Trump demite Conselho Nacional de Ciência dos Estados Unidos sem explicação

A decisão de Trump promove demissão em massa no Conselho Nacional de Ciência dos Estados Unidos, enfraquece a governança científica e levanta alertas sobre interferência política na pesquisa. 

O governo de Donald Trump demitiu todos os membros do conselho consultivo científico da National Science Foundation (NSF), em uma decisão considerada inédita por especialistas e ex-integrantes da própria instituição. A medida atingiu os 22 membros do National Science Board (NSB), órgão responsável por orientar e supervisionar a principal agência de fomento à ciência básica dos Estados Unidos e que compõe o Conselho Nacional de Ciência dos Estados Unidos.

A exoneração ocorreu no dia 24 de abril, sem justificativa formal. Segundo relatos, cada conselheiro recebeu um e-mail informando que, “em nome do presidente Donald J. Trump”, seus cargos estavam “encerrados, com efeito imediato”.

Os integrantes do Conselho Nacional de Ciência dos Estados Unidos são indicados pela presidência dos EUA e cumprem mandatos de seis anos, organizados de forma escalonada justamente para evitar substituições simultâneas. Até o momento, a Casa Branca não esclareceu os motivos da decisão nem indicou possíveis substitutos.

Para Dan Reed, ex-presidente do conselho, a medida rompe com práticas históricas. “Essa decisão de demitir o NSB é sem precedentes”, afirmou. “Precisamos de um NSB forte e independente, representando a diversidade da ciência e da engenharia.”

No Congresso, a reação foi dividida. A deputada Zoe Lofgren classificou a ação como mais um ataque à ciência e à inovação no país. Já o congressista Brian Babin, que preside o comitê científico da Câmara, não comentou o episódio.

A demissão em bloco não é um caso isolado. No ano anterior, o governo já havia dispensado membros de comitês científicos e encerrado estruturas consultivas. Entre as justificativas apresentadas à época estava a necessidade de reduzir custos e “promover a liberdade e inovação americana”.

Criados pelo Congresso em 1950, tanto a NSF quanto o Conselho Nacional de Ciência dos Estados Unidos desempenham papel estratégico na formulação de políticas científicas. O conselho se reúne periodicamente e produz relatórios que subsidiam decisões do Congresso. A próxima reunião estava prevista para 5 de maio e incluiria uma análise sobre a perda de competitividade científica dos EUA frente à China.

NSF sob pressão: cortes, demissões e incertezas institucionais

Entrada da National Science Foundation, sede do Conselho Nacional de Ciência dos Estados Unidos após demissão em massa
Foto: Briscoe Savoy/Nature

Especialistas avaliam que a medida se insere em um movimento mais amplo de enfraquecimento da assessoria científica federal. Como o conselho foi instituído por lei, sua extinção formal depende do Congresso e seus membros devem ser reconhecidos como “eminentes” em suas áreas de atuação.

O episódio ocorre em meio a um cenário de instabilidade na NSF. Propostas recentes do governo sugeriram cortes superiores a 50% no orçamento da agência, rejeitados pelo Congresso para 2026. Desde 2025, a instituição também perdeu mais de 30% do quadro de funcionários e passou por mudanças administrativas, incluindo a transferência de sua sede.

Outra fonte de tensão envolve a governança financeira. Integrantes do conselho relataram que o Escritório de Gestão e Orçamento teria orientado a liderança da NSF a restringir o compartilhamento de informações orçamentárias com o próprio conselho, o que levanta dúvidas sobre transparência e autonomia.

A decisão amplia preocupações na comunidade científica sobre o grau de interferência política na condução da ciência nos Estados Unidos, em um momento considerado sensível para a competitividade global do país.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

Artigos Relacionados

Guerra no Irã e alta do petróleo disparam vendas de veículos elétricos na Europa

Veículos elétricos na Europa disparam com alta do petróleo e guerra no Irã, refletindo mudanças no comportamento do consumidor.

Gelo da Antártica revela mistério do clima da Terra de 3 milhões de anos

Estudo com gelo da Antártica revela como o clima da Terra mudou há 3 milhões de anos e aponta fatores além dos gases de efeito estufa.

Desastres naturais estão afetando eleições no mundo – Desafio à democracia?

Desastres naturais já afetam eleições em dezenas de países e desafiam a logística, o acesso ao voto e a segurança dos processos eleitorais.

Financiamento climático cresce, mas falha em alcançar áreas vulneráveis

Estudo mostra que financiamento climático avança, mas enfrenta desafios para escalar soluções naturais e reduzir riscos de forma justa e eficaz.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, insira seu comentário!
Digite seu nome aqui