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Folclore amazônico revela como lendas ajudam a proteger a biodiversidade 

Entre rios, matas e seres encantados, o folclore amazônico revela saberes tradicionais que dialogam com a ecologia moderna e a conservação. 

Antes de existirem placas de proibição, campanhas de educação ambiental ou estudos científicos sobre conservação, muitas comunidades amazônicas já aprendiam a respeitar a floresta por meio de histórias do folclore amazônico. Nas narrativas transmitidas pela oralidade, seres como o Curupira, a Caipora, a Matinta Pereira, o Boitatá, o Boto e a Iara não aparecem apenas como figuras do medo ou do encantamento, eles também ensinam limites: não caçar além do necessário, não destruir a mata, não provocar fogo, não desrespeitar os rios, não ignorar os sinais da natureza.

Longe de serem simples fábulas ou superstições, essas lendas do folclore amazônico compõem uma forma própria de compreender a relação entre seres humanos, animais, águas e florestas. Em muitos contextos, funcionam como códigos de conduta, orientando práticas de caça, pesca, circulação pela mata e convivência com os territórios. Sob a ótica da antropologia, da história e da ecologia, os seres encantados do folclore amazônico podem ser lidos como guardiões simbólicos da biodiversidade, personificando os limites que a própria natureza impõe à exploração humana.

Esta reportagem investiga as origens, os significados culturais e as transformações contemporâneas de algumas das principais lendas da Amazônia brasileira. Ao aproximar folclore e ecologia moderna, mostramos como essas narrativas continuam oferecendo uma linguagem poderosa para falar de conservação, memória, território e respeito à vida na Amazônia.

Curupira: O menino invisível que vence a morte 

Entre as lendas mais antigas do folclore amazônico, o Curupira ocupa um lugar central como guardião da mata e dos animais. Pequeno, de cabelos avermelhados e pés virados para trás, ele habita o coração da floresta densa e tem o poder de ficar invisível. As suas origens estão nas matrizes Tupi-Guarani e sua presença já era registrada no século XVI. Em uma carta de 1560, o padre jesuíta José de Anchieta descrevia o curupira como um “demônio” temido pelos indígenas, que lhe ofereciam penas e esteiras como presente antes de entrar na mata.

A característica mais conhecida desse personagem do folclore amazônico carrega uma função narrativa precisa. Os pés virados para trás fazem com que suas pegadas apontem na direção contrária à que ele seguiu. Caçadores, madeireiros ou invasores que tentam persegui-lo acabam andando em círculos, perdendo-se cada vez mais fundo na floresta. 

A lenda do folclore amazônico transforma a própria mata em labirinto e reforça a mensagem de que quem desrespeita seus limites pode não encontrar o caminho de volta. Para completar a desorientação, o Curupira solta assobios agudos e imita vozes humanas, atraindo suas vítimas para armadilhas das quais, segundo a tradição, nunca mais saem.

Mas o Curupira não pune de modo indiscriminado. O seu alvo é a ganância. Quem caça para comer está fora do seu alcance;  mas quem abate fêmeas prenhas, filhotes ou derruba árvores sem necessidade atrai sua fúria. 

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Há ainda uma faceta menos conhecida da lenda: em algumas versões, o Curupira seria capaz de ressuscitar animais mortos injustamente. Para isso, usaria sua lança, seu arco ou apenas encostaria o focinho do animal morto no focinho de um caititu, o porco-do-mato sobre o qual, segundo a tradição, ele viaja pela floresta. 

Essas dimensões do mito dialogam com a ecologia moderna. A caça predatória não afeta apenas uma espécie isolada, quando animais são retirados em excesso do ambiente, comprometem-se processos fundamentais da floresta, como a dispersão de sementes, o equilíbrio entre populações e a manutenção das cadeias alimentares. Proteger a fauna, nesse sentido, é também proteger a floresta inteira. 

A lenda traduz em narrativa uma regra confirmada pela ciência: a natureza tem ritmos, ciclos e limites. Ao assustar, confundir e punir quem explora a mata de forma irresponsável, o Curupira ensina que a floresta não é um espaço vazio à disposição humana, mas um território vivo, habitado por relações que precisam ser respeitadas. 

Caipora: a guardiã dos animais da floresta

A Caipora é lembrada, em muitas narrativas do folclore amazônico, como a guardiã dos animais da floresta. O nome tem origem no tupi caapora, formado por ka’a, que significa mato, e pora, habitante. A tradução mais comum, portanto, é “habitante do mato”, expressão que reforça sua ligação direta com o território selvagem e com os seres que vivem nele.

Na tradição oral, a Caipora costuma ser descrita como uma pequena indígena de corpo coberto por pelos, cabelos volumosos e presença misteriosa. Em algumas versões, aparece montada em um porco-do-mato, como o queixada ou o cateto, carregando uma vara, lança ou instrumento de caça. A imagem do folclore amazônico reúne elementos humanos, animais e espirituais, como se ela fosse parte da própria floresta em movimento.

A função principal dessa personagem do folclore amazônico é proteger a fauna contra a caça feita por ganância. A Caipora não condena necessariamente a caça de subsistência, praticada para alimentação e sobrevivência, mas pune quem desrespeita os limites da mata. Caçadores que matam além do necessário, perseguem fêmeas prenhas, filhotes ou animais em excesso podem ser confundidos, assustados ou castigados pela entidade.

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Para defender espécies como capivaras, cotias, queixadas e outros animais silvestres, a Caipora usa a própria floresta como aliada. Segundo a lenda, ela afugenta as presas, atrapalha cães farejadores e imita sons da mata para desorientar os caçadores. Assim, o território deixa de ser um espaço passivo diante da exploração e passa a reagir por meio de seus ruídos, caminhos fechados e sinais difíceis de decifrar.

Em algumas regiões, a Caipora também é descrita como uma figura severa e vingativa, capaz de punir duramente quem rompe as regras da floresta. Essas versões mais sombrias reforçam a ideia de que a relação com os animais exige respeito, cuidado e limite. No centro da lenda está uma mensagem ecológica que permanece atual: a fauna amazônica não pode ser tratada como recurso inesgotável.

Vista pela ecologia moderna, essa narrativa dialoga com a importância da caça responsável e da conservação da biodiversidade. A retirada excessiva de animais silvestres compromete cadeias alimentares, dispersão de sementes e o equilíbrio entre espécies. Ao proteger os bichos da floresta, a Caipora também protege os processos invisíveis que mantêm a mata viva.

A Caipora e os rituais de negociação com a floresta

Em muitas versões da tradição oral do folclore amazônico, a relação com a Caipora não se baseia apenas no medo, mas também na negociação. Para entrar na mata, alguns caçadores e mateiros recorrem a pequenos ritos simbólicos, como forma de pedir licença, proteção ou passagem segura. Entre os costumes mais conhecidos está a oferta de fumo de corda, deixado no tronco de árvores frondosas, acompanhado de frases como: “Toma, Caipora, deixa eu ir embora”.

Em algumas narrativas do folclore amazônico, também aparecem estratégias para evitar encontros indesejados durante incursões noturnas. O uso de tochas, tições acesos e outras fontes de luz se relaciona à crença de que a Caipora teme a claridade. Mais uma vez, a lenda organiza comportamentos diante da mata: ensina quando entrar, como circular e quais sinais observar.

A força da Caipora, no entanto, não se limita à Amazônia ou ao Brasil. O folclorista Luís da Câmara Cascudo identificou paralelos entre essa entidade e outros personagens protetores da fauna presentes na América do Sul. Em países como Argentina, Uruguai e Paraguai, aparecem figuras semelhantes, associadas à defesa dos animais selvagens e à punição de quem caça de forma predatória. Entre elas estão o Yastay, do imaginário argentino, e o Coquena, do folclore chileno, também relacionados à proteção das criaturas da natureza.

Essas aproximações mostram que a ideia de uma entidade guardiã dos animais atravessa diferentes territórios e culturas. Embora cada região transforme o mito conforme sua paisagem, seus animais e sua memória local, permanece a mensagem comum de que a caça e a circulação pela natureza exigem responsabilidade. A floresta, o campo, a montanha ou os rios não são cenários passivos, mas espaços habitados por forças que cobram respeito.

Mesmo na cultura visual contemporânea, a Caipora continua sendo reinventada. Em releituras artísticas recentes, a entidade ganha novas formas, montarias e traços regionais, sem perder sua função simbólica. Essas transformações demonstram a plasticidade do mito e sua capacidade de permanecer vivo, adaptando-se a diferentes linguagens enquanto preserva seu núcleo ecológico de proteção dos animais e dos limites da natureza. 

Matinta Pereira: o assobio que atravessa a noite

Entre as lendas do folclore amazônico ligadas à noite, aos sons da mata e aos pactos com o invisível, a Matinta Pereira ocupa um lugar singular. Durante o dia, ela aparece como uma senhora idosa, de vestes escuras e hábitos solitários, associada a casas afastadas ou às margens da floresta. À noite, transforma-se em pássaro — na maioria das histórias, o martim-pererê ou a coruja rasga-mortalha — e seu canto agudo e insistente atravessa quintais, telhados e comunidades ribeirinhas.

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O assobio é o elemento mais marcante da lenda. Estridente e repetitivo, é interpretado como sinal de mau agouro, capaz de anunciar doenças, mortes ou acontecimentos ruins. Há, porém, uma saída: responder à ave ainda na escuridão, prometendo uma oferta para o dia seguinte. A frase atravessa gerações nas comunidades amazônicas “Matinta, venha amanhã que lhe entregarei seu fumo”. Ao ouvir a promessa, o assobio cessa.

O pacto, no entanto, não termina à noite. Ao amanhecer, a Matinta retorna em forma humana e bate à porta de quem fez a promessa para cobrar o que lhe foi oferecido — fumo, café, cachaça, peixe ou pão. Quem cumpre o acordo está salvo. Quem nega ou zomba atrai sobre a casa doenças, infortúnios ou morte. A lenda guarda, nessa estrutura, uma lógica cultural precisa de que acordos firmados com a floresta não se quebram.

