As inscrições para a Bemol Run 2026 já estão abertas ao público e podem ser realizadas tanto pelo aplicativo Bemol quanto pelo site da Ticket Sports, plataformas oficiais do evento.
Neste ano, o circuito amplia sua presença na região Norte e será realizado em quatro capitais. A largada ocorre em Rio Branco (AC), no dia 12 de julho, seguida por Porto Velho (RO), em 26 de julho. Em Manaus (AM), a programação será distribuída em dois dias, 29 e 30 de agosto, antes do encerramento em Boa Vista (RR), no dia 11 de outubro. Ao longo dessas etapas, a expectativa é impactar até 13 mil atletas, consolidando a corrida como uma das principais iniciativas esportivas da região.
Entre as novidades da edição 2026 está a criação da Bemol Run Kids, que será realizada em Manaus e deve reunir até 500 miniatletas. A prova contará com percursos que variam de 50 a 400 metros, pensados de acordo com a faixa etária, ampliando o alcance do evento e incorporando o público infantil à experiência da corrida.
KIT 2026
Para o superintendente de Marketing da Bemol, Jossan Carvalho, o crescimento do evento reflete sua consolidação no calendário esportivo do Norte. Segundo ele, a proposta para este ano é não apenas ampliar o alcance, mas também qualificar a experiência dos participantes, com a introdução da corrida Kids e a inclusão de novos atrativos, como um item surpresa no kit destinado ao público adulto.
O valor das inscrições para o público geral é de R$ 149,90. Clientes que utilizam a Conta Bemol ou pertencem às categorias Diamante e Diamante Plus contam com valor reduzido, de R$ 129,90. O pagamento pode ser realizado via Pix ou por meio do crediário Bemol, ampliando as opções de acesso. Já a inscrição para a corrida Kids custa R$ 119,90, acrescida de taxa de conveniência, sendo realizada exclusivamente pelo site da Ticket Sports.
A estrutura competitiva do evento é dividida em diferentes categorias, contemplando perfis variados de participantes. Estão previstas as categorias Geral Individual, com percursos de 5 km e 10 km; Pessoas com Deficiência (PCD), com percurso de 5 km; Colaborador Bemol Individual, também com 5 km — com exceção de Manaus, que contará adicionalmente com a opção de 10 km —, além da categoria para atletas acima de 60 anos, com percurso de 5 km.
Em Porto Velho, o evento contará ainda com uma categoria exclusiva voltada para atletas do interior de Rondônia, com provas de 5 km e 10 km. A iniciativa busca ampliar a participação regional e estimular o deslocamento de competidores de outros municípios para a capital.
Todos os participantes da Bemol Run receberão kits compostos por camiseta, viseira, pochete, bolsa térmica, gel térmico, meia, toalha de rosto e medalha entregue após a conclusão da prova, além de um item surpresa, que integra a proposta de renovação da experiência do evento.
Na edição Kids, o kit foi estruturado com foco no público infantil e inclui camiseta, copo personalizado da Bemol, óculos infantis, caminhão cofre, revista Coquetel e mochila, compondo um conjunto voltado à experiência lúdica dos participantes.
A premiação da corrida será distribuída de acordo com a ordem de classificação, com mais de 100 premiações por cidade. Os três primeiros colocados receberão medalhas e vales-compra nos valores de R$ 2.000, R$ 1.200 e R$ 800, respectivamente, que poderão ser utilizados nas lojas Bemol e Bemol Farma. Além disso, haverá premiações adicionais para outras classificações em cada etapa, ampliando o reconhecimento aos participantes.
Na corrida Kids, todos os inscritos receberão medalhas, reforçando o caráter participativo e formativo da modalidade.
Confira os locais de cada corrida da Bemol Run 2026
Porto Velho:
Espaço Alternativo – Concentração: Av. Gov. Jorge Teixeira, 4026 – Costa e Silva
Entrega dos kits: Bemol – Porto Velho Shopping
Rio Branco:
Universidade Federal do Acre (UFAC) – Concentração: Rodovia BR 364, Km 04 – Distrito Industrial.
Entrega dos kits: Bemol – Via Verde Shopping
Boa Vista:
Parque Anauá – Concentração: Av. Brg. Eduardo Gomes, 2207-2109 – Dos Estados.
Entrega dos kits: Bemol – Major Williams
Manaus:
Arena da Amazônia – Concentração: Av. Constantino Nery, Nº 5001, Bairro Flores
Entrega dos kits: Bemol – Amazonas Shopping
Sobre a Bemol
Fundada em 13 de agosto de 1942 pelos irmãos Samuel, Israel e Saul Benchimol, a empresa amazonense atende 69 cidades na Amazônia Ocidental, localizadas no Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima.
Atualmente, a varejista tem 37 lojas, incluindo loja online, televendas e lojas físicas, 45 farmácias, incluindo loja online, televendas e lojas físicas, 22 loterias, 4 mercados e 6 Centros de Distribuição.
“Educação infantil no Brasil expõe o limite de um modelo que inclui mais crianças do que se consegue acolher“
O Brasil aprendeu a contar matrículas. E, ao fazê-lo, construiu uma narrativa confortável sobre a educação infantil. Mais de 94% das crianças de 4 e 5 anos estão na pré-escola. Em alguns estados, o índice beira a totalidade. Piauí aparece com 100%. Sergipe, Bahia, Tocantins seguem de perto.
É um número que sugere maturidade institucional. Um sinal de que o país, enfim, teria resolvido uma das etapas mais delicadas da formação humana.
Mas basta aproximar o olhar para perceber que esse avanço carrega uma fragilidade estrutural. A inclusão aconteceu. A qualidade, não na mesma proporção.
A recente reportagem da Folha, ao revelar que quase metade das creches opera com excesso de crianças por professor, desloca o eixo da discussão. Não se trata mais de saber quantas crianças entram no sistema, mas em que condições elas permanecem nele.
E esse detalhe muda tudo.
A educação infantil não é uma etapa qualquer. Ela não se limita ao ensino de conteúdos. É o território onde se formam vínculos, linguagem, percepção, autonomia. É onde o cuidado e a educação se confundem. Quando uma professora precisa dividir sua atenção entre um número excessivo de crianças, o que se perde não é apenas eficiência pedagógica. É a própria essência do processo educativo.
O Brasil chegou perto de universalizar o acesso à pré-escola por um caminho conhecido. Pressão social por vagas, legislação mais exigente, expansão acelerada da rede. Em duas décadas, o número de crianças em creches praticamente triplicou. Foi uma resposta necessária, mas conduzida com um descompasso evidente entre quantidade e estrutura.
Foto divulgação
Resolveu-se o problema visível. Criou-se outro, mais silencioso.
A desigualdade regionalajuda a entender a profundidade dessa distorção. O mesmo país que apresenta índices quase integrais em alguns estados ainda convive com situações como a do Amapá, onde menos de 70% das crianças estão na pré-escola. No Amazonas, o índice também fica abaixo da média nacional. Não é apenas uma diferença estatística. É um sinal de que o direito à educação infantil continua sendo distribuído de forma desigual no território.
E mesmo onde o acesso é alto, a qualidade segue tensionada.
Há um argumento recorrente que costuma aparecer nesses momentos. O de que a expansão foi recente e que o sistema ainda está em consolidação. Outro aponta limitações orçamentárias, especialmente nos municípios, que concentram a responsabilidade pela educação infantil sem a correspondente capacidade fiscal. Há ainda quem invoque o aumento da demanda como justificativa para o desequilíbrio.
Todos esses fatores são reais. Nenhum deles é novo.
O problema, portanto, não está na falta de diagnóstico. Está na persistência de um modelo que aceita operar no limite como regra, não como exceção.
E o custo dessa escolha não aparece imediatamente nos indicadores. Ele se manifesta ao longo do tempo. Crianças que não recebem atenção adequada nessa fase chegam ao ensino fundamental com defasagens difíceis de corrigir. A alfabetização se torna mais lenta. A desigualdade, mais profunda. O sistema educacional passa a correr atrás de um prejuízo que poderia ter sido evitado na origem.
Na Amazônia, essa realidade assume contornos ainda mais graves.
O Amazonas é um os mais deficitários. Não se trata apenas de educação. Trata-se de projeto de desenvolvimento. Uma região que já enfrenta desafios históricos de infraestrutura, renda e acesso a serviços públicos não pode se dar ao luxo de iniciar a formação de suas crianças em condições precárias. É nesse ponto que o debate educacional se conecta diretamente com a agenda de bioeconomia, inovação e sustentabilidade. Sem base humana qualificada desde o início, qualquer estratégia de futuro se fragiliza.
O que se observa hoje é um país que cumpriu formalmente uma meta, mas ainda não entregou integralmente o direito que essa meta representa.
A criança está na escola. Mas isso, por si só, não garante que ela esteja sendo devidamente cuidada, estimulada e acompanhada.
A diferença entre uma coisa e outra é o que separa política pública de política efetiva.
O Brasil já provou que consegue expandir. O desafio agora é mais complexo. Exige consistência, coordenação federativa, investimento qualificado e, sobretudo, uma mudança de foco. Menos celebração de cobertura. Mais compromisso com as condições reais de atendimento.
Porque, no fim, não é a matrícula que forma uma criança. É a experiência que ela vive dentro da escola.
“Manaus se encontra diante de uma encruzilhada da inovação. Pode aproveitar o evento como alavanca para consolidar um novo ciclo de desenvolvimento, baseado em tecnologia, sustentabilidade e conhecimento”
A realização da Conferência Anprotec 2026 em Manaus, entre 29 de junho e 2 de julho, no Centro de Convenções Vasco Vasques, coloca a cidade em uma posição que vai além do simbolismo institucional. Trata-se de um teste concreto sobre a capacidade da Amazônia de se afirmar como território de inovação, e não apenas como objeto de interesse científico ou ambiental.
Um ecossistema que começa a ganhar forma
A escolha da capital amazonense não surgiu por acaso. Ela reflete um processo em curso, ainda em consolidação, mas já perceptível. Universidades, centros tecnológicos e o próprio setor industrial começam a operar com maior integração, criando um ambiente mais propício à geração de soluções baseadas em conhecimento.
A Universidade do Estado do Amazonas ocupa um papel relevante nesse arranjo. A manutenção de duas incubadoras de empresas, em Manaus e Itacoatiara, tem contribuído para estruturar o empreendedorismo de base tecnológica em uma região historicamente distante dos grandes polos de inovação do país.
Esse movimento ganha densidade com a participação da UEA na governança do Centro deBioeconomiada Amazônia, em parceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo. Essa conexão entre Amazônia e Sudeste, mediada por ciência e tecnologia, indica um caminho mais consistente para a construção de uma bioeconomia viável.
O papel silencioso da indústria e da Lei de Informática
Ao mesmo tempo, o Polo Industrial de Manaus atravessa um processo de transformação silencioso, porém estratégico. A base manufatureira segue relevante, mas já se observa a incorporação de novas agendas, como biotecnologia, economia verde e soluções digitais.
Esse avanço encontra respaldo em um instrumento pouco compreendido fora do setor: a Lei de Informática. Ao destinar 5% do faturamento das empresas incentivadas para pesquisa, desenvolvimento einovação, a legislação criou um fluxo contínuo de recursos. Em 2024, esse volume alcançou cerca de R$ 1,8 bilhão na Amazônia Ocidental. Não se trata de um detalhe técnico. É um dos principais motores da transição econômica da região.
Infraestrutura que já entrega resultados
Nesse ambiente, a atuação da Fundação Paulo Feitosa ajuda a dar materialidade ao discurso da inovação. Com 27 anos de trajetória, a instituição acumulou experiência em áreas que vão de software e hardware à biotecnologia e automação industrial. O reconhecimento recente, com o Prêmio Finep de Inovação 2025 na categoria Ambiente de Inovação, reforça a percepção de que já existe, em Manaus, uma infraestrutura técnica capaz de dialogar com padrões nacionais e internacionais.
A escala que faltava
A Anprotec chega, portanto, a um ecossistema que não parte do zero. O que o evento oferece é escala. Ao reunir startups, investidores, universidades, empresas e formuladores de políticas públicas, a conferência cria um ambiente de aceleração.
