do Pacífico equatorial já apresenta aquecimento anômalo progressivo há meses — sinal que historicamente antecede a formação do fenômeno. Segundo o documento, “o déficit de precipitação previsto para as bacias hidrográficas da Amazônia, incluindo as cabeceiras dos principais rios, constitui fator determinante para a redução dos níveis fluviais, com impactos que se estendem além do período seco” (Nota Técnica El Niño 2026 — INPE/INMET/Funceme/CENSIPAM, abril 2026).

El Niño 2026-2027
Aquecimento e resfriamento maiores ou menores, definem a intensidade do fenômeno, numa escala que qualifica as fases extremas como Fraco, Moderado, Forte e Muito Forte. /foto: reprodução internet

O que está em jogo, portanto, não é se o El Niño vai chegar. É o quão forte ele será — e o quão preparada a Amazônia estará para recebê-lo.

Compreender o Super El Niño de 2026-2027 exige entender um dado que muda a natureza do problema: este fenômeno não se desenvolve sobre o clima do século XX. Ele se desenvolve sobre um sistema climático já alterado por décadas de aquecimento global.

O físico Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e um dos mais respeitados cientistas climáticos do Brasil, é direto: “O El Niño faz o clima sair da sua normalidade e ele está sendo agravado pela crise climática” (Exame, maio 2026). Quando o fenômeno opera sobre oceanos já superaquecidos e uma atmosfera com concentração recorde de CO₂, seus efeitos se amplificam em vez de se dissiparem.

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Físico Paulo ArtaxoFoto: Ricardo Stuckert/PR

O El Niño de 1997-1998 — o mais intenso do século XX — drenou entre 32 e 96 bilhões de dólares da economia global (Climate Brief, 2026). O mundo de 2026 é mais quente, mais vulnerável e economicamente mais interconectado. Os modelos indicam que o evento que se aproxima pode superar essa marca com facilidade.

Para a Amazônia, o problema tem uma camada adicional: a floresta em si está mais frágil. Um estudo publicado na revista científica internacional Nature Climate Change e divulgado pelo ClimaInfo (2024) revelou que 37% da vegetação madura da Amazônia já apresenta desaceleração na recuperação pós-seca — um indicativo precoce de que o bioma está se aproximando de um ponto de inflexão ecossistêmico. E somente nas últimas duas décadas, a Amazônia experimentou quatro episódios de seca cuja probabilidade estatística era de uma vez a cada cem anos (2005, 2010, 2015-2016 e 2023-2024). Cada um foi superado em magnitude pelo seguinte.

O climatologista José Marengo, coordenador-geral de pesquisa do Cemaden, alerta em cenário que considera “não descartado”: “A floresta pode colapsar, afetando o clima regional e global” (Mongabay/eCycle). Estudos liderados por Marengo demonstram que, nos últimos 50 anos, a estação seca no sul da Amazônia já se estendeu em pelo menos um mês — e segue crescendo.

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Seca e vento prejudicam flora na Amazônia (Foto: Getty Images)

A pesquisadora Johanna van Passel, da Katholieke Universiteit Leuven (Bélgica), autora do estudo sobre resiliência florestal, resume o risco com precisão: “Se já estamos vendo um ponto de inflexão se aproximando no nível macroflorestal, então deve estar piorando no nível micro” (ClimaInfo, 2024).

A Amazônia não precisa imaginar o que um El Niño forte faz. Ela o viveu, em sequência inédita, nos dois últimos anos. O que esses eventos deixaram registrado é um mapa detalhado de vulnerabilidades — e uma lista de erros que não podem se repetir quando o próximo evento chegar em escala potencialmente maior.

Em 2023, mais de 250 mil pessoas foram afetadas pela seca severa no Amazonas, com 20 municípios em estado crítico (Defesa Civil Estadual do Amazonas, 2023). O Rio Negro em Manaus atingiu níveis históricos mínimos. Em Tabatinga, o Solimões chegou a 0,4 metro — contra 2,61 metros no mesmo período do ano anterior. Em Itacoatiara, o Rio Amazonas atingiu 83 centímetros em 2024. Em Parintins, os níveis chegaram a 1,9 metro — a menor marca registrada em 49 anos (Agência Gov, maio 2026).

Em comunidades indígenas, o impacto foi ainda mais grave. O UNICEF registrou que, após a estiagem de 2023: “Tivemos aumento da desnutrição e mortalidade infantil. Foi a primeira vez que tivemos esse impacto aqui. Muitas aldeias ficaram isoladas. Tivemos problema com água potável em aldeias que dependem de igarapés para se abastecer”(UNICEF Brasil, 2024).