Há versões ainda mais sombrias sobre como a condição se transmite. Dizem que, ao se aproximar da morte, uma Matinta grita na madrugada: “Quem quer? Quem quer?”. Se uma pessoa responder acreditando ser algo positivo e sem saber o que está aceitando, herda imediatamente a maldição e passa a habitar, ela mesma, a fronteira entre o mundo dos vivos e a escuridão da mata.

As origens da Matinta dialogam com mitologias indígenas e com a observação atenta das aves noturnas. O folclorista Luís da Câmara Cascudo relaciona a personagem ao martim-pererê, ave que entre os Tupinambá era associada às almas de parentes falecidos, capazes de se transformar nela ou de usá-la como mensageira para visitar os vivos. Na cosmologia Munduruku, o mesmo pássaro aparece como encarnação temporária de antepassados que retornavam ao mundo dos vivos para caçar, pescar ou vigiar territórios. O seu canto, portanto, sempre foi visto como um comunicado.

Vista por esse ângulo, a Matinta Pereira traduz a escuta atenta da floresta durante a noite. Ela lembra que a mata não silencia quando escurece, ao contrário, a vida noturna da Amazônia continua ativa, comunicando riscos, presenças e limites. Antes de circular, caçar ou atravessar certos espaços, é preciso reconhecer que aquele território possui regras próprias.

A lenda também chegou à música brasileira. Em 1973, Tom Jobim lançou o álbum Matita Perê”, publicado nos Estados Unidos simplesmente como Jobim, com a faixa-título composta em parceria com Paulo César Pinheiro. Com arranjos de Claus Ogerman e participação de Airto Moreira e Ron Carter, o disco marca uma fase em que Jobim se aproximou de temas ligados à natureza e à identidade brasileira. O mito ganhava, ali, uma tradução estética e musical.

Boitatá: a serpente de fogo que protege a mata

Entre as lendas do folclore amazônico, o Boitatá tem uma das origens documentais mais antigas. A primeira menção conhecida aparece em uma carta do jesuíta José de Anchieta, escrita em 1560, na qual ele descreve o “baetatá” como uma “coisa de fogo” temida por povos indígenas em áreas próximas ao mar e aos rios. Nessa descrição original, o Boitatá não era exatamente uma cobra, era um facho luminoso que se movia rapidamente pela paisagem.

A origem do nome já carrega a essência da criatura, do tupi-guarani, mboi significa cobra e tata, fogo. Mas a história de como essa serpente de fogo surgiu começa, curiosamente, pela água. Segundo a lenda, a floresta foi um dia atingida por um dilúvio que provocou uma noite sem fim. 

Sem luz, o frio e a fome se espalharam e muitos animais morreram. Mas uma enorme cobra que dormia em um tronco oco resistiu e passou a se alimentar dos únicos pontos de brilho disponíveis nas trevas, os olhos dos animais mortos. Como esses olhos haviam guardado a luz do último dia em que viram o sol, cada um deles cintilava no escuro. À medida que a serpente devorava milhares deles, seu corpo foi absorvendo aquela luz até se tornar completamente luminoso, translúcido e envolto em chamas azuladas. Assim nasceu o Boitatá.

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O fogo que o envolve, dizem as versões mais antigas, é mágico, ele não queima árvores, nem plantas e não se apaga mesmo quando a criatura mergulha nos rios. Mas se alguém está ateando fogo na mata e encontra o Boitatá, as consequências são graves. Dentre elas, cegueira ou loucura. A tradição do folclore amazônico ensina que o único modo de sobreviver ao encontro é ficar completamente parado, de olhos fechados e com a respiração contida, até que ele se afaste.

A função simbólica da lenda do folclore amazônico está ligada à proteção da floresta contra as queimadas. O Boitatá engana e pune quem tenta incendiar a mata, surgindo como tronco em chamas ou luz errante na escuridão. O medo que provoca funciona como um alerta ancestral contra práticas que destroem a vida da floresta e essa mensagem, no contexto da Amazônia contemporânea, não poderia ser mais atual. 

As queimadas destroem habitats, matam animais, empobrecem o solo e alteram o equilíbrio climático. Ao transformar o fogo em uma presença vigilante e vingativa, a lenda ensina que incendiar a mata não é um ato sem consequência.

O folclorista Luís da Câmara Cascudo relacionou o mito ao fogo-fátuo, a chama azulada que pode surgir da combustão de gases liberados pela decomposição de matéria orgânica em pântanos, manguezais e regiões alagadas. A explicação científica não diminui a força da lenda, ao contrário, revela como o imaginário popular muitas vezes nasce da observação atenta da natureza, traduzindo em narrativa o que os olhos captavam sem ter palavras científicas para nomear.

Boiúna: o monstro dos rios da Amazônia

Nas profundezas dos rios, lagos e igarapés da Amazônia, habita uma das criaturas mais temidas do folclore amazônico. A Boiúna, também chamada de Cobra Grande, é descrita como uma serpente colossal de escamas escuras que refletem o luar e olhos que irradiam uma luz hipnótica, forte o suficiente para ser confundida com embarcações iluminadas na escuridão. 

Pescadores e viajantes que se aproximam dessa luz, atraídos por engano, descobrem tarde demais o que encontraram. O deslocamento da Boiúna nas águas provoca ondas e redemoinhos tão poderosos que o som lembra o motor de um vapor e sua morada, no fundo dos rios, é chamada de boiaçuquara: a casa da cobra grande.

A lenda não se limita ao terror. Em uma das narrativas mais conhecidas entre os povos amazônicos, a Boiúna aparece como figura ligada à criação da noite. Conta a lenda que a Boiúna era a guardiã da noite, que vivia trancada nas profundezas dos rios. Quando sua filha, casada com um homem da terra, pediu um pouco de escuridão para poder dormir ao lado do marido, a Cobra Grande atendeu ao pedido com uma condição: compactou a noite dentro de um fruto de tucumã lacrado com cera de abelha e entregou a três servos, com a ordem explícita de não abrir o cofre. 

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No caminho, os sons de sapos, grilos e corujas vindos de dentro do fruto despertaram a curiosidade dos carregadores. Eles derreteram a cera, espiaram e a escuridão explodiu pelo céu, apagando o sol e mergulhando o mundo na primeira noite. 

Outra história gira em torno de dois gêmeos nascidos da união de uma indígena com a Cobra Grande. Lançadas ao rio pela própria mãe ao nascer, as crianças cresceram nas águas como serpentes gigantes e desenvolveram personalidades opostas. Honorato era bondoso: nas noites de luar, saía de sua forma de cobra e circulava entre os vivos como um rapaz elegante, frequentando festas nas cidades ribeirinhas antes de retornar ao rio ao amanhecer. 

Já sua irmã, Maria Caninana, era o oposto, ela atacava pescadores, afundava embarcações por pura maldade e espalhava destruição onde passava. A violência da irmã chegou ao limite quando ela viajou até Óbidos, no Pará, e mordeu a cauda de uma cobra encantada adormecida sob o altar da Igreja de Santana. A criatura se contorceu, provocando um terremoto que abriu uma fenda do mercado até a frente da igreja. Cansado de tanta destruição, Honorato travou uma batalha mortal contra Maria nas águas do rio Madeira e a matou.

Para se libertar definitivamente da forma de serpente, Honorato precisava de um ato que ninguém ousava realizar, alguém deveria derramar leite humano em sua boca e ferir sua cabeça até sair sangue. O medo afastava todos, até que um soldado de Cametá, no Pará, teve a coragem de fazer o ritual e libertou Honorato da maldição.

A presença da Boiúna se espalha por diversas cidades amazônicas em versões locais da lenda. Em Parintins e em Belém, diz-se que uma Cobra Grande dorme nas profundezas sob as cidades e que seu despertar as faria afundar. Já em Belém, a cabeça da cobra estaria na Catedral da Sé e o corpo se estenderia até a Basílica de Nazaré; moradores mais antigos relacionam qualquer tremor de terra ao movimento da criatura e há quem diga que interromper o Círio de Nazaré poderia acordá-la. 

Por trás do medo, a Boiúna carrega uma mensagem sobre os rios. Ao associar certas áreas profundas, curvas e correntezas à presença da criatura, a tradição oral cria zonas simbólicas de respeito, espaços que não devem ser perturbados. Os rios, nessa leitura, não são apenas caminhos ou fontes de recurso, são forças vivas que impõem seus próprios limites. 

Boto: o sedutor da meia-noite

Entre as lendas mais conhecidas do folclore amazônico, está a do boto-cor-de-rosa. Na tradição oral, o animal deixa as águas durante festas à beira-rio, especialmente nas celebrações juninas, e assume a forma de um homem elegante, vestido de branco, bom dançarino e sedutor. 

O chapéu de abas largas que nunca tira, dizem os mais velhos, esconde o espiráculo no topo da cabeça: a marca que entrega sua verdadeira natureza. Segundo a lenda, o boto aparece nas festas, encanta jovens mulheres e retorna ao rio antes do amanhecer, quando volta à forma animal. Em algumas comunidades, essa crença deu origem ao costume de pedir que homens desconhecidos retirassem o chapéu em festas, como forma de confirmar que não se tratava do boto disfarçado.

Já o olho seco do animal, na crença do folclore amazônico, é considerado o amuleto amoroso mais poderoso da região, capaz de fazer qualquer mulher sucumbir ao encantamento de quem o carregasse.

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No imaginário ribeirinho, nem todo boto carrega o mesmo significado. O boto-cor-de-rosa, ou boto-vermelho, está associado ao mistério, à sedução e ao perigo. O tucuxi, menor e acinzentado, aparece em outras narrativas como presença benéfica, capaz de ajudar pessoas em risco nas águas. Essa distinção revela como a observação direta da fauna se mistura à construção simbólica dos rios amazônicos.

