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A urgência da qualificação: o emprego não acabou, ele mudou de endereço

Há um erro perigoso circulando como verdade confortável: o de que a inteligência artificial “vai acabar com os empregos”. Não é isso. O que a IA está fazendo — com velocidade brutal — é redefinir o que conta como trabalho qualificado, mudar a gramática das funções e deslocar o valor para onde há competência técnica, pensamento analítico e disciplina digital.

O emprego não desaparece. Ele muda de endereço. E, quando muda, deixa para trás quem não se preparou — não por falta de dignidade, mas por falta de oportunidade real de formação.

O ponto central é simples e incômodo: o Brasil (e a Amazônia em particular) não pode chegar atrasado à sala de aula do futuro. Se a indústria já opera sob pressões de produtividade, rastreabilidade, automação e conformidade ambiental, não faz sentido que a qualificação continue presa a um modelo analógico, genérico e descolado da realidade.

Há um erro perigoso circulando como verdade confortável: o de que a inteligência artificial “vai acabar com os empregos”. Não é isso. O que a IA está fazendo — com velocidade brutal — é redefinir o que conta como trabalho qualificado, mudar a gramática das funções e deslocar o valor para onde há competência técnica, pensamento analítico e disciplina digital.

A nova linha de montagem é invisível

A Indústria 4.0 não é apenas robô e máquina inteligente. É uma arquitetura inteira: sensores, dados, rastreabilidade ponta a ponta, manutenção preditiva, gêmeos digitais, gestão de energia, controle de qualidade em tempo real, integração de sistemas, cibersegurança, logística inteligente.

E, agora, entra a IA

E surge não como “substituta de gente”, mas como amplificadora de produtividade. Quem domina ferramentas digitais e sabe interpretar dados produz mais, erra menos, reduz desperdício, cumpre metas ambientais e faz a empresa competir.

O resultado prático é que muitas funções deixam de ser “braçais” no sentido clássico e passam a ser operacionais de alta precisão, exigindo leitura de painel, tomada de decisão rápida, procedimentos de compliance e interação com sistemas.

Quem não enxerga isso está discutindo o mundo com mapas antigos

Empregabilidade virou “alfabetização tecnológica”

Hoje, qualificação não é só diploma. É capacidade de aprender continuamente, navegar ferramentas, operar processos digitais e compreender que rastreabilidade e sustentabilidade não são “moda” — são exigência de mercado.

A rastreabilidade, por exemplo, já não é diferencial: é passaporte. Do insumo ao produto final, tudo precisa deixar rastro confiável. E isso exige gente preparada para registrar, auditar, interpretar e corrigir.

A sustentabilidade também mudou de patamar: não basta discurso. O mundo cobra medição, evidência, dados, relatórios, governança. E a produtividade precisa acompanhar — porque custo alto com baixa eficiência não se sustenta.

IA + digitalização + rastreabilidade + sustentabilidade + produtividade: esse é o novo “idioma” do emprego.

O que fazer

O tempo dos programas simbólicos acabou. Precisamos de medidas objetivas, com foco e escala, que conectem escola, formação técnica e empresa.

  • Um pacto de qualificação focado nas funções do presente e do futuro
    Mapear as ocupações que já estão mudando e criar trilhas curtas e intensivas: dados, automação, logística digital, qualidade, energia, cibersegurança, manutenção preditiva, operações com IA.
  • Formação técnica com DNA industrial e digital
    Mais prática, mais laboratório, mais simulação, mais chão de fábrica — e menos teoria desconectada. A educação técnica precisa operar com o mesmo padrão de eficiência que o setor produtivo é cobrado a entregar.
  • Certificações modulares e “empregáveis”
    Cursos menores, empilháveis, com certificação por competência. O trabalhador não pode esperar anos para virar “apto”. Ele precisa avançar por etapas, com resultado mensurável.
  • Requalificação como política permanente (não como emergência)
    A tecnologia não vai parar para esperarmos. Requalificar tem de ser rotina: dentro das empresas, com apoio institucional, e com incentivos claros para quem treina e para quem aprende.
  • Educação básica alinhada ao século XXI
    Sem base não há futuro: leitura, matemática, lógica, atenção, disciplina, ciência e cultura digital. Se a base falha, o restante vira improviso caro.

A Amazônia não pode ser plateia do próprio futuro

Para a Amazônia, a equação é ainda mais estratégica. O debate sobre desenvolvimento sustentável só vira realidade quando existe economia real com emprego qualificado e produtividade, capaz de sustentar o território e reduzir a dependência de atividades predatórias.

Qualificar gente aqui não é só preparar indivíduos. É preparar uma região para competir, manter a floresta em pé com economia legal e abrir oportunidades reais para a juventude.