A falta de água potável levou comunidades a ferver água barrenta usando panos como filtro. Os poços secaram. O acesso a alimentos, medicamentos e serviços de saúde ficou comprometido por meses. A navegação — artéria principal de abastecimento de dezenas de municípios — foi parcialmente interrompida, com aumento imediato do preço da cesta básica. O pesquisador Renato Sena, do INPA, foi direto: “Infelizmente, esta é uma tendência dos próximos anos” (Brasil de Fato, agosto 2024).

É inédito ter duas secas dessa proporção consecutivas na Amazônia. O Greenpeace Brasil registrou que a seca de 2023-2024 foi a mais grave no Brasil desde 1950 — e que as populações mais afetadas são exatamente as que menos contribuíram para a crise climática: quilombolas, indígenas, ribeirinhos, pescadores e agricultores familiares (Greenpeace Brasil, 2024).

Se os eventos de 2023 e 2024 causaram esse nível de impacto com um El Niño de intensidade moderada-forte, o cenário de um Super El Niño exige uma projeção honesta dos riscos.

A nota técnica conjunta do INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM (abril 2026) aponta que, em anos de El Niño forte, a Amazônia tende a enfrentar redução expressiva das chuvas com possibilidade de prolongamento da estação seca, com impactos que se estendem além do período seco em função da defasagem hidrológica entre as cabeceiras e a calha dos rios. Isso significa que mesmo o retorno das chuvas não interrompe imediatamente o colapso dos rios — o ciclo de recuperação pode levar meses.

O relatório técnico publicado pela Revista Cenarium (maio 2026) aponta que a estiagem pode alcançar níveis iguais ou superiores ao El Niño de 2015, quando os focos de incêndio aumentaram 36% em relação à média dos 12 anos anteriores. Combinando esse dado com a fragilidade já documentada da floresta — 37% com recuperação desacelerada — o risco de incêndios de proporção sem precedente é real.

Os setores impactados, conforme o CEMADEN e a nota técnica do INPE (2026), incluem: a geração de energia hidrelétrica (o Amazonas depende criticamente de Tucuruí e do sistema integrado); a navegação fluvial (única via de abastecimento de dezenas de municípios); a pesca artesanal (base alimentar e econômica de centenas de milhares de famílias); a saúde pública (surtos de doenças respiratórias por fumaça, gastrointestinais por água contaminada, e desnutrição em comunidades isoladas); e a segurança alimentar regional — com repercussões que se estendem para além da Amazônia, pois a floresta regula o regime de chuvas de todo o Brasil.

Cientistas da Climate Brief alertam que, se a fase Super El Niño se consolidar no final de 2026, o ano de 2027 tem condições de quebrar novamente o teto das temperaturas globais, empurrando a humanidade para um território climático completamente desconhecido.

A janela de preparação é estreita. O El Niño começa a se consolidar entre maio e julho. Os impactos mais graves são esperados na primavera e no fim de 2026. O que precisa ser feito tem que começar agora — não depois das primeiras imagens de rios secos nos telejornais.

1. Ativar sistemas de previsão e alerta precoce em escala municipal

A maior lição de 2023 e 2024 é que os municípios do interior foram pegos de surpresa. O Instituto Mamirauá, com sede em Tefé, demonstrou que sistemas simples e de baixo custo funcionam: o Boletim das Águas, um grupo de WhatsApp com mais de 800 ribeirinhos do Médio Solimões recebendo informações diárias sobre o nível dos rios e recomendações de ação, foi uma das ferramentas mais eficazes do período (Instituto Mamirauá, 2024). Esse modelo precisa ser replicado em escala estadual, integrado com a Defesa Civil e com os sistemas do INPE e do INMET.

Rádios comunitárias — ainda o meio de comunicação mais acessível em áreas remotas — precisam ser integradas formalmente ao sistema de alerta. Não como improviso, mas como infraestrutura oficial de emergência climática.

2. Estocar antes de precisar

Em um território onde a área média dos municípios supera 25.000 km² — maior que o estado de Sergipe —, a logística de abastecimento emergencial durante a seca é exponencialmente mais cara, lenta e incerta do que o abastecimento preventivo. A Defesa Civil Estadual já recomendou em 2024 que comunidades vulneráveis guardem água, alimentos e medicamentos antes do período de estiagem. Essa recomendação precisa evoluir de conselho informal para política pública de pré-posicionamento logístico, com recursos garantidos e metas mensuráveis por região.

O Governo Federal já antecipou em 2026 ações de dragagem e manutenção hidroviária nos pontos críticos do Amazonas, do Solimões e tributários (Agência Gov, maio 2026). Essas ações precisam ser concluídas antes do pico da estiagem — não durante.