A lenda, porém, exige uma leitura em camadas. Historicamente, a figura do boto foi usada em comunidades ribeirinhas para explicar gestações fora do casamento ou de paternidade desconhecida, cunhando a expressão “filho do boto”. 

Ainda que alguns acreditem que a lenda ajudou a suavizar o estigma sobre mães solo, essa mesma explicação serviu para silenciar casos de abuso sexual.  Ao depositar a responsabilidade no ser encantado, evitava-se o confronto direto com o crime. Por isso, falar do boto hoje, implica reconhecer essa ambiguidade sem romantizá-la.

Há ainda um terceiro fator importante, o debate ecológico. O boto-cor-de-rosa é uma espécie classificada como “em perigo” na Lista Vermelha da IUCN. Secas severas, contaminação por mercúrio, degradação dos rios e conflitos com atividades humanas pressionam sua sobrevivência. Entre o ser encantado das festas e o animal ameaçado das águas, o boto permanece como um dos símbolos mais ricos — e mais complexos — do folclore amazônico.

Iara: a senhora das águas amazônicas

Conhecida como “Mãe d’Água”, a Iara é uma das figuras mais populares do folclore amazônico. O seu nome tem origem no tupi e costuma ser traduzido como “aquela que mora nas águas” ou “senhora das águas”. Na tradição oral, ela representa o encantamento, o mistério e o perigo dos ambientes aquáticos.

Antes de ser sereia, Iara era guerreira. Na origem da lenda, ela aparece como uma jovem indígena de grande beleza e habilidade excepcional nas batalhas e na caça, tão talentosa que recebia elogios constantes do pai, chefe da tribo, o que despertou a inveja dos seus irmãos. 

A inveja dos irmãos cresceu até virar plano. Em uma noite, decidiram matar Iara enquanto dormia. Iara tinha o sono leve. Acordou a tempo, reagiu em legítima defesa e acabou matando os agressores. Apavorada com a punição que viria do pai, fugiu pela floresta. Mas foi capturada e lançada às águas profundas do encontro entre os rios Negro e Solimões como castigo.

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Os peixes, comovidos com seu sofrimento, a salvaram e a transformaram em uma criatura metade mulher, metade peixe. Desde então, a Mãe d’Água vive nos rios, aparecendo sobre pedras e margens, penteando os cabelos e entoando um canto doce e hipnótico. Homens encantados pela voz e pela beleza se jogam nas profundezas. Os poucos que escapam voltam marcados pelo feitiço e, segundo a tradição, só um ritual conduzido por um pajé é capaz de curá-los.

A figura da Iara como sereia é, em parte, resultado de encontros culturais. O folclorista Luís da Câmara Cascudo apontou que essa representação se consolidou no século XIX a partir do diálogo entre tradições indígenas, lendas europeias — como a moura encantada portuguesa e as sereias gregas, que originalmente eram metade pássaro — e divindades africanas das águas, como Iemanjá. 

O núcleo da lenda de Iara é o rio como território encantado, capaz de acolher, transformar e punir. A lenda da Iara lembra que rios, igarapés e lagos não são apenas paisagem, mas espaços que exigem respeito. Em uma leitura ecológica, a Mãe d’Água pode ser lida como guardiã simbólica dos ambientes aquáticos, lembrando que a vida amazônica depende, em última instância, da saúde das águas.

Mapinguari: o gigante que guarda a floresta profunda

O Mapinguari é uma das criaturas mais temidas do folclore amazônico. Descrito por povos tradicionais, seringueiros e caçadores como um ser gigantesco, coberto por pêlos espessos e de força descomunal, ele habitaria áreas densas e pouco acessadas da floresta. Em muitas versões, seus gritos ecoam pela mata, galhos se quebram à sua passagem e sua presença anuncia perigo para quem entra em territórios considerados proibidos.

A aparência do Mapinguari varia conforme a região e a tradição oral. Há relatos que o descrevem com garras longas, dentes grandes, um único olho brilhante e pele resistente, quase impenetrável. Em algumas narrativas, ele seria capaz de imitar gritos humanos para atrair caçadores perdidos. Quem responde ao chamado, acreditando ajudar alguém na mata, acaba se aproximando da criatura.

Apesar da força atribuída ao Mapinguari, algumas versões da lenda apontam um ponto fraco curioso: o medo do bicho-preguiça. Mesmo descrito como uma criatura quase invencível, capaz de enfrentar caçadores e atravessar a mata quebrando galhos, ele fugiria ao encontrar esse animal. 

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Para além da imagem assustadora, a lenda também carrega uma função de proteção ambiental. O Mapinguari marca os limites da floresta profunda, indicando lugares onde a presença humana deve ser contida. Ao transformar certas áreas em espaços de medo e respeito, a narrativa ajuda a regular percursos, evitar invasões e preservar regiões consideradas perigosas ou sagradas.

Entre os Karitiana, povo de língua Arikém que vive no norte de Rondônia, o Mapinguari não é tratado apenas como personagem folclórico. Chamado por nomes como Owojo, Kida harara ou Kida so’emo, ele é descrito como um habitante real e perigoso da mata. Relatos de caçadores falam de gritos, rastros, fugas e regiões evitadas para não cruzar com a criatura. Para esse povo, o Mapinguari faz parte da categoria dos kida, seres perigosos que incluem animais agressivos, espíritos e criaturas sobrenaturais.

A figura do Mapinguari também despertou interesse científico. Pesquisadores já sugeriram que a lenda poderia guardar memórias antigas de grandes animais extintos, como as preguiças-gigantes que viveram na América do Sul há milhares de anos. O biólogo David Oren chegou a realizar expedições em busca de evidências físicas da criatura, hipótese que nunca foi comprovada.

Para antropólogos, porém, a tentativa de provar ou desmentir o Mapinguari diz mais sobre o olhar ocidental do que sobre o próprio mito. Em muitos contextos amazônicos, mito e realidade não ocupam campos opostos. O Mapinguari existe porque organiza medos, orienta comportamentos e define relações com a floresta. Mais do que uma criatura a ser encontrada, ele é uma forma de lembrar que a mata profunda tem limites e que nem todos os lugares foram feitos para serem dominados.

Rio Amazonas: O rio que nasceu das lágrimas da Lua

Entre as lendas do folclore amazônico que explicam a origem da paisagem, está a história do nascimento do Rio Amazonas. A narrativa apresenta o Sol e a Lua como dois noivos apaixonados, destinados a viver separados pelas próprias leis da natureza. Ele, vestido de ouro, era o dono do dia. Ela, coberta pelo brilho da prata, governava a noite.

O amor entre os dois, porém, não poderia se realizar. Se Sol e Lua se unissem, o equilíbrio do mundo seria rompido: o calor do Sol queimaria a Terra, enquanto as lágrimas da Lua poderiam inundar tudo. Para preservar a vida, os amantes decidiram se separar, mesmo tomados pela tristeza.

Inconsolável, a Lua chorou durante um dia e uma noite. As suas lágrimas escorreram por morros e vales até chegar ao mar. Mas o oceano não aceitou tamanha quantidade de água doce. Sem se misturar às águas salgadas, o choro da Lua abriu caminhos na terra, escavou vales, atravessou florestas e deu origem ao imenso Rio Amazonas.

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A lenda traduz em linguagem poética a força das águas na formação da paisagem amazônica. O rio não aparece apenas como um acidente geográfico, mas como resultado de uma emoção cósmica, capaz de moldar florestas, serras e territórios. Ao transformar o Amazonas nas lágrimas da Lua, a narrativa traz a ideia de que a água é origem, memória e sustento da vida na floresta. 

Também há, em algumas versões, a crença de que os pingos deixados pela Lua ainda caem sobre as rochas. Quem os encontra e marca com eles o lado esquerdo do peito com uma cruz seria tocado pelo espírito do Sol e da Lua, tornando-se alguém dedicado à proteção da natureza.

PARA A ABRACICLO, O MAIO AMARELO É PROGRAMA DO ANO INTEIRO, DA VIDA INTEIRA

Quando o movimento Maio Amarelo toma as ruas, monumentos são iluminados, campanhas ganham espaço nos meios de comunicação e a sociedade é convidada a refletir sobre um tema que costuma aparecer nas manchetes apenas quando a tragédia já aconteceu. A segurança viária volta ao centro das atenções.

Para a Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares), porém, essa reflexão não tem data para terminar. O mês de maio ajuda a ampliar a visibilidade da causa, mas a preservação da vida no trânsito exige compromisso diário, contínuo e permanente.

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O Brasil vive uma realidade singular. Poucos meios de transporte transformaram tanto a mobilidade nacional quanto a motocicleta. Em grandes centros urbanos, cidades médias, áreas rurais e comunidades afastadas, ela se consolidou como instrumento de trabalho, inclusão social e acesso a oportunidades. É veículo de entrega, transporte, deslocamento para o estudo, para a saúde e para a geração de renda.

Essa expansão trouxe enormes benefícios econômicos e sociais. Também ampliou a necessidade de fortalecer uma cultura de convivência responsável entre todos os usuários das vias.

É nesse contexto que a Abraciclo desenvolve uma agenda permanente de educação para o trânsito, articulando fabricantes, órgãos públicos, entidades da sociedade civil e especialistas em mobilidade. O objetivo não se limita à redução de estatísticas. Trata-se de construir uma percepção coletiva de que cada decisão tomada ao volante, no guidão ou na travessia de uma rua pode representar a diferença entre a vida e a morte.

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Durante o Maio Amarelo, essa atuação ganha reforço por meio de ações educativas realizadas em diversas regiões do país. Os chamados pit stops educativos tornaram-se uma das iniciativas mais conhecidas. Em pontos estratégicos das cidades, motociclistas recebem orientações sobre equipamentos de proteção, comportamento seguro, manutenção preventiva e direção defensiva.

Não há caráter punitivo nessas abordagens. O foco é pedagógico. A conversa direta permite transformar conceitos técnicos em recomendações práticas que podem ser aplicadas imediatamente no cotidiano.

