Captura de CO₂ pode ganhar reforço de microrganismos encontrados no subsolo

Descobertos a 1.250 metros de profundidade, microrganismos podem acelerar a captura de CO₂ e converter emissões em insumo para a indústria.

Microrganismos descobertos nas profundezas da Terra podem abrir caminho para uma nova tecnologia de captura de CO₂. Pesquisadores identificaram, a 1.250 metros abaixo da superfície, um conjunto de micróbios capazes de consumir dióxido de carbono e transformá-lo em rocha em poucas semanas, um processo que poderia levar anos naturalmente.

A descoberta ocorreu na Instalação de Pesquisa Subterrânea de Sanford, conhecida pela sigla SURF, nos Estados Unidos. O estudo é liderado por Tanvi Govil, professora assistente do Departamento de Engenharia Química e Biológica da South Dakota Mines, que investiga formas de vida adaptadas a ambientes extremos.

Segundo a pesquisadora, os micróbios encontrados no laboratório subterrâneo ajudam a demonstrar que reações bioquímicas podem ser usadas para remover carbono das emissões industriais. A proposta é diferente dos modelos tradicionais de armazenamento subterrâneo, que dependem do transporte de dióxido de carbono por dutos. A nova abordagem busca capturar o gás diretamente no local onde ele é emitido.

Atualmente, Govil coordena a construção de uma biblioteca de microrganismos coletados em diferentes regiões do mundo. O objetivo é identificar e combinar características úteis para desenvolver enzimas capazes de converter o dióxido de carbono liberado por usinas termelétricas a carvão em carbonato de cálcio, um mineral que pode ser usado como aditivo na indústria do concreto e em outras aplicações.

Nos testes de laboratório, os pesquisadores utilizam amostras de gases de combustão e cinzas de carvão fornecidas por indústrias locais. A ideia é simular condições reais de operação e avaliar se a tecnologia pode funcionar em escala industrial. O processo prevê que as emissões passem por uma solução com enzimas, onde o gás seria removido do fluxo de exaustão e transformado em um subproduto aproveitável comercialmente.

Um dos desafios desse tipo de tecnologia é encontrar microrganismos ou enzimas capazes de resistir a ambientes agressivos, com alta temperatura, pressão elevada e acidez. Os organismos descobertos no SURF chamaram a atenção justamente por terem evoluído em condições extremas, o que pode torná-los mais adequados ao uso industrial de captura de CO₂.

Para levar a inovação ao mercado, Govil e sua equipe criaram a empresa Carb-N0, comandada por Merle Symes. A tecnologia, ainda com patente pendente, venceu uma competição recente de planos de negócios, promovida pelo governo da Dakota do Sul.

O próximo passo será testar um depurador de CO₂ à base de enzimas em escala piloto. A unidade móvel, instalada em um caminhão, poderá ser conectada a diferentes fontes de emissão e tem capacidade estimada para capturar quase uma tonelada de dióxido de carbono por dia.

A equipe pretende continuar os testes ainda este ano e iniciar a produção da enzima até 2027. Embora o desafio climático seja amplo, com emissões globais superiores a 37 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, os pesquisadores veem na captura de CO₂ com a enzima uma possibilidade de reduzir emissões industriais e transformar parte do carbono capturado em insumo de valor econômico.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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