3. Proteger as populações mais vulneráveis com prioridade explícita

Os dados de 2023 e 2024 são inequívocos: indígenas, ribeirinhos, quilombolas e populações periféricas são os primeiros a sofrer e os últimos a receber ajuda. Isso não é acidente — é estrutura. Um Super El Niño não vai mudar essa estrutura por conta própria.

Planos de contingência específicos por território, com identificação prévia das comunidades mais isoladas, dos grupos de maior risco (crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas) e dos recursos necessários para atendê-los, precisam estar finalizados antes do início da estiagem. A experiência do UNICEF em 2023 demonstrou que intervir depois que a crise se instala é incomparavelmente mais caro e menos eficaz do que intervir antes.

4. Combater o desmatamento como medida de preparação climática

Este é o ponto que mais raramente aparece nas listas de preparação para El Niño — e é possivelmente o mais importante no longo prazo. A floresta em pé é a principal infraestrutura de regulação climática do Amazonas. Cada hectare desmatado reduz a capacidade da região de produzir suas próprias chuvas, aumenta a temperatura local e amplia a vulnerabilidade às secas.

Estudos publicados na Science Advances demonstram que o desmatamento está atrasando o início das monções sul-americanas e reduzindo as chuvas na Amazônia. Os dados mostram que entre 1979 e 2019 o solo amazônico tornou-se progressivamente mais seco, e que a estação seca já dura entre 5 e 15 dias a mais do que durava há quatro décadas. Combater o desmatamento não é apenas uma pauta ambiental — é uma medida direta de redução da vulnerabilidade da população às secas que estão chegando.

5. Preparar o sistema de saúde para múltiplos vetores simultâneos

Um Super El Niño não produz uma crise de saúde — produz várias ao mesmo tempo. As fumaças dos incêndios florestais geram surtos de doenças respiratórias. A contaminação da água desencadeia epidemias gastrointestinais. O isolamento de comunidades interrompe o acesso a medicamentos e a tratamentos contínuos. A desnutrição infantil, documentada em 2023, compromete imunidade e desenvolvimento.

O sistema de saúde do Amazonas — já estruturalmente sobrecarregado — precisa de pré-posicionamento de medicamentos, insumos e equipes nas regiões de maior risco antes do pico da estiagem. Isso inclui unidades fluviais com autonomia ampliada, integração com agentes comunitários de saúde e protocolos específicos para atendimento em contexto de isolamento geográfico.

6. Proteger a pesca artesanal como setor estratégico — não residual

A pesca artesanal é, no interior do Amazonas, muito mais do que uma atividade econômica. Ela é a principal fonte de proteína animal para as populações ribeirinhas — com consumo per capita entre 380 e 600 gramas por dia nas comunidades que dependem diretamente dos rios (Cerdeira et al., 1997; Batista et al., 1998 — citados em SciELO, 2012) — e a base de renda de dezenas de milhares de famílias em municípios onde praticamente não existem alternativas formais de emprego.

Os números que o Estado raramente menciona com clareza: segundo estudo publicado na calha do Rio Amazonas-Solimões, o setor pesqueiro gera R$ 389 milhões por ano e 168.315 empregos na região, com uma frota de 7.531 barcos e 83.847 toneladas desembarcadas por ano apenas nas cidades monitoradas (Almeida et al., IDESAM/CIFOR). O IDAM (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal do Amazonas) registra mais de 45 mil pescadores vivendo diretamente da pesca e cerca de 200 mil pessoas envolvidas em toda a cadeia produtiva — captura, transporte, industrialização, distribuição e comercialização. Em muitos municípios do interior, a pesca é literalmente o PIB local.

A seca extrema de 2023 e 2024 demonstrou como esse sistema colapsa rapidamente. Cerca de 80% dos 200 mil pescadores do Amazonas foram impactados pela estiagem severa (Seafood Brasil, outubro 2023). Em comunidades como a Santa Helena do Inglês, em Iranduba, lideranças relataram queda de 50% na produção de peixes em relação aos anos anteriores (Agrimidia, 2024). No Rio Madeira, em Novo Aripuanã, pescadores que vendiam um punhado de matrinxãs a R$ 5 viram o preço saltar para R$ 40 — não por prosperidade, mas por escassez (Ambiental Media, 2024).

Os mecanismos do colapso são múltiplos e simultâneos durante uma seca severa. Os lagos e igarapés que concentram peixes durante a vazante normal secam ou ficam rasos demais para a navegação das embarcações de pesca. O ciclo reprodutivo das espécies é interrompido: ovos e alevinos ficam expostos a predadores, ao calor extremo e à falta de alimento. Espécies como tambaqui, pirarucu e aruanã — que têm seu período mais produtivo justamente quando os rios estão secando — ficam inacessíveis porque os afluentes onde vivem tornam-se intransitáveis.