Ideias encontram financiamento, projetos encontram parceiros, e iniciativas locais ganham visibilidade fora de seus limites geográficos.
Antônio de Lima Mesquita Filho, diretor-executivo da Agência de Inovação da UEA, Adriana Faria, presidente da Anprotec, e Leonardo Silva, Analista de Negócios na WIT Incubadora Tecnológica da FPF Tech (Fundação Paulo Feitoza). – Conferencia 2025
Bioeconomia entre promessa e execução
Há, em paralelo, uma oportunidade específica para a bioeconomia. A Amazônia dispõe de ativos naturais e conhecimento tradicional que ainda não foram plenamente traduzidos em modelos de negócio sustentáveis. A aproximação com centros de pesquisa, investidores e empresas pode encurtar esse caminho, desde que haja organização e estratégia. Sem isso, o risco é permanecer no campo das intenções.
A vitrine internacional
A dimensão internacional do evento também merece atenção. A presença de redes globais de inovação amplia o alcance da Amazônia em um momento em que o mundo busca soluções para desafios climáticos e energéticos.
O interesse externo existe. O que ainda está em construção é a capacidade local de transformar esse interesse em projetos estruturados.
O risco do entusiasmo passageiro
É nesse ponto que reside o principal desafio. Grandes conferências costumam gerar entusiasmo imediato, mas o impacto real depende do que permanece após o encerramento. A efetividade da Anprotec 2026 será medida menos pelo número de participantes e mais pela quantidade de parcerias firmadas, investimentos atraídos e iniciativas consolidadas.
A decisão começa depois do evento
Manaus se encontra diante de uma encruzilhada. Pode aproveitar o evento como alavanca para consolidar um novo ciclo de desenvolvimento, baseado em tecnologia, sustentabilidade e conhecimento. Ou pode limitar-se ao ganho reputacional, sem mudanças estruturais mais profundas.
A diferença entre esses dois caminhos não está no evento em si. Está na capacidade de articulação entre instituições, na continuidade das políticas e na disposição de transformar discurso em prática.
A Anprotec 2026 abre a porta. O que será feito a partir dela ainda está em aberto.
Espécies mostram como as borboletas da Amazônia traduzem a biodiversidade em cores e estratégias de sobrevivência, enquanto ajudam a monitorar desmatamento e mudanças climáticas.
A bacia amazônica abriga cerca de 3.500 espécies de borboletas, consolidando o bioma como um dos maiores refúgios de diversidade de lepidópteros do planeta. Além da beleza, essas espécies revelam um intricado sistema de adaptações evolutivas, mecanismos de defesa sofisticados e interdependências ecológicas essenciais para a floresta.
As borboletas da Amazônia também desempenham um papel estratégico como bioindicadores ambientais. A sua presença, abundância e composição permitem avaliar a integridade dos ecossistemas, identificar históricos de desmatamento e observar, em tempo real, os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade.
Algumas das borboletas da Amazônia se destacam pela combinação única de cores, padrões e comportamentos. São espécies que, além de facilmente reconhecíveis, sintetizam características emblemáticas da lepidopterofauna amazônica, como a iridescência intensa, o mimetismo sofisticado e o contraste entre exibição e camuflagem.
Borboletas-azuis (Morpho helenor e Morpho peleides)
Espécies emblemáticas da Amazônia, as borboletas do gênero Morpho se destacam pelo azul iridescente intenso, visível durante o voo. Essa coloração não vem de pigmentos, mas da estrutura microscópica das asas, que reflete a luz e cria um efeito luminoso variável. Em repouso, essas borboletas apresentam a face inferior marrom, com padrões que funcionam como camuflagem. Alimentam-se principalmente de frutos fermentados e seiva, sendo comuns em áreas de floresta e clareiras.
Embora seja uma mariposa, destaca-se entre as mais bonitas da Amazônia por suas cores vibrantes e hábitos diurnos. Suas asas apresentam faixas iridescentes em tons de verde e azul sobre fundo escuro, com caudas elegantes. As suas larvas alimentam-se de plantas tóxicas, tornando os adultos impalatáveis para predadores.
Uma das borboletas da Amazônia mais raras, destaca-se pela combinação intensa de vermelho, azul e preto nas asas. Vive principalmente no dossel da floresta, sendo pouco observada ao nível do solo. A sua coloração vibrante está associada à comunicação e à defesa contra predadores. Alimenta-se de frutos fermentados e depende de áreas de floresta bem preservadas para sobreviver.
Espécie reconhecida pelo contraste entre o azul metálico das asas e o fundo escuro. Habita principalmente o dossel da floresta, descendo ocasionalmente para se alimentar de frutos fermentados, com voo rápido e direto que dificulta a observação. Em repouso, apresenta coloração mais discreta, que favorece a camuflagem.
Essas borboletas da Amazônia apresentam uma estética mais sutil, baseada em tons terrosos, transparências e padrões que se confundem com folhas, troncos e sombras da floresta. São espécies que desenvolveram estratégias visuais sofisticadas para enganar predadores, como manchas que imitam os olhos de animais maiores, asas que lembram folhas secas ou até estruturas quase invisíveis à luz. A camuflagem é uma forma ativa de defesa que garante a sobrevivência.
Borboleta-transparente ou borboleta asa de vidro (Haetera piera)
Conhecida pelas asas quase invisíveis, essa espécie de borboletas da Amazônia utiliza a transparência como estratégia de camuflagem no sub-bosque da floresta. Com poucas escamas opacas, suas asas permitem a passagem da luz, dificultando sua detecção por predadores. Vive em ambientes úmidos e sombreados, voando baixo entre a vegetação. Discreta e rara de observar, é um exemplo extremo de adaptação à invisibilidade.
Borboleta-coruja ou olho-de-coruja (Caligo eurilochus)
Uma das maiores borboletas da Amazônia, chama atenção pelos grandes “olhos” nas asas, que imitam o olhar de uma coruja e afastam predadores. Em voo, apresenta coloração discreta, mas ao abrir as asas revela seu principal mecanismo de defesa. Possui hábitos crepusculares, sendo mais ativa ao amanhecer e entardecer. Alimenta-se principalmente de frutos em decomposição.
Conhecida pelo som seco que produz ao bater as asas, elas utilizam esse “estalido” como forma de comunicação e defesa territorial. As suas asas apresentam padrões acinzentados que se confundem com troncos, garantindo excelente camuflagem. Costuma permanecer imóvel durante o dia, tornando-se difícil de detectar. Alimenta-se principalmente de seiva, frutos em decomposição e matéria orgânica.
As borboletas da Amazônia desse grupo são mais conhecidas pelo impacto de suas lagartas, que se alimentam intensamente de folhas e podem causar desfolha em plantas. Os adultos apresentam coloração em tons de marrom e laranja, com padrões que favorecem a camuflagem entre folhas secas. Possuem hábitos mais discretos, muitas vezes associados ao entardecer. São comuns em áreas de floresta e também em ambientes modificados. Além de plantações de bananeira, sua ocorrência pode ser observada na cultura do coqueiro.
Espécies de borboletas da Amazônia com voo rápido e forte, comuns em florestas úmidas e áreas semi-sombreadas, onde permanecem no dossel. Alimentam-se de substâncias em decomposição, como frutos fermentados, fezes e matéria orgânica. Vistas de cima, exibem cores variadas, incluindo tons de azul, violeta e laranja. Já a face inferior imita com precisão folhas secas, funcionando como estratégia de camuflagem.
Apresenta asas que imitam com precisão uma folha seca, com nervuras, manchas e até aparência de desgaste. Quando pousa, mantém as asas fechadas, tornando-se quase indistinguível do ambiente. Em voo, revela tons alaranjados mais discretos. Essas borboletas da Amazônia habitam principalmente áreas de floresta e bordas, onde utiliza a imobilidade como estratégia de defesa.
Algumas borboletas da Amazônia chamam atenção não apenas pelas cores, mas pela precisão quase gráfica de seus padrões. Linhas, formas geométricas e contrastes bem definidos transformam suas asas em verdadeiras composições visuais, que lembram ilustrações, números ou até códigos naturais. Esses desenhos impressionantes funcionam como estratégias de defesa, ajudando a confundir predadores, quebrar o contorno do corpo ou criar ilusões óticas em movimento.
Borboletas-88 (Diaethria clymena e Callicore spp.)
Conhecidas popularmente como borboleta-88, essas espécies pertencem a gêneros diferentes, mas compartilham padrões semelhantes que lembram números como “88” ou “89” nas asas. A face inferior apresenta alto contraste em preto, branco e vermelho, criando um efeito visual marcante e facilmente reconhecível. Esses desenhos funcionam como estratégia de defesa, confundindo predadores.
Reconhecida pelo contraste entre o preto intenso das asas e a borda vermelha vibrante, é uma espécie de forte impacto visual. O seu padrão simples e marcante cria um efeito gráfico que facilita a identificação em voo. Costuma ser encontrada em áreas abertas e bordas de floresta.
Apresenta asas escuras com manchas em laranja, amarelo ou branco, que variam entre machos e fêmeas. Esse dimorfismo sexual torna o padrão ainda mais marcante. O desenho das asas cria um efeito gráfico que ajuda na identificação e pode atuar na comunicação entre indivíduos. É comum em áreas de floresta e bordas, onde se alimenta de frutos fermentados.
Conhecidas pelo padrão em faixas que cruza as asas, formando desenhos simétricos e marcantes. Essas borboletas da Amazônia apresentam combinações de preto, branco, laranja e azul, com forte contraste visual. Esse padrão ajuda na identificação e pode atuar na comunicação e na confusão de predadores. São comuns em áreas de floresta e bordas, onde possuem voo rápido e ativo.
Reconhecidas pelas asas alongadas com caudas pontiagudas que lembram lâminas. Apresentam coloração em tons de laranja, amarelo e marrom, com padrões que variam entre as espécies. O desenho afilado das asas contribui para um voo rápido e preciso. São borboletas da Amazônia comuns em áreas abertas e bordas de floresta.
Na Amazônia, cores intensas funcionam muitas vezes como sinais de alerta. Vermelhos, amarelos e laranjas vibrantes contrastam com o verde da floresta para comunicar uma mensagem direta aos predadores: essas borboletas podem ser tóxicas ou impalatáveis. Essa estratégia, conhecida como sinalização de advertência, transforma a beleza das borboletas da Amazônia em linguagem. Em vez de se esconder, essas espécies apostam na visibilidade como forma de defesa, muitas vezes compartilhando padrões semelhantes entre si, em um fenômeno chamado mimetismo.
Borboleta-do-campo (Heliconius numata)
Espécie conhecida pela grande variação de padrões nas asas, que imitam outras borboletas da Amazônia tóxicas em um exemplo de mimetismo. Apresenta combinações vibrantes de laranja, preto e amarelo, funcionando como sinal de alerta para predadores. Diferente da maioria, também se alimenta de pólen, o que aumenta sua longevidade. É comum em áreas de floresta e bordas, com voo lento e contínuo.
Uma das borboletas mais abundantes nas florestas tropicais sul-americanas. Possuem grande plasticidade ambiental e climática. Além dos sistemas de mimetismo, tem sabor desagradável que alerta predadores. Com voo lento e constante, se alimenta de néctar e pólen.
Uma das primeiras borboletas da Amazônia observadas se alimentando de pólen, comportamento raro entre lepidópteros. É estudada por sua rápida diversificação evolutiva e pelos processos de hibridização com espécies próximas.
Com envergadura que pode chegar a 11 cm, é uma borboleta de grande porte e asas alongadas. Apresenta coloração marcante, com tons vibrantes de verde-turquesa contrastando com bordas escuras, enquanto o lado inferior é marrom. Possui voo rápido e ágil, geralmente no dossel da floresta.
Espécie de coloração verde-limão intensa com bordas negras, destaca-se pela aparência vibrante no dossel da floresta. As suas asas alongadas favorecem um voo rápido e ágil entre a vegetação. O padrão também funciona como camuflagem na luz filtrada pelas folhas. As suas lagartas alimentam-se de maracujazeiros, incorporando substâncias tóxicas como defesa.