A inteligência artificial não é apenas uma tecnologia. É um divisor de águas. E o lado certo desse divisor é o lado da educação atualizada, da qualificação técnica moderna e do trabalho digno em ambiente produtivo avançado.

O Brasil precisa escolher: ou acelera a qualificação e ocupa o novo endereço do emprego, ou assiste — impotente — à prosperidade passar pela porta da frente e ir embora.

Censipam + IME + IPEAM: a Amazônia entra no mapa das tecnologias críticas — e a juventude pode ser a maior vencedora

“Acordo assinado em Brasília implanta, em Manaus, núcleo avançado de pesquisa e formação em IA, sensoriamento remoto e engenharia de defesa — um conjunto de tecnologias críticas convergente com a Missão 6 da Nova Indústria Brasil, que mobiliza R$ 112,9 bilhões para soberania tecnológica”

Coluna Follow-Up

 Quando defesa vira laboratório de inovação, a Amazônia deixa de ser apenas território monitorado e passa a ser território que pensa, projeta e forma. A grande disputa, agora, é quem consegue transformar essa janela em qualificação real para a juventude — com CIEAM e FIEAM puxando a fila.


O fato: acordo assinado e IPEAM ancorado no Censipam de Manaus

O Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) e o Instituto Militar de Engenharia (IME) assinaram, nesta sexta-feira (23), em Brasília, acordo para a implantação do Instituto de Pesquisas do Exército na Amazônia (IPEAM) na unidade do Censipam em Manaus.  

Na cerimônia, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, defendeu a interiorização de instituições de excelência como forma de “gerar mais oportunidades” e atender necessidades regionais — citando também o novo campus do ITA no Ceará e o Cimatec na Bahia.  

comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, enquadrou a iniciativa no tamanho do desafio amazônico: dimensão continental, riqueza ambiental e relevância estratégica exigem soluções inovadoras baseadas em conhecimento científico, uso inteligente de dados e tecnologias avançadas.  

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Foto: Hisaac Gomes

O que está no papel: pesquisa aplicada, dados, engenharia e tecnologias de defesa

O acordo prevê intercâmbio técnico e compartilhamento de dados para projetos conjuntos em sensoriamento remoto, modelagem ambiental, ciência de dados, engenharia e tecnologias de defesa, além de cursos, oficinas e ações colaborativas voltadas a soluções aplicáveis à proteção e ao desenvolvimento sustentável da Amazônia Legal.  

Entre os resultados esperados, o texto oficial fala em:

  • integração operacional entre Censipam e IME (informações, infraestrutura e apoio técnico-científico);
  • atuação conjunta em soluções para defesa, monitoramento ambiental, sustentabilidade e inovação tecnológica;
  • criação de um ambiente de experimentação e validação tecnológica apoiado nas capacidades do Censipam em sensoriamento remoto e integração de sistemas.  

Bastidores: por que este movimento “mexe” com a Amazônia real

Nos bastidores políticos, a leitura é simples: defesa e soberania deixaram de ser apenas tema militar e se tornaram vetor de ciência aplicada, economia do conhecimento e retenção de talentos.

É nessa chave que a articulação atribuída ao senador Eduardo Braga ganha peso simbólico: ele descreve o objetivo como levar a excelência do IME ao Amazonas e evitar que jovens precisem migrar para se formar em alto nível.  

Na prática, o IPEAM aparece como uma tentativa de inverter a lógica histórica: em vez de a Amazônia exportar cérebros, passa a importar instituições — e, com isso, criar um ecossistema em que indústria, academia e Estado disputem o mesmo ativo: gente qualificada.

TECNOLOGIAS CRITICAS
A iniciativa do senador do Amazonas foi destacada, na solenidade de assinatura do acordo, pelo ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, pelo comandante do Exército, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, e pelas lideranças empresariais do CIEAM – Luiz Augusto Rocha e Lúcio Flávio de Oliveira – e da FIEAM – Antônio Silva.

O IPEAM/IME que se desenha: áreas estratégicas e “engenharia do futuro”

Em agenda institucional do próprio Censipam, a implantação do IPEAM/IME em Manaus é descrita como avanço para criar um polo voltado à formação de recursos humanos e à inovação em áreas estratégicas como:

  • Inteligência Artificial
  • Tecnologias Quânticas
  • Transição Energética
  • Biotecnologias  

O texto também indica que o polo deve abrigar o Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Defesa em Manaus, seguindo modelo de “Escola Empreendedora” e “Escola Corporativa” do IME, com participação prevista de UEA e FAPEAM e ações de extensão voltadas à formação de professores e apoio educacional em localidades remotas.  