Outro eixo importante envolve a conscientização sobre a manutenção dos veículos. Pneus desgastados, sistemas de freio comprometidos, iluminação inadequada e outros problemas mecânicos muitas vezes passam despercebidos até que um acidente aconteça. Ao incentivar a revisão preventiva, a Abraciclo reforça a compreensão de que segurança não depende apenas da habilidade do condutor, mas também das condições do veículo utilizado.

A entidade também participa de debates sobre mobilidade urbana e infraestrutura viária. Afinal, segurança não é responsabilidade exclusiva dos usuários. Ruas bem planejadas, sinalização adequada, pavimentação de qualidade e projetos que considerem a circulação de motociclistas e ciclistas fazem parte da equação.

Em Manaus, essa agenda assume contornos ainda mais estratégicos.

A capital amazonense abriga o Polo Industrial de Duas Rodas, responsável pela quase totalidade da produção nacional de motocicletas. A cidade tornou-se um laboratório natural para iniciativas voltadas à segurança viária, reunindo fabricantes, trabalhadores do setor, órgãos de fiscalização e milhões de usuários que dependem diariamente desse modal.

As parcerias com o Detran-AM, o Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) e outras instituições permitiram ampliar o alcance das campanhas educativas. Mototaxistas, motofretistas e motociclistas particulares participam regularmente de ações de orientação que combinam informação técnica, demonstrações práticas e diálogo direto com especialistas.

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Motociclistas poderão experimentar simuladores de embriaguez e receber dicas sobre pneus e cuidados com a moto (Foto: Divulgação/Abraciclo)

Esses profissionais representam um segmento especialmente relevante. São trabalhadores que permanecem horas nas ruas, enfrentam trânsito intenso, condições climáticas adversas e pressão por produtividade. Investir em sua capacitação significa proteger vidas, fortalecer a atividade econômica e reduzir custos sociais associados aos acidentes.

A experiência acumulada ao longo dos anos demonstra que campanhas educativas consistentes geram resultados. O comportamento seguro é aprendido, reforçado e multiplicado. Da mesma forma que hábitos inadequados podem ser transmitidos entre gerações de condutores, atitudes responsáveis também podem se espalhar e se consolidar como padrão cultural.

A segurança viária não depende apenas de grandes investimentos ou de mudanças legislativas. Ela nasce, sobretudo, das escolhas cotidianas. Do uso correto do capacete. Do respeito aos limites de velocidade. Da atenção aos pontos cegos. Da manutenção preventiva. Da compreensão de que a rua é um espaço compartilhado.

Para a Abraciclo, representante de um setor fabril e pujante em plena Amazônia, a campanha não se encerra no calendário. Ela segue em cada ação educativa, em cada parceria institucional, em cada orientação oferecida a um motociclista, assim como aos ciclistas e à cidadania, em cada uma de suas iniciativas voltadas à construção de um trânsito mais humano.Porque o amarelo de maio é apenas um lembrete.

O compromisso com a vida precisa permanecer aceso durante todos os dias do ano.

Biotecnologia na Amazônia: sem articulação, o potencial não vira poder

Não existe tecnologia sem ciência, sem prática e sem capital. A potência da biotecnologia na Amazônia só surgirá destes três elementos em grande quantidade. Fora disso, é pura distração. E tudo que não nos falta na Amazônia é distração. São cientistas que se distraem com a imensidão da Amazônia e de sua biodiversidade e pulam de conhecimento em conhecimento. São capitalistas que veem tantas alternativas e não investem em nada. São habitantes que sorvem da sua exuberância e não constroem riquezas econômicas com bases sólidas, ficando deitados em berço esplêndido, como diz o hino.

Augusto Cesar Barreto Rocha UFAM 1
Professor da UFAM

A superação desta ineficácia poderá ser feita com uma mudança de postura das três partes. Uma só não basta, pois não há tecnologia sem o tripé: conhecimento científico, conhecimento prático e capital. Tudo de muito. Nesta semana terei meu recorde de alunos de mestrado e doutorado em uma única turma: 230. Espalhados pela Amazônia Legal: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Maranhão, Mato Grosso, Roraima, Rondônia e Tocantins. É a melhor semana do ano, onde mais aprendo sobre Amazônia. Mais do que viver aqui toda uma vida, ouvir a inquietação de mentes afiadas é, com o perdão da palavra, uma maravilha.

Todo ano a turma aumenta e, neste ano, vou ter quase o dobro de alunos em relação ao ano passado. Não sei se é pelos créditos fáceis ou seria para o propósito da disciplina: transformar pesquisa em inovações tecnológicas, no âmbito da biotecnologia. Além de transtornar alguns com os conceitos mais básicos e mais avançados do assunto, em pouquíssimas horas, o que tenho visto ao longo dos anos é que não faltam pessoas habilitadas para lidar com a Amazônia.

BIOTECNOLOGIA NA AMAZONIA

Faltam recursos. É gritante sua escassez para a transformação dos potenciais em prosperidade. Para completar este quadro, meu convidado deste ano será o Presidente do CORECON/SP, Dr. Haroldo da Silva, que tem refletido tão bem sobre a Sociologia da produção nacional, com seus capitais simbólicos e financeiros.

Também é gritante o descaso dos grandes centros do Brasil em relação à pesquisa nas periferias nacionais. As administrações centrais não conseguem compreender as dimensões da Amazônia e suas particularidades. Falta o básico.

E, quando falta o básico, aprende-se rápido a cooperação. Para quem tem o básico, nos grandes centros, é difícil compreender como cooperar com quem está longe. É impossível partilhar a decisão e com isso os recursos seguem a ser direcionados para as maiores instituições e grupos de pesquisa. Assim, permanece a desigualdade, ou, como se diz no ambiente acadêmico: a assimetria.

Não há capital financeiro abundante na região. Os poucos capitalistas optam, em geral, pelos juros e ganhos mais fáceis e só uma parcela pequena é alocada no risco regional. Em uma síntese apertada: os capitalistas nacionais não dialogam com os cientistas do Norte; os cientistas Sudestinos, no máximo, fazem missões à Amazônia e pouco cooperam com os pares do Norte e, em geral, nem a autoria ofertam para os colegas Amazônicos, quando publicam seus artigos com base em resultados de pesquisas realizadas com interações nestas partes do país.

Como superar isto? Com o empoderamento e o diálogo republicano. Quando os cientistas da Amazônia passarem a não aceitar e a mudar as condições trazidas pelas lideranças nacionais. Quando os capitalistas brasileiros quiserem ganhar dinheiro com o Brasil, ao invés de sugar como imperialistas. Vejo que a cada ano estamos mais próximos disto. Todo mês de junho é animador. Todavia, como é lento. Como temos tanto retrocesso em meio a cada avanço. Basta ler as notícias do que se discute para a corrida presidencial.

Inteligência Artificial ganha espaço na Amazônia com nova edição do BDXP

O Evento promovido pela Bemol reunirá especialistas, empresas, estudantes e empreendedores para discutir os impactos da IA nos negócios, no mercado de trabalho e no desenvolvimento regional

A transformação provocada pela Inteligência Artificial deixou de ser uma discussão restrita aos grandes centros tecnológicos para ocupar espaço crescente nas estratégias empresariais, nas políticas de inovação e na formação profissional. Em Manaus, esse movimento ganha novo impulso com a realização da terceira edição do Bemol Digital Experience (BDXP), marcada para o dia 15 de agosto de 2026, no Centro de Convenções Vasco Vasques.

Produzido pela Bemol, o encontro chega consolidado como uma das principais iniciativas de tecnologia da região Norte, reunindo especialistas, empresas, startups, desenvolvedores, estudantes e lideranças empresariais em torno de um tema que atravessa praticamente todos os setores da economia: o avanço da Inteligência Artificial e suas aplicações práticas.

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Após reunir mais de mil participantes na edição anterior, o evento amplia sua programação e aposta em uma agenda voltada não apenas à reflexão estratégica, mas também à experimentação. A proposta inclui palestras, oficinas práticas, experiências imersivas, demonstrações tecnológicas, ativações de marcas e espaços destinados à troca de conhecimento e à construção de redes de relacionamento profissional.

A iniciativa busca aproximar a Amazônia das discussões que hoje orientam investimentos, modelos de negócios e transformações produtivas em escala global. Em um contexto de crescente digitalização, o evento pretende contribuir para a formação de talentos, a atualização profissional e a disseminação de ferramentas capazes de aumentar a competitividade das organizações instaladas na região.

Segundo França Bandeira, diretor de Tecnologia da Bemol, a Inteligência Artificial já se tornou parte da rotina de empresas e cidadãos, exigindo novos espaços de aprendizagem e adaptação.

“A Inteligência Artificial deixou de ser uma tendência para se tornar uma realidade presente em empresas, serviços e na vida das pessoas. O BDXP nasceu com o propósito de democratizar esse conhecimento, aproximar o Norte das principais discussões globais sobre tecnologia e mostrar como a inovação pode gerar impacto real para negócios e para a sociedade”, afirma.

Além do conteúdo técnico e estratégico, o BDXP contará com uma área de exposição dedicada a empresas, startups e parceiros que vêm desenvolvendo soluções inovadoras em áreas como automação, análise de dados, produtividade, comércio eletrônico, atendimento digital e transformação organizacional.

O encontro também reflete um movimento mais amplo de fortalecimento do ecossistema de inovação amazônico. Em uma região historicamente associada a desafios logísticos e de infraestrutura, iniciativas voltadas à tecnologia vêm ganhando relevância como instrumentos de diversificação econômica, qualificação profissional e geração de novas oportunidades de negócios.

Ao reunir diferentes perfis de participantes, desde profissionais em início de carreira até executivos e especialistas que já trabalham com Inteligência Artificial em suas operações, o BDXP pretende estimular conexões, acelerar processos de aprendizagem e ampliar a inserção da Amazônia nas agendas contemporâneas de inovação.