Labareda, borboleta-flambeau ou borboleta-fogo-no-ar (Dryas iulia)
Facilmente reconhecida pelo tom alaranjado intenso e asas alongadas, é comum em trilhas de florestas, clareiras e áreas abertas. Possui voo leve e contínuo, sendo frequente também em jardins e margens de rios. Alimenta-se de néctar, frutos e substâncias ricas em minerais, podendo ser observada em grupos sobre o solo ou matéria orgânica. Em alguns casos, busca sais em lágrimas de animais, como jacarés ou crocodilos.
Entre as borboletas da Amazônia, há espécies pequenas, raras e de brilho metálico que revelam uma beleza mais discreta e muitas vezes surpreendente. Com reflexos em azul, verde ou violeta, suas asas captam a luz de forma sutil, criando efeitos que aparecem e desaparecem conforme o movimento. Essas borboletas costumam habitar áreas mais específicas e podem passar despercebidas à primeira vista. Ainda assim, suas cores e formas desempenham funções importantes, seja na comunicação entre indivíduos, na defesa contra predadores ou na adaptação a ambientes com pouca luz.
Borboleta-macro (Rhetus periander)
Espécie de pequeno porte que se destaca pelo azul metálico intenso das asas, contrastando com áreas escuras. Possui caudas longas e pontiagudas, que ajudam a desviar ataques de predadores. É comum em trilhas e áreas abertas da floresta, onde apresenta voo rápido e ágil. Alimenta-se de substâncias ricas em minerais, frequentemente encontrada em solos úmidos.
Espécies de pequeno porte que se destacam pelo brilho metálico intenso, com reflexos em azul, verde ou violeta. Apresentam asas com contrastes marcantes e, em alguns casos, caudas delicadas. São mais comuns no dossel da floresta, onde o efeito de luz realça sua coloração. Possuem voo rápido e irregular, tornando a observação difícil.
Espécies pouco conhecidas que se destacam mais pelo papel ecológico do que pela aparência. Na fase larval, alimentam-se de matéria orgânica em decomposição, como folhas, flores secas e restos de origem animal, como pelos de animais. Esse hábito contribui para a reciclagem de nutrientes no solo. Ao transformar detritos em matéria assimilável, ajudam a manter o equilíbrio e a fertilidade dos ecossistemas florestais.
Espécies de pequeno porte que se destacam pelos reflexos metálicos em tons de laranja, cobre e dourado. Apresentam padrões delicados e contrastes sutis nas asas, visíveis principalmente sob a luz. São comuns em áreas de floresta e bordas, onde realizam voos curtos e rápidos. Costumam pousar em folhas ou no solo úmido, onde buscam sais minerais.
Espécies de pequeno porte que se destacam pelos tons escuros com reflexos azulados ou arroxeados. Apresentam padrões discretos, com detalhes claros que podem formar contrastes sutis nas asas. Habitantes do interior da floresta, costumam voar próximos ao solo ou em áreas sombreadas. O seu comportamento discreto e o brilho sutil dificultam a observação na natureza.
Família de borboletas de pequeno porte, conhecida pela grande diversidade e pelos tons vibrantes, muitas vezes com brilho metálico. Possui distribuição mundial, com cerca de 6.000 espécies, sendo aproximadamente 420 registradas no Brasil. As lagartas apresentam hábitos variados: além de se alimentarem de plantas, podem consumir fungos, algas, líquens e, em alguns casos, ter comportamento carnívoro. Essa diversidade alimentar reflete a alta capacidade de adaptação do grupo.
Espécie de pequeno porte que se destaca pelo brilho metálico em tons de azul e verde nas asas. Possui voo rápido e discreto, sendo mais comum em áreas de floresta e trilhas. Costuma pousar na vegetação ou em solos úmidos, onde busca sais minerais. O seu tamanho reduzido e comportamento ágil dificultam a observação, tornando-a pouco conhecida.
A articulação entre floresta, ciência e tecnologia começa a delinear uma agenda mais ampla. A Amazônia aparece como espaço de desenvolvimento de soluções e o SUS como base de implementação. O resultado é um arranjo que combina território, conhecimento e escala.
O debate global sobre o futuro da saúde tem sido dominado por promessas tecnológicas: inteligência artificial, medicina personalizada, integração massiva de dados. Nesse cenário, o Brasil começa a se destacar por um caminho menos óbvio. O Sistema Único de Saúde, frequentemente associado a restrições orçamentárias e desafios operacionais, passa a assumir um papel mais ambicioso. Deixa de ser apenas um sistema de atendimento e se consolida, gradualmente, como uma estrutura de experimentação em larga escala.
Parte desse movimento ganha forma longe dos grandes centros. A Amazônia, historicamente tratada como obstáculo logístico, começa a aparecer como origem de soluções.
A entrada de startups da Amazônia no programa InovaSUS Digital indica uma mudança de direção. Não se trata apenas de ampliar a participação regional em políticas públicas, mas de reconhecer que certos problemas enfrentados na floresta antecipam questões que outros países ainda começarão a enfrentar. Distâncias longas, baixa densidade populacional, infraestrutura limitada e pressão ambiental criam um ambiente onde soluções convencionais tendem a falhar.
O desenho do InovaSUS Digital responde a esse contexto. O programa articula governo, universidades, empresas e empreendedores para desenvolver tecnologias voltadas a desafios concretos do sistema público. O foco não está apenas na digitalização de processos já existentes, mas na reorganização do cuidado em saúde, desde o acesso até o acompanhamento clínico.
Esse movimento ganhou impulso em 2026, quando o Ministério da Saúde abriu um chamamento nacional para identificar tecnologias capazes de responder a demandas reais do SUS. A iniciativa aproximou o ecossistema de inovação das necessidades da população e reposicionou o sistema como agente ativo no desenvolvimento tecnológico.
Na Amazônia, esse processo encontra um campo de teste particularmente exigente. Levar atendimento a comunidades isoladas exige soluções que combinem conectividade, diagnóstico remoto e uso eficiente de dados. A telemedicina deixa de ser um recurso complementar e passa a ser, em muitos casos, a principal via de acesso. Ferramentas de triagem baseadas em inteligência artificial, integração de prontuários em regiões remotas e exames realizados à distância já começam a alterar a rotina de atendimento.
O que emerge dessas experiências não é apenas ganho local. Tecnologias desenvolvidas para esse contexto carregam potencial de aplicação em outras regiões do mundo com desafios semelhantes, especialmente em partes da África, da Ásia e da própria América Latina.
Há também um componente econômico relevante nesse processo. A digitalização da saúde não se limita à esfera pública. Ela estrutura um setor produtivo. Ao aproximar startups da Amazônia do SUS, o país estimula a criação de soluções próprias, com possibilidade de gerar propriedade intelectual, novos serviços e produtos exportáveis. Em regiões como Manaus, essa dinâmica pode se conectar à base industrial já instalada, aproximando desenvolvimento tecnológico, produção de dispositivos e bioeconomia.
Eventos recentes voltados à inovação em saúde indicam que essa convergência já está em curso. A fronteira entre ciência, tecnologia e indústria torna-se cada vez menos definida, e a saúde passa a ocupar posição estratégica nesse cruzamento.
Nesse contexto, a Amazônia deixa de ser apenas um território de conservação e passa a integrar a geografia da inovação. O conhecimento produzido a partir de seus desafios contribui para reposicionar a própria ideia de desenvolvimento na região.
O SUS, por sua vez, adquire outra dimensão. Poucos países dispõem de um sistema público com alcance nacional, gratuito e com capacidade de operar em grande escala. Ao incorporar inovação de forma estruturada, o Brasil transforma essa característica em vantagem. Testar e implementar tecnologias dentro do SUS significa validar soluções em um ambiente real, com milhões de usuários e diversidade de cenários.
Esse fator amplia o alcance das iniciativas desenvolvidas no país. O que se estrutura internamente tende a influenciar modelos adotados em outros lugares.
A articulação entre floresta, ciência e tecnologia começa a delinear uma agenda mais ampla. A Amazônia aparece como espaço de desenvolvimento de soluções e o SUS como base de implementação. O resultado é um arranjo que combina território, conhecimento e escala.
Se esse processo avançar de forma consistente, o Brasil pode ocupar uma posição relevante na reorganização global da saúde, não apenas como fornecedor de insumos naturais, mas como produtor de soluções aplicáveis a sistemas públicos em diferentes partes do mundo.
“A transformação do Cerrado pela ciência brasileira oferece um precedente concreto: recuperar a Caatinga não é tão somente uma agenda ambiental, mas um projeto de desenvolvimento, segurança hídrica e adaptação climática“
Quando o impossível era o Cerrado
Se há um caso emblemático de transformação territorial em larga escala, ele não está apenas na Ásia. Ele está no próprio Brasil. O Cerrado, até meados do século XX, era tratado como área marginal para a produção agrícola. Solo ácido, baixa fertilidade natural, limitações hídricas. Um ambiente visto como obstáculo.
Uma tecnologia tropical com assinatura brasileira
Foi a ciência aplicada que alterou esse diagnóstico. A partir dos anos 1970, a Embrapa liderou um processo sistemático de correção de solos, desenvolvimento de cultivares adaptadas e construção de sistemas produtivos compatíveis com as condições tropicais. O resultado é conhecido: o Cerrado tornou-se uma das principais fronteiras agrícolas do mundo e um dos pilares da segurança alimentar global.
Foto: Shutterstock – Embrapa Solos
A Caatinga no limite da resiliência
Esse movimento não foi apenas produtivo. Ele reorganizou fluxos econômicos, ampliou a renda rural e consolidou uma base tecnológica própria, ajustada às condições brasileiras. Mais recentemente, incorporou práticas de integração lavoura-pecuária-floresta, plantio direto e recuperação de pastagens degradadas, reduzindo pressão sobre novas áreas e ampliando a eficiência do uso da terra.
O atraso que custa território
Esse histórico altera o enquadramento do debate sobre a Caatinga. O Brasil não precisa importar soluções como ponto de partida. Ele já demonstrou capacidade institucional e científica para reconfigurar territórios complexos.
Produzir regenerando
A Caatinga, no entanto, segue em outra trajetória. Trata-se de um bioma decisivo para o equilíbrio ambiental e social do Nordeste, onde vivem mais de 50 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, concentra fragilidades estruturais. A combinação entre desmatamento, uso intensivo do solo e eventos climáticos extremos vem reduzindo a produtividade e ampliando a vulnerabilidade hídrica.
Onde começar: água, gente e emergência
O problema já não é apenas ambiental. Ele se projeta sobre o abastecimento urbano, sobre a estabilidade econômica regional e sobre a própria capacidade de adaptação às mudanças climáticas. Capitais como Fortaleza operam sob esse risco.
Risco da seca aumenta
Clima e desenvolvimento na mesma equação
Os investimentos existentes ainda não refletem a escala do desafio. Iniciativas recentes, como os recursos do Banco do Nordeste para recuperação do bioma, cumprem um papel relevante, mas insuficiente. Estudos indicam que a recuperação em escala exigiria algo próximo de R$ 15 bilhões ao longo de três décadas.
A próxima fronteira é interna
Há também um descompasso institucional. Enquanto a Amazôniaconta há décadas com instrumentos estruturados de controle e planejamento, a Caatinga só recentemente passou a dispor de uma política equivalente. Esse atraso ajuda a explicar a persistência da degradação.
A Caatinga como continuidade da inteligência territorial brasileira
O ponto central é outro. A Caatinga não deve ser tratada apenas como área a ser protegida, mas como território a ser reconstruído produtivamente sob novas bases. Isso implica adotar, em escala, sistemas adaptados ao semiárido: agroflorestas, manejo regenerativo, pecuária de baixa pressão e técnicas voltadas à infiltração e retenção de água no solo.
Há caminhos concretos para iniciar esse processo.
A recuperação de matas ciliares em assentamentos rurais reúne três condições estratégicas: segurança jurídica, viabilidade econômica e disponibilidade de mão de obra. O Código Florestal já estabelece as obrigações. A proximidade com cursos d’água aumenta a taxa de sucesso dos projetos. E há base social instalada.
Os números indicam o potencial.
A recuperação de 1 milhão de hectares no Nordeste pode gerar quase R$ 30 bilhões em receitas líquidas, criar centenas de milhares de empregos e ampliar a oferta de alimentos. Trata-se de uma agenda produtiva, não apenas ambiental.