Onde a pauta “encosta” na Nova Indústria Brasil: defesa como motor de tecnologia e emprego qualificado

A instalação do IPEAM em Manaus conversa diretamente com a Missão 6 da Nova Indústria Brasil (NIB), dedicada a tecnologias estratégicas para soberania e defesa nacionais, de acordo com manifestação de Antônio Silva, presidente da FIEAM, um dos costureiros da iniciativa.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a Missão 6 mobiliza R$ 112,9 bilhões (R$ 79,8 bi públicos e R$ 33,1 bi privados) e estabelece metas objetivas: o Brasil quer saltar para 55% de domínio de tecnologias críticas até 2026 e 75% até 2033.  

O presidente do Conselho do CIEAM,  Luiz Augusto Barreto Rocha, destacou que neste mesmo pacote são priorizadas novas cadeias como satélites, veículos lançadores e radares e registra indicadores relevantes: em 2024, o Brasil exportou US$ 1,8 bilhão em produtos de defesa (+22% vs. 2023), após ter exportado US$ 1,5 bilhão em 2023 (+123% vs. 2022).  

Em financiamento e política industrial, o MDIC também destaca mecanismos como o PAC Defesa (R$ 31,4 bi) e apoios financeiros (BNDES/BB e Finep) associados a inovação e exportação.  

E há uma coluna vertebral financeira maior por trás: o Plano Mais Produção, braço de financiamento da NIB, reúne R$ 300 bilhões para o período 2023–2026 em quatro eixos (Mais Inovação, Mais Verde, Mais Exportação, Mais Produtividade).  


A grande assinatura editorial: entidades + juventude — o “como fazer” para não virar só cerimônia

É aqui que a pauta deixa de ser apenas Brasília e passa a ser Manaus, fábrica, escola e futuro, destacou Lúcio Flávio, presidente executivo do CIEAM. “O IPEAM tem tudo para virar um polo avançado — mas o salto civilizatório acontece quando ele vira trilha de formação para milhares, não vitrine para poucos”.

A presença de lideranças empresariais no entorno desse movimento (e o interesse direto do setor produtivo em tecnologia, produtividade e mão de obra qualificada) abre uma avenida: CIEAM e FIEAM podem transformar a Missão 6 da NIB em política de juventude aplicada à indústria amazônica — conectando laboratório, chão de fábrica, startups e educação técnica.

O que as entidades podem puxar já…

  1. Trilha “Juventude 4.0 + Defesa + Sustentabilidade”Programa articulado com IME/IPEAM e instituições locais para formar jovens em: dados, geoprocessamento, programação, manutenção avançada, drones, cibersegurança e IA aplicada ao território — tudo com linguagem de empregabilidade.
  2. Aprendizagem industrial “com lastro tecnológico”Aproximar escolas técnicas, IFs e SENAI de demandas reais (projetos, desafios, problemas) para evitar formação genérica e desconectada.
  3. Bolsas e estágios orientados por missãoEm vez de estágio “solto”, estágio vinculado a entregas: um painel de queimadas, um protótipo de detecção, uma solução logística, um módulo de comunicação em áreas isoladas.
  4. Hackathons e laboratórios de prototipagem com problema amazônico realDefesa, aqui, não é retórica: é enchente, fogo, garimpo ilegal, fronteira extensa, comunicação difícil, dados complexos — e isso é laboratório de inovação.
  5. Retenção de talentos: formar aqui, empregar aquiO objetivo estratégico é impedir que a Amazônia continue financiando, com sua juventude, o desenvolvimento alheio.

Por que a indústria da defesa interessa ao jovem da ZFM (e à Amazônia)

  • Emprego qualificado: as cadeias priorizadas (satélites, radares, lançadores) exigem engenharia, software, eletrônica, materiais e gestão de dados.  
  • Tecnologia dual: inovação de defesa costuma “transbordar” para a vida civil (sensores, comunicação, geointeligência, navegação, segurança digital).  
  • Pesquisa no território: o acordo prevê formação de recursos humanos e pesquisa aplicada com dados e infraestrutura do Censipam na Amazônia.  
  • Sinergia com a neoindustrialização: a NIB estrutura metas, missões e financiamento para tecnologia e produtividade — e a Missão 6 é a porta de entrada da soberania tecnológica.  

Amazônia como território que pensa

O acordo Censipam–IME, ao plantar o IPEAM em Manaus, inaugura uma frase nova para o Amazonas: defesa pode ser também educação, ciência aplicada e futuro produtivo. 

Mas a história só muda de verdade se a política industrial (NIB) e a política de soberania (defesa) forem traduzidas em uma política de juventude qualificada — com CIEAM e FIEAM ajudando a transformar “tecnologia crítica” em emprego, carreira e permanência digna na região.