Os ingressos para o evento já estão disponíveis por meio da plataforma Sympla. As vagas são limitadas.

Mais informações:

@bemoldigital

BDXP – Inteligência Artificial 2026

📅 Data: 15 de agosto de 2026

📍 Local: Centro de Convenções Vasco Vasques – Etapa 2 (Piso Mogno)

Avenida Pedro Teixeira, 167 – Dom Pedro – Manaus (AM)

🎟️ Ingressos:

• Inteira: R$ 149,00

• Meia-entrada: R$ 74,50

🔗 Vendas:

Quando Manaus cresce, São Paulo fatura

A expansão da Zona Franca não retira empregos do Sudeste. Muito pelo contrario. Amplia encomendas para a indústria paulista, fortalece a segurança hídrica do agronegócio e preserva a floresta que abastece de chuva os reservatórios brasileiros.

A reação da Fiesp à regulamentação da Reforma Tributária, ao questionar judicialmente os mecanismos de compensação destinados à Zona Franca de Manaus, parece ignorar um aspecto elementar da realidade econômica brasileira: São Paulo é, historicamente, um dos maiores beneficiários do sucesso da Zona Franca.

Há algumas décadas, sempre que a Zona Franca de Manaus conquista algum avanço institucional, ressurge um velho argumento nos corredores da Faria Lima e em segmentos da indústria paulista: o receio de que incentivos fiscais na Amazônia representem perdas para São Paulo. Os números, entretanto, contam uma história diferente.

São Paulo abriga cerca de 171 mil estabelecimentos industriais. O Amazonas possui pouco mais de 4 mil. O Polo Industrial de Manaus reúne aproximadamente 600 fábricas de grande porte.

SAO PAULO FATURA
Indústria SP

Mesmo que a previsão da Suframa se confirme e mais de 200 novas operações se instalem na região, a distância entre as duas estruturas industriais continuará gigantesca.

A pergunta, portanto, talvez esteja errada. Não se trata de saber o que São Paulo perde quando Manaus cresce. A questão correta é entender quanto São Paulo ganha.

A Zona Franca jamais operou como ilha produtiva.

Desde sua criação, consolidou-se como um elo de uma extensa cadeia nacional de fornecedores. Máquinas, equipamentos, componentes eletrônicos, embalagens, softwares industriais, sistemas logísticos, serviços especializados e insumos diversos chegam diariamente ao Amazonas vindos do Sudeste.

Segundo dados apresentados pela própria Suframa em entrevista à mídia paulista, São Paulo fornece mais de R$ 35 bilhões por ano em insumos ao Polo Industrial de Manaus.

O valor supera o que a região importa de muitos países. Cada nova fábrica instalada em Manaus representa novas encomendas para fornecedores paulistas.

Cada nova linha de produção significa mais negócios para empresas localizadas em Campinas, Sorocaba, Jundiaí, São José dos Campos, Ribeirão Preto e na Região Metropolitana de São Paulo. A Zona Franca não concorre com São Paulo. A Zona Franca compra de São Paulo. Um beneficio incalculável.

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Existe ainda um benefício menos visível nas planilhas contábeis.Ao longo das últimas décadas, a industrialização da Amazônia ajudou a construir uma alternativa econômica à ocupação predatória da floresta.

O resultado está diante dos olhos. O Amazonas mantém mais de 97% de sua cobertura florestal preservada.

Essa floresta desempenha um papel decisivo na formação dos chamados rios voadores, correntes atmosféricas responsáveis por transportar umidade para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil.

São essas chuvas que abastecem reservatórios, alimentam hidrelétricas e sustentam boa parte da produtividade agrícola nacional.

Quando a Amazônia permanece em pé, os ganhos chegam às lavouras do Centro-Oeste, aos sistemas de abastecimento urbano do Sudeste e à matriz energética brasileira.

Poucas políticas públicas produzem efeitos tão abrangentes.

Talvez o verdadeiro debate não seja econômico.

A participação do Amazonas no PIB industrial brasileiro permanece ao redor de 2%. Mesmo após o crescimento previsto, não existe qualquer cenário realista de deslocamento da liderança industrial paulista.

O que a reforma tributária fez foi reconhecer que um país continental não pode tratar igualmente regiões profundamente desiguais.

A Constituição já havia feito essa escolha ao assegurar proteção diferenciada à Zona Franca até 2073. A regulamentação apenas transformou esse princípio em instrumentos concretos de competitividade.

Quando Manaus cresce, São Paulo vende mais.

Quando a floresta permanece em pé, o agronegócio produz mais. Quando a Amazônia encontra caminhos sustentáveis para gerar emprego e renda, o Brasil reduz pressões ambientais, fortalece sua soberania territorial e amplia oportunidades econômicas em toda a cadeia produtiva nacional.

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Foto Mauricio Paiva

Talvez a principal pergunta deixada pela disputa judicial não seja sobre os benefícios da Zona Franca?

Por que ainda existe resistência a uma política pública que, ao mesmo tempo, gera indústria, preserva floresta, reduz desigualdades e distribui ganhos para todo o país?

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Zona Franca de Manaus: a floresta em pé como ativo econômico, climático e estratégico do Brasil

Coluna Follow-Up

Poucas vezes a Amazônia esteve tão presente nas disputas globais quanto agora. O debate deixou de ser exclusivamente ambiental para ocupar o centro das discussões sobre segurança climática, soberania nacional, financiamento internacional e competitividade econômica. Nesse contexto, ganha relevância uma pergunta recorrente: qual foi, afinal, a contribuição da Zona Franca de Manaus para a preservação da maior floresta tropical do planeta?

A resposta precisa partir dos fatos. O Amazonas mantém cerca de 97% de sua cobertura florestal original, percentual que contrasta com as extensas áreas convertidas para atividades agropecuárias em outras partes da Amazônia Legal. Evidentemente, a preservação não decorre de um único fator. Terras indígenas, unidades de conservação, fiscalização ambiental e características geográficas desempenham papel decisivo. Ainda assim, ignorar a contribuição da Zona Franca de Manaus significa desconsiderar uma das mais importantes experiências de desenvolvimento regional da história brasileira.

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Criador: Brazil Photos

Ao concentrar atividade econômica, arrecadação, emprego e renda em um polo urbano-industrial, o modelo reduziu pressões econômicas que, em outras regiões amazônicas, resultaram na substituição da floresta por pastagens, monoculturas e exploração predatória dos recursos naturais. Não por acaso, o Brasil volta a defender internacionalmente uma lógica que valoriza economicamente a conservação.

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), liderado pelo governo brasileiro, representa justamente essa mudança de paradigma. Pela primeira vez, busca-se criar um mecanismo permanente de remuneração para países que mantêm suas florestas preservadas. A iniciativa reconhece uma verdade simples: conservar gera benefícios globais e, portanto, deve produzir retorno econômico para quem protege.

Essa visão dialoga diretamente com o caminho que a Amazônia precisa trilhar. Em vez da substituição da cobertura florestal por atividades de baixa agregação de valor, a região possui oportunidades associadas à bioeconomia, aos bioinsumos, aos fármacos, aos cosméticos, aos alimentos funcionais, aos créditos ambientais, à biotecnologia e aos serviços ecossistêmicos. Parte dessa estratégia já encontra respaldo em instrumentos como o Programa Prioritário de Bioeconomia da Suframa.

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FOTO: Tiago Corrêa/UGPE e Paula Pessoa/UGPE

O debate ganha ainda mais relevância diante das narrativas internacionais que associam simplificadamente a Amazônia ao desmatamento. Algumas dessas interpretações foram utilizadas para justificar medidas protecionistas recentes e pressões comerciais contra o Brasil. O paradoxo é evidente: enquanto setores estrangeiros apontam a floresta como justificativa para restrições econômicas, cresce simultaneamente o interesse global pelos recursos estratégicos da região, incluindo biodiversidade, água, minerais críticos e ativos ambientais.

Nesse cenário, a antiga máxima que inspirou a criação da Zona Franca de Manaus permanece atual. Integrar para não entregar continua sendo uma política de soberania. Não apenas pela ocupação econômica do território, mas pela construção de alternativas capazes de gerar prosperidade sem destruir a base natural que sustenta o futuro da Amazônia.

A floresta em pé deixou de ser apenas uma agenda ambiental. Tornou-se um ativo econômico, climático e geopolítico. E poucos instrumentos contribuíram tanto para essa realidade quanto a Zona Franca de Manaus.

Sem entender os rios da Amazônia, o Brasil continuará no século XV

A proximidade de um novo período de estiagem recoloca a Amazônia diante de uma questão decisiva. Quanto o Brasil realmente conhece a região da qual depende para equilibrar seu clima, sustentar sua biodiversidade e conectar uma parcela expressiva de sua economia?

A seca histórica de 2023 expôs fragilidades conhecidas, mas frequentemente negligenciadas. Rios transformados em gargalos logísticos, comunidades isoladas, aumento dos custos de produção, dificuldades de abastecimento e prejuízos para empresas e famílias revelaram uma vulnerabilidade que vai muito além dos fenômenos naturais.

Ao longo da conversa, ele aborda o papel da logística, a importância da integração multimodal, a necessidade de laboratórios permanentes de monitoramento hidrológico, a incorporação dos riscos climáticos pela indústria e os caminhos para transformar a floresta em pé em prosperidade para quem vive na região.

Mais do que um debate sobre clima, a entrevista propõe uma reflexão sobre soberania, desenvolvimento e futuro. Afinal, compreender a Amazônia talvez seja o primeiro passo para que o Brasil consiga construir um projeto nacional à altura de sua maior riqueza territorial.

Augusto Cesar Barreto Rocha UFAM
Professor da UFAM

Augusto César Barreto Rocha – A seca histórica de 2023 deixou uma série de lições importantes. A primeira delas é que precisamos ampliar os investimentos em infraestrutura e fortalecer uma produção comprometida com a responsabilidade ambiental.