O paralelo com o Cerrado ajuda a reposicionar o debate climático.
A recuperação de biomas não é apenas uma estratégia de mitigação. É uma política de desenvolvimento. Ao aumentar a cobertura vegetal e reorganizar o uso da terra, também se estabilizam fluxos hidrológicos, melhora-se a retenção de carbono e reduz-se a exposição a eventos extremos.
A Caatinga pode ser o próximo capítulo dessa trajetória
O que está em jogo, portanto, não é repetir experiências externas, mas reconhecer uma capacidade já demonstrada internamente. O Brasil transformou o Cerrado com ciência, política pública e investimento de longo prazo. A Caatinga pode ser o próximo capítulo dessa trajetória. Não como réplica, mas como evolução.
Paulo R. Haddad – Membro da Academia Mineira de Letras/ Belo Horizonte– Maio/2026
A partir do início de 2026, deverá ocorrer um amplo conjunto de debates, durante o processo eleitoral, relativo ao futuro da economia nacional e das economias estaduais. Elaborei 10 textos que, a partir de minhas experiências de planejamento nos três níveis de governo, durante algumas décadas, poderão eventualmente ser úteis como subsídios atualizados para propostas de planos, políticas públicas e projetos dos candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais.
Esses textos se referem ao resgate dos processos de planejamento de médio e de longo prazo, à avaliação das políticas públicas em andamento, à articulação das políticas macroeconômicas de curto prazo com as políticas de desenvolvimento sustentável (=crescimento econômico globalmente competitivo + equidade social + sustentabilidade ambiental) e às propostas da estrutura de novos planos de governo. O décimo texto irá conter um esboço de uma proposta para uma Grande Transformação do Brasil, no próximo lustro.
TEXTOS
I. Anotações Introdutórias: o Brasil que queremos
II. O que fazer com o planejamento nos Estados?
III. O planejamento do desenvolvimento sustentável dos Estados e Municípios
IV. O futuro da Amazônia: savanização ou sustentabilidade?
V. A construção de uma nova política econômica: estabilização monetária com desenvolvimento sustentável
VI. Políticas sociais e regimes de desigualdades no Brasil
VII. Atualização das políticas ambientais no Brasil
VIII. Atualização das políticas de desenvolvimento regional no Brasil
IX. O futuro do capitalismo no Brasil
X. Brasil: a Grande Transformação.
“Toda vez que você tentar reagir da mesma maneira antiga, pergunte se você quer ser um prisioneiro do passado ou pioneiro do futuro.” Deepak Chopra, médico indiano, Prêmio Nobel de Física (1998)
“O futuro dependerá daquilo que fazemos no presente.” Mahatma Gandhi
“A melhor forma de prever o futuro é criá-lo.” Peter Drucker
I. A CONSTRUÇÃO DO FUTURO NUM CONTEXTO DE INCERTEZAS AMPLIADAS
Como construir um cenário para as novas administrações do Governo Federal e das 27 unidades da Federação para o período de 2026 a 2030, quando nos encontramos num contexto de incertezas ampliadas sobre o futuro da economia brasileira e da própria economia mundial, após a era do Trumpismo? Estamos diante de um processo de decisão com conhecimento imperfeito, que tem informações incompletas, o qual pode assumir quatro formas: risco, ambiguidade, incerteza e ignorância.
Os economistas não podem desconhecer os efeitos inesperados ou os efeitos colaterais adversos de suas decisões na política econômica. Trata-se de efeitos não vislumbrados quando da formulação da política econômica que emergem quando de sua implementação. São semelhantes a qualquer tipo de efeito indesejado no organismo relativo às substâncias contidas num medicamento, paralelas às que são desejadas ou esperadas pelo fármaco. Semelhantes também ao aprendiz de feiticeiro que desencadeia forças que não consegue controlar.
A Economia não é uma ciência exata, como a Física. As proposições de política econômica não têm um caráter de precisão e de eficiência que permitam aos economistas falar sobre os resultados esperados com um otimismo sem salvaguardas protetoras. Essas proposições são sempre condicionais e historicamente contextualizadas. Por isso, é sempre recomendável que, na concepção das políticas econômicas, as normas de eficiência sejam substituídas por normas de confiabilidade, as quais se orientam mais para evitar o fracasso do que para garantir um grandiloquente sucesso.
Isso porque, como diz o filósofo Karl Popper, há o risco que representa a hybris (arrogância extrema, na mitologia grega) daqueles que, ao tentar realizar o céu na terra, sejam reduzidos a transformar a terra em um inferno; vale dizer, a confiança excessiva, o orgulho exagerado ou arrogância intelectual podem levar ao fracasso.
Uma política econômica pode liberar forças que geram efeitos inesperados. Instrumentos que se apresentam como eficientes para resolver um determinado problema podem se tornar a fonte de agravamento de outros problemas.
As ações programáticas podem apresentar sequenciamentos inadequados, cadências desritmadas e intensidades insuficientes. A Economia não tem o conhecimento da engenharia para garantir que a construção de “uma ponte para o futuro” não irá desmoronar.
Conceber e implementar uma política econômica pressupõe, sem dúvida, um conhecimento científico de como funciona o sistema, mas é, antes de tudo, uma arte baseada na intuição, na experiência profissional e, fundamentalmente, na sensibilidade social e política dos que a formulam e a implementam, num ambiente de negociações recorrentes e de autocrítica persistente.
Uma ilustração histórica de como uma política econômica orientada para superar uma crise econômica pode gerar controvérsias, muitas vezes politicamente tensas e conflituosas, está nas decisões do que ocorreu diante da crise econômica de 1929 nos EE.UU., narradas em diferentes textos de Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia de 2008..
No início dos anos 1930, sem perceber a profundidade da crise econômica que se iniciara em outubro do ano anterior, o presidente dos Estados Unidos Herbert Hoover começava a enfrentar os problemas econômicos e sociais da Grande Depressão. Consultou o seu ministro da Fazenda (Secretary of Treasury, nos EE.UU.) sobre quais as medidas que deveria tomar para reduzir o desemprego (que atingiria 25% em 1933), atenuar crises na Bolsa de Valores e mitigar a insatisfação de empresários, industriais e fazendeiros.
Andrew Mellon, que foi o ministro da Fazenda de três presidentes norte-americanos entre 1921 e 1932, e um dos homens ricos daquele país, se opunha firmemente a qualquer intervenção maior do governo para corrigir os rumos da economia, até mesmo à expansão monetária (o que foi considerado um grande erro por Milton Friedman).
Respondeu prontamente à indagação do presidente: “Liquidem-se empregos, liquidem-se as ações, liquidem-se fazendeiros, liquidem-se imobiliárias… E o resultado aparecerá, pois a podridão será expurgada do sistema… o povo viverá uma vida mais digna… e as pessoas empreendedoras resgatarão os destroços das pessoas menos competentes”.
Tratava-se de uma proposta de austeridade dentro da filosofia de um liberalismo radical, que procurava restringir a intervenção do Estado na dinâmica do ciclo econômico depressivo e ampliar o escopo do mercado na “depuração” do sistema. Mellon propunha que as forças dos mercados fariam com que sobrevivessem apenas os mais eficientes, numa espécie de darwinismo econômico. De 1933 a 1937, o presidente Roosevelt adotou uma política do estilo Keynesiano, de defesa dos níveis do emprego e da renda, com grandes investimentos em obras públicas e com políticas sociais compensatórias. A economia norte-americana cresceu 45% no período.
Em 1937, julgando que a crise estava superada, Roosevelt voltou a um regime de austeridade fiscal e o processo de crescimento começou a regredir, e a expansão econômica somente retornaria no final da década dos anos 1930 a partir das volumosas despesas públicas militares necessárias no contexto da II Grande Guerra.
Esse descompasso entre as escolhas de políticas econômicas serve para ilustrar os dilemas atuais sobre o que fazer com a nossa economia entre 2026 e 2030, diante de grandes incertezas quanto aos ciclos de cadência e de expansão da economia, quanto ao futuro da nova ordem econômica mundial, quanto aos rebatimentos espaciais das mazelas sociais de uma crise, etc.
Para a formulação de um cenário para o futuro da economia brasileira, num contexto de tantas incertezas, é preciso avaliar como deverá evoluir o sistema capitalista dominante no Brasil, dentro do que a Economia denomina de “dinâmica magnificente”, um legado analítico dos pensadores clássicos (Adam Smith, David Ricardo e Robert Malthus, Karl Marx, Stuart Mill, entre outros).
Operacionalmente, avaliar um sistema econômico significa observar, através de diferentes indicadores socioeconômicos e socioambientais, como o sistema está resolvendo os problemas fundamentais de desenvolvimento de uma sociedade. Essa observação não se refere apenas a indicadores de curto prazo (o comportamento das taxas de inflação, do déficit fiscal consolidado, etc.), pois o sistema pode sempre sofrer ajustes fiscais e financeiros para superar as questões de conjuntura. Mas também se refere às questões de desenvolvimento sustentável no País.
II. CAPITALISMO E OS CAPITALISMOS
Desde que as experiências das economias socialistas entraram em processo de decadência, tendo como referência a queda do Muro de Berlim, os analistas passaram a se concentrar na avaliação dos diferentes estilos do capitalismo. O capitalismo tem alguns princípios que caracterizam o sistema: a produção é organizada visando ao lucro, utilizando mão de obra assalariada legalmente livre, sendo a propriedade do capital predominantemente privada, com coordenação descentralizada.
Embora sua característica fundamental seja comum a todas as suas configurações diferenciadas entre países e regiões, há experiências e estilos do capitalismo que variam quanto ao que é público e ao que é privado, ao grau de intervenção do Estado na economia, à qualidade dos empreendedores em sua maior ou menor propensão ao rentismo financeiro ou ao progresso tecnológico, etc.
Branko Milanovic, economista sérvio-americano que chefiou o departamento de pesquisas econômicas do Banco Mundial, argumenta que há duas mudanças no período em que o mundo vive atualmente: o estabelecimento do capitalismo não apenas como sistema dominante, mas como único sistema econômico; e o reequilíbrio de poder econômico entre a Europa e a América do Norte, de um lado, e a Ásia, do outro. Menciona que há exceções (Cuba, Vietnam do Norte, etc.) em áreas muito marginais, sem nenhuma influência global. “Vivemos em um mundo no qual todos seguem as mesmas regras e compreendem a mesma linguagem da realização do lucro: o capitalismo sem rivais”*.
Para Milanovic, a dominância do capitalismo em escala mundial foi atingida por dois tipos diferentes de capitalismo: o capitalismo liberal meritocrático e o capitalismo de Estado ou autoritário.O capitalismo liberal meritocrático se desenvolveu no Ocidente nos últimos duzentos anos e se refere a como os bens e serviços são produzidos e trocados nos mercados (“capitalismo”), como são distribuídos entre indivíduos (“meritocrático”), e quanto há de mobilidade social (“liberal”).
O capitalismo de Estado ou autoritário, que o autor denomina de capitalismo político (tendo o modelo chinês como arquétipo), emergiu, em muitos casos, como um produto das revoluções comunistas, com governos de partido único; propriedade estatal de ativos; planejamento central; repressão política.
No caso brasileiro, há algumas características marcantes do capitalismo. A predominância, desde a crise de 1929 até os anos 1990, do que Peter Evans*, sociólogo da Universidade de Berkeley, denominou “a tríplice aliança”: a convivência no mesmo contexto histórico das empresas privadas nacionais, das empresas multinacionais e das empresas estatais. (ver Box 1).
Muitas fragilidades e incapacidades sistêmicas são notórias no estilo de capitalismo no Brasil. Incapacidade para equacionar o problema da pobreza persistente e para reverter um processo de crescentes desigualdades na distribuição da renda e da riqueza. Incapacidade para conter o uso predatório da base de recursos ambientais do País.
Incapacidade para eliminar a tendência de imiscuir interesses privados com interesses públicos na gestão governamental, dentro do estilo de capitalismo de compadrio, associado às intensas práticas de corrupção. Incapacidade para controlar a vocação entre protagonistas políticos para ações de populismo econômico, os quais criam ciclos de instabilidade econômica resultando, quase sempre, em elevadas taxas de desemprego e processos inflacionários recorrentes.
