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Hambúrguer de babaçu transforma resíduo em alimento vegano no Maranhão 

Criado com ingredientes da sociobiodiversidade regional, hambúrguer de babaçu valoriza quebradeiras de coco e fortalece a bioeconomia no Maranhão. 

O coco babaçu, um dos símbolos da sociobiodiversidade maranhense, ganhou uma nova aplicação alimentar em um projeto desenvolvido pela Embrapa em parceria com quebradeiras de coco do Maranhão. A iniciativa resultou na criação de um hambúrguer de babaçu vegano produzido a partir da farinha da amêndoa do coco.

A matéria-prima é obtida pela trituração da amêndoa fresca. Antes tratada como resíduo, essa parte do babaçu passou a ser utilizada como ingrediente principal de um produto com potencial de geração de renda e agregação de valor à produção local.

O hambúrguer desenvolvido pela equipe apresenta 13,17% de proteínas a cada 100 gramas, índice próximo ao encontrado em opções veganas já disponíveis no mercado. Segundo os pesquisadores, o objetivo foi construir uma alternativa alimentar com base em ingredientes regionais e adaptada às condições reais de produção das comunidades envolvidas.

Diferente de processos conduzidos exclusivamente em laboratório, o trabalho partiu da escuta e da avaliação das possibilidades locais. A proposta foi considerar tanto a estrutura disponível quanto o conhecimento das quebradeiras de coco, responsáveis por uma atividade tradicional e essencial para a economia de comunidades do Maranhão.

Durante o desenvolvimento, os pesquisadores testaram duas formulações: uma com casca de banana e outra com polpa de jaca. A versão com banana foi escolhida para avançar nas análises devido à maior disponibilidade da fruta ao longo do ano, o que facilita a regularidade da produção.

O hambúrguer de babaçu passou por avaliações físico-químicas, microbiológicas, nutricionais e sensoriais. Também foram realizados estudos sobre vida de prateleira. Alunos do Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA), dos cursos ligados à gastronomia, participaram da degustação e avaliação das características do produto.

De acordo com a equipe, o alimento foi aprovado nas etapas de análise e liberado para comercialização. Sem conservantes, o hambúrguer de babaçu pode durar até seis meses congelado. Além de criar uma alternativa vegana, o projeto busca fortalecer cadeias produtivas da sociobiodiversidade e ampliar o uso sustentável do babaçu. A iniciativa também mira nichos de mercado ligados a produtos com identidade sociocultural e a dietas com restrição de glúten e lactose.

Para a Embrapa, alimentos derivados do babaçu podem contribuir para sistemas alimentares mais conectados aos territórios, valorizando povos e comunidades tradicionais, promovendo inclusão produtiva e estimulando modelos de bioeconomia de baixo impacto ambiental. A aposta é que o hambúrguer de babaçu ajude a transformar ingredientes regionais em oportunidades econômicas, sem romper com os modos de vida e os saberes tradicionais que sustentam a cadeia do coco no Maranhão.

Amazônia em pauta: o medo do desenvolvimento

Há um enorme desconhecimento sobre a Amazônia, o que gera uma grande oportunidade para o país, ao mesmo tempo em que provoca uma série de pensamentos e afirmações equivocadas sobre a região. Uma das mais difíceis de combater é que temos um problema de distância entre a Amazônia o Brasil.

Este problema inexiste em um mundo globalizado e conectado. Não estamos distantes dos centros produtores e consumidores do Brasil, afinal a distância é um problema insolúvel. Em uma Aldeia Global, longe é o Japão ou a China, mas é normal compramos produtos da China e os Sudestinos acham o Amazonas ou o Amapá distantes.

De fato, o problema que temos é uma gritante falta de infraestrutura de transportes para conectar a Amazônia com o Brasil. Há ainda uma questão que é a ausência de condições competitivas para conectar o interior profundo da Amazônia com as várias capitais. É aqui que reside o problema.

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(Foto: Sedceti/Divulgação)

Enquanto não for feito um esforço do Estado brasileiro para romper esta deficiência histórica, seguiremos isolados e com a nossa soberania em cheque, somado com uma enorme perda de oportunidades. A redução das assimetrias de desenvolvimento só será possível com a construção de infraestruturas de transportes e de energia.

Entretanto, em todo o movimento que leva a uma redução da assimetria social ou regional, vemos no Brasil uma oposição sistemática. Há um claro medo da potência da Amazônia. Cada obra, cada política pública sempre encontra uma fortíssima oposição. Há um medo generalizado da Amazônia, ao mesmo tempo em que há um desejo de subjugação econômica, ambiental e social.

É como se quiséssemos uma eterna visão de região pacta, ribeirinha, isolada e sem impactos econômicos substantivos, enquanto o desejo capitalista poderia (e deveria) ser exatamente o oposto. Mas as raízes culturais imperiais não aceitam e não toleram uma Amazônia forte.

Por exemplo, a FIESP ingressou na justiça federal contra a reforma tributária, justamente por existir um risco da Zona Franca de Manaus e a sua indústria crescerem. Ou seja, há um temor da poderosa indústria de São Paulo que a política pública da Zona Franca de Manaus faça o que se espera: reduzir a desigualdade regional.

