Super El Niño 2026-2027: O que o Amazonas precisa fazer antes que seja tarde

Relatórios internacionais indicam alta probabilidade de formação de um dos eventos climáticos mais intensos das últimas décadas. Especialistas defendem medidas urgentes para proteger populações vulneráveis, garantir abastecimento e reduzir riscos de uma nova seca histórica. 

O planeta está diante de um dos alertas climáticos mais sérios dos últimos anos. A NOAA — Agência Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos — publicou em 14 de maio de 2026 seu relatório mais recente sobre o ENOS (El Niño-Oscilação Sul) e os números são inequívocos: há 82% de probabilidade de o El Niño se consolidar entre maio e julho de 2026, com chance superior a 96% de persistência até o início de 2027 (NOAA/CPC, maio 2026).

Não se trata de um El Niño ordinário. O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) e o Climate Prediction Center dos Estados Unidos apontam que, no trimestre entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, há chances praticamente iguais — cerca de 25% cada — de o fenômeno atingir intensidade moderada, forte ou muito forte. Esta última categoria é o que cientistas e a imprensa internacional têm chamado de “Super El Niño”: anomalias de temperatura superficial do Oceano Pacífico iguais ou superiores a 2,0°C acima da média histórica.

Uma nota técnica conjunta publicada em abril de 2026 pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), Funceme e CENSIPAM confirma que o oceano subsuperficial do Pacífico equatorial já apresenta aquecimento anômalo progressivo há meses — sinal que historicamente antecede a formação do fenômeno. Segundo o documento, “o déficit de precipitação previsto para as bacias hidrográficas da Amazônia, incluindo as cabeceiras dos principais rios, constitui fator determinante para a redução dos níveis fluviais, com impactos que se estendem além do período seco” (Nota Técnica El Niño 2026 — INPE/INMET/Funceme/CENSIPAM, abril 2026).

El Niño 2026-2027
Aquecimento e resfriamento maiores ou menores, definem a intensidade do fenômeno, numa escala que qualifica as fases extremas como Fraco, Moderado, Forte e Muito Forte. /foto: reprodução internet

O que está em jogo, portanto, não é se o El Niño vai chegar. É o quão forte ele será — e o quão preparada a Amazônia estará para recebê-lo.

Compreender o Super El Niño de 2026-2027 exige entender um dado que muda a natureza do problema: este fenômeno não se desenvolve sobre o clima do século XX. Ele se desenvolve sobre um sistema climático já alterado por décadas de aquecimento global.

O físico Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e um dos mais respeitados cientistas climáticos do Brasil, é direto: “O El Niño faz o clima sair da sua normalidade e ele está sendo agravado pela crise climática” (Exame, maio 2026). Quando o fenômeno opera sobre oceanos já superaquecidos e uma atmosfera com concentração recorde de CO₂, seus efeitos se amplificam em vez de se dissiparem.

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Físico Paulo ArtaxoFoto: Ricardo Stuckert/PR

O El Niño de 1997-1998 — o mais intenso do século XX — drenou entre 32 e 96 bilhões de dólares da economia global (Climate Brief, 2026). O mundo de 2026 é mais quente, mais vulnerável e economicamente mais interconectado. Os modelos indicam que o evento que se aproxima pode superar essa marca com facilidade.

Para a Amazônia, o problema tem uma camada adicional: a floresta em si está mais frágil. Um estudo publicado na revista científica internacional Nature Climate Change e divulgado pelo ClimaInfo (2024) revelou que 37% da vegetação madura da Amazônia já apresenta desaceleração na recuperação pós-seca — um indicativo precoce de que o bioma está se aproximando de um ponto de inflexão ecossistêmico. E somente nas últimas duas décadas, a Amazônia experimentou quatro episódios de seca cuja probabilidade estatística era de uma vez a cada cem anos (2005, 2010, 2015-2016 e 2023-2024). Cada um foi superado em magnitude pelo seguinte.

O climatologista José Marengo, coordenador-geral de pesquisa do Cemaden, alerta em cenário que considera “não descartado”: “A floresta pode colapsar, afetando o clima regional e global” (Mongabay/eCycle). Estudos liderados por Marengo demonstram que, nos últimos 50 anos, a estação seca no sul da Amazônia já se estendeu em pelo menos um mês — e segue crescendo.

