IA revela correntes oceânicas desconhecidas e muda entendimento do clima global

Inovação transforma imagens térmicas de satélite em mapas detalhados de correntes oceânicas, abrindo novas possibilidades para entender mudanças climáticas e impactos nos oceanos.

Uma nova abordagem, baseada em inteligência artificial, está ampliando a capacidade de observar os oceanos em escala global. A técnica, chamada GOFLOW (Geostationary Ocean Flow), utiliza imagens térmicas de satélites meteorológicos já em operação para identificar e acompanhar correntes oceânicas com um nível de detalhe até então inalcançável.

Desenvolvido por pesquisadores ligados ao Scripps Institution of Oceanography, da Universidade da Califórnia em San Diego, o método transforma dados já disponíveis em uma ferramenta mais precisa para análise do comportamento dos oceanos. A inovação dispensa o lançamento de novos equipamentos e pode ser incorporada a sistemas já existentes de monitoramento climático.

As correntes oceânicas desempenham um papel central na regulação do clima global. Elas redistribuem calor, participam do ciclo do carbono e transportam nutrientes essenciais para a vida marinha. Também são determinantes em situações como o rastreamento de poluentes e operações de resgate em alto-mar.

Apesar da relevância, acompanhar essas correntes em tempo real e com alta resolução sempre foi um desafio. Métodos tradicionais baseados em satélites costumam revisitar uma mesma região com intervalos longos, o que dificulta a captura de fenômenos rápidos. Já medições feitas por embarcações ou radares oferecem maior precisão, mas cobrem áreas limitadas.

Imagem de satélite com inteligência artificial aplicada ao monitoramento de correntes oceânicas
Tecnologia com inteligência artificial transforma dados de satélite em análises detalhadas das correntes oceânicas. Foto: songqiuju/Getty Images

É justamente nesse ponto que o GOFLOW avança. A tecnologia utiliza redes neurais treinadas para interpretar variações de temperatura na superfície do oceano, identificando padrões que indicam o movimento da água. A partir da análise sequencial dessas imagens, o sistema consegue estimar a velocidade e a direção das correntes com maior frequência e detalhamento.

Os testes realizados mostraram que os resultados obtidos são compatíveis com medições diretas e outros métodos consolidados. No entanto, o diferencial está na capacidade de detectar estruturas menores e mais dinâmicas, como redemoinhos e zonas de transição, fundamentais para processos como a mistura vertical da água.

Esse tipo de mistura é responsável por levar nutrientes das profundezas para a superfície e por transportar carbono para camadas mais profundas, onde pode ser armazenado por períodos prolongados. Até então, esses fenômenos eram pouco observados diretamente e dependiam, em grande parte, de simulações.

A nova técnica também abre caminho para aplicações mais amplas. Ao melhorar a compreensão das interações entre oceano e atmosfera, o GOFLOW pode contribuir para previsões climáticas mais precisas e para o monitoramento de eventos ambientais associados às correntes oceânicas.

Ainda assim, há limitações. A presença de nuvens pode comprometer a leitura das imagens térmicas, reduzindo a cobertura em algumas regiões. Para contornar esse obstáculo, os pesquisadores estudam integrar diferentes fontes de dados satelitais.

A equipe também trabalha na expansão do método para uma escala global. Com dados e códigos já disponibilizados publicamente, a expectativa é que outros grupos de pesquisa avancem no uso da tecnologia, ampliando seu potencial científico e operacional.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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