AMAZONIA EM PAUTA
Foto divulgação

Em paralelo, finalmente, a rodovia BR-319 terá seu trecho do meio asfaltado, junto com um conjunto amplo de condicionantes ambientais que precisam e devem ser feitos. Neste momento único de repensar este pedaço da Amazônia Ocidental, quando deveria haver uma celebração da indústria nacional, um representante empresarial do Estado mais rico do país se opõe a um potencial funcionamento da política de redução da desigualdade. 

A história se repete em muitas dimensões no país. Quando se discute a política quotas para universidades públicas, onde, por exemplo, os quotistas possuem taxa de conclusão 10 pontos percentuais superior do que os demais estudantes, conforme o Censo da Educação Superior. A oposição entre classes sociais no Brasil é um fenômeno interessante. Ela se espalha em várias dimensões, seja entre regiões, entre remunerações, entre indústrias ou infraestruturas.

Precisamos trazer a reflexão social e antropológica para a redução das desigualdades, pois fora disso nunca teremos um país moderno, desenvolvido e menos desigual. Seguiremos a transferir recursos para as regiões e extratos sociais mais ricos. Como dado final, do IBGE, o Amazonas, industrial, tem 18,2% de seu PIB como impostos, enquanto a média nacional é de 15,5%. Faz sentido?

O mundo perde Edgar Morin, arquiteto de uma nova forma de compreender a humanidade

Filósofo, sociólogo, antropólogo, resistente ao nazismo, crítico do stalinismo, estudioso da comunicação, da cultura de massa, da educação e da condição humana, Morin morreu nesta sexta-feira, em Paris, aos 104 anos, deixando uma obra que se tornou uma das referências centrais para quem tenta compreender um mundo cada vez mais interligado, instável e difícil de explicar por categorias isoladas, destacou o Le Monde. 

Em tempos de especializações cada vez mais estreitas, Edgar Morin insistiu em fazer o caminho inverso. Enquanto a academia se organizava em departamentos, disciplinas e compartimentos, ele procurava religar saberes. Enquanto a política buscava respostas simplificadas para problemas complexos, ele lembrava que a realidade raramente se deixa aprisionar por fórmulas lineares.

 Edgar Morin

Foi dessa inquietação que nasceu o conceito pelo qual se tornou conhecido mundialmente: o pensamento complexo. Não uma teoria da confusão, como muitos interpretaram superficialmente, mas um esforço intelectual para compreender que fenômenos humanos, sociais, econômicos, ambientais e culturais são tecidos por relações múltiplas, simultâneas e inseparáveis, de acordo com a Wikipédia.

Sua obra monumental, “O Método”, construída ao longo de décadas, tornou-se uma espécie de cartografia da complexidade contemporânea. Nela, Morin propunha uma reconciliação entre ciência, filosofia, cultura e experiência humana, numa época em que o conhecimento parecia avançar justamente pela fragmentação.

Em “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, texto que circulou intensamente em universidades e centros educacionais de todo o mundo, Morin defendia que ensinar não poderia significar apenas transmitir conteúdos. Era preciso formar seres humanos capazes de compreender a incerteza, lidar com a diversidade, reconhecer a interdependência planetária e perceber que todo conhecimento carrega limites, contextos e riscos de erro. 

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Reconhecido como um dos principais pensadores contemporâneos, Edgar Morin deixou uma obra que influenciou universidades, educadores e pesquisadores em diferentes países ao longo de décadas.

Poucos territórios desafiam tanto as lógicas simplificadoras quanto a floresta amazônica. Ali, economia, biodiversidade, cultura, geopolítica, ciência, tecnologia, ancestralidade e sobrevivência convivem num emaranhado que resiste às análises compartimentadas. Talvez por isso o pensamento de Morin tenha encontrado tanta receptividade na América Latina e entre pesquisadores que enxergam o desenvolvimento como uma construção sistêmica, e não como uma soma de indicadores isolados. 

Num século marcado pela emergência climática, pela revolução tecnológica, pela crise das democracias e pela disputa em torno dos sentidos do progresso, sua obra permanece surpreendentemente atual. Ela oferece menos respostas prontas do que ferramentas para formular perguntas melhores.

Morin viveu o suficiente para assistir à ascensão e à queda de ideologias, à reconstrução da Europa após a guerra, ao surgimento da internet, à globalização e às novas crises planetárias. Em vez de se refugiar em certezas, escolheu cultivar a dúvida como método e a curiosidade como forma de resistência intelectual.

Sua morte encerra uma biografia extraordinária. Seu pensamento, porém, permanece como uma advertência discreta para uma época que continua seduzida por soluções simples para problemas cada vez mais complexos.

Num mundo que insiste em separar, Edgar Morin passou mais de um século tentando religar.

A força transformadora da escuta

Existem momentos em que uma sociedade precisa interromper o ruído das disputas, das estatísticas e dos discursos para ouvir aquilo que normalmente permanece invisível.