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Seca e vento prejudicam flora na Amazônia (Foto: Getty Images)

A pesquisadora Johanna van Passel, da Katholieke Universiteit Leuven (Bélgica), autora do estudo sobre resiliência florestal, resume o risco com precisão: “Se já estamos vendo um ponto de inflexão se aproximando no nível macroflorestal, então deve estar piorando no nível micro” (ClimaInfo, 2024).

A Amazônia não precisa imaginar o que um El Niño forte faz. Ela o viveu, em sequência inédita, nos dois últimos anos. O que esses eventos deixaram registrado é um mapa detalhado de vulnerabilidades — e uma lista de erros que não podem se repetir quando o próximo evento chegar em escala potencialmente maior.

Em 2023, mais de 250 mil pessoas foram afetadas pela seca severa no Amazonas, com 20 municípios em estado crítico (Defesa Civil Estadual do Amazonas, 2023). O Rio Negro em Manaus atingiu níveis históricos mínimos. Em Tabatinga, o Solimões chegou a 0,4 metro — contra 2,61 metros no mesmo período do ano anterior. Em Itacoatiara, o Rio Amazonas atingiu 83 centímetros em 2024. Em Parintins, os níveis chegaram a 1,9 metro — a menor marca registrada em 49 anos (Agência Gov, maio 2026).

Em comunidades indígenas, o impacto foi ainda mais grave. O UNICEF registrou que, após a estiagem de 2023: “Tivemos aumento da desnutrição e mortalidade infantil. Foi a primeira vez que tivemos esse impacto aqui. Muitas aldeias ficaram isoladas. Tivemos problema com água potável em aldeias que dependem de igarapés para se abastecer”(UNICEF Brasil, 2024).

A falta de água potável levou comunidades a ferver água barrenta usando panos como filtro. Os poços secaram. O acesso a alimentos, medicamentos e serviços de saúde ficou comprometido por meses. A navegação — artéria principal de abastecimento de dezenas de municípios — foi parcialmente interrompida, com aumento imediato do preço da cesta básica. O pesquisador Renato Sena, do INPA, foi direto: “Infelizmente, esta é uma tendência dos próximos anos” (Brasil de Fato, agosto 2024).

É inédito ter duas secas dessa proporção consecutivas na Amazônia. O Greenpeace Brasil registrou que a seca de 2023-2024 foi a mais grave no Brasil desde 1950 — e que as populações mais afetadas são exatamente as que menos contribuíram para a crise climática: quilombolas, indígenas, ribeirinhos, pescadores e agricultores familiares (Greenpeace Brasil, 2024).

Se os eventos de 2023 e 2024 causaram esse nível de impacto com um El Niño de intensidade moderada-forte, o cenário de um Super El Niño exige uma projeção honesta dos riscos.

A nota técnica conjunta do INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM (abril 2026) aponta que, em anos de El Niño forte, a Amazônia tende a enfrentar redução expressiva das chuvas com possibilidade de prolongamento da estação seca, com impactos que se estendem além do período seco em função da defasagem hidrológica entre as cabeceiras e a calha dos rios. Isso significa que mesmo o retorno das chuvas não interrompe imediatamente o colapso dos rios — o ciclo de recuperação pode levar meses.

O relatório técnico publicado pela Revista Cenarium (maio 2026) aponta que a estiagem pode alcançar níveis iguais ou superiores ao El Niño de 2015, quando os focos de incêndio aumentaram 36% em relação à média dos 12 anos anteriores. Combinando esse dado com a fragilidade já documentada da floresta — 37% com recuperação desacelerada — o risco de incêndios de proporção sem precedente é real.

Os setores impactados, conforme o CEMADEN e a nota técnica do INPE (2026), incluem: a geração de energia hidrelétrica (o Amazonas depende criticamente de Tucuruí e do sistema integrado); a navegação fluvial (única via de abastecimento de dezenas de municípios); a pesca artesanal (base alimentar e econômica de centenas de milhares de famílias); a saúde pública (surtos de doenças respiratórias por fumaça, gastrointestinais por água contaminada, e desnutrição em comunidades isoladas); e a segurança alimentar regional — com repercussões que se estendem para além da Amazônia, pois a floresta regula o regime de chuvas de todo o Brasil.

