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Fóssil de Lystrosaurus prova que ancestrais dos mamíferos botavam ovos

Estudo com fóssil de Lystrosaurus usa tecnologia de raios-X para revelar reprodução por ovos em ancestrais dos mamíferos e levanta novas hipóteses sobre a origem da lactação.

A análise de um fóssil de Lystrosaurus trouxe a primeira evidência direta de que ancestrais dos mamíferos se reproduziam por meio de ovos. O estudo, publicado na revista científica PLOS One, reforça uma hipótese discutida há mais de um século e amplia o entendimento sobre a origem de características fundamentais da biologia dos mamíferos, como a lactação.

O Lystrosaurus foi um pré-mamífero herbívoro que viveu há cerca de 250 milhões de anos, no período que coincide com a Grande Extinção, o evento mais severo já registrado na história da Terra, responsável pela eliminação de até 90% das espécies. A capacidade de botar ovos pode ter sido uma das estratégias que permitiram sua sobrevivência em um ambiente marcado por condições extremas, como atividade vulcânica intensa, chuvas ácidas e oceanos contaminados.

Embora cientistas já considerassem que os terapsídeos, grupo que inclui os ancestrais dos mamíferos, fossem ovíparos, faltavam provas fósseis conclusivas. A nova pesquisa preenche essa lacuna ao examinar um embrião que, segundo os autores, morreu antes de eclodir, evidência central revelada pelo fóssil de Lystrosaurus analisado no estudo.

Detalhe do fóssil de Lystrosaurus com estruturas ósseas do embrião visíveis após análise
Análise de fóssil de Lystrosaurus com tecnologia de raios-X permitiu identificar estágio de desenvolvimento do embrião. Foto: Julien Benoit

O espécime foi encontrado em 2008 na região do Karoo, na África do Sul, pelo paleontólogo John Nyaphuli. Na época, as técnicas disponíveis não permitiam observar detalhes internos. Agora, com o uso de tomografia baseada em raios-X de alta resolução, os pesquisadores conseguiram visualizar a estrutura óssea do embrião e identificar seu estágio de desenvolvimento.

As imagens revelaram características típicas de um animal ainda não nascido. A mandíbula inferior, por exemplo, não estava completamente formada, condição semelhante à observada em embriões de répteis e aves atuais. Além disso, a posição encolhida do corpo e o formato oval sugerem que o indivíduo estava dentro de um ovo no momento da morte.

Fóssil de Lystrosaurus mostra embrião fossilizado em posição encolhida dentro de estrutura rochosa
Fóssil de Lystrosaurus revela embrião preservado, evidência direta de reprodução por ovos em ancestrais dos mamíferos. Foto: Sophie Vrard

Outro ponto relevante é que os ovos do Lystrosaurus provavelmente tinham casca macia, o que dificulta sua preservação ao longo do tempo, ao contrário dos ovos de dinossauros, mais rígidos e frequentemente encontrados no registro fóssil. Isso ajuda a explicar por que evidências desse tipo só estão sendo confirmadas agora, mesmo com a existência de exemplares como o fóssil de Lystrosaurus estudado.

Os dados também indicam que os filhotes nasciam relativamente desenvolvidos. O tamanho dos ovos sugere que os recém-nascidos eram grandes o suficiente para se locomover, buscar alimento e evitar predadores sem depender de cuidados parentais prolongados. Segundo os pesquisadores, o crescimento acelerado e a reprodução precoce podem ter sido fatores decisivos para o sucesso da espécie após a Grande Extinção.

A descoberta ainda levanta novas hipóteses sobre a origem do leite nos mamíferos. Em vez de ter surgido inicialmente como forma de alimentação direta, a lactação pode ter evoluído a partir de secreções cutâneas utilizadas para manter os ovos úmidos, protegê-los contra microrganismos e fornecer nutrientes durante o desenvolvimento embrionário.

Para os autores, os resultados oferecem uma nova perspectiva sobre a evolução reprodutiva dos vertebrados e ajudam a explicar como características típicas dos mamíferos modernos se desenvolveram ao longo de milhões de anos.

ZFM: A engenharia tributária da permanência e da exatidão

Coluna Follow-Up

A trajetória da Zona Franca de Manaus (ZFM) tem sido, desde sua origem, um exercício contínuo de resistência e afirmação. Ano após ano, as entidades empresariais e a dedicada bancada política do Amazonas se mobilizam para explicar ao país – e especialmente ao Parlamento brasileiro – a singularidade da Amazônia e o papel estratégico do nosso principal vetor de desenvolvimento. Não foram poucas as ocasiões em que foi necessário recorrer às cortes superiores para neutralizar ilegalidades flagrantes e assegurar que a competitividade da indústria amazonense permanecesse protegida.