No fim, é isso que está em jogo: não apenas proteger a Amazônia, mas permitir que ela forme seus próprios engenheiros, cientistas e tecnólogos — e passe a ser, cada vez mais, um território que monitora, projeta, produz e lidera.  

BOX — Eduardo Braga: da ZFM constitucional ao “polo IME” em Manaus

A presença do senador Eduardo Braga (MDB-AM) no ato que oficializou a implantação do Instituto de Pesquisas do Exército na Amazônia (IPEAM) não é um detalhe protocolar: ela conecta dois movimentos de alta densidade estratégica — a blindagem constitucional do modelo Zona Franca de Manaus (ZFM) na Reforma Tributária e a atração de capacidades nacionais de pesquisa e engenharia para dentro da Amazônia.  

1) ZFM mantida na Constituição — com “diferencial competitivo” como obrigação legal

A Emenda Constitucional 132/2023 incorporou ao ADCT o artigo 92-B, determinando que as leis dos novos tributos estabeleçam mecanismos para manter, em caráter geral, o diferencial competitivo assegurado à ZFM (e às Áreas de Livre Comércio). É a espinha jurídica que evita “soluções improvisadas” e dá previsibilidade ao investimento na indústria incentivada.  

2) Relatoria e costura política

Braga foi relator da PEC 45/2019 no Senado, peça central da Reforma Tributária, posição que o colocou no núcleo das negociações e da redação final dos dispositivos mais sensíveis ao Norte.  

3) Agora, a engenharia “desembarca” fortemente no Amazonas

No caso do IPEAM, o senador atuou para levar ao estado a excelência associada ao IME (e, por analogia, ao ITA): “o Ceará conquistou o ITA… e nós trabalhamos para levar essa excelência do IME para o Amazonas”, declarou.  

Síntese editorial (BAA): depois de proteger o modelo econômico na Constituição, Braga opera para trazer também o modelo do conhecimento — pesquisa aplicada, dados, engenharia e tecnologias críticas — para dentro da Amazônia, onde o desafio é real e diário

Polo Eletrônico, economia circular e a logística reversa como ativo estratégico do Amazonas

Porque, gostemos ou não, o aparelho que hoje ilumina nossa sala, conecta nossa família e dá produtividade ao trabalho será, amanhã, um resíduo. A pergunta estratégica é simples: esse resíduo será passivo ambiental ou será ativo econômico?

O mundo inteiro corre para reduzir dependências externas em materiais críticos — e descobre um paradoxo: a próxima grande “mina” não está apenas no subsolo, mas no lixo eletrônico e nos equipamentos guardados em armários. Há gargalo, inclusive, em conseguir resíduos suficientes, porque muito do pós-consumo “desaparece” dentro das casas, esperando um destino adequado. 

E o desperdício é gigantesco. Globalmente, menos de 1% das terras raras contidas em tecnologias descartadas é reciclado — não por falta de necessidade, mas porque por décadas “não fechava a conta”. Isso está mudando com tecnologia, escala e geopolítica. 

Enquanto isso, o próprio planeta nos lembra do tamanho do desafio: em 2022, o mundo gerou 62 bilhões de kg de lixo eletrônico, e apenas 22,3% foi documentado como coletado e reciclado formalmente de maneira ambientalmente adequada. 

ECONOMIA CIRCULAR
Produção de lixo eletrônico pela humanidade chegou a 62 milhões de toneladas

O Brasil é protagonista — inclusive no problema e, sobretudo, na solução. O Global E-waste Monitor 2024 registra que o Brasil é o maior gerador de lixo eletrônico da América do Sul (2,4 bilhões de kg por ano) e aponta também um dado decisivo: é o único país sul-americano com fabricação relevante de eletroeletrônicos, especialmente em bens de consumo. 

Se somos parte central da cadeia, precisamos ser parte central da resposta.

No Brasil, a logística reversa não é uma “boa ação voluntária”. Ela é dever e direção de Estado.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) estabeleceu princípios, instrumentos e responsabilidades para a gestão de resíduos, incluindo a lógica da responsabilidade compartilhada e os mecanismos de retorno pós-consumo. E o Decreto 10.240/2020 foi ainda mais direto ao estruturar a implementação do sistema de logística reversa para produtos eletroeletrônicos e seus componentes de uso doméstico, definindo papéis e a arquitetura operacional do sistema.

Ou seja: não se trata de “se” vamos fazer — trata-se de “como” faremos para transformar obrigação em vantagem competitiva.