BOX 1
A funcionalidade das empresas estatais no capitalismo brasileiro
A partir do início das novas administrações do Governo Federal e dos governos estaduais em 2026, deverão ser reacendidas as controvérsias sobre os processos de privatização e de concessões na economia brasileira. Num clima ideológico no qual prevaleça um liberalismo à outrance, o critério dominante sobre o que privatizar é o de que não é papel do Estado ser empreendedor em diferentes atividades econômicas.
O Estado deveria limitar-se, principalmente, às funções tradicionais: educação, saúde, segurança e justiça, muitas vezes denominadas de funções Smithianas para lembrar as recomendações de Adam Smith, o primeiro formulador, em 1776, da ideologia do liberalismo econômico ou do laissez faire, laissez passer, na sua obra clássica, “A Riqueza das nações” (Livro Quinto).
As empresas estatais desempenharam um importante papel na evolução da economia brasileira no pós-II Grande Guerra. Essas empresas emergiam, quase sempre de forma pragmática, no bojo de diversos ciclos de expansão, visando a complementar a produção de bens e serviços em setores intensivos de tecnologia, ou de baixa rentabilidade privada no médio prazo, ou com grande margem de risco para os volumosos investimentos.
Essa produção tornou-se indispensável para a continuidade do processo de acumulação, por causa de dificuldades de importação em situações de crise no balanço de pagamentos e da necessidade de complementação das cadeias produtivas lideradas pela iniciativa privada.
Uma evidência a favor desse argumento de simbiose dos interesses das empresas privadas com as empresas estatais: quando, em 1982, o ministro Delfim Netto criou a SEST, uma secretaria especial de controle das empresas estatais, autarquias e fundações do Governo Federal, num total de 580 instituições, constatou-se que a sua grande maioria (56%) havia sido criada pelo Regime Militar, cuja doutrina primária estava centrada no liberalismo econômico de Roberto Campos, Bulhões e Gudin.
Mesmo considerando que a metamorfose das empresas estatais se deu com muitos acertos e alguns desacertos, o balanço geral das privatizações no Brasil é extremamente positivo, do ponto de vista macroeconômico e do ponto de vista microeconômico. As empresas privatizadas deixaram de pressionar os déficits fiscais pela redução das necessidades de financiamento, contribuíram para a retomada dos investimentos em setores estratégicos, e trouxeram saldos positivos para os superávits primários do setor público consolidado e para o saldo das transações correntes nas contas externas*.
Da mesma forma, adotaram estratégias empresariais e novas técnicas de gestão, a coordenação mais eficaz de suas cadeias produtivas, a substituição de processos produtivos ultrapassados pela nova geração de inovações das tecnologias de informação, assim como a autonomia e a flexibilidade de seus processos decisórios, contribuindo, de maneira inequívoca, para um aumento generalizado dos níveis de competividade sistêmica nos setores e ramos industriais de sua atuação.
Um eventual novo programa de privatizações e de concessões no âmbito federal e estadual deve ser construído não a partir de ideologias historicamente descontextualizadas, mas de um conjunto de critérios que envolvam diretamente os interesses efetivos e as aspirações da sociedade brasileira.
Em termos do processo em si, é preciso considerar as estratégias de valorização de ativos, o respeito aos direitos da força de trabalho prevalecente, o grau de transparência nas diferentes etapas decisórias, o nível de confiabilidade da opinião pública, a comunicação social, etc.
Em termos das consequências do processo de bem-estar da população, há necessidade de impor aos os novos controladores privados condicionalidades quanto a novos investimentos, à qualidade de serviços, à precificação e seus efeitos distributivos, etc.
BOX 2
O HOMO OECONOMICUS NUMA SOCIEDADE DSIGUAL
Com o início do processo eleitoral de 2026 para os novos mandatos de presidente da República e de governadores, os candidatos irão apresentar suas propostas de governo. O que se tem visto, em geral, são inúmeras entrevistas que, de certa forma, pretendem aperfeiçoar, avançar e tornar mais eficaz o que os governos anteriores ainda não conseguiram realizar: o equilíbrio fiscal, associado a um conjunto de reformas econômicas e político-institucionais (previdenciária, tributária, política e administrativa) na esperança de que outros objetivos da sociedade venham a realizar por acréscimo, no caso do Governo Federal.
Se for apenas assim, é grande o risco de se fazer mais do mesmo e ainda pior no próximo mandato presidencial. Afinal, o Brasil já acumulou um grande número de políticas econômicas malsucedidas, as quais prenunciam as benesses de um processo de desenvolvimento sustentável que acaba nunca ou apenas parcialmente a acontecendo, na síndrome de “tudo bem no ano que vem”.
Na verdade, está mais do que na hora de lideranças e partidos políticos enfrentarem os problemas estruturais de nossa economia, incorporando as aspirações do povo brasileiro numa agenda de grandes transformações, confrontando velhos dilemas com ideias renovadas.
O que mais impressiona é o conformismo político da maioria dos formadores de opinião pública com o atual status quo socioeconômico e socioambiental do Brasil. Talvez a explicação para essa postura conservadora de líderes empresariais, políticos e comunitários esteja na figura do homo economicus que vem sendo forjada pelo capitalismo desde a sua origem, na fase final da Idade Média. Mas quem é o homo economicus nas atuais economias mistas de mercado?
Albert Hirschman,* um dos mais importantes intelectuais do século XX, formulou a teoria das paixões e dos interesses, que se aplica aos tempos atuais, considerando o tripé das funções do sistema: crescer, estabilizar e distribuir.
Ao longo do tempo foi se configurando um indivíduo isolado, orientado pelo interesse próprio, que escolhe, livre e racionalmente, entre os cursos alternativos de ação, os custos e os benefícios prospectivos para si próprio, ignorando, ao mesmo tempo, os custos e os benefícios para outras pessoas e para a própria sociedade.
Hirschman destaca dois elementos essenciais que caracterizam a ação impulsionada pelo interesse individual. Autocontida: é a atenção predominante ao dar mais importância ao cálculo racional do que àquilo considerado para as mesmas. Cálculo racional: isto é, um somatório de avaliar custos, benefícios, satisfações prospectivas.
Enfim, o homo economicus é produtor e consumidor, mas não pratica a cidadania. Em 1776, Adam Smith já afirmava: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que eles têm do seu próprio interesse. Dirigimo-nos não à sua humanidade, mas ao seu amor próprio, nunca falamos das nossas próprias necessidades, mas das vantagens que advirão para eles”.
III. CONFRONTANDO O CAPITALISMO
Philip Kotler, autor de mais de 50 livros inclusive do clássico “Marketing Management”, mesmo acreditando que o capitalismo é melhor do que qualquer outro sistema, apresenta 14 de suas principais limitações e ramificações que precisam ser superadas a fim de que possa ter um desempenho mais elevado. Na Introdução do livro “Confronting Capitalism”*, cita como referência Mahatma Gandhi: “A diferença entre o que estamos fazendo e o que somos capazes de fazer resolve a maioria dos problemas do mundo”.
Neste sentido, Kotler acredita que o capitalismo:
1. propõe pouca ou nenhuma solução para a persistente pobreza;
2. gera um nível crescente de desigualdades na renda e na riqueza;
3. fracassa em renumerar dignamente bilhões de trabalhadores;
4. pode não prover um número suficiente de empregos humanos face à crescente automação;
5. não atribui aos negócios plenamente todos os custos sociais de suas atividades;
6. explora o Meio Ambiente e os recursos naturais na ausência de regulamentações;
7. cria ciclos de negócios e instabilidade econômica;
8. enfatiza o individualismo e o interesse próprio às custas da comunidade e dos bens comuns;
9. encoraja o endividamento elevado do consumidor e conduz a economia à financeirização e não a uma orientação para a produção;
10. deixa que os interesses dos políticos e dos negócios subvertam os interesses da maioria dos cidadãos;
11. favorece o planejamento do lucro de curto prazo versus o planejamento de investimento de longo prazo;
12. deveria ter regulamentos com relação à segurança, a verdade na publicidade, ao comportamento anticompetitivo;
13. tende a uma visão restrita do crescimento do PIB;
14. necessita incorporar valores sociais e a felicidade na equação do mercado.
É evidente que a maioria dessas 14 questões se refere à realidade das economias capitalistas avançadas e emergentes (como é o caso do Brasil), com maior ou menor intensidade de acordo com as experiências históricas de cada país. Muito dessas reflexões de Philip Kotler se aplicam ao comportamento dos cidadãos como consumidores ou produtores na sociedade. (BOX 2). Entretanto, sem dúvida a maioria dessas análises se refere também à evolução comportamental das empresas no século 21, que deveriam seguir às seguintes diretrizes:
1. as companhias deveriam incorporar objetivos maiores em seus negócios de que apenas os lucros;
2. as companhias deveriam beneficiar não apenas os investidores, mas todos os indivíduos e grupos ou entidades que influenciam ou são influenciadas pelas ações, projetos e resultados da organização.
3. os líderes de companhias precisam estar comprometidos com as responsabilidades comunitárias (ou sociais) da companhia.
4. a cultura da companhia deveria colocar um grande valor na confiança, na autenticidade, no cuidado, na transparência, na integridade, na aprendizagem e no empoderamento.
Propostas utópicas? É claro que não, quando se observa o comportamento recente de inúmeras corporações nacionais e multinacionais. Essas corporações avançam no século 21 com um compromisso de serem globalmente competitivas com equidade social e sustentabilidade ambiental (ver BOX 3).
BOX 3
A empresa no século 21: competitiva, inclusiva e sustentável
Em 1926, Keynes em um famoso artigo “The End of Laissez-faire”, afirmava, ao prever o fracasso do modelo soviético, que as economias de mercado iriam se diferenciar quanto ao seu grau de socialização: “Acredito que, em muitos casos, o tamanho ideal para a unidade de controle e de organização fica entre indivíduo e o Estado moderno.
Sugiro, pois, que o processo se situa no crescimento e no reconhecimento de instituições semiautônomas entre as instituições estatais, cujo critério de ação no seu próprio campo é apenas o bem público conforme o seu entendimento e de cujas deliberações os motivos das vantagens privadas são excluídas”. Keynes admite que algum espaço possa ser necessário até que o altruísmo de grupos e classes particulares se expanda mais amplamente, desde que sujeito à soberania da democracia, expressa através do Parlamento.
Podemos interpretar a proposição de Keynes, fazendo a atual distinção entre os papéis do Governo e da sociedade civil para atingir os objetivos de desenvolvimento. A chamada questão da governança do sistema: o setor público (Governo), o setor privado (empresas e consumidores industriais) e a sociedade civil (organizações governamentais, movimentos sociais) trabalhando conjuntamente para realizar os objetivos de desenvolvimento da sociedade, ainda que num ambiente de tensões e conflitos interinstitucionais.
Um ponto a destacar na análise da evolução dos diferentes estilos de capitalismo é como as empresas têm se comportado na nova realidade dos sistemas econômicos no século 21: a sua evolução desde os anos 1970 até os dias de hoje. Nessa discussão, é preciso ter cuidado em descerrar o véu das peças de marketing que prevalecem entre as empresas modernas e o seu efetivo comportamento face às estruturas regulatórias do Poder Público que definem as políticas governamentais que irão impor restrições e condicionalidades a esse comportamento.
Essas políticas podem se alternar com as ideologias e doutrinas prevalecentes em cada mandato dos três níveis de governo. Millôr Fernandes dizia que, quando uma ideologia envelhece, ela vem morar no Brasil. Tal reflexão caracteriza a chamada “economia zumbi”, na qual ideias que já morreram insistem em ficar entre nós através de governos predominantemente ideológicos. Um governo ideológico é aquele que assume o poder com um receituário pré-fabricado como a expressão da verdade para enfrentar a gestão da “coisa pública”.
Com o discurso do Estado mínimo, por exemplo, procura desmontar as mais diferentes formas de intervenção direta e indireta dos governos nas questões sociais, econômicas e ambientais, desconhecendo que muitas dessas intervenções tiveram origem na própria necessidade de evolução do capitalismo.
