Plantas não absorvem tanto gás carbônico quanto os cientistas acreditavam. Entenda porque isso pode ser preocupante.

Nova análise científica mostra que modelos climáticos superestimaram a fertilização por CO₂ ao ignorar limites naturais de nitrogênio em ecossistemas como florestas tropicais.

Pesquisas recentes revelam que os modelos climáticos utilizados há décadas podem ter superestimado a capacidade das plantas de absorver dióxido de carbono (CO₂). Essa estimativa se baseia no chamado efeito de fertilização por CO₂, a ideia de que o aumento da concentração de carbono na atmosfera estimula o crescimento vegetal e contribui para mitigar o aquecimento global. No entanto, esse efeito depende da disponibilidade de nutrientes no ambiente, especialmente o nitrogênio, que nem sempre está presente em quantidade suficiente na natureza.

Segundo o estudo internacional liderado por Sian Kou-Giesbrecht, da Simon Fraser University (Canadá), com participação da bióloga Bettina Weber, da Universidade de Graz (Áustria), muitos modelos do Sistema Terrestre superestimam a taxa de fixação de nitrogênio em áreas naturais. “Comparamos diferentes modelos do Sistema Terrestre com valores atuais de fixação de nitrogênio e constatamos que eles superestimam a taxa de fixação em superfícies naturais em cerca de 50%”, afirma Weber.

Raízes com microrganismos fixadores de nitrogênio, fundamentais para a fertilização por CO₂ em ecossistemas naturais.
Raízes associadas a microrganismos do solo, responsáveis pela fixação de nitrogênio, processo essencial para que a fertilização por CO₂ ocorra de forma eficaz nas plantas. Foto: Fabiano Bastos

A fixação biológica do nitrogênio, processo realizado por microrganismos no solo que torna esse nutriente acessível às plantas, é essencial para o crescimento vegetal e, portanto, para que o efeito de fertilização por CO₂ ocorra. A nova análise mostra que os modelos climáticos não consideram as limitações nutricionais dos ecossistemas, inflando o potencial de absorção de CO₂ pelas plantas. Como resultado, os autores estimam uma redução de cerca de 11% no efeito projetado anteriormente.

Atualizar esses modelos é fundamental, já que o ciclo do nitrogênio também envolve a liberação de gases como óxidos de nitrogênio e óxido nitroso, que influenciam diretamente o clima. Para os pesquisadores, entender com maior precisão a relação entre nutrientes e crescimento vegetal é crucial para prever de forma mais realista o impacto da fertilização por CO₂ e o papel das florestas e vegetações naturais na regulação do clima futuro.

E o que isso significa na prática?

Na prática, essa constatação reduz a margem de conforto com a qual a humanidade vinha contando. Se as florestas e demais ecossistemas naturais absorvem menos CO₂ do que os modelos indicavam, o aquecimento global tende a avançar mais rápido do que o previsto, pressionando sistemas de abastecimento, produção de alimentos, saúde pública e infraestrutura urbana.

O “amortecedor natural” do clima é mais limitado, o que torna eventos extremos — secas, ondas de calor e cheias — menos exceções e mais parte do cotidiano de milhões de pessoas.

Para o planeta, a mudança é ainda mais estrutural: cai a ilusão de que a natureza, sozinha, compensará o excesso de emissões humanas. Isso reforça a necessidade de reduzir emissões na origem, rever modelos de produção e consumo e proteger ecossistemas não como solução mágica, mas como parte de um conjunto mais amplo de respostas.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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