A qualidade do pescado cai porque os peixes não conseguem se alimentar normalmente. E mesmo quando há pesca possível, o escoamento da produção é comprometido pela mesma seca que afeta os rios — gerando perda pós-captura e queda de preço por excesso de oferta concentrada nos pontos acessíveis (Portal Neo Mondo, 2024).

Diante de um Super El Niño, esse cenário pode ser ainda mais prolongado e geograficamente mais abrangente. O que precisa ser feito antes que o fenômeno chegue ao pico é concreto:

Flexibilização antecipada dos períodos de defeso. Em 2023, coletivos de pescadores, pesquisadores e assessorias técnicas precisaram dialogar de emergência com autoridades ambientais para alterar o período de defeso do pirarucu, buscando minimizar perdas para mais de 300 comunidades em 22 municípios (Visão Amazônida, 2023). Esse processo precisa estar protocolado e pré-autorizado para cenários de seca extrema declarada — não negociado caso a caso no meio da crise.

Seguro-defeso acessível e ágil. O seguro-desemprego para pescadores durante o período de defeso existe, mas sua operacionalização é lenta e burocrática. Em contexto de emergência climática, pescadores que perdem renda por semanas ou meses precisam de acesso imediato ao benefício — sem filas, sem deslocamento até sedes municipais que podem estar inacessíveis, sem documentação que muitos ribeirinhos não têm em mãos.

Estrutura de frio e escoamento de emergência. A falta de câmaras frigoríficas e de logística de escoamento em regiões remotas faz com que o pescado capturado se perca antes de chegar ao mercado consumidor. Investir em infraestrutura de conservação e em corredores logísticos alternativos — incluindo aviação de pequeno porte e parceria com operadores fluviais — é uma medida de proteção econômica direta.

Monitoramento dos estoques pesqueiros antes, durante e após a seca. Os dados sobre o impacto real das secas nos estoques de peixes amazônicos ainda são fragmentados e chegam tarde. O INPA e o Instituto Mamirauá já desenvolvem metodologias de monitoramento participativo que podem ser expandidas para gerar alertas precoces sobre colapso de estoques em áreas críticas — permitindo intervenção antes que a perda seja irreversível.

Reconhecimento do saber dos pescadores como dado técnico. Os ribeirinhos que pescam os mesmos rios há décadas sabem identificar sinais de estresse dos ecossistemas aquáticos antes de qualquer equipamento científico: mudanças no comportamento dos peixes, alterações na coloração da água, espécies que somem antes das outras. Incorporar esse conhecimento nos sistemas de monitoramento oficial não é romantismo — é inteligência de campo que nenhum satélite substitui.

7. Incorporar o conhecimento das comunidades como dado operacional

As populações ribeirinhas e indígenas acumulam décadas — em muitos casos, gerações — de conhecimento sobre o comportamento dos rios, os sinais de seca precoce, as espécies indicadoras de estresse hídrico e as estratégias de sobrevivência em períodos de estiagem. Esse conhecimento é uma variável real de preparação, não um dado folclórico.

O Instituto Mamirauá demonstrou que a integração entre ciência e conhecimento local — na forma de grupos de monitoramento comunitário, protocolos de comunicação bidirecional e cocriação de recomendações — produz respostas mais eficazes e mais rápidas do que qualquer sistema centralizado. Um Super El Niño não é o momento de reinventar essa roda: é o momento de escalar o que já funciona.

O pesquisador Carlos Nobre, um dos maiores especialistas mundiais em clima amazônico, e o biólogo Thomas Lovejoy identificaram que o limiar crítico de desmatamento que pode empurrar a Amazônia para um processo irreversível de “savanização” está entre 20% e 25% da cobertura original. A floresta já perdeu cerca de 20% — está, portanto, nas bordas desse limiar. Um Super El Niño que provoque secas extremas e incêndios de grande escala sobre uma floresta já fragilizada não é apenas um desastre natural: é um empurrão em direção a um processo que, uma vez iniciado, seria difícil ou impossível de reverter.

O professor Paulo Artaxo é enfático: “O Brasil não está preparado. Há muito a ser feito para proteger a população” (Exame, maio 2026).

O El Niño de 2026-2027 não é um problema do futuro. É um problema do presente — e o tempo entre agora e o pico do fenômeno é exatamente o tempo que resta para transformar vulnerabilidade em preparação

Brasil vive a crise climática, mas ainda não se prepara para seus impactos

A crise climática já afeta renda, alimentos, energia e infraestrutura no Brasil, mas políticas de adaptação e redução de CO₂ ainda avançam lentamente. 

O avanço dos eventos extremos no Brasil tem exposto um desafio que vai além da resposta emergencial a enchentes, secas e ondas de calor. Dados recentes indicam que o país ainda não está plenamente preparado para lidar com a crise climática, tanto do ponto de vista da informação pública quanto da gestão orçamentária e da prevenção de desastres.