Ao longo dos últimos anos, o Brasil avançou em diversas frentes relacionadas aos direitos das mulheres. Leis foram aperfeiçoadas, mecanismos de proteção foram fortalecidos e a conscientização social alcançou novos espaços. Ainda assim, a realidade insiste em nos confrontar com números alarmantes, episódios recorrentes de violência e situações que desafiam nossa capacidade de compreensão.

Em muitos casos, o que deveria provocar indignação coletiva começa a ser tratado como parte da rotina. A repetição da barbárie cria o risco mais perigoso de todos: sua naturalização.

Quando a violência deixa de causar espanto, a sociedade inteira adoece.

Foi a partir dessa inquietação que nasceu, no Tribunal de Contas do Amazonas, a Ouvidoria da Mulher. Antes de ser uma estrutura administrativa, ela surgiu como uma convicção.

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1- A convicção de que nenhuma política pública produz resultados duradouros sem escuta qualificada.

2- A convicção de que acolher não significa apenas receber uma denúncia, mas reconhecer a dignidade de quem busca ajuda.

3- A convicção de que compreender uma realidade é o primeiro passo para transformá-la.

Ao idealizarmos a Ouvidoria da Mulher, entendíamos que o desafio não estava apenas dentro dos limites físicos do Tribunal. As dificuldades enfrentadas pelas mulheres atravessam instituições, municípios, órgãos públicos e ambientes profissionais diversos. Por essa razão, construímos um modelo capaz de alcançar servidoras, colaboradoras e cidadãs ligadas aos órgãos jurisdicionados da capital e do interior do Amazonas.

O objetivo sempre foi ampliar os canais de diálogo e fortalecer as redes de proteção. Com o passar do tempo, compreendemos que estávamos diante de algo ainda maior. Cada atendimento realizado, cada orientação oferecida e cada situação acolhida passou a revelar um aspecto muitas vezes negligenciado pelas instituições públicas: a necessidade de criar ambientes onde as pessoas sintam segurança para falar.

A escuta é uma tecnologia social poderosa.

Talvez por isso a experiência amazonense tenha despertado o interesse de outras Cortes de Contas.

Receber representantes dos Tribunais de Contas do Amapá, do Rio Grande do Sul e anteriormente de Roraima não representa apenas um reconhecimento institucional. Representa a demonstração de que boas práticas podem ultrapassar fronteiras geográficas quando são construídas sobre valores universais.

Nenhuma instituição pública possui o monopólio das boas ideias. Ao contrário. O serviço público evolui quando compartilha experiências, multiplica aprendizados e transforma iniciativas bem-sucedidas em patrimônio coletivo.

A troca de conhecimentos entre os tribunais revela exatamente essa compreensão. Não se trata de replicar estruturas de forma mecânica. Trata-se de compartilhar princípios, métodos e caminhos que permitam a cada realidade construir suas próprias soluções.

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É nesse contexto que surge uma reflexão que considero essencial.

Precisamos construir uma verdadeira corrente de ouvidos atentos.

Uma rede institucional capaz de perceber sinais, acolher relatos, orientar caminhos e fortalecer mulheres que muitas vezes acreditam estar sozinhas diante de situações de abuso, constrangimento, discriminação ou violência.

Não estamos falando apenas de procedimentos administrativos. Estamos falando de presença humana. Estamos falando de empatia.

Estamos falando da capacidade das instituições públicas de reconhecer que, por trás de cada manifestação recebida, existe uma história, uma trajetória e uma pessoa que espera ser compreendida.

A experiência da Ouvidoria da Mulher do Tribunal de Contas do Amazonas demonstra que a escuta pode produzir mudanças concretas. Demonstra que acolhimento e eficiência não são conceitos opostos. Demonstra que o controle externo também pode contribuir para fortalecer valores de cidadania, respeito e dignidade.

O caminho ainda é longo. Os desafios permanecem imensos. Mas cada nova ouvidoria criada, cada canal de acolhimento implantado e cada profissional capacitado para ouvir representam um avanço civilizatório.

Porque nenhuma transformação social começa pela imposição. Toda mudança duradoura começa quando alguém encontra espaço para falar e descobre que existe alguém disposto a ouvir.

Petrobras investe em petróleo na Amazônia, mas alta será menor que 5% 

Investimento de R$ 2,5 bilhões em Urucu expande a exploração de petróleo na Amazônia e expõe contradições entre geração de riqueza, energia e desenvolvimento local. 

A Petrobras anunciou um investimento de R$ 2,5 bilhões para ampliar a produção de petróleo e gás na Província Petrolífera de Urucu, em Coari, no interior do Amazonas. O anúncio foi feito na terça-feira (27/5), em Manaus, durante evento com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Localizada no centro da Floresta Amazônica, Urucu é considerada a maior província petrolífera terrestre do Brasil. A área completa 40 anos de exploração de petróleo em 2026 e, atualmente, produz cerca de 105 mil barris de óleo equivalente por dia. 

Com os novos investimentos na exploração de petróleo na Amazônia, a Petrobras pretende perfurar mais poços e instalar cerca de 40 quilômetros de linhas para transporte de petróleo e gás. A expectativa da companhia é acrescentar 4.400 barris de óleo equivalente por dia à produção atual, um aumento inferior a 5%.