Cientistas da Climate Brief alertam que, se a fase Super El Niño se consolidar no final de 2026, o ano de 2027 tem condições de quebrar novamente o teto das temperaturas globais, empurrando a humanidade para um território climático completamente desconhecido.

A janela de preparação é estreita. O El Niño começa a se consolidar entre maio e julho. Os impactos mais graves são esperados na primavera e no fim de 2026. O que precisa ser feito tem que começar agora — não depois das primeiras imagens de rios secos nos telejornais.

1. Ativar sistemas de previsão e alerta precoce em escala municipal

A maior lição de 2023 e 2024 é que os municípios do interior foram pegos de surpresa. O Instituto Mamirauá, com sede em Tefé, demonstrou que sistemas simples e de baixo custo funcionam: o Boletim das Águas, um grupo de WhatsApp com mais de 800 ribeirinhos do Médio Solimões recebendo informações diárias sobre o nível dos rios e recomendações de ação, foi uma das ferramentas mais eficazes do período (Instituto Mamirauá, 2024). Esse modelo precisa ser replicado em escala estadual, integrado com a Defesa Civil e com os sistemas do INPE e do INMET.

Rádios comunitárias — ainda o meio de comunicação mais acessível em áreas remotas — precisam ser integradas formalmente ao sistema de alerta. Não como improviso, mas como infraestrutura oficial de emergência climática.

2. Estocar antes de precisar

Em um território onde a área média dos municípios supera 25.000 km² — maior que o estado de Sergipe —, a logística de abastecimento emergencial durante a seca é exponencialmente mais cara, lenta e incerta do que o abastecimento preventivo. A Defesa Civil Estadual já recomendou em 2024 que comunidades vulneráveis guardem água, alimentos e medicamentos antes do período de estiagem. Essa recomendação precisa evoluir de conselho informal para política pública de pré-posicionamento logístico, com recursos garantidos e metas mensuráveis por região.

O Governo Federal já antecipou em 2026 ações de dragagem e manutenção hidroviária nos pontos críticos do Amazonas, do Solimões e tributários (Agência Gov, maio 2026). Essas ações precisam ser concluídas antes do pico da estiagem — não durante.

3. Proteger as populações mais vulneráveis com prioridade explícita

Os dados de 2023 e 2024 são inequívocos: indígenas, ribeirinhos, quilombolas e populações periféricas são os primeiros a sofrer e os últimos a receber ajuda. Isso não é acidente — é estrutura. Um Super El Niño não vai mudar essa estrutura por conta própria.

Planos de contingência específicos por território, com identificação prévia das comunidades mais isoladas, dos grupos de maior risco (crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas) e dos recursos necessários para atendê-los, precisam estar finalizados antes do início da estiagem. A experiência do UNICEF em 2023 demonstrou que intervir depois que a crise se instala é incomparavelmente mais caro e menos eficaz do que intervir antes.

4. Combater o desmatamento como medida de preparação climática

Este é o ponto que mais raramente aparece nas listas de preparação para El Niño — e é possivelmente o mais importante no longo prazo. A floresta em pé é a principal infraestrutura de regulação climática do Amazonas. Cada hectare desmatado reduz a capacidade da região de produzir suas próprias chuvas, aumenta a temperatura local e amplia a vulnerabilidade às secas.

Estudos publicados na Science Advances demonstram que o desmatamento está atrasando o início das monções sul-americanas e reduzindo as chuvas na Amazônia. Os dados mostram que entre 1979 e 2019 o solo amazônico tornou-se progressivamente mais seco, e que a estação seca já dura entre 5 e 15 dias a mais do que durava há quatro décadas. Combater o desmatamento não é apenas uma pauta ambiental — é uma medida direta de redução da vulnerabilidade da população às secas que estão chegando.