Em um ensaio sobre a relação entre liberdade e capitalismo, Milton Friedman (1912-2006), líder da Escola de Economia da Universidade de Chicago, afirmava que o objetivo fundamental de uma empresa é a maximização do lucro obtido dentro da estrutura legal, sendo que qualquer outro objetivo secundário pode levar ao “puro e total socialismo”.
Essa concepção de empresa tornou-se dominante até os anos 1990, quando havia uma preocupação uníssona com os resultados financeiros dos empreendimentos e, ao mesmo tempo, uma absoluta indiferença com as perdas e ganhos socioeconômicos e socioambientais de suas ações estratégicas e operacionais.
A partir dos anos 1990, iniciou-se uma contraposição a essa concepção de empresa com a reformulação do conceito de competitividade. Michael Porter, da Universidade de Harvard, sintetizou essa reformulação, afirmando que uma empresa somente será competitiva se for competitiva do portão da fábrica ou da porteira da fazenda para dentro, se a cadeia produtiva ou a cadeia de valor na qual se insere for competitiva em seu conjunto e se a região em que se localiza for igualmente competitiva. Uma mudança de paradigma que implicou novos modelos mentais e sistemas de crenças para as lideranças empresariais.
Essa nova concepção de empresa promoveu a ampliação em seu escopo com a abrangência de uma tríplice base de objetivos (triple bottom line). A eficiência econômica, se a empresa criar uma vantagem competitiva sustentável, adotando estratégias de baixo custo ou de diferenciação e de diversificação dos produtos com suporte no progresso tecnológico.
A sustentabilidade ambiental, se a empresa se sujeita à preservação e à manutenção dos ativos e serviços ecossistêmicos ao longo do tempo, na busca de um jogo de soma positiva entre os interesses de várias gerações. Como terceiro objetivo, a equidade social, por meio de ações que se traduzam na melhoria na oferta de serviços sociais básicos e na formação do capital social e institucional.
Para inúmeras empresas, esse tripé de objetivos tornou-se um bem de luxo quando ocorreu a crise capitalista, a partir da crise econômica de 2008. Bens de luxo são aqueles cuja demanda cresce na fase de prosperidade econômica e que tendem a ser descartados, em primeiro lugar, na fase de recessão econômica. A essencialidade de um bem de luxo é definida a partir das estruturas ideológicas de dirigentes políticos ou empresariais responsáveis pela formulação e implementação de políticas públicas ou de estratégias corporativas.
Assim, essas empresas retornaram rapidamente à concepção Friedmaniana dos anos 1970, com uma roupagem nova, de que sua missão institucional é “maximizar o valor econômico para os acionistas”, sem deixar de apresentar na nova abordagem de marketing que estariam implementando em suas ações – o conceito de ESG (Environmental, Social and Governance).
Simultaneamente, desenvolveu-se a concepção contemporânea de valor público da empresa, a qual, como contraponto à dominância do desempenho financeiro, redefine a ideia de criação de valor, levando em consideração não apenas os aspectos hedonísticos e utilitaristas, mas também a dimensão ética e político-institucional dos negócios.
Segundo o paradigma do valor público da empresa, a sua estratégia de crescimento precisa ser monitorada através de diálogo com os interesses maiores da sociedade. Assim, muitas empresas brasileiras têm tido excelente performance financeira, criando valor para os acionistas, enquanto destroem o seu valor público ao contribuir para a degradação ambiental, para a concentração da renda e da riqueza nacional e para gerar lucros manchados de lama e de sangue.
Como as atuais estruturas regulatórias que condicionam as estratégias e as operações empresariais são controladas pelos órgãos de fiscalização do Poder Executivo e pelo Ministério Público, podem ocorrer “falhas de mercado” na aplicação da legislação trabalhista ou ambiental que podem ter custos sociais e econômicos de reparação e de reconstrução que, muitas vezes, chegam a ser superiores ao próprio valor econômico do investimento realizado (ver os casos de rompimentos das barragens de Mariana e de Brumadinho em Minas Gerais). É o que se denomina de processo autofágico da destruição de valor econômico resultante da gestão míope de dirigentes empresariais.
Ocorre, contudo, que, muitas vezes, o governo utiliza o discurso ideológico para acobertar interesses velados de lobbies empresariais de segunda classe ou de eleitores desinformados. De qualquer forma, um governo ideológico primário desconhece que o estágio atual das políticas públicas representa um ponto de equilíbrio tenso do consenso histórico prevalecente entre as ideias e os interesses dos diferentes grupos sociais de uma nação. Podemos afirmar que o neoliberalismo, no Brasil, se estruturou a partir de alguns poucos idealistas preocupados com uma nova ideologia para o futuro do País e de muitos para manter e ampliar a sua riqueza econômica.
Não se espera que as organizações empresariais se transformem em agências de desenvolvimento social ou regional. Mas que, nas relações produtivas, evitem tratar os trabalhadores como num regime de semiescravidão; o meio ambiente como um almoxarifado de recursos naturais renováveis e não renováveis de acesso livre com valor de uso, lucrativo ou de subsistência; o Estado como estorvo à realização dos mega lucros e ganhos financeiros; as instituições públicas apenas como parceiras nas práticas do protecionismo, dos subsídios e das operações de salvamento nas crises econômicas e financeiras.
Sabe-se que muitas das mazelas socioeconômicas e socioambientais da atualidade brasileira vêm das atitudes neo-Friedmanianas assumidas pelas nossas empresas, muitas delas com os pés no século 21 e a estrutura mental dos anos 1970. Basta analisar o comportamento de produtores rurais, madeireiros, garimpeiros, pecuaristas, biopiratas na exploração predatória da Amazônia ou do Cerrado, ou o comportamento de famílias e empresários urbanos no seu relacionamento com a mão de obra não qualificada que sobrevive na pobreza da periferia nas grandes metrópoles.
IV. CAPITALISMO NEOLIBERAL E CAPITALISMO PROGRESSISTA
Há um consenso entre muitos analistas da atual situação socioeconômica do Brasil de que, em momentos de crise, as ideias importam e são poderosas. Elas têm a capacidade de dar substância histórica à diversidade dos interesses dos diferentes grupos sociais em termos de ações programáticas. Elas são capazes de determinar a forma e o conteúdo das instituições que formulam e definem a trajetória histórica de um país, de suas regiões e classes sociais.
Mas lembram também que ideias equivocadas ou insuficientes, em termos do contexto histórico de cada país, podem ser uma trava ou uma ilusão no processo das mudanças necessárias. É o caso da ideia do atual modelo de equilíbrio fiscal expansionista, que tem fundamentado a formulação e a implementação da política econômica no Brasil, desde 2014, passando por governos com ideias mais conservadoras e governos com ideias mais progressistas.
O atual ajuste fiscal, realizado sem um projeto nacional de desenvolvimento, embora indispensável a uma economia à beira de uma crise financeira, tem trazido enormes sobrecargas emocionais para a felicidade da população em termos de desemprego, da concentração da renda e da riqueza, da perda da quantidade e da qualidade dos serviços públicos essenciais.
Essas sobrecargas têm promovido certo grau de fadiga e de impaciência na população em relação ao atual estilo de ajuste fiscal, com suas incertezas e platitudes, com a promessa de que, com o equilíbrio das contas públicas, o crescimento sustentado da renda e do emprego virá por acréscimo, num estilo tipicamente panglossiano. (ver BOX 4)
É preciso que a retomada do crescimento econômico acelerado do País venha acompanhada de um novo ciclo longo de expansão econômica. Não se trata da falta ou da limitação de potencialidades para crescer. O Brasil dispõe de uma base ampla e diversificada de recursos naturais renováveis e não renováveis, o que lhe dá vantagens comparativas e competitivas internacionais para um processo de crescimento acelerado e para a formação de poderosas cadeias produtivas.
O nível de desenvolvimento das instituições políticas e das organizações econômicas no Brasil atingiu um patamar que favorece a formação de ciclos de expansão, a partir de forças endógenas (capitais intangíveis). Da mesma forma, a mudança mais recente do papel do Estado na economia, embora lenta e intermitente por indefinições ideológicas, tem criado melhores condições e oportunidades de novos ciclos de crescimento.
Se consideramos a consolidação de um processo de reforma do Estado, a economia brasileira tende a se tornar mais aberta, menos regulamentada, mais privatizada e, portanto, mais propensa ao crescimento econômico. Nesse contexto, continuamos a praticar a difícil arte de não crescer em um país vocacionado para se tornar uma economia avançada, que tem condições político-institucionais de realizar efetivamente os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
Um dos problemas específicos do capitalismo no Brasil é a necessidade de se consolidar uma nova geração de empreendedores, inconformados com o status quo, que tenham o perfil cultural, a base ideológica e a sensibilidade política para lidar com os desafios contemporâneos de um mundo cada vez mais veloz, mais complexo e mais inextricável.
Novos empreendedores com níveis de informação e conhecimento compatíveis com as inovações tecnológicas das revoluções industriais em marcha. E, ao mesmo tempo, compatíveis com uma cosmovisão indispensável para lidar, em seu planejamento estratégico, com as questões da sustentabilidade ambiental e da equidade social, em um país no qual as elites têm se tornado cada vez mais especulativas no campo econômico e impiedosas no campo socioambiental.
A importância de se rejuvenescer o capitalismo, criando oportunidades para a emergência de uma nova geração de empreendedores econômicos, sociais e culturais, se exprime na reflexão de Keynes, escrita em dezembro de 1935: “A dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar das velhas, que se ramificam, para aqueles que foram criados como a maioria de nós foi, por todos os cantos de nossas mentes”.
Há dois estilos do capitalismo que se contrapõem em termos de ideias consolidadas historicamente quanto ao futuro do capitalismo no Brasil, o que tem levado à polarização política: o capitalismo neoliberal e o capitalismo progressista.
Toda sociedade enfrenta problemas fundamentais provocados pela escassez relativa de fatores de produção. Tem que decidir o que produzir, como produzir, para quem produzir e onde produzir, uma vez que os fatores escassos têm usos alternativos, conforme destaca a concepção tradicional da Ciência Econômica.
Essas decisões podem se realizar por mecanismos institucionais de comando e controle, como em algumas experiências socialistas no século XX. Ou através dos mecanismos de mercado onde as decisões econômicas em sua maioria são tomadas por indivíduos e não por instituições ou organizações coletivas (burocracias governamentais, partidos políticos, etc.). Reserva-se para essa ideologia, que é contrária à intervenção do Estado na economia, a denominação de liberalismo econômico.
Mas, como as principais teses do liberalismo econômico tiveram sua origem no século XVI, quando então nasciam as primeiras experiências do capitalismo na Europa, e vieram a se estruturar, principalmente no século XVIII, a partir da obra clássica de Adam Smith, é fundamental analisar como diferentes opções ideológicas foram se configurando dentro do próprio liberalismo econômico.
Pouco a pouco, a intervenção do Estado foi avançando com maior ou menor intensidade diante dos desafios de três questões estruturais, à medida que as sociedades se tornaram mais complexas, gerando o que se denomina “economias mistas de mercado”.
A primeira questão se refere aos mecanismos e aos instrumentos de redução das desigualdades sociais e espaciais na distribuição da renda e da riqueza nacional, assim como na redução da pobreza e da miséria na sociedade. Alguns regimes econômicos se preocupam apenas em lidar com os problemas sociais dos idosos, dos incapazes e dos deficientes físicos, deixando que os estímulos e a dinâmica dos mercados promovam autonomamente uma distribuição mais equânime da renda e da riqueza nacional no longo prazo.
Outros formulam e executam poderosas e abrangentes políticas sociais compensatórias que acabam absorvendo parcelas expressivas dos recursos fiscais e financeiros dos governos, mesmo que essas políticas sejam insuficientes para reestruturar os regimes de desigualdades (ver Texto VI).
A segunda questão estrutural está relacionada às falhas de mercado, como a formação de monopólios, a exploração predatória dos ecossistemas, os elevados custos sociais e ambientais das atividades empresariais, a insaciável especulação financeira, etc. Há regimes que são mais tolerantes com essas falhas no funcionamento dos mercados; outros impõem estruturas regulatórias para o exercício do comando e controle da economia visando a preservar a qualidade dos bens e serviços, a conservar o meio ambiente, a garantir a defesa do consumidor, etc.