Em 2026, diante da possibilidade de um novo período marcado por forte El Niño, o debate climático ganha ainda mais relevância. O tema também atravessa o cenário eleitoral, já que a escolha de lideranças poderá influenciar a capacidade de União, estados e municípios de planejar ações de curto, médio e longo prazo para adaptação, mitigação e redução de riscos.

Apesar de os impactos já fazerem parte da rotina de milhões de brasileiros, a compreensão sobre suas causas ainda é desigual. Apenas 6 em cada 10 pessoas reconhecem a relação entre as mudanças climáticas e a ação humana. Ao mesmo tempo, 9 em cada 10 afirmam já ter sentido algum efeito associado ao clima em sua região, como chuvas intensas, calor extremo, aumento no preço dos alimentos ou encarecimento da energia elétrica.

A diferença entre percepção dos impactos e entendimento das causas revela um quadro de desinformação climática. Na prática, a população já convive com as consequências da crise climática, mas nem sempre identifica sua origem ou compreende o papel das políticas públicas e das escolhas individuais no enfrentamento do problema.

O custo econômico também é elevado. Estudos do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (CICEF), de 2026, estimam que o Brasil perde mais de R$ 110 bilhões do Produto Interno Bruto (PIB) por ano em razão de desastres climáticos. O valor equivale a recursos que poderiam ser destinados a áreas como saúde, educação, infraestrutura e transporte.

Outro dado reforça a fragilidade da preparação nacional. Em 2024, os gastos emergenciais para responder a desastres, como a inundação da bacia do Rio Guaíba, no Rio Grande do Sul, foram quase dez vezes maiores do que os investimentos em prevenção e preparação. O padrão mostra que o país ainda atua mais na recuperação dos danos do que na redução dos riscos.

Embora o gasto climático do Governo Federal tenha crescido nos últimos dois anos, ele correspondeu a apenas 1% do orçamento total. Para especialistas, a adaptação à nova realidade climática exige rever prioridades de gestão e ampliar a integração do tema nos investimentos públicos.

A preocupação da sociedade existe, mas nem sempre se traduz em ação. Três em cada quatro brasileiros dizem estar preocupados com as mudanças climáticas, mas 43% afirmam não ter mudado nenhum hábito nos últimos doze meses. As mudanças poderiam incluir desde economia de água e energia até separação de resíduos e maior atenção às propostas ambientais de candidatos.

No campo político, o tema ainda tem peso limitado. Apenas 35% dos entrevistados afirmam já ter escolhido algum candidato em razão de propostas voltadas à defesa do meio ambiente, embora 89% reconheçam as mudanças climáticas como uma ameaça real à vida no país. Em um contexto de eventos extremos mais frequentes e intensos, a crise climática deixou de ser um tema distante. 

Captura de CO₂ pode ganhar reforço de microrganismos encontrados no subsolo

Descobertos a 1.250 metros de profundidade, microrganismos podem acelerar a captura de CO₂ e converter emissões em insumo para a indústria.

Microrganismos descobertos nas profundezas da Terra podem abrir caminho para uma nova tecnologia de captura de CO₂. Pesquisadores identificaram, a 1.250 metros abaixo da superfície, um conjunto de micróbios capazes de consumir dióxido de carbono e transformá-lo em rocha em poucas semanas, um processo que poderia levar anos naturalmente.

A descoberta ocorreu na Instalação de Pesquisa Subterrânea de Sanford, conhecida pela sigla SURF, nos Estados Unidos. O estudo é liderado por Tanvi Govil, professora assistente do Departamento de Engenharia Química e Biológica da South Dakota Mines, que investiga formas de vida adaptadas a ambientes extremos.

Segundo a pesquisadora, os micróbios encontrados no laboratório subterrâneo ajudam a demonstrar que reações bioquímicas podem ser usadas para remover carbono das emissões industriais. A proposta é diferente dos modelos tradicionais de armazenamento subterrâneo, que dependem do transporte de dióxido de carbono por dutos. A nova abordagem busca capturar o gás diretamente no local onde ele é emitido.

Atualmente, Govil coordena a construção de uma biblioteca de microrganismos coletados em diferentes regiões do mundo. O objetivo é identificar e combinar características úteis para desenvolver enzimas capazes de converter o dióxido de carbono liberado por usinas termelétricas a carvão em carbonato de cálcio, um mineral que pode ser usado como aditivo na indústria do concreto e em outras aplicações.

Nos testes de laboratório, os pesquisadores utilizam amostras de gases de combustão e cinzas de carvão fornecidas por indústrias locais. A ideia é simular condições reais de operação e avaliar se a tecnologia pode funcionar em escala industrial. O processo prevê que as emissões passem por uma solução com enzimas, onde o gás seria removido do fluxo de exaustão e transformado em um subproduto aproveitável comercialmente.