Hoje, porém, o desafio é mais complexo. O momento exige sofisticação técnica, capacidade de tradução jurídica e institucional e domínio profundo de um modelo que é, ao mesmo tempo, distinto e integrado a um sistema tributário nacional em plena reconstrução.

O workshop “Aplicações Tributárias para a Zona Franca de Manaus”, realizado em 23 de abril de 2026, em Manaus, nasceu exatamente dessa necessidade. Não foi concebido para reafirmar consensos. Sua relevância está no oposto: enfrentar, com rigor técnico, as zonas de incerteza abertas pela Reforma Tributária, reunindo no mesmo ambiente os formuladores, os intérpretes e os operadores do novo sistema.

Essa convergência não é casual. Em um cenário em que o maior risco não está no texto da norma, mas na forma como ela será aplicada, o debate qualificado torna-se um ativo fundamental nesse contexto todo.

A pergunta que orienta esta etapa é objetiva: como preservar a competitividade da indústria da ZFM, conforme determinado pela Constituição?

Não se trata apenas de manter incentivos. Trata-se de garantir coerência sistêmica entre o regime diferenciado da ZFM e a lógica do novo modelo baseado no IBS e na CBS, evitando distorções que comprometam previsibilidade, segurança jurídica e, em última instância, a viabilidade dos investimentos.

Esse foi o eixo central do encontro: discutir compatibilizações, antecipar conflitos interpretativos, compreender o papel das administrações tributárias, avaliar o comportamento futuro do contencioso.

Em síntese, abandonar a abstração e avançar para o terreno onde as decisões efetivamente se materializam.

Há um aspecto adicional de grande relevância. A presença simultânea de representantes da Receita Federal, da SEFAZ, do CARF, da academia e do setor produtivo evidencia um amadurecimento institucional. A construção das soluções deixa de ser unilateral e passa a ser compartilhada, elevando a qualidade técnica e ampliando a efetividade.

Esse movimento dialoga diretamente com o momento vivido pela indústria da ZFM. Após superar o embate político e técnico da aprovação da Reforma, entramos na fase mais sensível, a regulamentação. É nela que se consolidam garantias – ou se abrem brechas. É nela que o texto se converte em prática.

mapa amazonas manaus

A experiência recente demonstrou que a defesa do modelo exige argumentos políticos e técnicos, mas depende, sobretudo, de consistência analítica, articulação institucional e capacidade de demonstrar, com evidências, a relevância econômica e social da indústria instalada na região.

A ZFM responde por dezenas de bilhões em arrecadação, sustenta centenas de milhares de empregos e financia estruturas essenciais ao desenvolvimento regional, como a Universidade do Estado do Amazonas e investimentos robustos em pesquisa e inovação.

Ainda assim, o desconhecimento sobre o modelo persiste em diversas regiões do país. É por isso que iniciativas como este workshop assumem dimensão estratégica. Elas qualificam o debate interno e ajudam a construir uma narrativa técnica capaz de dialogar com o Brasil, substituindo preconceitos por compreensão.

O que está em jogo vai além da preservação de um regime fiscal. É a continuidade de um projeto de desenvolvimento que integra indústria, floresta em pé e inclusão social — um arranjo raro, complexo e comprovadamente eficaz.

A nova etapa exige menos retórica e mais engenharia. Engenharia tributária, institucional e política. Engenharia capaz de assegurar que, no novo sistema, a ZFM não seja uma exceção tolerada, mas um instrumento reconhecido de equilíbrio federativo e desenvolvimento regional.

O workshop cumpriu esse papel com precisão: organizou o debate, antecipou desafios e reafirmou que a indústria está preparada para continuar contribuindo com responsabilidade, investimento e compromisso com o país.

A vocação do Amazonas permanece inequívoca, a indústria! Mas, agora, ela exige exatidão!


Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas às quartas, quintas e sextas feiras sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br

Trump demite Conselho Nacional de Ciência dos Estados Unidos sem explicação

A decisão de Trump promove demissão em massa no Conselho Nacional de Ciência dos Estados Unidos, enfraquece a governança científica e levanta alertas sobre interferência política na pesquisa. 

O governo de Donald Trump demitiu todos os membros do conselho consultivo científico da National Science Foundation (NSF), em uma decisão considerada inédita por especialistas e ex-integrantes da própria instituição. A medida atingiu os 22 membros do National Science Board (NSB), órgão responsável por orientar e supervisionar a principal agência de fomento à ciência básica dos Estados Unidos e que compõe o Conselho Nacional de Ciência dos Estados Unidos.