Ela também evidenciou o custo extremamente elevado que recai sobre a indústria da Zona Franca de Manaus, sobre o comércio e sobre a população amazonense quando não existem condições adequadas para o transporte de mercadorias entre a Amazônia e o restante do país.

Houve avanços importantes na compreensão desse fenômeno. Na última semana, por exemplo, a Suframa promoveu um encontro para discutir perspectivas climáticas para a região. Isso demonstra que a sociedade está buscando entender melhor a dinâmica desses eventos.

Ao mesmo tempo, foi possível perceber que o aprendizado ainda está incompleto. Um dos exemplos é a ausência de garantias orçamentárias para a continuidade, no próximo ano, de iniciativas científicas fundamentais, como o laboratório da Universidade do Estado do Amazonas dedicado às previsões climáticas.

Também sentimos falta de uma estrutura permanente de pesquisa voltada especificamente à hidrologia amazônica e ao estudo dos cursos d’água da região. Sem conhecer profundamente nossos rios, dificilmente conseguiremos transformá-los em hidrovias eficientes e sustentáveis.

RIOS DA AMAZONIA
Seca no Rio Negro, na Amazônia (Foto: Prefeitura de Manaus)

Augusto César Barreto Rocha – A principal mudança foi resultado de um esforço privado liderado pelo Porto Chibatão e pelo Super Terminais para viabilizar estruturas flutuantes de transbordo em Itacoatiara.

Também merece destaque a atuação coordenada entre agentes públicos e privados, que trabalharam juntos para tornar essas operações possíveis durante os períodos mais críticos.

Outro avanço importante foi o fortalecimento dos sistemas de monitoramento e previsão. O trabalho desenvolvido pela Universidade do Estado do Amazonas e os boletins produzidos pelo Serviço Geológico do Brasil vêm oferecendo informações mais qualificadas para a tomada de decisões.

Já as indústrias foram obrigadas a ampliar seus estoques de segurança. Trata-se de uma medida necessária, mas que aumenta significativamente os custos operacionais e reduz a competitividade das empresas instaladas na região.

Augusto César Barreto Rocha – A experiência recente revelou o quanto a Amazônia ainda sofre com a ausência de infraestrutura complementar.

A recuperação da BR-319 representa uma parte importante desse processo de correção histórica. Trata-se de uma demanda antiga da região que começa a avançar.

Sistemas logísticos resilientes dependem da existência de alternativas. Dependem de modais complementares e de redundância operacional. Estamos muito distantes dessa realidade.

Hoje, a infraestrutura disponível na Amazônia encontra-se abaixo do mínimo necessário para garantir segurança logística diante de eventos extremos.

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Embarcação de carga no Rio Negro: transporte fluvial é essencial para economia e mobilidade na região amazônica Fonte: Agência Senado

Augusto César Barreto Rocha – Continuamos atuando essencialmente no campo das medidas emergenciais.

Ainda não enfrentamos o problema em sua dimensão real. Não construímos soluções permanentes compatíveis com a magnitude dos impactos econômicos, sociais e humanos provocados por eventos dessa natureza.

A seca passa. A vulnerabilidade permanece.

Augusto César Barreto Rocha – O investimento mais urgente é a criação de um laboratório integrado dedicado à compreensão da dinâmica do Rio Amazonas e de seus afluentes.

Precisamos entender melhor os ciclos de cheias e vazantes, desenvolver mapas hidrológicos mais precisos e construir modelos preditivos capazes de antecipar cenários.

Sem dominar a pesquisa básica relacionada ao funcionamento desses sistemas naturais, não haverá planejamento consistente nem desenvolvimento duradouro.

Enquanto não conhecermos profundamente nossos rios, continuaremos desperdiçando oportunidades extraordinárias de geração de riqueza para a Amazônia, para o Brasil e para a humanidade.

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Dragagem do rio madeira

Augusto César Barreto Rocha – A gestão de riscos já integra os sistemas modernos de qualidade adotados pelas empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus.

As normas internacionais exigem a identificação, documentação, análise e mitigação de riscos operacionais, incluindo aqueles relacionados a eventos climáticos extremos.

Por essa razão, as empresas vêm incorporando cada vez mais essas variáveis em seus planejamentos estratégicos, operacionais e de qualidade.

Augusto César Barreto Rocha – Sem dúvida.

Para empresas globais e organizações de grande porte, a agenda ambiental já possui valor econômico concreto. Para governos comprometidos com a proteção de suas populações e de seus sistemas produtivos, trata-se também de uma questão estratégica e de segurança nacional.

É verdade que essa percepção ainda não alcançou todos os segmentos empresariais e gestores públicos. Entretanto, esse processo tende a avançar à medida que aumentam o acesso ao conhecimento, a educação e a compreensão das oportunidades associadas à sustentabilidade.

Augusto César Barreto Rocha – A principal mensagem é simples. Precisamos aprender a conviver com a natureza e a compreendê-la melhor.

Precisamos de respeito pelos processos naturais e de investimentos contínuos em ciência, tecnologia e pesquisa básica.A natureza é dinâmica e muitas vezes imprevisível. Justamente por isso o conhecimento científico é indispensável.

Augusto César Barreto Rocha – Esse compromisso pertence a toda a sociedade. Precisamos escolher conscientemente a prosperidade amazônica.

A destruição da floresta não interessa aos amazônidas. O desenvolvimento surgirá quando ouvirmos as comunidades locais e construirmos alternativas capazes de ampliar a geração de riqueza e oportunidades.

O extrativismo predatório não produz riqueza duradoura. Ao contrário, destrói patrimônio natural, reduz oportunidades futuras e compromete a capacidade de desenvolvimento das próximas gerações.

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Fortalecer empreendedores que atuam em cadeias sustentáveis, como a do açaí (Reprodução/Jornada Amazônia)

Augusto César Barreto Rocha – O grande pacto nacional passa pela construção de infraestrutura sustentável para o interior profundo da Amazônia e por sua integração efetiva ao restante do país.

Precisamos ampliar conexões logísticas, recuperar estradas estratégicas, reduzir os custos do transporte aéreo e estruturar terminais portuários públicos de pequeno porte capazes de atender às vocações econômicas de cada município.

O projeto amazônico só fará sentido quando os benefícios dos investimentos realizados na região alcançarem efetivamente quem vive nela. A Amazônia não pode ser apenas uma pauta nacional. Ela precisa se tornar uma prioridade nacional. 

“Enquanto não conhecermos profundamente nossos rios, continuaremos desperdiçando oportunidades extraordinárias de geração de riqueza para a Amazônia, para o Brasil e para a humanidade.” ACBR

Guardar o sol e o vento

Durante muito tempo, a expansão elétrica brasileira foi contada a partir de grandes obras. Barragens, linhas de transmissão, subestações, turbinas, torres metálicas atravessando serras, rios e propriedades rurais. O país aprendeu a associar segurança energética à capacidade de construir infraestrutura pesada, quase sempre distante dos centros urbanos, mas decisiva para manter acesas as luzes das cidades, das fábricas, dos hospitais e das casas.

Nos últimos anos, outra paisagem passou a dividir esse mapa. Telhados com painéis solares em bairros residenciais, fazendas fotovoltaicas no interior, parques eólicos no Nordeste, novas empresas de tecnologia, consumidores mais atentos ao preço da energia e investidores acompanhando com atenção a velocidade da transição. A matriz elétrica brasileira, historicamente renovável pela força das hidrelétricas, ganhou uma nova camada de complexidade com a entrada acelerada da energia solar e da energia dos ventos.

O anúncio do primeiro leilão de baterias do setor elétrico brasileiro, previsto para dezembro, precisa ser lido dentro desse movimento mais amplo. Ele não representa apenas a abertura de um novo mercado. Marca o reconhecimento institucional de que a transição energética brasileira chegou a uma etapa em que produzir energia limpa já não basta. O país precisa aprender a guardar, gerenciar e entregar essa energia com estabilidade.

A imagem é simples, embora a engenharia envolvida seja sofisticada. Em determinados momentos do dia, o sol e o vento geram mais eletricidade do que o sistema consegue absorver. Em outros, a demanda aumenta justamente quando essas fontes diminuem sua produção. Ao fim da tarde, quando a geração solar cai e o consumo tende a subir, o sistema precisa buscar equilíbrio em outras fontes. Nos períodos de baixa nos ventos, a mesma equação se impõe. É nesse intervalo entre a abundância e a necessidade que o armazenamento começa a mostrar sua importância estratégica.

SOL E O VENTO

O Brasil avançou com velocidade impressionante na geração renovável. A energia solar colocou o país entre os maiores mercados do mundo. A energia eólica consolidou o Brasil entre as principais potências globais da fonte. Em agosto de 2025, solar e eólica chegaram a responder, juntas, por mais de um terço da geração elétrica nacional. Poucos países em desenvolvimento chegaram tão longe em tão pouco tempo nesse rearranjo da matriz.

Mas a modernização do sistema elétrico costuma revelar seus gargalos justamente quando os bons resultados aparecem. O crescimento das renováveis variáveis trouxe ganhos ambientais, competitividade econômica e diversificação da matriz. Trouxe também um desafio operacional que já não pode ser tratado como detalhe técnico. Parte da energia limpa disponível vem sendo cortada por limitações do sistema. O operador, diante de risco de sobrecarga ou restrições de transmissão, precisa determinar a redução temporária da geração de parques solares e eólicos.

Essa energia existe. Foi produzida pelo sol e pelo vento. Poderia abastecer consumidores, reduzir custos sistêmicos, diminuir emissões e evitar o acionamento de fontes mais caras. Mas, sem estrutura adequada de armazenamento e gestão, parte dela se perde no caminho entre a geração e o uso.

O leilão de baterias entra nesse ponto sensível da transição energética brasileira. As baterias funcionam como uma espécie de reserva operacional da nova matriz. Armazenam energia quando há excedente e devolvem ao sistema quando a demanda exige. Ajudam a suavizar oscilações, reduzem desperdícios, reforçam a segurança elétrica e ampliam a capacidade de integração das fontes renováveis. Em linguagem mais direta, permitem que o país use melhor aquilo que já consegue produzir.

