Disputa por minerais críticos na Amazônia amplia garimpo ilegal 

Demanda por minerais críticos na Amazônia atrai redes ilegais de extração e expõe riscos ambientais, territoriais e sociais em plena transição energética. 

A disputa global por minerais críticos na Amazônia tem criado uma nova frente de pressão sobre a floresta. Com grandes reservas desses recursos, o Brasil passou a atrair maior atenção internacional em um cenário marcado pela tentativa de reduzir a dependência da China na cadeia de suprimentos de minerais estratégicos.

Entre os materiais extraídos ilegalmente estão as terras raras, grupo de 17 elementos químicos usados na fabricação de ímãs de alta potência e componentes tecnológicos. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o mercado global de minerais essenciais já movimenta mais de US$ 300 bilhões e pode ultrapassar o dobro do valor até 2035, impulsionado pela transição energética.

A expansão desse mercado, no entanto, também tem sido acompanhada pelo avanço de esquemas ilegais de extração e exportação. De acordo com autoridades brasileiras, a exploração irregular desses minerais não segue o modelo tradicional do garimpo artesanal. Em muitos casos, envolve estruturas empresariais, operações em escala quase industrial e redes de lavagem que tentam dar aparência legal ao minério extraído de forma irregular.

A cadeia ilegal de minerais críticos na Amazônia pode incluir empresas de fachada, agentes públicos, organizações criminosas e compradores internacionais. Em alguns casos, certificados falsificados são apresentados em portos para indicar que o material saiu de minas legalizadas. Fiscalizações já identificaram situações em que as supostas áreas de extração sequer existiam, funcionando como “minas fantasmas” usadas para encobrir a origem ilegal dos minerais.

A pressão sobre os minerais críticos na Amazônia também reacendeu discussões sobre a criação de um marco legal para o setor no Brasil. Para organizações da sociedade civil, porém, o debate precisa incluir Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais, que estão entre os grupos mais afetados pela mineração e seus impactos ambientais e territoriais.

Enquanto isso, o garimpo ilegal segue como ameaça em territórios indígenas. Na Terra Indígena Yanomami, relatório do Instituto Socioambiental (ISA) aponta que as novas áreas degradadas caíram de 83,95 hectares em 2024 para 45,2 hectares em 2025, redução de 46%. Apesar da queda, a atividade continua ativa no território, mesmo três anos após o governo federal decretar emergência em saúde na região.

O levantamento mostra que, até dezembro de 2025, o garimpo ilegal havia destruído 5.564 hectares da Terra Yanomami. O pico de expansão ocorreu em 2022, quando 1.800 hectares foram devastados. Entre 2020 e 2025, a destruição acumulada chegou a 3.659,15 hectares.

Segundo o relatório, a redução recente está associada às operações federais de retirada de invasores, fiscalização aérea, fluvial e terrestre, inutilização de pistas clandestinas e repressão ao transporte ilegal de combustível, equipamentos e minério. Ainda assim, os garimpeiros passaram a adotar novas estratégias para escapar da fiscalização.

Em vez de grandes frentes concentradas, a exploração passou a se espalhar por áreas menores. Em 2025, foram identificados 121 pontos de garimpo na Terra Yanomami, dos quais 90% tinham menos de um hectare. Também houve deslocamento para regiões próximas à fronteira com a Venezuela, como Parafuri-Parima, Hokomawë e Cabeceira do Aracaçá.

O sistema de alertas territoriais da Terra Yanomami registrou 66 ocorrências em 2025. A maior parte, 83%, estava relacionada a invasões, com presença de aeronaves clandestinas, barcos, balsas e dragas. Também houve registros de transporte de cassiterita e insumos usados para abastecer acampamentos ilegais.

Para especialistas e organizações indígenas, os dados indicam que a queda na abertura de novas áreas não significa o fim da ameaça. A atividade mudou de escala e estratégia, tornando-se mais dispersa e difícil de combater. No contexto da valorização dos minerais críticos na Amazônia e do ouro no mercado internacional, a fiscalização permanente e a participação social no debate sobre mineração são apontadas como medidas centrais para evitar que a transição energética aprofunde violações ambientais e territoriais na região.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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