A exoneração ocorreu no dia 24 de abril, sem justificativa formal. Segundo relatos, cada conselheiro recebeu um e-mail informando que, “em nome do presidente Donald J. Trump”, seus cargos estavam “encerrados, com efeito imediato”.

Os integrantes do Conselho Nacional de Ciência dos Estados Unidos são indicados pela presidência dos EUA e cumprem mandatos de seis anos, organizados de forma escalonada justamente para evitar substituições simultâneas. Até o momento, a Casa Branca não esclareceu os motivos da decisão nem indicou possíveis substitutos.

Para Dan Reed, ex-presidente do conselho, a medida rompe com práticas históricas. “Essa decisão de demitir o NSB é sem precedentes”, afirmou. “Precisamos de um NSB forte e independente, representando a diversidade da ciência e da engenharia.”

No Congresso, a reação foi dividida. A deputada Zoe Lofgren classificou a ação como mais um ataque à ciência e à inovação no país. Já o congressista Brian Babin, que preside o comitê científico da Câmara, não comentou o episódio.

A demissão em bloco não é um caso isolado. No ano anterior, o governo já havia dispensado membros de comitês científicos e encerrado estruturas consultivas. Entre as justificativas apresentadas à época estava a necessidade de reduzir custos e “promover a liberdade e inovação americana”.

Criados pelo Congresso em 1950, tanto a NSF quanto o Conselho Nacional de Ciência dos Estados Unidos desempenham papel estratégico na formulação de políticas científicas. O conselho se reúne periodicamente e produz relatórios que subsidiam decisões do Congresso. A próxima reunião estava prevista para 5 de maio e incluiria uma análise sobre a perda de competitividade científica dos EUA frente à China.

NSF sob pressão: cortes, demissões e incertezas institucionais

Entrada da National Science Foundation, sede do Conselho Nacional de Ciência dos Estados Unidos após demissão em massa
Foto: Briscoe Savoy/Nature

Especialistas avaliam que a medida se insere em um movimento mais amplo de enfraquecimento da assessoria científica federal. Como o conselho foi instituído por lei, sua extinção formal depende do Congresso e seus membros devem ser reconhecidos como “eminentes” em suas áreas de atuação.

O episódio ocorre em meio a um cenário de instabilidade na NSF. Propostas recentes do governo sugeriram cortes superiores a 50% no orçamento da agência, rejeitados pelo Congresso para 2026. Desde 2025, a instituição também perdeu mais de 30% do quadro de funcionários e passou por mudanças administrativas, incluindo a transferência de sua sede.

Outra fonte de tensão envolve a governança financeira. Integrantes do conselho relataram que o Escritório de Gestão e Orçamento teria orientado a liderança da NSF a restringir o compartilhamento de informações orçamentárias com o próprio conselho, o que levanta dúvidas sobre transparência e autonomia.

A decisão amplia preocupações na comunidade científica sobre o grau de interferência política na condução da ciência nos Estados Unidos, em um momento considerado sensível para a competitividade global do país.

Guerra no Irã e alta do petróleo disparam vendas de veículos elétricos na Europa

Dados recentes mostram que veículos elétricos na Europa avançam com força, impulsionados por subsídios, inovação e pela busca por alternativas ao petróleo em cenário instável.

A escalada dos preços do petróleo, intensificada por tensões geopolíticas recentes envolvendo o Irã, tem acelerado a transição energética no continente. Em março, o avanço dos veículos elétricos na Europa ganhou força, refletindo mudanças no comportamento do consumidor diante da instabilidade no mercado de combustíveis fósseis.

Levantamento realizado pela New AutoMotive em parceria com a E-Mobility Europe aponta que mais de 224 mil veículos elétricos foram emplacados apenas no último mês. No acumulado do primeiro trimestre, o número supera 500 mil unidades, um crescimento de 33,5% em relação ao mesmo período de 2025, indicador que reforça a expansão consistente dos veículos elétricos na Europa.

O avanço é observado em diferentes mercados, com destaque para a Noruega, onde 98% dos carros novos vendidos em março já são elétricos. Na Dinamarca, a participação chegou a 76%, enquanto a Finlândia se aproxima de 50%. Já economias como Alemanha, França, Espanha, Itália e Polônia registraram crescimento de cerca de 40% na adoção ao longo do trimestre.

carro abastecendo com gasolina em posto, refletindo crise dos combustíveis fósseis na Europa que acelera a venda de veículos elétricos na Europa
Alta dos combustíveis fósseis acelera a migração para carros elétricos na Europa. Foto: Canva

O aumento no preço da gasolina e do diesel tem sido um dos principais motores dessa mudança. Consumidores buscam alternativas mais econômicas e menos expostas às oscilações do mercado internacional de petróleo, enquanto políticas públicas continuam impulsionando a eletrificação.