A produção de Urucu tem papel estratégico no abastecimento energético da Região Norte. Segundo a Agência Petrobras de Notícias, o gás natural extraído da província é responsável por viabilizar 65% da geração de energia elétrica consumida em Manaus e em outros cinco municípios. Já o gás liquefeito de petróleo (GLP), o gás de cozinha, tem produção média de 80 mil botijões por dia na região e abastece todos os estados do Norte, além de parte do Nordeste.

Apesar da relevância econômica da operação, o avanço da exploração de petróleo na Amazônia enfatiza o debate sobre os impactos sociais e ambientais da produção de combustíveis fósseis na região. Quase quatro décadas após o início das atividades, moradores de Coari, município localizado a cerca de 360 km de Manaus, ainda enfrentam carências estruturais em serviços públicos, desemprego e instabilidade no fornecimento de energia.

A contradição foi registrada na série de reportagens e no documentário “Insustentável: a realidade do petróleo na Amazônia”, de André Borges, Ruy Baron e Fernanda Ligabue. Em 2023, durante visita ao município, Borges ouviu relatos sobre apagões e dificuldades enfrentadas pela população local.

O município recebe valores expressivos em royalties. Em 2022, foram R$ 136,3 milhões, destinados a uma cidade com cerca de 70 mil habitantes. Mesmo assim, a população ainda enfrenta falta de medicamentos básicos, problemas na merenda escolar e precariedade em áreas essenciais, como saúde e educação.

Para Gleides Menezes, coordenadora da Universidade Estadual do Amazonas (UEA) na cidade, a presença da indústria do petróleo não se traduziu em melhoria concreta para a população. “Para um município que recebe esses recursos, o que a gente percebe é essa precariedade, sobretudo nas questões essenciais do serviço público”, afirmou. Ela também destacou a falta de diversificação econômica, já que sem uma indústria além da petroleira, os moradores enfrentam poucas oportunidades de trabalho e renda.

Durante o anúncio, Lula afirmou que a Petrobras é um instrumento importante para ampliar investimentos, gerar empregos e fortalecer a economia nacional. No entanto, o caso de Coari expõe um dos principais questionamentos sobre a exploração de petróleo na Amazônia: a riqueza gerada pela atividade nem sempre se converte em desenvolvimento local.

O investimento em Urucu também ocorre em meio ao debate global sobre a dependência dos combustíveis fósseis. Em artigo publicado no Financial Times e na Folha, Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras, afirmou que choques recentes no mercado internacional mostram a vulnerabilidade dos países que mantêm suas economias atreladas ao petróleo. Para ele, insistir em novos projetos fósseis pode representar um risco econômico diante de cenários de queda na demanda global.

Segundo Prates, companhias nacionais de petróleo investem cerca de US$ 425 bilhões em projetos que podem não ser lucrativos em cenários de menor consumo. Estados produtores, por sua vez, podem perder trilhões em receitas esperadas até 2040, mesmo em uma transição energética de ritmo moderado.

Mudanças climáticas favorecem avanço da resistência a antibióticos, diz estudo

Temperaturas mais altas e alterações nas chuvas podem acelerar a resistência a antibióticos, reforçando a conexão entre clima e saúde pública. 

As mudanças climáticas podem intensificar a resistência a antibióticos, uma das principais ameaças à saúde pública global. Um estudo internacional publicado na revista científica The Lancet Planetary Health aponta que o aumento das temperaturas e as alterações nos padrões de chuva estão associados à expansão de genes de resistência antimicrobiana em bactérias do gênero Salmonella.

A pesquisa analisou mais de 480 mil genomas de salmonela coletados em 139 países entre 1940 e 2023. Segundo os autores, os dados indicam que fatores climáticos estão relacionados a um aumento global de 10% nos genes de resistência a antibióticos no período analisado.

A resistência antimicrobiana ocorre quando bactérias, vírus, fungos ou parasitas deixam de responder aos medicamentos usados para combatê-los. No caso das bactérias, isso pode tornar infecções mais difíceis de tratar, aumentar o tempo de internação e elevar o risco de mortes.

O uso excessivo ou inadequado de antibióticos segue sendo o principal fator por trás do avanço da resistência a antibióticos. No entanto, o novo estudo reforça que condições ambientais ligadas à crise climática também podem favorecer a sobrevivência, adaptação e disseminação de microrganismos resistentes.

De acordo com os pesquisadores, temperaturas mais altas e mudanças na precipitação podem alterar a estabilidade dos ecossistemas microbianos e acelerar processos evolutivos relacionados à resistência. O estudo também aponta que esses fatores podem ampliar a troca de genes resistentes entre diferentes microrganismos.

Entre os países avaliados, 82% registraram aumento na presença de genes de resistência antimicrobiana em salmonelas. As regiões mais afetadas foram Oriente Médio e norte da África, seguidas pelo sul da Ásia e pela África Subsaariana.