Essa mudança tem consequências econômicas relevantes. Cada megawatt-hora limpo desperdiçado representa investimento que não cumpriu plenamente sua função. Representa infraestrutura subutilizada, receita perdida, custo adicional para o sistema e pressão futura sobre a tarifa. Quando o armazenamento entra na equação, a energia renovável deixa de depender apenas do instante em que foi gerada. Passa a ter maior valor sistêmico, porque pode ser deslocada no tempo.

Essa capacidade de deslocar energia no tempo talvez seja uma das inovações mais importantes do setor elétrico contemporâneo. Ao longo de décadas, o sistema foi organizado para produzir e consumir eletricidade quase simultaneamente. A operação dependia de grandes fontes despacháveis, capazes de responder à demanda conforme a necessidade. As renováveis variáveis mudaram essa lógica. O sol e o vento não obedecem ao relógio do consumo. O armazenamento cria a ponte técnica entre a natureza da geração renovável e a rotina concreta da sociedade.

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No caso brasileiro, essa ponte carrega uma dimensão adicional. O país tem uma matriz elétrica privilegiada, mas convive com desigualdades profundas de acesso, qualidade e custo da energia. Em regiões remotas, especialmente na Amazônia, a energia ainda é, muitas vezes, cara, instável e dependente de combustível fóssil. A dieselização de comunidades isoladas impõe um custo econômico, ambiental e social que já não combina com o repertório tecnológico disponível.

Quem conhece a Amazônia sabe que a energia chega a muitos lugares como uma operação difícil, vulnerável e cara. Há comunidades em que a regularidade do fornecimento define a conservação de alimentos, o funcionamento de uma escola, a refrigeração de medicamentos, a operação de sistemas de comunicação e a possibilidade de pequenos negócios.

Nesses territórios, a transição energética não aparece como uma ideia abstrata de conferência internacional. Ela se mede no ruído do gerador, no preço do combustível, na interrupção do serviço, na fumaça, na logística fluvial e na expectativa de que a tecnologia possa reduzir uma precariedade antiga.

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É por isso que o debate sobre baterias precisa ir além da agenda dos grandes leilões. O leilão é indispensável para dar escala, previsibilidade regulatória e sinal econômico ao mercado. Mas o armazenamento também tem vocação territorial. Pode atender sistemas isolados, comunidades remotas, plantas industriais, operações críticas, hospitais, telecomunicações, cadeias produtivas e projetos híbridos com solar. Em cada caso, a tecnologia assume um papel específico. Em todos eles, a confiabilidade é o ponto comum.

Na UCB Power, essa percepção nasceu da experiência industrial e do contato direto com projetos em áreas desafiadoras. O armazenamento de energia exige tecnologia, mas exige também disciplina produtiva, rastreabilidade, qualidade de processo e capacidade de entrega. Baterias não podem ser tratadas como componentes genéricos em um sistema estratégico. Elas precisam operar com segurança, estabilidade e previsibilidade, muitas vezes em ambientes adversos, com variações de temperatura, logística complexa e necessidade de resposta rápida.

Ao longo da nossa trajetória, acumulamos mais de 90 mil baterias instaladas em sistemas remotos de energia, com mais de 620 MWh implementados em projetos voltados a áreas remotas. Nos últimos dois anos, essas operações contribuíram para evitar, em média, a emissão de 65 mil toneladas de CO₂ na atmosfera e impactaram diretamente mais de 400 mil pessoas. Esses números ajudam a dimensionar a escala, mas contam apenas uma parte da história. A outra parte está nos lugares onde a energia armazenada passou a garantir continuidade, reduzir dependências e dar maior estabilidade à vida cotidiana.

A transição energética costuma ser descrita pela potência instalada das fontes renováveis. É uma métrica importante, mas incompleta. Um sistema elétrico moderno será avaliado também por sua capacidade de entregar energia no momento certo, com custo competitivo e baixo impacto ambiental. A bateria entra como infraestrutura de confiança. Em alguns casos, ela evita desperdício. Em outros, reduz o acionamento de térmicas. Em muitos, permite que fontes renováveis cheguem onde antes chegavam apenas soluções caras e poluentes.

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Projeto da UCB Power usa baterias de sódio para o armazenamento de energia em comunidades remotas

O leilão anunciado pelo governo sinaliza que o Brasil começa a organizar esse novo capítulo. O mercado aguarda as regras definitivas, porque nelas estarão definidos os contornos reais da atratividade dos projetos, os critérios de habilitação, os prazos, os compromissos de desempenho e a forma como o armazenamento será remunerado. Há interesse de investidores, fabricantes, integradores, bancos e empresas de energia. Esse interesse, entretanto, dependerá da qualidade regulatória. O setor elétrico é movido por tecnologia, mas também por confiança institucional.

O Brasil já desperdiçou tempo nessa agenda. O debate sobre armazenamento vinha sendo adiado enquanto a geração renovável avançava em ritmo acelerado. Agora, a distância entre a capacidade de produzir energia limpa e a capacidade de usá-la com inteligência ficou evidente. O leilão de baterias chega, portanto, como resposta a um problema que amadureceu diante de todos. Não se trata de antecipar uma tendência distante. Trata-se de corrigir uma assimetria presente no sistema.

A experiência internacional mostra que o armazenamento se tornou peça central da segurança energética em países que ampliaram rapidamente a participação de renováveis. A China, os Estados Unidos e a Europa vêm incorporando sistemas de baterias em larga escala para lidar com os mesmos desafios de variabilidade, pico de demanda e estabilidade da rede. O Brasil tem uma vantagem relevante: pode fazer essa transição partindo de uma matriz já renovável e de um potencial solar e eólico abundante. Mas vantagem natural, sozinha, não organiza sistema elétrico. É preciso tecnologia, indústria, regulação e capacidade de execução.

Também será necessário olhar para a cadeia produtiva. Um país que pretende liderar a transição energética não pode se limitar à condição de consumidor de equipamentos. A expansão do armazenamento abre espaço para política industrial, qualificação tecnológica, conteúdo local, desenvolvimento de fornecedores, pesquisa aplicada, reciclagem, segurança operacional e novas competências em engenharia. A energia do futuro será disputada também na fábrica, no laboratório, na certificação, no controle de qualidade e na capacidade de prestar assistência técnica em escala.

Esse ponto é particularmente relevante para o Polo Industrial de Manaus e para a Amazônia. A região não deve ser tratada apenas como vitrine ambiental da transição energética brasileira. Pode ser território de produção, inovação e aplicação concreta de soluções. A floresta em pé precisa de uma economia capaz de sustentar empregos qualificados, tecnologia limpa, infraestrutura adequada e inclusão energética. Armazenamento, nesse contexto, não é acessório. É parte da base material de uma nova estratégia de desenvolvimento.

A UCB Power tem procurado atuar justamente nessa convergência entre indústria, tecnologia e responsabilidade territorial. A transição energética exige propósito, mas propósito sem competência técnica se dissolve rapidamente. Exige compromisso ambiental, mas compromisso sem entrega operacional perde credibilidade. Exige inovação, mas inovação sem confiabilidade não sustenta sistemas críticos. No setor elétrico, a confiança não se declara. Ela se constrói nos processos, nos testes, nas certificações, na resposta ao cliente, na durabilidade dos equipamentos e na capacidade de manter a operação funcionando quando a teoria encontra a realidade.

O leilão de baterias pode inaugurar uma nova etapa para o setor elétrico brasileiro. Sua importância será medida pelo volume contratado, pelo desenho regulatório e pela capacidade de atrair investimentos consistentes. Mas seu significado mais profundo talvez esteja em outra camada. O país começa a admitir que a transição energética não será concluída apenas com mais placas solares e mais aerogeradores. Será preciso guardar melhor a energia que já somos capazes de produzir. Será preciso evitar desperdícios, reduzir vulnerabilidades e transformar abundância natural em segurança energética.

No cotidiano do sistema elétrico, essa mudança aparecerá de modo menos vistoso do que uma grande usina. Aparecerá em baterias instaladas ao lado de subestações, em projetos híbridos, em comunidades remotas com menor dependência de diesel, em operações industriais mais estáveis, em menor acionamento de térmicas, em menos cortes de geração renovável e em maior previsibilidade para consumidores.

O Brasil aprendeu a gerar energia a partir da força dos rios, do sol e dos ventos. Agora começa a enfrentar a etapa seguinte, talvez mais discreta e igualmente decisiva: aprender a preservar essa energia até o momento em que ela seja necessária. Essa capacidade de guardar o excedente e devolvê-lo como segurança, estabilidade e desenvolvimento será uma das medidas concretas da maturidade da nossa transição energética.

Na prática, o país está diante de uma escolha industrial e civilizatória. Pode continuar perdendo parte da energia limpa que produz, acionando soluções mais caras quando o sistema aperta e tratando o armazenamento como promessa futura. Ou pode organizar, com rigor técnico e visão de longo prazo, uma nova infraestrutura de confiança para sustentar a economia de baixo carbono.

A primeira opção já conhecemos. A segunda começa a ser desenhada agora.

Quando o mundo compra portos, a Amazônia vende o quê?

“O risco é assistir à construção dessa nova arquitetura logística mundial da janela, enquanto outras regiões ocupam os espaços de articulação, distribuição e comando”

Enquanto parte do Brasil ainda discute se a infraestrutura é gasto ou investimento, o mundo parece ter decidido essa questão há bastante tempo.

Na semana passada, a AD Ports Group, gigante logística controlada pelo fundo soberano de Abu Dhabi, anunciou a compra da Corredor Logística e Infraestrutura (CLI), operadora de terminais portuários em Santos e Itaqui. O valor da transação, US$ 835 milhões, representa a maior aquisição da história da companhia árabe.