Na França, por exemplo, subsídios chegam a € 5.700 para famílias de baixa renda interessadas na compra de veículos elétricos. Para a classe média, o incentivo pode alcançar € 4.700, enquanto outros consumidores têm acesso a até € 3.500.

Para especialistas do setor, o crescimento vai além de uma tendência de consumo. Segundo Chris Heron, da E-Mobility Europe, a expansão dos veículos elétricos na Europa também representa um avanço estratégico ao reduzir a dependência do petróleo em um cenário de instabilidade global.

Infraestrutura para a Amazônia real: logística, integração e o lugar estratégico da BR-319


A discussão sobre a BR-319 tende a capturar a atenção pública porque oferece uma imagem simples para um problema que não é. Uma estrada, um traçado, uma conexão direta. Mas o desafio logístico da Amazônia Ocidental não se resolve com uma obra isolada. Ele exige uma leitura mais ampla, que articule competitividade econômica, sustentabilidade ambiental e coesão territorial como partes de uma mesma equação.

O custo invisível do isolamento

O ponto de partida precisa ser outro. O Amazonas não enfrenta apenas um problema de acesso físico, mas um padrão estrutural de isolamento logístico. Esse isolamento encarece a produção, reduz previsibilidade, limita investimentos e amplia desigualdades regionais. Não se trata apenas de distância, mas de um sistema que opera sob risco constante, sujeito a interrupções e sem redundância adequada.

Zona Franca sob pressão logística

A Zona Franca de Manaus é o exemplo mais evidente dessa tensão. Trata-se de um polo industrial com relevância nacional, mas cuja base logística ainda depende de condições naturais cada vez mais instáveis. O transporte fluvial, que historicamente estruturou a região, continua sendo essencial. Ao mesmo tempo, tornou-se vulnerável diante da intensificação de eventos climáticos extremos. As estiagens severas no rio Madeira, nos últimos anos, deixaram de ser exceção e passaram a compor um novo padrão de risco.

ZFM
Foto divulgacao indústrias Amazonas

BR-319: entre expectativa e função real

Quando o rio falha, a economia desacelera. Custos logísticos se elevam, prazos se alongam, cadeias produtivas perdem eficiência. O que se observa não é uma crise pontual, mas a exposição de uma fragilidade sistêmica. E é nesse vazio que a BR-319 ressurge como resposta imediata.

Hidrovias, o eixo que precisa evoluir

A rodovia, no entanto, precisa ser reposicionada dentro de uma estratégia maior. Ela não pode ser tratada como solução única, tampouco como eixo estruturante da logística regional. Sua função mais consistente, do ponto de vista técnico, é a de complementaridade. Uma via de apoio, capaz de oferecer alternativa em momentos críticos e contribuir para a integração territorial, especialmente no que diz respeito à mobilidade de pessoas, serviços e à redução de assimetrias regionais.

Conectar para competir

Isso não diminui sua relevância. Pelo contrário. Insere a BR-319 em um papel mais realista e estratégico. Como instrumento de integração, ela pode contribuir para aproximar regiões, facilitar o acesso a políticas públicas, fortalecer a presença do Estado e reduzir desigualdades históricas. Como elemento logístico, pode funcionar como mecanismo de resiliência em um sistema que hoje opera sem margem de segurança.

Logística orientada por dados

Mas a espinha dorsal dessa transformação está em outro lugar. O que a Amazônia demanda é um arranjo logístico multimodal, concebido a partir das suas especificidades. Isso implica investir com consistência na qualificação das hidrovias, que continuarão sendo o principal eixo de transporte de cargas de grande escala. Dragagem orientada por critérios técnicos, balizamento permanente, sistemas de informação hidrológica em tempo real e gestão integrada dos rios deixam de ser medidas acessórias e passam a ser centrais.

Uma engenharia própria para a Amazônia

Ao mesmo tempo, a eficiência do sistema depende da qualidade das conexões. Terminais intermodais precisam ser pensados como plataformas logísticas inteligentes, capazes de reduzir custos de transbordo, integrar fluxos e dar fluidez ao transporte. A articulação com portos estratégicos fora da região exige planejamento de longo prazo, coordenação institucional e visão nacional.