Apesar dos resultados, os autores destacam que a pesquisa identifica uma associação entre mudanças climáticas e resistência antimicrobiana, mas não estabelece uma relação direta de causa e efeito. Ainda assim, o levantamento amplia o alerta sobre a necessidade de integrar políticas climáticas e estratégias de saúde pública.

Para os cientistas, medidas de mitigação das mudanças climáticas devem caminhar junto com ações de uso responsável de antibióticos, vigilância epidemiológica e controle da disseminação de bactérias resistentes em humanos, animais e ambientes naturais.

A resistência a antibióticos já provoca mais de 1 milhão de mortes por ano no mundo, segundo estimativas internacionais, e é considerada uma das maiores ameaças sanitárias das próximas décadas. O avanço desse problema pode comprometer tratamentos médicos comuns e tornar infecções antes controláveis cada vez mais perigosas.

A relação entre clima e resistência bacteriana também vem sendo investigada em outros estudos. Em março, pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia, o Caltech, identificaram que a intensificação das secas pode favorecer a expansão de microrganismos resistentes em diferentes regiões do planeta. Os achados reforçam que os impactos da crise climática atingem diretamente a saúde humana, ampliando riscos infecciosos e pressionando sistemas de saúde em escala global.

O vale-tudo da politiquice

A política brasileira sempre cultivou uma estranha habilidade para transformar crises em espetáculos. Quando um fato produz desgaste, não demora para surgir outro assunto capaz de deslocar os refletores. O método não é novo. Mudam os personagens, os palanques, os algoritmos e as redes sociais. A engrenagem continua funcionando com impressionante regularidade.

Nesta semana, enquanto repercutiam os efeitos do encontro de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, episódio que produziu mais desconforto do que esclarecimentos para o entorno bolsonarista, uma nova pauta ganhou velocidade. O senador reapareceu celebrando a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A movimentação ocorreu logo após sua passagem por Washington e seus encontros com lideranças da administração Trump.

POLITIQUICE
Daniel Ramalho/AFP; Divulgação

O tema é grave. Trata-se de duas das maiores estruturas criminosas da América Latina, responsáveis por redes de tráfico, lavagem de dinheiro, assassinatos, corrupção e expansão internacional de atividades ilícitas. A discussão sobre os instrumentos jurídicos adequados para combatê-las exige profundidade, cooperação internacional e inteligência financeira. Não é assunto para slogans de campanha nem para vídeos de redes sociais produzidos na velocidade dos ciclos de indignação digital. 

Nas últimas décadas, o Brasil assistiu a uma sucessão de personagens que descobriram na retórica da guerra permanente uma forma eficiente de mobilizar seguidores. O crime organizado converte-se em cenário. A violência transforma-se em narrativa. O combate às facções passa a funcionar como palco para demonstrações de bravura verbal.

Nesse ambiente, pouco importa se a classificação como organização terrorista produz efeitos concretos imediatos ou se gera novos desafios diplomáticos, financeiros e jurídicos. Especialistas têm apontado justamente a necessidade de cautela diante das consequências internacionais dessa medida. O debate, porém, acaba soterrado pela disputa de versões e pela necessidade permanente de produzir manchetes.

A história recente do Rio de Janeiro deveria recomendar prudência a qualquer político que decida transformar o tema da criminalidade em instrumento eleitoral.

Foi ali que se consolidaram algumas das mais conhecidas relações promíscuas entre setores da política, milícias, grupos armados e estruturas paralelas de poder. Foi ali que investigações revelaram conexões, proximidades, homenagens oficiais, fotografias inconvenientes e amizades que, ao longo dos anos, atravessaram gabinetes, campanhas e círculos de influência.

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Por isso causa estranheza observar certos discursos carregados de indignação moral absoluta. A fronteira entre o acusador e o acusado nem sempre permanece tão nítida quanto os vídeos de campanha sugerem.

A política brasileira possui uma longa tradição de fabricar inimigos externos para aliviar constrangimentos internos. Em diferentes momentos foram os comunistas, os globalistas, os banqueiros, os jornalistas, os ambientalistas, os tribunais, os professores, os artistas ou qualquer outro personagem útil para preencher o papel do antagonista da semana.

Naturalmente, PCC e Comando Vermelho não merecem complacência. Merecem repressão rigorosa, inteligência policial, cooperação internacional e bloqueio de suas estruturas financeiras. O que desperta atenção é a velocidade com que um tema dessa dimensão passa a servir como cortina de fumaça para outras discussões menos confortáveis.

O velho vício da politiquice brasileira continua operando da mesma forma. Quando surgem perguntas difíceis, procura-se uma fotografia mais conveniente. Quando um episódio produz desgaste, constrói-se uma nova guerra simbólica. Quando a realidade cobra explicações, entra em cena a dramaturgia do confronto permanente.

No final, permanecem os mesmos problemas concretos. As facções continuam movimentando bilhões. As fronteiras seguem vulneráveis. As rotas do tráfico permanecem ativas. As periferias seguem convivendo com o medo cotidiano.

Enquanto isso, parte da classe política continua disputando quem aparece primeiro na fotografia da próxima crise.