5. Preparar o sistema de saúde para múltiplos vetores simultâneos

Um Super El Niño não produz uma crise de saúde — produz várias ao mesmo tempo. As fumaças dos incêndios florestais geram surtos de doenças respiratórias. A contaminação da água desencadeia epidemias gastrointestinais. O isolamento de comunidades interrompe o acesso a medicamentos e a tratamentos contínuos. A desnutrição infantil, documentada em 2023, compromete imunidade e desenvolvimento.

O sistema de saúde do Amazonas — já estruturalmente sobrecarregado — precisa de pré-posicionamento de medicamentos, insumos e equipes nas regiões de maior risco antes do pico da estiagem. Isso inclui unidades fluviais com autonomia ampliada, integração com agentes comunitários de saúde e protocolos específicos para atendimento em contexto de isolamento geográfico.

6. Proteger a pesca artesanal como setor estratégico — não residual

A pesca artesanal é, no interior do Amazonas, muito mais do que uma atividade econômica. Ela é a principal fonte de proteína animal para as populações ribeirinhas — com consumo per capita entre 380 e 600 gramas por dia nas comunidades que dependem diretamente dos rios (Cerdeira et al., 1997; Batista et al., 1998 — citados em SciELO, 2012) — e a base de renda de dezenas de milhares de famílias em municípios onde praticamente não existem alternativas formais de emprego.

Os números que o Estado raramente menciona com clareza: segundo estudo publicado na calha do Rio Amazonas-Solimões, o setor pesqueiro gera R$ 389 milhões por ano e 168.315 empregos na região, com uma frota de 7.531 barcos e 83.847 toneladas desembarcadas por ano apenas nas cidades monitoradas (Almeida et al., IDESAM/CIFOR). O IDAM (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal do Amazonas) registra mais de 45 mil pescadores vivendo diretamente da pesca e cerca de 200 mil pessoas envolvidas em toda a cadeia produtiva — captura, transporte, industrialização, distribuição e comercialização. Em muitos municípios do interior, a pesca é literalmente o PIB local.

A seca extrema de 2023 e 2024 demonstrou como esse sistema colapsa rapidamente. Cerca de 80% dos 200 mil pescadores do Amazonas foram impactados pela estiagem severa (Seafood Brasil, outubro 2023). Em comunidades como a Santa Helena do Inglês, em Iranduba, lideranças relataram queda de 50% na produção de peixes em relação aos anos anteriores (Agrimidia, 2024). No Rio Madeira, em Novo Aripuanã, pescadores que vendiam um punhado de matrinxãs a R$ 5 viram o preço saltar para R$ 40 — não por prosperidade, mas por escassez (Ambiental Media, 2024).

Os mecanismos do colapso são múltiplos e simultâneos durante uma seca severa. Os lagos e igarapés que concentram peixes durante a vazante normal secam ou ficam rasos demais para a navegação das embarcações de pesca. O ciclo reprodutivo das espécies é interrompido: ovos e alevinos ficam expostos a predadores, ao calor extremo e à falta de alimento. Espécies como tambaqui, pirarucu e aruanã — que têm seu período mais produtivo justamente quando os rios estão secando — ficam inacessíveis porque os afluentes onde vivem tornam-se intransitáveis.

A qualidade do pescado cai porque os peixes não conseguem se alimentar normalmente. E mesmo quando há pesca possível, o escoamento da produção é comprometido pela mesma seca que afeta os rios — gerando perda pós-captura e queda de preço por excesso de oferta concentrada nos pontos acessíveis (Portal Neo Mondo, 2024).

Diante de um Super El Niño, esse cenário pode ser ainda mais prolongado e geograficamente mais abrangente. O que precisa ser feito antes que o fenômeno chegue ao pico é concreto:

Flexibilização antecipada dos períodos de defeso. Em 2023, coletivos de pescadores, pesquisadores e assessorias técnicas precisaram dialogar de emergência com autoridades ambientais para alterar o período de defeso do pirarucu, buscando minimizar perdas para mais de 300 comunidades em 22 municípios (Visão Amazônida, 2023). Esse processo precisa estar protocolado e pré-autorizado para cenários de seca extrema declarada — não negociado caso a caso no meio da crise.