Antecipar o movimento dos rios, prever gargalos e ajustar rotas

Há ainda uma dimensão que tende a ganhar peso nos próximos anos. A logística amazônica será cada vez mais dependente de inteligência. Modelagem climática, análise preditiva e sistemas de monitoramento passam a ser ferramentas operacionais, não apenas instrumentos de estudo. Antecipar o comportamento dos rios, prever gargalos e ajustar rotas em tempo real será decisivo para reduzir incertezas.

Logística da floresta em pé

Essa abordagem abre espaço para um conceito que começa a se consolidar com mais força: o de uma logística compatível com a floresta em pé. Não se trata apenas de mitigar impactos ambientais, mas de estruturar cadeias de valor que incorporem a conservação como ativo econômico. A bioeconomia, a produção sustentável e a ocupação territorial equilibrada dependem de uma infraestrutura que respeite e dialogue com o ambiente.

Isso não diminui sua relevância. Pelo contrário. Insere a BR-319 em um papel mais realista e estratégico. Como instrumento de integração, ela pode contribuir para aproximar regiões, facilitar o acesso a políticas públicas, fortalecer a presença do Estado e reduzir desigualdades históricas.
Foto: Marcos Amend

BR-319 – parte de uma arquitetura maior 

Nesse contexto, a BR-319 deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser parte de uma arquitetura maior. Uma peça dentro de um sistema que precisa ser pensado com rigor técnico, responsabilidade ambiental e inteligência política.

Um projeto nacional, não uma obra isolada

O debate, portanto, precisa amadurecer. Não é uma escolha binária entre construir ou não construir. É uma decisão sobre qual projeto de desenvolvimento o país está disposto a sustentar para a Amazônia. Um projeto que reduza desigualdades, aumente competitividade e preserve ativos estratégicos de valor global.

A Amazônia não será integrada por atalhos. Ela será integrada por um sistema. E isso exige planejamento, coordenação e compromisso de longo prazo.


Nelson Azevedo é economista, empresário, presidente do SIMMMEM, Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalógica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e da CNI e vice-presidente da FIEAM. 

Gelo da Antártica revela mistério do clima da Terra de 3 milhões de anos

Dados inéditos do gelo da Antártica indicam que mudanças na circulação oceânica e na refletividade do planeta ajudaram a transformar o clima da Terra ao longo de milhões de anos.

Pesquisas recentes com gelo antigo da Antártica estão ampliando a compreensão científica sobre a evolução do clima da Terra nos últimos 3 milhões de anos. Ao analisar bolhas de ar preservadas em camadas profundas de gelo, cientistas conseguiram reconstruir, com maior precisão, as condições atmosféricas e oceânicas de um período marcado por mudanças climáticas significativas.

Os estudos, publicados na revista Nature, indicam um comportamento climático inesperado, embora o planeta tenha passado por um resfriamento gradual ao longo desse intervalo, as concentrações de gases de efeito estufa variaram pouco. Esse descompasso desafia explicações tradicionais que atribuem essas mudanças principalmente às alterações nesses gases e amplia o debate sobre os fatores que moldam o clima da Terra ao longo do tempo.

A investigação foi conduzida por pesquisadores ligados ao Centro de Exploração do Gelo Mais Antigo (COLDEX), que busca identificar e estudar os registros mais antigos preservados nas camadas de gelo. Parte das amostras analisadas veio de Allan Hills, uma área da Antártica Oriental onde o gelo é deslocado e deformado, permitindo acesso a fragmentos de diferentes períodos climáticos, como se fossem recortes do passado.

Um dos avanços do estudo foi a utilização de gases nobres presentes nas bolhas de ar para estimar a temperatura dos oceanos ao longo do tempo. Os resultados apontam que a temperatura média dos oceanos caiu entre 2 °C e 2,5 °C desde cerca de 3 milhões de anos atrás. Esse resfriamento, no entanto, não ocorreu de forma uniforme: as águas profundas esfriaram mais cedo, enquanto a superfície oceânica apresentou uma queda gradual ao longo de um período mais longo.

Núcleo de gelo da Antártica em close com bolhas de ar que registram o clima da Terra no passado
Bolhas de ar preservadas em núcleo de gelo revelam concentrações antigas de gases e ajudam a reconstruir o clima da Terra ao longo de milhões de anos. Foto: OSU CEOAS

Ao mesmo tempo, as medições diretas de dióxido de carbono (CO₂) e metano indicam que esses gases permaneceram relativamente estáveis. O CO₂, por exemplo, manteve-se abaixo de 300 partes por milhão durante grande parte desse período, com pequenas oscilações. Já o metano apresentou níveis constantes, muito inferiores aos observados atualmente.