Honda amplia parceria com a rede municipal de ensino para fortalecer a educação no trânsito em Manaus

Construir um trânsito mais seguro exige investimento permanente em educação, conscientização e formação cidadã. Com esse propósito, a Honda e a Secretaria Municipal de Educação de Manaus reforçam a parceria para ampliar as atividades do Clubinho Honda – Trânsito Amigo, iniciativa voltada à formação de crianças da rede pública municipal.

O programa atenderá estudantes entre 4 e 10 anos por meio de atividades educativas desenvolvidas especialmente para o universo infantil. De forma lúdica, dinâmica e participativa, as crianças são apresentadas aos conceitos fundamentais de segurança no trânsito, convivência respeitosa, responsabilidade e cidadania.

EDUCACAO NO TRANSITO
Secretário de Educação de Manaus, Arone Bentes, representante da Moto Honda, Cesar Barros

As ações incluem jogos educativos, vídeos, atividades interativas e materiais pedagógicos que estimulam o aprendizado por meio da experiência, despertando desde cedo a compreensão de que a segurança no trânsito depende do comportamento e da colaboração de todos.

Mais do que transmitir regras, o Clubinho Honda busca formar cidadãos conscientes, capazes de reconhecer a importância do respeito às normas, aos pedestres, aos ciclistas e aos diferentes usuários das vias públicas. A proposta é contribuir para a construção de uma cultura de prevenção que acompanhe essas crianças ao longo da vida.

A iniciativa também reforça o compromisso histórico da Honda com Manaus. Presente na capital amazonense há mais de cinco décadas, a empresa mantém no Polo Industrial sua principal fábrica de motocicletas do país e investe continuamente em programas de educação e segurança viária. Desde 2013, a cidade abriga uma unidade do Centro Educacional de Trânsito Honda, espaço dedicado à conscientização e ao aperfeiçoamento de condutas seguras na mobilidade urbana.

O Clubinho Honda – Trânsito Amigo integra um conjunto de ações desenvolvidas pela empresa para promover a segurança viária em diferentes faixas etárias. O projeto nasceu em 1992, inicialmente com minicidades educativas instaladas nos Centros Educacionais de Trânsito Honda em Manaus, Recife e Indaiatuba.

Nesses ambientes, as crianças vivenciam situações reais de circulação em espaços adaptados, equipados com semáforos, faixas de pedestres, placas de sinalização e miniveículos elétricos. A experiência permite compreender, de forma prática e divertida, conceitos que ajudam a desenvolver hábitos seguros desde a infância.

Ao longo dos anos, a iniciativa evoluiu e ganhou formato itinerante, alcançando escolas, instituições e comunidades em diversas regiões do país. Com isso, milhares de crianças passaram a ter acesso a conteúdos que associam educação, cidadania e segurança, fortalecendo uma cultura de respeito à vida e de convivência responsável no trânsito.

Ao ampliar essa parceria com a Secretaria Municipal de Educação, a Honda reafirma a convicção de que a transformação do trânsito brasileiro começa na sala de aula, no diálogo com as famílias e na formação das novas gerações.

“Podemos ser engolidos”: diz Marcelo Pereira sobre os riscos da Reforma Tributária ao Amazonas

Coluna Follow-Up

ENTREVISTA BrasilAmazoniaAgora – Com Alfredo Lopes

Em meio às discussões sobre Reforma Tributária, perda de capacidade de investimento dos estados e os desafios da transição econômica da Amazônia, o ex-superintendente da SUFRAMA Marcelo Pereira apresenta uma leitura direta sobre a situação fiscal do Amazonas e os caminhos possíveis para recuperar competitividade, eficiência e capacidade de planejamento público.

Com quase duas décadas de atuação na Superintendência da Zona Franca de Manaus, incluindo dois períodos à frente da autarquia, Marcelo participou da elaboração do Plano Estratégico de Desenvolvimento do Amazonas proposto pelo senador Omar  Aziz e traz uma avaliação que mistura experiência técnica, visão institucional e preocupação com o futuro do Estado.

Na entrevista a seguir, ele fala sobre arrecadação, compressão do espaço fiscal, reforma administrativa, inteligência artificial aplicada à gestão pública e a necessidade de reconstruir a capacidade de investimento do Amazonas em um cenário de profundas mudanças econômicas e tributárias no país. Confira

1. BrasilAmazoniaAgora – Como sua experiência na Suframa influenciou a leitura fiscal apresentada no plano, especialmente no diagnóstico da perda de capacidade de investimento do Estado?


Marcelo Pereira – Caro Alfredo, atuei por quase 20 anos na SUFRAMA, como técnico, gestor e superintendente em dois momentos distintos. Passei por todas as superintendências adjuntas e isso me deu uma compreensão muito clara da relação entre dinâmica econômica, arrecadação e capacidade de investimento do Estado.

Desde os primórdios da autonomia administrativa do Amazonas, o grande desafio sempre foi garantir um erário capaz de financiar os serviços essenciais à população. Historicamente, isso só aconteceu quando o Estado conseguiu ativar a iniciativa privada e criar ciclos econômicos robustos, como no ciclo da borracha e, depois, com a Zona Franca de Manaus, que continua sendo o principal mecanismo de sustentação econômica da região.