Um dos desafios desse tipo de tecnologia é encontrar microrganismos ou enzimas capazes de resistir a ambientes agressivos, com alta temperatura, pressão elevada e acidez. Os organismos descobertos no SURF chamaram a atenção justamente por terem evoluído em condições extremas, o que pode torná-los mais adequados ao uso industrial de captura de CO₂.

Para levar a inovação ao mercado, Govil e sua equipe criaram a empresa Carb-N0, comandada por Merle Symes. A tecnologia, ainda com patente pendente, venceu uma competição recente de planos de negócios, promovida pelo governo da Dakota do Sul.

O próximo passo será testar um depurador de CO₂ à base de enzimas em escala piloto. A unidade móvel, instalada em um caminhão, poderá ser conectada a diferentes fontes de emissão e tem capacidade estimada para capturar quase uma tonelada de dióxido de carbono por dia.

A equipe pretende continuar os testes ainda este ano e iniciar a produção da enzima até 2027. Embora o desafio climático seja amplo, com emissões globais superiores a 37 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, os pesquisadores veem na captura de CO₂ com a enzima uma possibilidade de reduzir emissões industriais e transformar parte do carbono capturado em insumo de valor econômico.

Primeira infância, o investimento que antecipa o futuro do Brasil

Os estudos do Nobel de Economia em 2000, James Heckman sugerem que as maiores taxas de retorno econômico e social não estão necessariamente nas grandes obras, nos mercados financeiros ou nos incentivos produtivos. Elas podem estar nos primeiros anos de vida. Para um país que busca elevar seu desenvolvimento humano e reduzir desigualdades históricas, a primeira infância talvez seja a mais estratégica das políticas públicas.


Se um ativo oferecesse retorno anual composto entre 7% e 13%, reduzisse a criminalidade, elevasse a produtividade, aumentasse a renda futura e ainda diminuísse gastos públicos ao longo do tempo, dificilmente passaria despercebido por governos, investidores ou planejadores econômicos.

Mas esse ativo não é uma ação negociada em bolsa, uma inovação tecnológica disruptiva ou uma nova fronteira de exploração econômica.

Foi essa a conclusão a que chegou James Heckman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2000, ao analisar durante décadas programas de desenvolvimento infantil acompanhados ao longo da vida nos Estados Unidos. Seus estudos demonstraram que os maiores retornos econômicos e sociais ocorrem justamente nos primeiros anos de vida, período em que são moldadas capacidades cognitivas, emocionais e relacionais que acompanharão cada indivíduo por toda a sua trajetória.

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James Heckman- Peter Hoffman/Redux | Crédito: VEJA

A descoberta alterou a forma como economistas passaram a enxergar o desenvolvimento humano. O capital mais valioso de uma sociedade não começa a ser construído na universidade, nem no primeiro emprego. Ele começa muito antes.


Heckman buscava responder uma pergunta clássica da economia moderna: por que algumas pessoas acumulam vantagens ao longo da vida enquanto outras parecem carregar desvantagens persistentes desde a infância?

A resposta o conduziu para um território tradicionalmente associado à pedagogia, à psicologia e à saúde pública.

Capital humano não é formado apenas por anos de escolaridade ou conhecimento técnico. Ele é composto também pela capacidade de aprender, cooperar, comunicar-se, lidar com frustrações, adaptar-se a mudanças e construir relações de confiança.

Essas competências não surgem espontaneamente na vida adulta. Elas são construídas gradualmente a partir dos primeiros vínculos familiares, da nutrição adequada, da estabilidade emocional, da linguagem, do estímulo intelectual e da previsibilidade do ambiente em que a criança cresce.

Em outras palavras, a produtividade futura de uma nação começa muito antes de qualquer indicador econômico ser registrado.


O Brasil possui razões legítimas para reconhecer seus avanços.

Segundo os indicadores do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o país elevou de forma consistente seu Índice de Desenvolvimento Humano Municipal nas últimas décadas, alcançando o grupo das nações de alto desenvolvimento humano e aproximando-se do patamar de muito alto desenvolvimento.

A ampliação do acesso à educação, os avanços na saúde pública, a redução da mortalidade infantil e os programas de inclusão social contribuíram para esse resultado. Mas os mesmos indicadores revelam uma realidade menos confortável.

O país continua convivendo com profundas desigualdades regionais, raciais e socioeconômicas. O local de nascimento ainda influencia fortemente as oportunidades futuras de milhões de brasileiros.

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A Amazônia e o Nordeste simbolizam essa realidade por razões distintas. Na Amazônia, os desafios envolvem grandes distâncias geográficas, dispersão populacional, isolamento logístico e dificuldades históricas de acesso a serviços públicos de qualidade.