O Polo Eletrônico do Amazonas já provou, ao longo das décadas, que sabe produzir com escala, qualidade e capacidade tecnológica. Agora, tem a chance histórica de liderar um novo capítulo: transformar Manaus e o Amazonas em referência brasileira de circularidade eletroeletrônica — com rastreabilidade, triagem, reuso, remanufatura, reciclagem e reinserção de materiais na indústria.

Isso vale ouro — literalmente. Processos modernos de reciclagem extraem cobre, aço, alumínio e metais valiosos; e começam a tornar viável também recuperar terras raras, reduzindo consumo de água e emissões em comparação à mineração tradicional. 

A lógica é cristalina: se a economia do futuro é a economia dos materiais, a logística reversa é o novo “porto” dessa economia.

Para sair do discurso e entrar no resultado, proponho uma agenda objetiva — com governança, escala e credibilidade:

1. Rede amazônica de pontos de recebimento, com metas, capilaridade e ao consumidor.

2 . Rastreabilidade digital do pós-consumo, conectando varejo, entidades gestoras, transportadores e recicladores — do descarte à destinação final.

3. Ambiente de negócios para reuso e remanufatura (o “R” que mais gera emprego), com incentivos e segurança regulatória.

4. P&D para recuperação de materiais críticos, aproximando indústria, universidades e centros tecnológicos.

5. Formalização e qualificação de cooperativas, elevando produtividade, segurança do trabalho e qualidade ambiental.

6. Compras públicas e corporativas circulares, criando demanda para equipamentos recondicionados e materiais reciclados.

Uma mensagem final: circularidade é soberania produtiva

O Polo Eletrônico não é apenas um conjunto de fábricas. É uma plataforma de conhecimento, empregos e integração nacional. A economia circular — e, em especial, a logística reversa — é a oportunidade de mostrar ao Brasil e ao mundo que a indústria na Amazônia pode ser sinônimo de inovação limpa, responsabilidade e soberania produtiva.

O futuro já começou. E ele não cabe mais no armário.

Amazônia: a organização do atraso

“Enquanto focarmos no desenvolvimento de fora para dentro, não teremos mudança das perspectivas — é a organização do atraso. Enquanto as aspirações e desejos regionais forem negligenciados, enquanto for de fora para dentro, da capital para o interior, seguiremos na perspectiva conservadora ou extratora”

A Amazônia tem um atraso que é organizado por nós. Assim, como a desigualdade não é um acaso, o baixo padrão de desenvolvimento é um efeito e não uma causa. Para muitos, convém manter o atraso. Por exemplo, para os conservacionistas, convém manter a floresta intacta. Para aqueles que pretendem usar o recurso no futuro, também convém.

Para os outros a quem agrada alocar os investimentos em outras regiões, também é interessante. Ou seja, a redução da desigualdade regional no país agrada a poucas pessoas. Somos poucos habitantes na Amazônia. Há ainda uma oportunidade de extração. E isso não tem nada de conexo com desenvolvimento. No modelo colonial, extrair e transferir recursos da colônia para o império nunca foi desenvolver a colônia.

O investimento estrangeiro (ou interestadual direto) tem como propósito a extração de recursos e não o desenvolvimento do outro. O desenvolvimento vira uma externalidade e não o alvo. Quando um país estrangeiro construiu um porto em Manaus, o que ele pretendia era extrair o látex a um custo mais interessante

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Porto de Manaus em 1902. Foto: Reprodução/Instituto Durango Duarte

Não havia ali um interesse direto, genuíno ou focado em transformar a nossa realidade. Para uma boa subordinação também é importante que a sociedade não se transforme ampliando seus horizontes ou suas competências. A diversificação de atividades econômicas também é algo que normalmente não agrada às metrópoles, salvo se aquela matriz de oportunidades e de recursos siga integralmente para ela. Assim, o olhar sobre a Amazônia é sempre numa perspectiva extrativa ou conservacionista

Não há um olhar transformador ou diversificador. Assim, convém o atraso. Convém o isolamento. Agrada a poucos a transformação da realidade para um modelo mais próspero e desenvolvido. Além da destruição, o olhar será da extração e da transferência. As pessoas e as cidades ficam sem nomes, sem aspirações, sem sonhos, sem objetivos e sem perspectivas de mudança. Assim, o atraso da realidade vira o atraso da perspectiva. Extrai-se a esperança e o desejo de mudança, pois convém ficar como sempre esteve e é “assim mesmo”. O atraso é um atraso organizado.