Esses dados reforçam a hipótese de que outros fatores tiveram papel relevante na transformação do sistema climático global. Entre eles, estão mudanças na cobertura de gelo, na vegetação, na refletividade da superfície terrestre e na circulação oceânica, elementos que influenciam diretamente o equilíbrio térmico do planeta e ajudam a explicar a dinâmica do clima da Terra.

Além de esclarecer o passado, os resultados ajudam a refinar projeções sobre o futuro climático. Compreender como diferentes componentes do sistema terrestre interagem em períodos mais quentes pode oferecer pistas importantes sobre os impactos das mudanças atuais.

A pesquisa também abre caminho para novas descobertas. Cientistas já identificaram amostras de gelo que podem ter até 6 milhões de anos, o que amplia ainda mais o recorte de observação do clima antigo. Com técnicas mais avançadas, a expectativa é aprofundar a reconstrução histórica e responder questões ainda em aberto sobre a dinâmica climática do planeta.

Desastres naturais estão afetando eleições no mundo – Desafio à democracia?

Relatório internacional mostra como desastres naturais afetam campanhas, logística e participação eleitoral, exigindo adaptação diante do avanço das mudanças climáticas.

Desastres naturais têm interferido de forma crescente em processos eleitorais ao redor do mundo, afetando desde campanhas até a realização do voto. Levantamento do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (Idea) aponta que, entre 2006 e 2025, ao menos 94 eleições em 52 países sofreram algum tipo de impacto associado a esses eventos.

De acordo com o relatório, fenômenos como terremotos, enchentes, incêndios florestais e ondas de calor têm comprometido a logística eleitoral e dificultado a participação de eleitores. Esses desastres naturais, intensificados pelas mudanças climáticas, também pressionam autoridades a reverem estratégias de organização e segurança dos pleitos.

O estudo destaca que, apenas no ciclo eleitoral de 2024, 23 eleições, incluindo disputas locais, nacionais e até supranacionais, foram afetadas em 18 países. Entre eles estão Brasil, Estados Unidos, Índia, México, Nigéria e Indonésia, evidenciando que o problema atinge diferentes regiões e níveis de desenvolvimento.

Além de atrasos e interrupções, os desastres podem causar danos diretos à infraestrutura utilizada nas eleições. Um dos exemplos citados é o de Moçambique, onde o ciclone Idai, em 2019, destruiu milhares de salas de aula usadas no recenseamento e na apuração de votos. Em outro caso, no Haiti, um terremoto seguido por um furacão resultou na morte de candidatos e funcionários eleitorais, além da destruição de prédios essenciais ao processo.

Moradores caminham por área alagada em Beira, Moçambique, após ciclone Idai, exemplo de desastres naturais com impacto social e eleitoral.
Moradores de Beira atravessam região inundada após o ciclone Idai, ilustrando como desastres naturais afetam infraestrutura e podem interferir em eleições. Foto: UNICEF/Prinsloo

Especialistas ouvidos no relatório alertam que a tendência é de agravamento desses riscos. O aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos exige maior capacidade de adaptação por parte dos órgãos de gestão eleitoral. Entre as medidas sugeridas está o planejamento mais cuidadoso dos calendários eleitorais, evitando períodos historicamente mais vulneráveis a desastres naturais.

Também ganha destaque a necessidade de integração entre autoridades eleitorais e instituições como serviços meteorológicos, órgãos ambientais e equipes de resposta a emergências. A adoção de planos de contingência e treinamentos específicos é apontada como essencial para garantir a continuidade e a credibilidade dos processos democráticos.

Para os autores do relatório, a preparação antecipada será determinante para preservar o direito ao voto em um cenário de crescente instabilidade climática. A resiliência eleitoral, nesse contexto, passa a depender não apenas de estruturas políticas, mas também da capacidade de enfrentar os desafios impostos pelos desastres naturais.

Receita extra do petróleo pode baixar preço dos combustíveis no Brasil, entenda

Medida emergencial converte arrecadação do petróleo em redução de impostos para frear o preço dos combustíveis no Brasil, equilibrando impactos entre fontes fósseis e renováveis.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhou ao Congresso Nacional um projeto de lei complementar que prevê o uso de receitas extraordinárias do setor de petróleo para reduzir o preço dos combustíveis no Brasil. A proposta tem caráter emergencial e busca conter os efeitos da alta internacional provocada pela guerra no Oriente Médio, especialmente sobre o diesel.

A medida cria um mecanismo automático que permite transformar o aumento da arrecadação com petróleo em cortes de tributos federais incidentes sobre combustíveis, como gasolina, diesel, etanol e biodiesel. Entre os impostos que poderão ser reduzidos estão PIS, Cofins e Cide, com potencial impacto direto no preço dos combustíveis no Brasil.