A terceira questão se refere a quais responsabilidades os governos devem assumir sobre a instabilidade dos ciclos econômicos e seus impactos perversos sobre os níveis de desemprego ou da inflação. Por exemplo, nos Estados Unidos, o Federal Reserve (o Banco Central Norte-Americano) conduz a política monetária com um olho na inflação e outro na manutenção do pleno emprego na economia.
Por outro lado, alguns países concentram os seus instrumentos de política econômica apenas na perseguição das metas inflacionárias, utilizando preferencialmente poucas regras discricionárias para evitar intervenções mais frequentes e erráticas nos mercados.
Essa lista mínima de questões estruturais, que levaram as economias de mercado a se diferenciarem ao longo do tempo, coloca para o cidadão brasileiro um clima de perplexidade sobre as decisões pragmáticas, casuísticas e muitas vezes contraditórias das políticas públicas que, provavelmente, poderão ocorrer a partir da nova gestão da economia nacional. O que pode levá-lo a perguntar: liberalismo econômico, afinal de que se trata? (ver BOX 4).
Para melhor compreender o jogo de poder político que leva às concepções alternativas do capitalismo, Joseph Stiglitz Prêmio Nobel de Economia em 2021, contrapõe didaticamente a concepção das políticas do capitalismo neoliberal e a concepção do capitalismo progressista quanto às estâncias das falhas de mercado. Considera o capitalismo progressista, (ou uma democracia social rejuvenescedora), que coloca o bem estar de todos os cidadãos no seu centro, indo além dos bens materiais para incorporar o sentido de segurança e liberdade, considera o florescimento humano como objetivo de nosso sistema econômico e social, que inclui cidadãos convivendo com vidas significativas e criativas (Joseph E. Stiglitz – The Road to Freedom –Economics and the Good Society, Norton, 2024, chapter 11, pg. 218 a 225).
Falha de Mercado
Posição da política neoliberal
EXTERNALIDADESAmbiental;saúde pública;conhecimento;econômico.Por exemplo: quando uma instituição financeira assume riscos excessivos, impõe altos custos para o resto da sociedade (Banco Master, por exemplo).
nenhuma intervenção no mercado (desregulamentar onde houver ainda regulamentação).(Teorema de Coase: se direitos de propriedade são devidamente atribuídos, o mercado resolverá por si só o problema).
BENS PÚBLICOS E FALHAS DECOORDENAÇÃO
deixar para o setor privado a oferta dos bens; quando o governo intervém, confiar na produção privada.(Teorema de Coase: mercado resolve eficientemente os problemas dos bens públicos).
Consequências
Políticas do capitalismoprogressista
muitas externalidades negativas e poucas externalidades positivas;poluição excessiva;piores pandemias;muito pouca inovação;crises econômicas e financeiras muito graves.
regulações, “tributação corretiva”, investimento público resultando em:melhor Meio Ambiente;melhor controle de pandemias;política Industrial para promover inovações com grande espraiamento nas cadeias de valor;regulamentação financeira (micro, que garante solvência bancária; macro, políticas focadas na estabilidade econômica e no plenoemprego.
subinvestimento em educação,saúde, tecnologia e infraestrutura;lento crescimento; menos igualdade e menosigualdade de oportunidades;empresas privatizadas buscamlucros com sacrifício nas metas sociais;privatização e parcerias público-privadas muitas vezes significam socialização de perdas e privatização de lucros.
investimentos públicos; algumas vezes financiamentopúblico com provisão privada; algumas vezes com produçãopública.
Falha de Mercado
Posição da Política Neoliberal
INFORMAÇÂO IMPERFEITA
deixar para o setor privado (nenhum requisito de transparência; aresponsabilidade do consumidor).
riscos de mercadosimperfeitosausência de seguros contrariscos importantes.
deixar para o mercado;nenhuma atenção àsconsequências de risco de políticas como liberalização de mercado, porque os mercados administram perfeitamente os riscos.
Consequências
Políticas do capitalismoprogressista
transparência imperfeita, conduzindo a alocações derecursos subóptimas e distorcidas, além de exploração dos consumidores.
requisitos de transparência;regulamentações (consumidor, financeiro, trabalho) evitandovantagens de assimetrias de informações e outras formas de exploração;leis para tornar empresas confiáveis e processos para promover direitos dos prejudicados;restrições a arbítrios compulsórios.
perda de bem-estar (e produtividade) como resultado da insegurança podendo inclusive inibir inovação;ausência de seguro de saúde leva a uma saúde de pior qualidade, à produtividade reduzida;excessiva volatilidade econômica, perdas altas de bem-estar por causa da volatilidade.
toda política (de comércio, financeira, etc.) leva emconsideração incertezas induzidas e crescente volatilidade;programas de seguro social/proteção, segurança: seguro desemprego, aposentadoria, saúde;empréstimos de renda contingenciados/compulsórios;opinião pública.
Falha de Mercado
Posição da Política Neoliberal
INFORMAÇÃO IMPERFEITA
deixar para o setor privado (nenhum requisito de transparência; a responsabilidade do consumidor).
RISCOS DE MERCADOSIMPERFEITOSAUSÊNCIA DE SEGUROSCONTRA RISCOS
deixar para o mercado;nenhuma atenção àsconsequências de risco de políticas como liberalização de mercado-porque os mercados administram perfeitamente os riscos.
Falha de Mercado
Posição da Política Neoliberal
Mercados de capitais imperfeitos (racionamento de crédito, dificuldades paratomar empréstimos ou levantar patrimônio financeiro).
Mega relevância do problema;Deixar para o mercado resolver.
Flutuações macroeconômicas (macroeconomia dasexternalidades; por exemplo: empresas divididasexcessivamente, gerando grande volatilidade).
mercados respondem otimamente a choques e não têm nenhum papel na criação de choques;se há desemprego é porque os trabalhadores demandam altos salários (culpando avítima); resposta: aumente a flexibilidade do mercado de trabalho.
Consequências
Políticas do Capitalismo Progressista
investimentos de alta produtividade não são feitos, por exemplo nas MPMEs.
empréstimo para as MPMEs;desenvolvimento de bancos“verdes” que financiam investimentos de desenvolvimento sustentável.
subemprego episódico dos recursos da sociedade;perda massiva de bem-estar especialmente com desemprego.
políticas de estabilização fiscal e monetária;estabilizadores automáticos;proteção social (seguro desemprego).
Folha de Mercado
Posição da Política Neoliberal
MACRO – INFLAÇÃO
Banco Central precisa estabelecer meta de inflação aumentando as taxas de juros quando a inflação ultrapassar 2%.
FALTA DE CONCORRÊNCIA
deixar para o mercado; os mercados são naturalmente competitivos (competição potencial, competição para o mercado é substituto para competição no mercado.
Desigualdade Excessiva
deixar para o mercado ou para o processo político.
Consequências
Políticas de CapitalismoProgressista
grande hiato no PIB (disparidade entre o potencial da economia e a produção atual);desemprego elevado; estabilidade de preço às custas de instabilidade na produção.
resposta depende da origem de inflação;choques de oferta através de políticas fiscais para superar hiatos de produção.
alta concentração de poder de mercado;preços altos;baixos salários; economia menos resiliente;menos inovação.
alta concentração de renda e maior da riqueza e do poder e muita gente na pobreza;falta de esperança, oportunidade – mortes de desespero;solapar a democracia e a coesão social;impactar negativamente o desempenho econômico.
pré-redistribuição (políticas como salários mínimos e liquidação trabalhista igualdade crescente de rendas de mercado):redistribuição através de impostos;programas de gastos públicos (educação, saúde, etc).
Qual dessas concepções de capitalismo deverá prevalecer no futuro da economia brasileira? A atual polarização na arena política do País é uma demonstração de que os impasses nas agendas dos diferentes partidos têm nos levado à gestão errática da “coisa pública” e, por não saber para onde ir, os governantes são prisioneiros das decisões casuísticas e inconsequentes. Como dizia Sêneca: “Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável”.
BOX 4
O BRASIL PRECISA DE UM PROJETO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO
Nos últimos anos, os economistas têm se dedicado predominantemente a equacionar os problemas dos desequilíbrios fiscais e da insolvência financeira dos três níveis de governo através de políticas econômicas de curto prazo, associadas a um conjunto de reformas microeconômicas e institucionais.
O pressuposto dessas políticas é a expectativa de que finanças públicas em equilíbrio, com taxas de inflação típicas do mundo desenvolvido e com endividamento público sob controle, criarão um ambiente psicossocial favorável à retomada do crescimento e da geração de emprego.
Pensam, pois, que é desnecessário um projeto nacional de desenvolvimento o qual, a partir de uma visão do País, baseada num diagnóstico realista e atualizado sobre os problemas e as potencialidades do desenvolvimento brasileiro, possa promover um novo ciclo de expansão econômica e de progresso social. As forças desacorrentadas dos mercados, num ambiente de estabilidade monetária, de previsibilidade econômica e de estabilidade social trarão a prosperidade para todos os grupos da sociedade.
Não há dúvida de que, no atual contexto da economia brasileira, quem faz o crescimento do País são empresários dinâmicos e inovadores, particularmente uma nova geração mais familiarizada com as exigências de informação e conhecimento das novas revoluções industriais e científicas. Mas esses empreendedores necessitam que se reduzam os graus de incerteza e de risco que dominam o atual cenário econômico e político do País. Não se pode limitar esse cenário às crenças e atitudes de governantes que pensam modificar o curso dos acontecimentos apenas por seu alvedrio.
Keynes, o maior economista do século XX, foi um crítico cáustico desse comportamento casuístico e voluntarista dos dirigentes públicos. Lembrava que o principal objetivo da acumulação de capital ou de riqueza é produzir resultados ou resultados potenciais num período relativamente distante. O fato de que o nosso conhecimento do futuro é flutuante, vago e incerto, torna muito difícil ter uma visão mais clara e responsável de como se distribuem consistentemente as perdas e os danos das decisões casuísticas e pragmáticas sobre os grupos sociais, as regiões e os setores no presente e no futuro.
A principal atribuição de se dispor, em um país, de um projeto nacional de desenvolvimento é, pois, a de ser um redutor de incertezas, tendo como apoio um processo de planejamento de médio e de longo prazo. Um planejamento mais indicativo, mais leve, mais exato, mais participativo. Quando falta uma visão de perspectiva sobre os interesses maiores da sociedade, os governantes vão priorizando os objetivos de desenvolvimento do país num ziguezague de decisões oportunísticas e eleitoreiras.
Esse caminhar de curto em curto prazo lembra a estória que se passa no Sul da França, na Idade Média. Havia três anos que essa região agrícola enfrentava uma seca persistente e a comunidade estava faminta. Alguém lembrou que perto do povoado havia um agricultor que tinha um porco muito gordo, tratado com carinho.
Todos se dirigiram para essa propriedade. O agricultor percebendo a intenção da multidão famélica pegou o porco e o colocou no meio da sala e começou a atirar contra a multidão. Ao se movimentar de um lado para o outro, tropeçou várias vezes no porco, até que, impaciente, atirou o porco para fora da casa e exclamou: “esse porco está atrapalhando a minha guerra”!
Moral da estória: também na vida pública, o governante que não tem uma perspectiva ou um projeto de desenvolvimento para o país, pode abandonar um objetivo de alta prioridade para o futuro da sociedade e saltar para qualquer outro por argumentos de ocasião.
* Branko Milanovic – Capitalism, Alone. The Future of the System that Rules the World, Harvard, 2019
* Peter Evans – A Tríplice Aliança, Zahar Editores
* Profissionalmente, participei de diversos processos de privatização no Brasil, destacando-se a privatização de IBC, como consultor da FAEMG, e cinco privatizações quando estive no Governo Federal como ministro do Planejamento (3 meses) e ministro da Fazenda (2 meses), destacando-se a privatização da ACESITA, hoje parte do Grupo ArcelorMittal.
* Albert Hirschman – The Passions and the Interests: Political Arguments For Capitalism Before Its Triumph, 1977.
* Philip Kotler – Confronting Capitalism. Amacon, 2015. Há um capítulo específico para cada uma dessas 14 limitações.