No Nordeste, persistem obstáculos ligados à vulnerabilidade social, à insegurança hídrica, à informalidade econômica e à transmissão intergeracional da pobreza. Em ambos os casos, as desigualdades costumam surgir muito cedo.

Por isso, a primeira infância não deve ser vista apenas como uma agenda social. Ela representa uma estratégia de desenvolvimento regional, de coesão nacional e de fortalecimento da cidadania.


Talvez o aspecto mais provocativo da contribuição de Heckman esteja fora da economia e dentro da política.

A maior parte das decisões governamentais opera sob a lógica dos ciclos eleitorais. Obras inauguradas, programas lançados e resultados rapidamente perceptíveis costumam receber prioridade porque produzem dividendos políticos dentro de um mandato.

A primeira infância segue uma lógica completamente diferente. Seus resultados mais transformadores aparecem anos ou décadas depois. Uma criança que recebe estímulos adequados aos dois anos de idade poderá apresentar melhor desempenho escolar aos dez, maior produtividade aos vinte e cinco, maior renda aos quarenta e melhores indicadores de saúde ao longo de toda a vida.

O governante que inicia esse processo dificilmente será o mesmo que colherá seus resultados. Por isso, políticas para a primeira infância exigem algo raro nas democracias contemporâneas: capacidade de investir hoje em benefícios que serão percebidos por gerações futuras.

Trata-se menos de uma política de governo e mais de uma política de Estado.


A boa notícia é que as soluções são conhecidas. O desafio não é descobrir o caminho, mas atribuir prioridade a ele.

Entre as medidas mais relevantes estão a universalização do acesso à educação infantil de qualidade; a integração entre saúde, assistência social e educação; a ampliação do acompanhamento nutricional e do desenvolvimento infantil; a formação continuada de educadores e cuidadores; o fortalecimento dos programas de visitação familiar; e a criação de mecanismos federativos que premiem municípios pelos resultados obtidos no desenvolvimento das crianças.

Mais importante ainda seria criar indicadores públicos permanentes de desenvolvimento infantil, permitindo que a sociedade acompanhe, com transparência, a evolução dessa agenda.

Da mesma forma que o país mede inflação, emprego, produção industrial e crescimento econômico, deveria acompanhar sistematicamente a qualidade de sua formação humana.


Há uma analogia particularmente interessante entre as descobertas de Heckman e os fundamentos da bioeconomia.

A floresta amazônica produz seus maiores retornos porque segue a lógica da acumulação paciente. Durante décadas, árvores, rios, solos, biodiversidade e interações ecológicas constroem silenciosamente um patrimônio que mais tarde devolve estabilidade climática, água, alimentos, fármacos, conhecimento genético e oportunidades econômicas.

O valor da floresta não nasce no momento da colheita. Ele é resultado de um longo processo de formação. Com as pessoas acontece algo semelhante. Antes do capital financeiro existe o capital humano. Antes da inovação tecnológica existe a capacidade humana de criar. Antes da produtividade existe a capacidade humana de aprender. Antes da riqueza existe a formação das condições que permitem produzi-la.

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Foto divulgação

Sob essa perspectiva, podemos falar numa verdadeira bioeconomia humana. Uma estratégia nacional voltada para cultivar, desde os primeiros anos de vida, os atributos que sustentarão a prosperidade futura: inteligência, criatividade, saúde, cooperação, autonomia, equilíbrio emocional e capacidade de adaptação.

Assim como a floresta em pé representa um estoque de riqueza ainda em formação, cada criança representa um patrimônio nacional em processo de desenvolvimento.


Num mundo marcado pelo envelhecimento populacional, pela automação do trabalho e pela ascensão da inteligência artificial, as habilidades humanas tendem a se tornar ainda mais valiosas.

Criatividade, pensamento crítico, colaboração, inteligência emocional e capacidade de aprendizagem contínua serão ativos cada vez mais escassos e estratégicos. A contribuição de Heckman talvez possa ser resumida numa observação simples.

Mercados financiam empresas. Empresas geram empregos. Empregos produzem renda. Mas antes de tudo isso existe uma condição anterior. Existem pessoas. E pessoas não surgem prontas. São construídas.

Se o Brasil deseja combinar crescimento econômico, inovação, estabilidade social e desenvolvimento sustentável, talvez precise deslocar parte de sua atenção para o momento em que tudo começa.

O futuro de uma nação não nasce nos mercados financeiros, nem nos gabinetes ministeriais. Ele nasce silenciosamente nos primeiros anos de vida.


HECKMAN, James J. Giving Kids a Fair Chance. Cambridge: MIT Press, 2013.