Nos últimos dez anos, a arrecadação do Amazonas mais que dobrou, saltando de R$ 15,4 bilhões em 2016 para mais de R$ 36,9 bilhões em 2025. Isso é reflexo direto da dinâmica gerada pelos incentivos fiscais estaduais e federais.

O problema é que esse crescimento não se traduziu em aumento proporcional da capacidade de investimento. Essa era uma preocupação constante do senador Omar Aziz, que dizia ser preciso “tornar o Amazonas forte de novo”, porque “não existe um estado forte sem capacidade de investimento”.

REFORMA TRIBUTARIA AO AMAZONAS
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Quando analisamos os dados do Portal da Transparência, percebemos um paradoxo preocupante. O Estado arrecada mais, mas investe proporcionalmente menos em áreas estratégicas. Isso revela um gasto público orientado pelo curto prazo, sem visão estruturante de futuro, comprometendo inclusive a interiorização do desenvolvimento.

Além da análise fiscal, realizamos estudos sobre os fatores estruturantes do desenvolvimento amazonense, como ZEE, regularização fundiária, segurança jurídica, infraestrutura logística, transição energética e diversificação econômica. Em praticamente todos os setores analisados ficou evidente que os investimentos e as parcerias público-privadas não avançaram na última década.

Foi essa vivência prática, administrando incentivos, restrições orçamentárias e acompanhando a economia regional de perto, que moldou o diagnóstico apresentado no Eixo 1 do Plano Estratégico de Desenvolvimento do Amazonas.

O portal Brasil Amazônia Agora falou um pouco sobre esse Planejamento Estratégico, acompanhe aqui:


2. BAA – O plano aponta que a poupança corrente do Amazonas se aproxima do limite constitucional, reduzindo drasticamente o espaço fiscal. Quais mecanismos concretos que você propôs para reverter essa compressão?

Marcelo Pereira  – Preliminarmente, é importante explicar o conceito de poupança corrente para que as pessoas compreendam a gravidade da situação. Trata-se do indicador que mede quanto sobra da receita corrente do governo depois do pagamento das despesas correntes, como salários, custeio, saúde, educação, segurança e decisões judiciais.

Em outras palavras, é o espaço fiscal disponível para investir depois que a máquina pública já foi mantida funcionando. Para recuperar essa capacidade de investimento, o estudo propõe medidas objetivas, entre elas o corte imediato de custeio não essencial, a reestruturação administrativa para eliminar redundâncias, o controle rigoroso de passivos e despesas judiciais, o planejamento orçamentário baseado em metas, a correção das falhas de execução na saúde, especialmente indenizações, e a reorientação do gasto para investimentos estratégicos, evitando novos empréstimos.

Também estruturamos o que chamamos de “10 medidas para a gestão fiscal do Amazonas”, focadas em melhorar arrecadação e eficiência do gasto público. Entre elas estão a modernização orçamentária, inteligência fiscal anticorrupção, aumento da eficiência tributária, racionalização de custos administrativos, implantação de inteligência artificial e otimização de emendas e convênios, sobretudo voltados ao interior.


3. BAA – Há uma crítica direta ao crescimento do custeio das áreas-meio da administração pública. Que tipo de reforma administrativa está implícita nessa abordagem?

Marcelo Pereira   – O plano sugere uma reforma administrativa de racionalização estrutural. O objetivo é reduzir redundâncias, simplificar estruturas e diminuir o custo das áreas-meio da administração pública.

Essa reforma se apoia em quatro pilares. O primeiro é o enxugamento de estruturas redundantes, com fusão de departamentos e revisão de organogramas. O segundo é a centralização de funções administrativas comuns. Não faz sentido manter estruturas replicadas em vários órgãos quando o Estado já possui instituições criadas justamente para concentrar essas funções, como a Escola de Serviço Público.

O terceiro ponto é a redução de cargos comissionados e simplificação hierárquica. O quarto envolve a substituição de núcleos remunerados por comitês técnicos compostos por especialistas que já exercem funções estratégicas no Estado.

São medidas relativamente simples, mas capazes de eliminar estruturas paralelas que consomem grandes volumes de recursos públicos.


4. BAA – Você defende o uso de inteligência artificial na gestão tributária. Na prática, como isso pode aumentar arrecadação sem elevação de carga tributária?

Marcelo Pereira   – Na verdade, precisamos incorporar inteligência artificial não apenas na gestão fiscal, mas em toda a administração pública. A Reforma Tributária já começa a produzir efeitos em 2027 e, se o Amazonas não se antecipar, corremos o risco de sermos engolidos pelas decisões que virão de Brasília e do Comitê Gestor do IBS.

Com inteligência artificial é possível melhorar resultados fiscais sem elevar impostos. Isso pode ocorrer pela redução de perdas e falhas de arrecadação, identificando inconsistências e comportamentos anômalos, pela previsão mais precisa da arrecadação, permitindo ajustes em tempo real e antecipação de crises, além da redução de passivos e judicialização tributária, com automação e padronização de processos.

