Adalberto Val é pesquisador do INPA, vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências e cofundador do Brasil Amazônia Agora recebe a Le Cren Medal, uma das mais prestigiadas distinções internacionais da fisiologia comparada.
Alguns prêmios costumam reconhecer uma descoberta. Outros celebram uma carreira. A Le Cren Medal pertence a uma categoria ainda mais rara: distingue cientistas cuja trajetória ajudou a redefinir um campo inteiro do conhecimento.
Foi esse reconhecimento que alcançou o pesquisador Adalberto Luis Val, um dos mais respeitados cientistas brasileiros da atualidade e da comunidade científica mundial e cofundador do portal Brasil Amazônia Agora. A Sociedade de Biologia Experimental do Reino Unido anunciou a concessão da Le Cren Medal ao pesquisador brasileiro, em reconhecimento a quase cinco décadas dedicadas ao estudo da fisiologia dos peixes amazônicos e das respostas da vida às condições ambientais extremas da maior floresta tropical do planeta.
A cerimônia de entrega ocorrerá em 30 de julho, na Universidade de Southampton, na Inglaterra, reunindo pesquisadores de diversas partes do mundo.
A escolha carrega um simbolismo que ultrapassa a trajetória individual do homenageado. Pela primeira vez, uma parcela significativa do conhecimento produzido na Amazônia ocupa posição de destaque em uma das mais tradicionais comunidades científicas internacionais dedicadas à biologia experimental.

Ao longo de mais de quarenta anos de atuação no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Adalberto Val transformou os rios amazônicos em laboratórios naturais para compreender como organismos sobrevivem em ambientes marcados por baixa disponibilidade de oxigênio, variações extremas de temperatura, alterações químicas da água e pressões crescentes decorrentes das mudanças climáticas.
Suas pesquisas contribuíram para consolidar uma nova compreensão sobre adaptação biológica, fisiologia comparada e conservação dos ecossistemas aquáticos tropicais. Os conhecimentos produzidos por sua equipe passaram a influenciar estudos em diferentes continentes, estabelecendo pontes entre a ciência amazônica e os grandes debates globais sobre biodiversidade, segurança alimentar e clima.
Acompanhe um pouco da trajetória de Adalberto Val:
A trajetória acadêmica de Val inclui a direção do INPA entre 2006 e 2014, a vice-presidência da Academia Brasileira de Ciências para a Região Norte, a coordenação do INCT-Adapta e o reconhecimento por instituições científicas nacionais e internacionais. Ao longo desse percurso, orientou mais de uma centena de pesquisadores e ajudou a formar gerações de cientistas comprometidos com a compreensão e a proteção da Amazônia.
Seu maior legado provavelmente esteja inscrito em outra dimensão.
Em uma região frequentemente retratada apenas por seus conflitos ambientais, Adalberto Val ajudou a demonstrar que a Amazônia também é um território produtor de conhecimento sofisticado, ciência de fronteira e inovação intelectual. Seu trabalho mostrou que a floresta não é apenas objeto de estudo. É fonte de respostas para desafios que interessam ao mundo inteiro.
No Brasil Amazônia Agora, sua presença entre os fundadores sempre representou esse compromisso. O compromisso de afirmar que desenvolvimento sustentável exige ciência. Que soberania depende de conhecimento. E que o futuro da Amazônia será construído não apenas pela preservação de seus recursos naturais, mas também pela valorização de sua inteligência.
A Le Cren Medal chega, portanto, como reconhecimento internacional a um cientista. Mas também como homenagem à capacidade da Amazônia de produzir pensamento, formar talentos e oferecer contribuições originais para a humanidade.
Em um tempo de tantas incertezas globais, a premiação de Adalberto Val lembra que algumas das respostas mais importantes para o futuro continuam brotando dos rios, das florestas e dos laboratórios da Amazônia.
Adalberto Luís Val é natural de Campinas, no interior de São Paulo. Ele chegou a Manaus em 1981, junto com sua esposa, a pesquisadora Vera Maria Fonseca de Almeida-Val, para realizar seus estudos de mestrado e doutorado no INPA, na área de Biologia de Água Doce e Pesca Interior.
Em 1982, tornou-se servidor do instituto, onde consolidou sua carreira ao longo de 44 anos. Com Vera, fundou o Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), referência nos estudos sobre fisiologia, adaptação e evolução de peixes amazônicos. Atualmente, coordena projetos voltados a compreender como as mudanças climáticas afetam os peixes e a vida aquática da maior bacia hidrográfica do mundo.
Val é autor de mais de 280 artigos científicos, 22 livros e 78 capítulos de livros, além de ter orientado dezenas de estudantes de pós-graduação e pesquisadores de pós-doutorado. Sua produção acumula mais de 10 mil citações e já foi reconhecida com importantes prêmios nacionais e internacionais, incluindo a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico e o Award of Excellence da American Fisheries Society.