A transcendência só será possível quando houver uma perspectiva integrativa e diversificadora. Enquanto focarmos no desenvolvimento de fora para dentro, não teremos mudança das perspectivas. Enquanto as aspirações e desejos regionais forem negligenciados, enquanto for de fora para dentro, da capital para o interior, seguiremos na perspectiva conservadora ou extratora. Nada fazer versus saquear. Precisamos quebrar esta armadilha mental ou só nos restará seguir a organizar o atraso como um atraso continuado e conformado

Povos indígenas moldaram a Amazônia e seguem protegendo a floresta até hoje

A Amazônia que conhecemos só existe por causa dos povos indígenas – Estudos revelam que o manejo dos povos da floresta ampliou a biodiversidade amazônica, antecipou descobertas científicas sobre plantas medicinais e alimentos e protege o bioma até hoje. 

Os saberes indígenas envolvem um sistema sofisticado de observação e manejo da biodiversidade amazônica. Povos indígenas como os Kayapó, por exemplo, reconhecem variações sutis de solo, vegetação e clima com uma precisão que desafia a ciência moderna. Esse conhecimento é passado de geração em geração e orienta tudo, do uso medicinal de plantas à compreensão de ciclos de frutificação e do comportamento animal.

Longe de ser intocada, a floresta amazônica é, em muitos trechos, o resultado direto de ações humanas. Estudos científicos revelam que espécies como o cacau, o açaí e a castanha-do-pará se tornaram abundantes justamente por terem sido selecionadas e dispersas por populações indígenas ao longo dos séculos. Há ainda solos férteis criados por esses povos — como a “terra preta” — que aumentam a diversidade vegetal em comparação aos solos naturais da região.

Além disso, florestas próximas a sítios arqueológicos têm frequentemente uma maior abundância e riqueza de espécies domesticadas. Assim, as comunidades de árvores amazônicas atuais em toda a bacia permanecem em grande parte estruturadas pelo uso humano histórico

explica Carolina Levis, pesquisadora e doutora em Ecologia pelo INPA.

Em diversos casos, o conhecimento indígena antecipou a ciência. O curare, usado há séculos como veneno de caça, se transformou em base para anestésicos modernos. Alimentos como o açaí e a planta unha-de-gato só recentemente despertaram o interesse da indústria farmacêutica, apesar de seu uso tradicional há gerações.

Hoje, as Terras ocupadas por povos indígenas estão entre as regiões mais preservadas da Amazônia. Dados do MapBiomas mostram que essas terras perderam apenas 1% de sua vegetação nativa nos últimos 30 anos, contra mais de 20% em áreas privadas. Além disso, as terras indígenas abrigam 80% da biodiversidade remanescente do planeta e estocam grandes volumes de carbono, fundamentais para enfrentar a crise climática.

Vista da Aldeia Yanomami do Marari com a Serra Aramamisi ao fundo, representando o território e a importância dos povos indígenas na proteção da Amazônia.
Aldeia Yanomami do Marari, com a Serra Aramamisi ao fundo. Povos indígenas preservam paisagens culturais e ecológicas fundamentais da Amazônia. Foto: Edson Sato.

Faz escuro — e a governança canta: o mote e o norte de Thiago de Mello

“… faz escuro — mas a governança canta. Canta quando recusa atalhos fáceis. Canta quando troca o curto prazo por visão. Canta quando transforma sustentabilidade em arquitetura e não em adereço. Canta quando escuta. Canta quando mede. Canta quando se vincula. Canta quando insiste em dignidade institucional.”

Há tempos em que a luz não se apaga de uma vez: ela vai sendo desmentida aos poucos, por ruídos, por slogans fáceis, por um “pragmatismo” de bolso que promete atalhos — e cobra naufrágios. Foi em clima assim que Thiago de Mello escreveu o seu verso-bússola: “Faz escuro, mas eu canto” — um canto de resistência em período autoritário, na metade dos anos 1960.  

Hoje, o mundo volta a flertar com a tentação autoritária — e o nome dessa tentação muda de roupa conforme a estação, mas conserva o mesmo impulso: reduzir o complexo ao simplório, transformar direitos em “custos”, converter a vida em variável descartável. E, nesse cenário, o movimento anti-ESG aparece como um primo corporativo do obscurantismo: não entra pela porta gritando “retrocesso”; entra pela janela cantando “liberdade”. Este ensaio faz a releitura do alerta trazido pela Capital Reset a respeito das ciladas do movimento anti-ESG., invocando o poesia amazônica de Thiago de Mello. 

É aqui que o ensaio precisa trocar de mote sem perder o leme.

Porque governança não é salva-vidas — governança é direção. É leme para atravessar mares turbulentos quando as ondas sobem e as sereias afinam a voz.  E o canto anti-ESG, hoje, tem a doçura perigosa dos mitos antigos: promete “menos regulação”, “retorno rápido”, “simplificação” — e tenta convencer lideranças a girarem o timão em direção às rochas.  