Seguro-defeso acessível e ágil. O seguro-desemprego para pescadores durante o período de defeso existe, mas sua operacionalização é lenta e burocrática. Em contexto de emergência climática, pescadores que perdem renda por semanas ou meses precisam de acesso imediato ao benefício — sem filas, sem deslocamento até sedes municipais que podem estar inacessíveis, sem documentação que muitos ribeirinhos não têm em mãos.

Estrutura de frio e escoamento de emergência. A falta de câmaras frigoríficas e de logística de escoamento em regiões remotas faz com que o pescado capturado se perca antes de chegar ao mercado consumidor. Investir em infraestrutura de conservação e em corredores logísticos alternativos — incluindo aviação de pequeno porte e parceria com operadores fluviais — é uma medida de proteção econômica direta.

Monitoramento dos estoques pesqueiros antes, durante e após a seca. Os dados sobre o impacto real das secas nos estoques de peixes amazônicos ainda são fragmentados e chegam tarde. O INPA e o Instituto Mamirauá já desenvolvem metodologias de monitoramento participativo que podem ser expandidas para gerar alertas precoces sobre colapso de estoques em áreas críticas — permitindo intervenção antes que a perda seja irreversível.

Reconhecimento do saber dos pescadores como dado técnico. Os ribeirinhos que pescam os mesmos rios há décadas sabem identificar sinais de estresse dos ecossistemas aquáticos antes de qualquer equipamento científico: mudanças no comportamento dos peixes, alterações na coloração da água, espécies que somem antes das outras. Incorporar esse conhecimento nos sistemas de monitoramento oficial não é romantismo — é inteligência de campo que nenhum satélite substitui.

7. Incorporar o conhecimento das comunidades como dado operacional

As populações ribeirinhas e indígenas acumulam décadas — em muitos casos, gerações — de conhecimento sobre o comportamento dos rios, os sinais de seca precoce, as espécies indicadoras de estresse hídrico e as estratégias de sobrevivência em períodos de estiagem. Esse conhecimento é uma variável real de preparação, não um dado folclórico.

O Instituto Mamirauá demonstrou que a integração entre ciência e conhecimento local — na forma de grupos de monitoramento comunitário, protocolos de comunicação bidirecional e cocriação de recomendações — produz respostas mais eficazes e mais rápidas do que qualquer sistema centralizado. Um Super El Niño não é o momento de reinventar essa roda: é o momento de escalar o que já funciona.

O pesquisador Carlos Nobre, um dos maiores especialistas mundiais em clima amazônico, e o biólogo Thomas Lovejoy identificaram que o limiar crítico de desmatamento que pode empurrar a Amazônia para um processo irreversível de “savanização” está entre 20% e 25% da cobertura original. A floresta já perdeu cerca de 20% — está, portanto, nas bordas desse limiar. Um Super El Niño que provoque secas extremas e incêndios de grande escala sobre uma floresta já fragilizada não é apenas um desastre natural: é um empurrão em direção a um processo que, uma vez iniciado, seria difícil ou impossível de reverter.

O professor Paulo Artaxo é enfático: “O Brasil não está preparado. Há muito a ser feito para proteger a população” (Exame, maio 2026).

O El Niño de 2026-2027 não é um problema do futuro. É um problema do presente — e o tempo entre agora e o pico do fenômeno é exatamente o tempo que resta para transformar vulnerabilidade em preparação

Estevão Monteiro de Paula
Estevão Monteiro de Paula
Estevão Monteiro de Paula possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Amazonas (1979), mestrado em Engenharia de Estruturas na Escola de Engenharia de São Carlos pela Universidade de São Paulo (1981) e Ph.D. – University of Tennessee (1989) dos EUA. Membro da comissão de revisão da ABNT NBR 7190:1997 – Norma de Calculo e Estrutura de Madeira da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Exerceu atividades de Presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (órgão estadual de meio ambiente), Gerente do Centro Técnico Operacional de Manaus do Sistema de Proteção da Amazônia – SIPAM, Diretor Substituto do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA e Coordenador Geral de Pesquisas do INPA. Representou o Estado do Amazonas em comissões técnicas no Peru e Alemanha. Coordenou projetos de pesquisas na área de uso e tecnologia de Madeira, entre outras funções como gestor público de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia.

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