Segundo o Ministério do Planejamento, comandado por Bruno Moretti, o Brasil se beneficia do cenário de preços elevados por ser exportador de petróleo, o que amplia a arrecadação pública. Esse excedente, pela proposta, seria direcionado para aliviar o custo dos combustíveis no mercado interno.

As fontes de recursos incluem royalties e participações especiais da exploração de petróleo e gás, receitas com a comercialização desses produtos pela União, além de tributos como IRPJ e CSLL pagos por empresas do setor. Também entram na conta dividendos de estatais e um imposto extraordinário de 12% sobre exportações de petróleo.

Plataforma de petróleo em alto-mar representa a exploração que influencia o preço dos combustíveis no Brasil.
Receita do petróleo pode ser usada para reduzir o preço dos combustíveis no Brasil. Foto: Thomas Parker/Pexels

O texto estabelece que o limite para a redução de tributos será o total arrecadado adicionalmente. De acordo com estimativas divulgadas, cada redução de R$ 0,10 nos tributos pode representar um impacto de cerca de R$ 800 milhões a cada dois meses, influenciando diretamente o preço dos combustíveis no Brasil.

A proposta também prevê uma regra de equilíbrio entre combustíveis fósseis e renováveis. Assim, qualquer redução aplicada à gasolina deverá ser estendida ao etanol, evitando distorções no mercado e preservando a competitividade dos biocombustíveis.

O acompanhamento das medidas ficará a cargo da equipe econômica, conforme afirmou o ministro da Fazenda, Dario Durigan. O projeto tramita em regime de urgência na Câmara dos Deputados, com articulação direta entre o governo e lideranças do Congresso.

A iniciativa ocorre em meio à preocupação do Executivo com os impactos da alta dos combustíveis sobre a inflação e o cenário eleitoral, diante da sensibilidade do tema para consumidores e setores produtivos.

Financiamento climático cresce, mas falha em alcançar áreas vulneráveis

Estudo internacional mostra como o financiamento climático pode ampliar soluções naturais, mas alerta para falhas na distribuição de recursos e riscos de aprofundar desigualdades socioambientais.

A busca por soluções eficazes contra os impactos das mudanças climáticas tem impulsionado o uso de mecanismos financeiros voltados à proteção da natureza. Nesse contexto, o financiamento climático surge como peça-chave para viabilizar iniciativas que conciliam conservação ambiental e redução de riscos. Um amplo estudo internacional mostra que instrumentos que combinam financiamento e transferência de risco podem fortalecer as chamadas Soluções Baseadas na Natureza (NBS), mas ainda enfrentam desafios significativos para alcançar escala global.

Essas soluções incluem iniciativas como a restauração de manguezais, conservação de florestas e proteção de recifes de coral, capazes de reduzir riscos como enchentes, tempestades e erosão costeira. Além disso, geram benefícios adicionais, como melhoria da qualidade da água, segurança alimentar e bem-estar social.

Manguezal restaurado em área costeira, exemplo de solução apoiada por financiamento climático para proteção ambiental.
A restauração de manguezais é um exemplo de Soluções Baseadas na Natureza (NBS), que protegem áreas costeiras e podem ser fortalecidas pelo financiamento climático. Foto: Wikimedia (CC)/Anton Bielousov

Apesar do potencial, o volume de recursos destinados a essas iniciativas ainda é insuficiente. Em 2022, os investimentos globais somaram cerca de US$ 200 bilhões por ano, mas especialistas apontam que esse valor precisaria quase triplicar até 2030 para atender às metas ambientais internacionais. A maior parte do financiamento vem do setor público, enquanto a participação privada permanece limitada, um dos principais gargalos para a expansão do financiamento climático em escala global.

O estudo identificou 33 tipos distintos de instrumentos financeiros voltados a essas soluções, incluindo seguros, títulos, fundos e créditos ambientais. Entre eles, os chamados “seguros de ecossistemas” ganham destaque. Nesse modelo, recursos são liberados rapidamente após eventos extremos para restaurar ambientes naturais, como ocorreu em projetos envolvendo recifes no Caribe. Outro formato relevante são os seguros de resiliência, que oferecem descontos a quem investe em medidas naturais de proteção, como áreas verdes ou reflorestamento.

Apesar da diversidade de mecanismos, a adoção ainda é desigual. A maior parte dos projetos está concentrada na América do Norte e em regiões costeiras, com destaque para ecossistemas marinhos. Outros ambientes, como áreas agrícolas e zonas urbanas, recebem menos atenção, embora também tenham grande potencial de mitigação de riscos.