O dado financeiro impressiona. Mas o que realmente importa está na justificativa do negócio.

Os Emirados Árabes Unidos não compraram silos, guindastes ou armazéns. Compraram acesso a fluxos de comércio. Compraram corredores logísticos. Compraram posição estratégica.

amazonia vende
Foto divulgação

A operação revela uma tendência que vem se consolidando silenciosamente na economia mundial. O poder econômico deixou de enxergar infraestrutura apenas como suporte ao desenvolvimento. Passou a vê-la como instrumento de influência geopolítica.

Portos, ferrovias, hidrovias, cabos de dados e corredores multimodais tornaram-se ativos tão valiosos quanto petróleo, minerais ou terras agrícolas.

É nesse ponto que a notícia deixa de falar sobre Santos e Itaqui para provocar uma pergunta desconfortável para a Amazônia.

Se o capital global está comprando corredores logísticos brasileiros, qual é o lugar da Amazônia nessa nova geografia do comércio?

HOJE

Apesar de ocupar uma das localizações mais estratégicas do planeta, conectando a América do Sul ao Atlântico Norte, à Bacia Amazônica e aos mercados do Caribe, a região permanece quase ausente dos grandes mapas de investimento logístico internacional.

Os fundos soberanos observam corredores. Os investidores observam corredores. As grandes tradings observam corredores.

E nós continuamos discutindo se devemos ou não concluir obras essenciais para integrar o território amazônico ao restante do país e ao comércio mundial.

Enquanto Santos sofre com excesso de demanda e falta de espaço para expansão, os portos amazônicos ainda lutam para atrair investimentos compatíveis com seu potencial.

Enquanto o Oriente Médio constrói uma estratégia global baseada em logística, o Brasil segue tratando a Amazônia predominantemente como tema ambiental ou problema fundiário.

Ambas as dimensões são importantes. Nenhuma delas, isoladamente, é suficiente. A floresta em pé precisa ser vista também como infraestrutura econômica. Os rios amazônicos constituem a maior malha hidroviária natural do planeta. Manaus abriga o principal polo industrial da Amazônia.

A região concentra reservas minerais estratégicas, biodiversidade única e uma localização privilegiada entre os grandes fluxos atlânticos.

Ainda assim, raramente aparece nos planos globais de integração logística. Talvez porque o Brasil ainda não tenha formulado uma visão clara para a Amazônia como plataforma de comércio, inovação e conexão internacional. A própria AD Ports ajuda a compreender o fenômeno.

Ao justificar a aquisição, a empresa afirmou que pretende utilizar o Brasil como elo de um novo eixo comercial ligando América do Sul, Oriente Médio, Índia, África Oriental e Sudeste Asiático.

Exatamente o tipo de pensamento estratégico que a Amazônia precisa incorporar. A questão não é apenas exportar mais produtos. A questão é ocupar posição relevante nas cadeias que organizam os fluxos do século XXI. Isso vale para a indústria da Zona Franca de Manaus.

O risco é assistir à construção dessa nova arquitetura logística mundial da janela, enquanto outras regiões ocupam os espaços de articulação, distribuição e comando.

Oportunidades históricas costumam chegar disfarçadas de notícias aparentemente distantes. Uma aquisição portuária em Santos e Itaqui talvez seja uma delas. Afinal, quando os grandes investidores começam a comprar corredores logísticos, não estão olhando para o presente. Estão comprando o futuro. E a Amazônia precisa decidir se deseja participar dele ou apenas observá-lo passar pelos seus rios.

Folclore amazônico transforma lendas em ferramenta de educação ambiental

Projetos educativos, museus, livros e séries mostram como o folclore amazônico pode despertar interesse por ciência e educação ambiental. 

O folclore amazônico é uma forma de explicar a floresta, os rios, os animais e os limites da relação humana com a natureza. As suas histórias não falam apenas de medo ou encantamento, elas guardam também ensinamentos sobre respeito aos ciclos naturais, cuidado com os territórios e as consequências da exploração predatória.

Na educação ambiental, esse repertório funciona como ponte entre cultura e ciência. Partindo de narrativas já conhecidas por crianças e adolescentes, professores conseguem introduzir temas como conservação da biodiversidade, queimadas, contaminação dos rios e desmatamento, aproximando o imaginário popular de questões ambientais concretas. Esse uso pedagógico do folclore amazônico permite reconhecer seu valor cultural e, a partir dele, abrir caminhos para perguntas e aprendizados. Conheça a seguir alguns projetos e propostas de aplicação pedagógica do folclore amazônico. 

Bosque da Ciência (Manaus – AM) 

Um dos espaços para aproximar educação ambiental, biodiversidade e folclore amazônico é o Bosque da Ciência, do INPA. Criado em 1995, o local funciona como uma área de divulgação científica, educação e lazer, com vegetação florestal, animais da fauna amazônica de vida livre e atrativos voltados à visitação.

Localizado no perímetro urbano de Manaus, o Bosque permite que estudantes tenham contato direto com a floresta sem sair da cidade. A experiência pode ser usada por escolas como complemento a aulas sobre ecossistemas amazônicos, fauna, flora, conservação e pesquisa científica.

Em uma visita pedagógica, a contação de lendas pode ser feita antes, durante ou depois do percurso. Uma turma que ouve uma história sobre o Curupira, por exemplo, pode observar as trilhas pensando nas relações entre animais, árvores, frutos, insetos e seres humanos. Já uma atividade sobre o Boto ou a Iara pode ser conectada a discussões sobre rios, peixes, qualidade da água e impactos da ação humana.

Museu Goeldi (Belém – PA) 

Outro espaço de referência para atividades educativas é o Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém. Fundado em 1866, o Goeldi é uma das instituições científicas mais antigas e importantes do país dedicadas ao estudo da Amazônia. As suas pesquisas reúnem áreas como Ciências Humanas, Biológicas, Sociais e da Terra, além de manter coleções científicas, biblioteca, exposições e o Parque Zoobotânico.

O Parque Zoobotânico do Museu Goeldi recebe visitas de escolas públicas, particulares e grupos organizados. Além de conhecer o parque, os visitantes podem acessar exposições, aquário e a Biblioteca de Ciência, conforme disponibilidade e programação da instituição.

Para escolas, a visita pode ser organizada como uma experiência de educação ambiental integrada à cultura amazônica. Antes do passeio, a turma pode estudar uma lenda do folclore amazônico relacionada a um animal, planta ou ambiente. Durante a visita, os estudantes observam espécies, espaços e exposições que ajudam a transformar a narrativa em investigação.

Propostas pedagógicas com o folclore amazônico 

O uso do folclore amazônico na educação pode seguir um caminho simples, adaptável a diferentes idades. A primeira etapa é a contação da lenda. O professor pode apresentar o personagem por meio de livros, oralidade, teatro, música, ilustração, vídeo ou quadrinhos. Esse momento desperta a curiosidade e valoriza o repertório cultural dos estudantes.

Depois vem a conexão com o real. A turma identifica os elementos naturais presentes na história: floresta, rio, peixe, ave, fogo, caça, chuva, noite, árvores ou animais. A pergunta central pode ser: o que essa lenda está tentando proteger ou explicar?

A terceira etapa é a tradução científica. A partir do mito, entram os conceitos ambientais. O Curupira pode levar ao debate sobre caça ilegal e equilíbrio dos ecossistemas. O Boitatá pode introduzir o tema das queimadas. A Iara e o Boto podem abrir discussões sobre rios, contaminação e conservação de espécies aquáticas. A Cobra Grande pode ser associada à importância das águas e das bacias hidrográficas.

Por fim, a atividade chega à ação. Os estudantes podem criar mapas da biodiversidade local, pesquisar espécies ameaçadas, montar campanhas contra queimadas, produzir cartazes sobre cuidados com rios, desenvolver podcasts sobre lendas e ciência ou escrever novas versões das histórias, conectando tradição oral e desafios ambientais atuais.

Livros, quadrinhos e audiovisual de lendas amazônicas em sala de aula

O folclore amazônico também pode ser trabalhado com livros, quadrinhos e produções audiovisuais. Obras literárias ajudam a apresentar diferentes versões de uma mesma lenda, mostrando que a cultura popular é viva, múltipla e transmitida por diferentes povos e comunidades. Alguns exemplos são: A criação do mundo e outras lendas da Amazônia de Vera do Val; Amazônia – Mitos e Lendas – Seres Encantados Da Floresta de Cleber Sanches e Contos dos Curumins Guaranis, escrito por Jeguaká Mirim e Tupã Mirin.

Quadrinhos podem ser especialmente úteis para crianças e adolescentes, pois combinam texto, imagem, ritmo narrativo e interpretação visual. Um exemplo são as obras “Amazônia em Quadrinhos”, do coletivo de Amapá AP Quadrinhos, a coletânea traz três das lendas mais famosas do folclore amazônico: o Mapinguari, o Boto e a Cobra Grande. 

Séries e filmes também podem funcionar como porta de entrada, desde que usados com mediação crítica. A série brasileira “Cidade Invisível”, da Netflix, por exemplo, popularizou personagens do folclore brasileiro em uma narrativa de fantasia e investigação. Em sala de aula, a produção pode ser usada com turmas mais velhas para discutir como a cultura popular é adaptada pela indústria audiovisual, quais personagens são representados, quais territórios aparecem e que conflitos ambientais são sugeridos pela trama. O uso da série, no entanto, exige atenção à classificação indicativa e ao planejamento pedagógico. 

Educação ambiental com memória e pertencimento

Ensinar ciência por meio do folclore amazônico é reconhecer que a educação ambiental se torna mais potente quando dialoga com memória, território e pertencimento. Nesse encontro entre folclore e ciência, as lendas amazônicas passam a ser uma ferramenta permanente para ensinar conservação, valorizar saberes tradicionais e formar estudantes capazes de olhar para a floresta não como cenário distante, mas como um sistema vivo, cheio de histórias e responsabilidades.