HECKMAN, James J.; MOSSO, Stefano. The economics of human development and social mobility. Annual Review of Economics, v. 6, p. 689-733, 2014.

HECKMAN, James J.; GARCÍA, Jorge Luis; LEAF, Duncan E.; PRADOS, María José. Quantifying the Life-Cycle Benefits of an Influential Early-Childhood Program. Cambridge: National Bureau of Economic Research, Working Paper 22993, 2016.

PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO (PNUD). Painel do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM). Brasília: PNUD Brasil.

BRASIL. Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Radar IDHM 2024: Brasil alcança patamar de muito alto desenvolvimento humano. Brasília, 2026.

Disputa por minerais críticos na Amazônia amplia garimpo ilegal 

Demanda por minerais críticos na Amazônia atrai redes ilegais de extração e expõe riscos ambientais, territoriais e sociais em plena transição energética. 

A disputa global por minerais críticos na Amazônia tem criado uma nova frente de pressão sobre a floresta. Com grandes reservas desses recursos, o Brasil passou a atrair maior atenção internacional em um cenário marcado pela tentativa de reduzir a dependência da China na cadeia de suprimentos de minerais estratégicos.

Entre os materiais extraídos ilegalmente estão as terras raras, grupo de 17 elementos químicos usados na fabricação de ímãs de alta potência e componentes tecnológicos. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o mercado global de minerais essenciais já movimenta mais de US$ 300 bilhões e pode ultrapassar o dobro do valor até 2035, impulsionado pela transição energética.

A expansão desse mercado, no entanto, também tem sido acompanhada pelo avanço de esquemas ilegais de extração e exportação. De acordo com autoridades brasileiras, a exploração irregular desses minerais não segue o modelo tradicional do garimpo artesanal. Em muitos casos, envolve estruturas empresariais, operações em escala quase industrial e redes de lavagem que tentam dar aparência legal ao minério extraído de forma irregular.

A cadeia ilegal de minerais críticos na Amazônia pode incluir empresas de fachada, agentes públicos, organizações criminosas e compradores internacionais. Em alguns casos, certificados falsificados são apresentados em portos para indicar que o material saiu de minas legalizadas. Fiscalizações já identificaram situações em que as supostas áreas de extração sequer existiam, funcionando como “minas fantasmas” usadas para encobrir a origem ilegal dos minerais.

A pressão sobre os minerais críticos na Amazônia também reacendeu discussões sobre a criação de um marco legal para o setor no Brasil. Para organizações da sociedade civil, porém, o debate precisa incluir Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais, que estão entre os grupos mais afetados pela mineração e seus impactos ambientais e territoriais.

Enquanto isso, o garimpo ilegal segue como ameaça em territórios indígenas. Na Terra Indígena Yanomami, relatório do Instituto Socioambiental (ISA) aponta que as novas áreas degradadas caíram de 83,95 hectares em 2024 para 45,2 hectares em 2025, redução de 46%. Apesar da queda, a atividade continua ativa no território, mesmo três anos após o governo federal decretar emergência em saúde na região.

O levantamento mostra que, até dezembro de 2025, o garimpo ilegal havia destruído 5.564 hectares da Terra Yanomami. O pico de expansão ocorreu em 2022, quando 1.800 hectares foram devastados. Entre 2020 e 2025, a destruição acumulada chegou a 3.659,15 hectares.

Segundo o relatório, a redução recente está associada às operações federais de retirada de invasores, fiscalização aérea, fluvial e terrestre, inutilização de pistas clandestinas e repressão ao transporte ilegal de combustível, equipamentos e minério. Ainda assim, os garimpeiros passaram a adotar novas estratégias para escapar da fiscalização.

Em vez de grandes frentes concentradas, a exploração passou a se espalhar por áreas menores. Em 2025, foram identificados 121 pontos de garimpo na Terra Yanomami, dos quais 90% tinham menos de um hectare. Também houve deslocamento para regiões próximas à fronteira com a Venezuela, como Parafuri-Parima, Hokomawë e Cabeceira do Aracaçá.

O sistema de alertas territoriais da Terra Yanomami registrou 66 ocorrências em 2025. A maior parte, 83%, estava relacionada a invasões, com presença de aeronaves clandestinas, barcos, balsas e dragas. Também houve registros de transporte de cassiterita e insumos usados para abastecer acampamentos ilegais.

Para especialistas e organizações indígenas, os dados indicam que a queda na abertura de novas áreas não significa o fim da ameaça. A atividade mudou de escala e estratégia, tornando-se mais dispersa e difícil de combater. No contexto da valorização dos minerais críticos na Amazônia e do ouro no mercado internacional, a fiscalização permanente e a participação social no debate sobre mineração são apontadas como medidas centrais para evitar que a transição energética aprofunde violações ambientais e territoriais na região.