Outro ponto importante é a identificação de setores estratégicos e cadeias produtivas emergentes. Hoje o Amazonas depende fortemente de poucos setores econômicos. A IA pode ajudar o Estado a identificar novas oportunidades e ampliar a base econômica sem aumentar carga tributária.

E há ainda um fator decisivo. Até 2032 o Amazonas ainda terá autonomia sobre os incentivos que concede. Isso exige clareza sobre quais setores queremos fortalecer daqui para frente.


5. BAA – O plano sugere a criação de um Fundo de Sustentabilidade Fiscal. Esse instrumento seria mais próximo de uma regra fiscal anticíclica ou de uma poupança pública permanente?

Marcelo Pereira   – Entendo que o Fundo de Sustentabilidade Fiscal se aproxima mais de uma poupança pública permanente do que de uma regra fiscal anticíclica.

O Amazonas hoje não possui reservas financeiras estruturadas de longo prazo, o que aumenta muito sua vulnerabilidade fiscal. A ideia inicial do fundo seria justamente criar uma proteção permanente para acumular recursos em períodos de normalidade, evitar deterioração fiscal, proteger o Estado contra choques estruturais e preservar a capacidade de investimento.

Mais adiante, dependendo dos resultados, o governo poderia evoluir para mecanismos anticíclicos mais sofisticados, com gatilhos automáticos de poupança e estabilização de receitas. Mas, neste momento, a prioridade é mais básica e urgente.

Garantir que o Estado consiga pagar as contas, manter os serviços públicos funcionando e recuperar capacidade de investir.

Ação pede banimento do glifosato e pressiona Anvisa por reavaliação 

Ação contra o governo federal e a Anvisa reacende o debate sobre o glifosato, agrotóxico mais comercializado no mundo, e os riscos da exposição contínua no campo.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) ingressou com uma ação civil pública contra a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o governo federal para pedir a proibição do glifosato no Brasil. O herbicida é o agrotóxico mais comercializado no mundo e tem uso amplo em lavouras, especialmente no cultivo de soja transgênica.

Protocolada na última sexta-feira (22) na Justiça do Trabalho do Distrito Federal, a ação sustenta que a substância representa risco à saúde de trabalhadores rurais, comunidades indígenas e populações expostas de forma contínua ao produto. O MPT também aponta possíveis danos ambientais, como a contaminação de recursos hídricos.

No pedido, os procuradores defendem o cancelamento dos registros de produtos à base de glifosato e a proibição da produção, importação, exportação, venda e uso do herbicida no país. A ação também questiona a atuação da Anvisa, acusada pelo órgão de dar celeridade à liberação de novos agrotóxicos, enquanto processos de reavaliação de substâncias já disponíveis no mercado avançam de forma lenta.

Segundo o MPT, a ação foi construída a partir de estudos reunidos por pesquisadores e instituições científicas, incluindo análises sobre impactos do herbicida na saúde humana. O material citado no processo relaciona a exposição prolongada ao produto a diferentes doenças, como câncer, infertilidade, diabetes, problemas renais, alterações neurológicas e distúrbios digestivos.

Um dos principais argumentos da Procuradoria é que os danos associados ao produto não ocorreriam, em geral, por contato isolado, mas pela exposição repetida ao longo do tempo. Por isso, trabalhadores que lidam diretamente com o herbicida nas lavouras estariam entre os grupos mais vulneráveis.

A ação também lembra que, em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), classificou o glifosato como “provavelmente cancerígeno para humanos”. Entre as doenças mencionadas no processo estão o linfoma não-Hodgkin, câncer de mama, leucemia e mieloma múltiplo.

O tema é alvo de disputa científica e jurídica em diferentes países. Nos Estados Unidos, a Bayer, fabricante do herbicida após a compra da Monsanto, enfrenta processos movidos por trabalhadores que afirmam ter desenvolvido câncer após contato com o produto.

A empresa, por sua vez, afirma que autoridades regulatórias de diversos países, incluindo o Brasil, já concluíram que o herbicida pode ser usado com segurança quando aplicado conforme as normas técnicas. A Bayer também nega que o produto seja cancerígeno e diz confiar que a análise científica prevalecerá no processo. Ao g1, a Anvisa informou que ainda não havia sido comunicada oficialmente pela Justiça sobre a ação. A agência não comentou o mérito das acusações feitas pelo MPT.

Para o procurador Leomar Daroncho, um dos responsáveis pela ação, a proposta não é criar obstáculos aos produtores rurais, mas incentivar a busca por alternativas menos tóxicas. Na avaliação dele, o debate precisa avançar para um modelo de desenvolvimento capaz de proteger trabalhadores, comunidades e o meio ambiente de riscos evitáveis.

Daroncho também menciona a retirada de um artigo publicado em 2000 na revista científica Regulatory Toxicology and Pharmacology. O estudo, que apontava ausência de risco do glifosato à saúde humana, foi excluído da publicação em dezembro do ano passado após questionamentos sobre sua integridade acadêmica.