Gelo da Antártica revela mistério do clima da Terra de 3 milhões de anos

Dados inéditos do gelo da Antártica indicam que mudanças na circulação oceânica e na refletividade do planeta ajudaram a transformar o clima da Terra ao longo de milhões de anos.

Pesquisas recentes com gelo antigo da Antártica estão ampliando a compreensão científica sobre a evolução do clima da Terra nos últimos 3 milhões de anos. Ao analisar bolhas de ar preservadas em camadas profundas de gelo, cientistas conseguiram reconstruir, com maior precisão, as condições atmosféricas e oceânicas de um período marcado por mudanças climáticas significativas.

Os estudos, publicados na revista Nature, indicam um comportamento climático inesperado, embora o planeta tenha passado por um resfriamento gradual ao longo desse intervalo, as concentrações de gases de efeito estufa variaram pouco. Esse descompasso desafia explicações tradicionais que atribuem essas mudanças principalmente às alterações nesses gases e amplia o debate sobre os fatores que moldam o clima da Terra ao longo do tempo.

A investigação foi conduzida por pesquisadores ligados ao Centro de Exploração do Gelo Mais Antigo (COLDEX), que busca identificar e estudar os registros mais antigos preservados nas camadas de gelo. Parte das amostras analisadas veio de Allan Hills, uma área da Antártica Oriental onde o gelo é deslocado e deformado, permitindo acesso a fragmentos de diferentes períodos climáticos, como se fossem recortes do passado.

Um dos avanços do estudo foi a utilização de gases nobres presentes nas bolhas de ar para estimar a temperatura dos oceanos ao longo do tempo. Os resultados apontam que a temperatura média dos oceanos caiu entre 2 °C e 2,5 °C desde cerca de 3 milhões de anos atrás. Esse resfriamento, no entanto, não ocorreu de forma uniforme: as águas profundas esfriaram mais cedo, enquanto a superfície oceânica apresentou uma queda gradual ao longo de um período mais longo.

Núcleo de gelo da Antártica em close com bolhas de ar que registram o clima da Terra no passado
Bolhas de ar preservadas em núcleo de gelo revelam concentrações antigas de gases e ajudam a reconstruir o clima da Terra ao longo de milhões de anos. Foto: OSU CEOAS

Ao mesmo tempo, as medições diretas de dióxido de carbono (CO₂) e metano indicam que esses gases permaneceram relativamente estáveis. O CO₂, por exemplo, manteve-se abaixo de 300 partes por milhão durante grande parte desse período, com pequenas oscilações. Já o metano apresentou níveis constantes, muito inferiores aos observados atualmente.

Esses dados reforçam a hipótese de que outros fatores tiveram papel relevante na transformação do sistema climático global. Entre eles, estão mudanças na cobertura de gelo, na vegetação, na refletividade da superfície terrestre e na circulação oceânica, elementos que influenciam diretamente o equilíbrio térmico do planeta e ajudam a explicar a dinâmica do clima da Terra.

Além de esclarecer o passado, os resultados ajudam a refinar projeções sobre o futuro climático. Compreender como diferentes componentes do sistema terrestre interagem em períodos mais quentes pode oferecer pistas importantes sobre os impactos das mudanças atuais.

A pesquisa também abre caminho para novas descobertas. Cientistas já identificaram amostras de gelo que podem ter até 6 milhões de anos, o que amplia ainda mais o recorte de observação do clima antigo. Com técnicas mais avançadas, a expectativa é aprofundar a reconstrução histórica e responder questões ainda em aberto sobre a dinâmica climática do planeta.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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