Um dos principais entraves identificados é a falta de avaliação consistente dos resultados. Em grande parte dos projetos analisados, não há medição clara dos benefícios na redução de riscos climáticos. Além disso, aspectos como incertezas nos dados e distribuição dos benefícios entre diferentes grupos sociais são frequentemente ignorados.

Essa lacuna pode gerar distorções, como priorizar investimentos em áreas mais ricas, onde o retorno financeiro é maior, deixando populações vulneráveis em segundo plano. Há também riscos associados ao uso inadequado desses instrumentos, como o aumento da desigualdade social ou incentivos indiretos à ocupação de áreas de risco.

Os pesquisadores afirmam que a expansão dessas soluções depende de maior transparência, melhores métricas de avaliação e integração entre diferentes modelos financeiros. A combinação de instrumentos, como títulos verdes associados a pagamentos por serviços ambientais, é apontada como caminho promissor para atrair investidores e ampliar o impacto do financiamento climático.

Com o avanço das discussões globais sobre clima e biodiversidade, os mecanismos financeiros voltados à natureza ganham relevância estratégica. No entanto, para que cumpram seu papel, será necessário superar limitações estruturais e garantir que seus benefícios alcancem, de fato, as populações mais expostas aos riscos climáticos.

IA revela correntes oceânicas desconhecidas e muda entendimento do clima global

Inovação transforma imagens térmicas de satélite em mapas detalhados de correntes oceânicas, abrindo novas possibilidades para entender mudanças climáticas e impactos nos oceanos.

Uma nova abordagem, baseada em inteligência artificial, está ampliando a capacidade de observar os oceanos em escala global. A técnica, chamada GOFLOW (Geostationary Ocean Flow), utiliza imagens térmicas de satélites meteorológicos já em operação para identificar e acompanhar correntes oceânicas com um nível de detalhe até então inalcançável.

Desenvolvido por pesquisadores ligados ao Scripps Institution of Oceanography, da Universidade da Califórnia em San Diego, o método transforma dados já disponíveis em uma ferramenta mais precisa para análise do comportamento dos oceanos. A inovação dispensa o lançamento de novos equipamentos e pode ser incorporada a sistemas já existentes de monitoramento climático.

As correntes oceânicas desempenham um papel central na regulação do clima global. Elas redistribuem calor, participam do ciclo do carbono e transportam nutrientes essenciais para a vida marinha. Também são determinantes em situações como o rastreamento de poluentes e operações de resgate em alto-mar.

Apesar da relevância, acompanhar essas correntes em tempo real e com alta resolução sempre foi um desafio. Métodos tradicionais baseados em satélites costumam revisitar uma mesma região com intervalos longos, o que dificulta a captura de fenômenos rápidos. Já medições feitas por embarcações ou radares oferecem maior precisão, mas cobrem áreas limitadas.

Imagem de satélite com inteligência artificial aplicada ao monitoramento de correntes oceânicas
Tecnologia com inteligência artificial transforma dados de satélite em análises detalhadas das correntes oceânicas. Foto: songqiuju/Getty Images

É justamente nesse ponto que o GOFLOW avança. A tecnologia utiliza redes neurais treinadas para interpretar variações de temperatura na superfície do oceano, identificando padrões que indicam o movimento da água. A partir da análise sequencial dessas imagens, o sistema consegue estimar a velocidade e a direção das correntes com maior frequência e detalhamento.

Os testes realizados mostraram que os resultados obtidos são compatíveis com medições diretas e outros métodos consolidados. No entanto, o diferencial está na capacidade de detectar estruturas menores e mais dinâmicas, como redemoinhos e zonas de transição, fundamentais para processos como a mistura vertical da água.

Esse tipo de mistura é responsável por levar nutrientes das profundezas para a superfície e por transportar carbono para camadas mais profundas, onde pode ser armazenado por períodos prolongados. Até então, esses fenômenos eram pouco observados diretamente e dependiam, em grande parte, de simulações.

A nova técnica também abre caminho para aplicações mais amplas. Ao melhorar a compreensão das interações entre oceano e atmosfera, o GOFLOW pode contribuir para previsões climáticas mais precisas e para o monitoramento de eventos ambientais associados às correntes oceânicas.

Ainda assim, há limitações. A presença de nuvens pode comprometer a leitura das imagens térmicas, reduzindo a cobertura em algumas regiões. Para contornar esse obstáculo, os pesquisadores estudam integrar diferentes fontes de dados satelitais.

A equipe também trabalha na expansão do método para uma escala global. Com dados e códigos já disponibilizados publicamente, a expectativa é que outros grupos de pesquisa avancem no uso da tecnologia, ampliando seu potencial científico e operacional.