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Mas o escuro de agora é mais concreto do que qualquer metáfora: em 2025, o planeta entrou mais cedo no cheque especial ecológico. O Earth Overshoot Day caiu em 24 de julho — a data simbólica em que a humanidade passa a consumir mais do que a Terra regenera no ano.  E ainda assim — ainda assim — há quem venda a ideia de que responsabilidade socioambiental é “agenda”, como se o clima fosse opinião e a escassez fosse invenção.

O que Thiago de Mello nos oferece, então, não é otimismo decorativo. É disciplina de esperança. Cantar, aqui, não é distração: é não entregar a linguagem ao cinismo. É não permitir que a época nos roube as palavras “futuro”, “comunidade”, “verdade”, “compromisso”.

No ensaio original, a imagem de Homero é perfeita: Odisseu atravessa as sereias sem negar o canto — mas sem obedecê-lo. Amarra-se ao mastro para não confundir sedução com rota.  Pois a tarefa das organizações decentes, neste tempo, é exatamente essa: criar amarrações institucionais que resistam quando o mundo pedir pressa, lucro de curto prazo e silêncio sobre impactos.  

E há um detalhe essencial: essa amarração não é uma mordaça. É um método de escuta. O erro do nosso tempo não é “ouvir stakeholders demais”; é achar que dá para governar sem ouvi-los — e chamar isso de eficiência.  

A governança de stakeholders existe para lembrar o óbvio que a euforia do trimestre tenta apagar: empresa e organização não operam no vácuo; operam em ecossistemas humanos, territoriais, reputacionais, climáticos.  Quando esse ecossistema é ignorado, o risco deixa de ser moral e vira risco estratégico: perde-se legitimidade, licença social, confiança — e, cedo ou tarde, mercado.

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Foto/Imagem: Foto : Group Publishing



Por isso, se o anti-ESG é canto de sereia, o antídoto não é tapar os ouvidos para sempre: é criar governança que atravesse o barulho. Governança que seja transparente — porque sem informação clara não existe participação real.  E governança que seja vinculante — porque compromisso que depende apenas do humor do poder é compromisso frágil, à mercê das oscilações do tempo e das modas ideológicas.  

Aqui, “cantar” é fazer o oposto do que o obscurantismo deseja. O obscurantismo quer a noite como método: menos dado, menos auditoria, menos prestação de contas, menos complexidade, menos contraditório. O canto de Thiago quer a noite apenas como travessia: não como morada. E isso vale para governos, para empresas e para a sociedade civil.

Se há um ensinamento prático — e profundamente poético — é este: o futuro não se improvisa; o futuro se governa. Governa-se com instrumentos que durem mais do que a propaganda. Governa-se com processos que resistam mais do que o ciclo eleitoral e mais do que o ciclo de mercado. Governa-se com coragem de permanecer responsável quando a irresponsabilidade vira trend.

O mundo pode até pedir, de novo, a fantasia do homem forte, a nostalgia do “manda quem pode”, o retorno ao “cada um por si”. E pode também tentar vender às empresas a fábula do “negócio descomplicado”, descolado de clima, de gente, de território. Mas a realidade — essa grande editora implacável — continua publicando, todos os dias, o mesmo recado: não existe prosperidade duradoura sobre ruína sistêmica.

Por isso, hoje, reescrevemos o ensaio com o mote de Thiago de Mello: 9

E, cantando, atravessa.

Amazônia sob ataque: biopirataria e tráfico de espécies saqueiam a floresta

Entenda como biopirataria e tráfico de espécies retiram genes, animais e saberes da floresta, ameaçando a ciência brasileira, a bioeconomia e os direitos de povos tradicionais.

O tráfico de vida selvagem é a quarta atividade ilegal mais lucrativa do mundo, movimentando entre US$ 7 bilhões e US$ 23 bilhões por ano, segundo a ONU e a Interpol. A Amazônia, com sua biodiversidade única e saberes tradicionais milenares, enfrenta crimes como o tráfico de espécies e a biopirataria. A combinação representa uma ameaça concreta à conservação ambiental, aos direitos dos povos originários e ao futuro sustentável da floresta.

Fruto de cupuaçu aberto, mostrando a polpa branca, símbolo de disputas comerciais e casos de biopirataria na Amazônia.
O cupuaçu se tornou um caso emblemático de biopirataria ao envolver tentativas de registro e controle comercial de um produto típico da Amazônia. Foto: Leila Melhado/Getty Images.

A biopirataria se refere à apropriação ilegal de recursos genéticos ou conhecimentos tradicionais associados, sem consentimento ou repartição de benefícios com os povos que os detêm. Um dos casos mais simbólicos é o do cupuaçu. No início dos anos 2000, uma empresa japonesa tentou registrar a patente do nome da fruta amazônica, provocando mobilização internacional. Outra vítima frequente é a rã-kambô (Phyllomedusa bicolor), cujas secreções interessam à indústria farmacêutica e são alvo de coleta ilegal.