Premiação reconhece a trajetória da bióloga Maria Teresa Fernandez Piedade, marcada por pesquisas em ecossistemas aquáticos, e reforça o papel estratégico da ciência na Amazônia diante das mudanças climáticas e da pressão sobre os recursos naturais.
A bióloga Maria Teresa Fernandez Piedade, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), recebeu o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, considerado a mais importante honraria da ciência no país. A premiação é concedida anualmente pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em parceria com a Marinha do Brasil.
Criado em 1981, o prêmio reconhece pesquisadores que se destacam pela produção científica ou tecnológica de grande relevância. A cerimônia de entrega está marcada para 7 de maio, no Rio de Janeiro, quando a cientista receberá diploma, medalha e R$ 200 mil.
Com quase 50 anos dedicados à ciência na Amazônia, Maria Teresa construiu uma trajetória marcada pelo estudo dos ecossistemas aquáticos da região. Atualmente, atua como docente nos programas de pós-graduação em Ecologia e Botânica do Inpa e lidera pesquisas voltadas ao monitoramento e uso sustentável de áreas úmidas.
O interesse pela região amazônica surgiu ainda durante a graduação em Biologia, cursada na Universidade Federal de São Carlos. “Naquela época era basicamente um sonho”, relembra a pesquisadora. Esse objetivo começou a se concretizar após sua especialização no próprio Inpa, onde decidiu direcionar seus estudos para os ambientes aquáticos da Amazônia.
Ao longo da carreira, Maria Teresa também concluiu mestrado e doutorado na instituição e passou a integrar o quadro de pesquisadores em 1988. Além disso, acumulou experiências como professora convidada em universidades e centros de pesquisa, no Brasil e no exterior, contribuindo para o avanço da ciência na Amazônia em diferentes frentes.
A sua atuação inclui participação em iniciativas internacionais, como o conselho científico do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera da Amazônia, além de cooperações com instituições como a Sociedade Max-Planck. No cenário nacional, integrou o Conselho Nacional de Zonas Úmidas e contribuiu para diagnósticos sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos.
Atualmente, suas pesquisas se concentram nos efeitos das variações no nível dos rios amazônicos, fenômeno que influencia diretamente a dinâmica dos ecossistemas. Segundo a cientista, o ciclo de cheias e vazantes molda adaptações biológicas e impacta cadeias alimentares e estoques de carbono, temas centrais para a ciência na Amazônia diante das mudanças climáticas.
Rios amazônicos e áreas alagáveis são centrais para a ciência na Amazônia e influenciam o clima e a biodiversidade do Brasil. Foto: Adobe Stock
Os estudos também investigam impactos de intervenções humanas, como a construção de barragens. Em análises sobre a usina de Balbina, no Amazonas, a pesquisadora identificou a degradação gradual de áreas florestais ao longo de décadas, associada à alteração no regime natural das águas.
Maria Teresa destaca ainda a dimensão e a importância dos sistemas hídricos amazônicos. Grandes rios e áreas alagáveis ocupam cerca de 750 mil km², enquanto igarapés ultrapassam 1 milhão de km², desempenhando papel fundamental em todo o país.
“A sociedade brasileira, de uma maneira geral, depende de todo o balanço hídrico da região amazônica. Os corpos d’água e a floresta formam um conjunto que bombeia a água para os sistemas da terra e essa água se transforma em rios voadores que vão para o Sul, Sudeste”, afirma.
A pesquisadora destaca ainda a importância da ciência na Amazônia para a preservação de ecossistemas. “As pesquisas acabam sendo fundamentais para que a gente possa tanto designar áreas de preservação, quanto entender a fragilidade e a necessidade de preservar esses sistemas da maneira como eles normalmente funcionam”, defende.
“Com base em dados do UNICEF, o fortalecimento de parcerias entre instituições públicas e sociedade emerge como condição essencial para garantir direitos na primeira infância e transformar diagnóstico em ação no Amazonas e no Brasil”
“Tudo o que fizerdes a um desses pequeninos, é a mim que o fareis.”, diz o preceito evangélico. A força dessa orientação não se limita à dimensão espiritual. Ela organiza, de forma quase silenciosa, uma ética pública. Coloca a infância no centro das responsabilidades coletivas e desloca o debate do campo da intenção para o da ação concreta.
No Amazonas, essa transição entre princípio e prática começa a ganhar contornos mais consistentes quando instituições distintas passam a operar como sistema. O seminário promovido pelo Ministério da Educação, com a participação doTCE-AM, da Atricon e do Instituto Rui Barbosa, não é apenas um encontro técnico. Ele sinaliza uma mudança de método. O reconhecimento de que nenhuma política para a primeira infância se sustenta de forma isolada.
Seminário Estadual “Políticas Públicas para a Primeira Infância: Diagnóstico e Ação”
Os dados do UNICEF ajudam a dimensionar esse desafio com precisão. Globalmente, cerca de 200 milhões de crianças menores de cinco anos correm risco de não atingir seu pleno potencial de desenvolvimento por fatores associados à pobreza, desnutrição, falta de estímulos adequados e acesso precário a serviços básicos. No Brasil, apesar dos avanços institucionais, persistem desigualdades profundas. Milhões de crianças ainda vivem em contextos de vulnerabilidade que combinam insegurança alimentar, baixa cobertura de creches e lacunas no acesso à saúde e à proteção social.
Esse cenário não decorre da ausência de políticas, mas da fragmentação delas. O que o UNICEF vem reiterando, em diferentes relatórios, é que os primeiros anos de vida exigem abordagens integradas. Crianças não se desenvolvem em “setores”. Elas crescem em ambientes. E esses ambientes são resultado da interação entre saúde, educação, renda, proteção e afeto.
Foto: iAko M. Randrianarivelo/Mira Photo
É nesse ponto que o papel das parcerias se torna estrutural. A intersetorialidade, mencionada como o primeiro grande desafio nacional, não é um conceito abstrato. Trata-se de alinhar agendas, compartilhar dados, coordenar investimentos e, sobretudo, reconhecer que o impacto só ocorre quando há convergência.
O segundo desafio, a integração de dados, revela outra dimensão crítica. Sem informação qualificada, o Estado opera no escuro. O UNICEF destaca que países que conseguem acompanhar indicadores individualizados de desenvolvimento infantil tendem a ser mais eficazes na alocação de recursos e na prevenção de riscos. No Brasil, ainda há descompasso entre sistemas de informação, o que dificulta a identificação precisa das crianças mais vulneráveis.
O terceiro ponto, o financiamento, fecha esse ciclo. Investir na primeira infância não é apenas uma escolha social, é uma decisão econômica de longo alcance. Estudos amplamente difundidos pelo próprio UNICEF e por organismos multilaterais indicam que cada real investido nessa fase gera retornos elevados ao longo da vida, reduzindo custos futuros com saúde, educação corretiva e assistência social.
Nesse contexto, a atuação dos Tribunais de Contas passa por uma inflexão relevante. Ao ampliar sua função para além da fiscalização e incorporar um papel orientador, essas instituições ajudam a reorganizar o sistema. Não substituem o gestor, mas qualificam sua ação. Não apenas apontam falhas, mas induzem caminhos.
A experiência do TCE-AM, ao estruturar programas voltados à melhoria da qualidade do ensino e ao apoiar os municípios em áreas estratégicas como alfabetização, permanência escolar e maturidade da gestão, dialoga diretamente com essa agenda. Trata-se de construir capacidade institucional onde ela é mais necessária: no nível local, onde a política pública encontra a criança real.
O que se observa, portanto, é a emergência de uma lógica de corresponsabilidade. União, estados, municípios, órgãos de controle, sistema de justiça, sociedade civil e organismos internacionais passam a operar em rede. Cada um com sua competência, mas orientados por um objetivo comum.
Cuidar da infância deixa de ser uma pauta setorial e assume a condição de projeto de país. E talvez seja esse o ponto mais sensível do preceito que inspira este ensaio. Ele não distingue esferas de poder, nem atribui responsabilidades isoladas. Ele convoca.
Ao final, o que está em jogo não é apenas o futuro das crianças, mas a consistência das instituições que afirmam protegê-las. Porque toda política pública, quando dirigida aos mais vulneráveis, revela o grau de maturidade de uma sociedade.
E é justamente nesse terreno que as parcerias deixam de ser uma escolha administrativa e passam a ser uma exigência ética.
Entre a floresta e o asfalto, o Brasil segue falhando em garantir o básico: conciliar preservação ambiental com dignidade humana, sem transformar direitos em obstáculos uns dos outros.
Coluna Follow-Up
A nova suspensão dos editais da BR-319 mal havia sido assimilada quando veio a contraordem. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região restabeleceu a tramitação das licitações, revertendo a decisão anterior.
Mais do que um episódio jurídico, o movimento revela que o problema não está apenas na decisão A ou B. Está na incapacidade do sistema de produzir uma trajetória minimamente estável.
O que se vê é um ciclo. Suspende-se, restabelece-se, volta-se a questionar. E, nesse intervalo, o Amazonas permanece no mesmo lugar.
A decisão recente é clara ao reconhecer que a paralisação provoca efeitos concretos e imediatos. Afeta a economia pública, compromete a logística, amplia riscos sanitários e pode tornar inviável a execução das obras no ciclo climático adequado.
Mas o fato de essa constatação surgir apenas depois da interrupção reforça a ideia que o país reage aos danos depois que eles já começaram a ocorrer.
Quando o rigor perde o sentido prático
Não há dúvida sobre a necessidade de rigor ambiental. A Amazônia exige isso. O que está em questão é outra coisa. O rigor, quando não vem acompanhado de coordenação institucional, deixa de ser proteção e passa a produzir paralisia. E a paralisia, neste caso, tem consequências sociais diretas.
A própria decisão do TRF1 reconhece que a BR-319 não é uma obra qualquer. Trata-se da única ligação terrestre permanente entre o Amazonas e o restante do país, com implicações diretas para abastecimento, mobilidade e acesso a serviços essenciais. Ignorar esse dado não fortalece a agenda ambiental. Apenas a desconecta da realidade.
O erro de transformar o debate em disputa
A oscilação decisória também alimenta uma narrativa improdutiva. De um lado, ambientalistas vistos como obstáculo. De outro, gestores tratados como ameaça. Essa simplificação impede qualquer avanço. O próprio processo mostra que não há ausência de análise técnica. Há, sim, excesso de instâncias sem convergência.
A decisão que suspendeu a liminar menciona a existência de múltiplas avaliações técnicas e jurídicas no âmbito do Executivo. A decisão anterior, por sua vez, questiona essa mesma base. O resultado é conflito institucional.
A omissão que se torna invisível
Enquanto o debate se concentra no risco ambiental — legítimo e necessário —, outro risco permanece sem tratamento equivalente. O custo da ausência de infraestrutura.
A decisão do tribunal toca nesse ponto ao destacar que a precariedade da rodovia impõe vulnerabilidade logística e sanitária às populações da região, além de encarecer permanentemente a manutenção do próprio sistema. Mas essa dimensão raramente encontra o mesmo nível de exigência institucional.
A pergunta continua válida. Quem responde pela omissão?
O dano não está na obra, está no intervalo
A cada interrupção, perde-se mais do que tempo. Perde-se a janela operacional, elevam-se custos, agrava-se a deterioração da estrada e prolonga-se a exposição das populações a condições precárias.
A justiça reconhece que, no contexto amazônico, decisões aparentemente temporárias podem produzir efeitos irreversíveis, especialmente quando interferem no calendário climático da região. Esse é o ponto mais sensível.
O dano não está apenas na decisão de fazer ou não fazer. Está na incapacidade de decidir de forma contínua.
Interlocução ou repetição
A BR-319 já tornou-se um espelho institucional. Um país que acumula diagnósticos, produz decisões qualificadas em diferentes instâncias, mas falha em organizá-las em uma direção comum.
A decisão mais recente apenas desloca o pêndulo.
Sem um ambiente de coordenação entre Judiciário, órgãos ambientais e gestão pública, cada nova medida continuará sendo seguida por sua reversão.
E o resultado será sempre o mesmo.
A repetição do impasse.
A Amazônia precisa de previsibilidade.
Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas-feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br