O tráfico de espécies, por sua vez, envolve a captura e comércio clandestino de animais silvestres. No Brasil, estima-se que 38 milhões de animais sejam retirados da natureza por ano para abastecer esse mercado. De cada 10 animais, 9 morrem na captura ou transporte. Aves são as principais vítimas, representando cerca de 80% dos resgates. A Amazônia, que abriga aproximadamente 1.300 espécies de aves, é uma das regiões mais vulneráveis a esse tipo de crime.

Essas práticas geram prejuízos profundos para a ciência brasileira e para a bioeconomia baseada em conservação. Além disso, violam os direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais, promovem a erosão do conhecimento local e agravam a perda de diversidade genética, uma das consequências mais graves e silenciosas da biopirataria.

A biopirataria se refere à apropriação ilegal de recursos genéticos ou conhecimentos tradicionais associados, sem consentimento ou repartição de benefícios com os povos que os detêm. Um dos casos mais simbólicos é o do cupuaçu. No início dos anos 2000, uma empresa japonesa tentou registrar a patente do nome da fruta amazônica, provocando mobilização internacional. Outra vítima frequente é a rã-kambô (Phyllomedusa bicolor), cujas secreções interessam à indústria farmacêutica e são alvo de coleta ilegal.
O kambô (ou perereca-macaco), Phyllomedusa bicolor – Foto: Luciana Frazão

Para enfrentar esse cenário, o Brasil ratificou o Protocolo de Nagoya em 2021, que estabelece regras de repartição de benefícios, e criou o SisGen, sistema obrigatório de registro para qualquer coleta de patrimônio genético. A ausência de cadastro pode configurar crime ambiental, reforçando a importância da transparência em pesquisas e usos comerciais.

Aprovada em 2015, a Lei da Biodiversidade exige que lucros obtidos com produtos derivados de recursos genéticos brasileiros sejam compartilhados com o Fundo Nacional de Repartição de Benefícios ou com as comunidades envolvidas. Ainda assim, a aplicação plena da lei esbarra em falhas de fiscalização, morosidade nos processos e desequilíbrio de poder entre grandes empresas e povos locais. 

10 novas espécies na Amazônia surpreendentes descobertas na última década

Rãs azuis, corujas inéditas e até “novas sucuris”: novas espécies na Amazônia seguem surgindo e cada descoberta revela o tamanho do que ainda falta mapear.

Mesmo sendo o bioma tropical mais estudado do planeta, a biodiversidade amazônica continua revelando novas espécies na Amazônia todos os anos. Na última década, dezenas de plantas e animais foram descritos. Conheça algumas das espécies mais surpreendentes.

Orquídea de Tumucumaque (Lepanthes suelipinii) – 2019

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Orquídea de Tumucumaque (Lepanthes suelipinii). Foto: Divulgação

Orquídea rara e endêmica encontrada no Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque (AP). Descrita em 2019 após pesquisas de preservação, pertence ao gênero Lepanthes, pouco coletado no Brasil, e mostra que há espécies amazônicas desconhecidas até em áreas de proteção.

Corujinha-do-Xingu (Megascops stangiae) – 2021

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Corujinha-do-Xingu (Megascops stangiae). Foto: Kleiton Silva.


Pequena coruja endêmica do Pará, descrita em 2021 após revisão taxonômica. Foi separada de espécies semelhantes por diferenças genéticas e vocais. O nome científico homenageia a irmã e ambientalista Dorothy Stang, e sua área ocorre no Arco do Desmatamento.

Peixe-elétrico (Microsternarchus javieri) – 2025

Pequeno peixe-elétrico amazônico em água doce rasa, uma das novas espécies na Amazônia descritas em 2025.
Peixe-elétrico (Microsternarchus javieri). Foto: Reprodução/Acta Amazônia.

Nova espécie encontrada em 2025 em riachos do Rio Branco (RR) e da bacia do Rio Negro (AM). Identificada por anatomia, DNA e padrões de descarga elétrica. Mostra como ambientes pouco estudados ainda escondem muita diversidade.

Catita-saci (Monodelphis saci) – 2017

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Catita-saci (Monodelphis saci). Foto: A.O. Maciel


Pequeno marsupial descrito em 2017 na Amazônia brasileira (PA, MT, RO e AC). Recebeu o nome “saci” por lembrar o gorro vermelho do folclore e por ter passado despercebido pela ciência por muitos anos.

Sururina-da-serra (Tinamus resonans) – 2025

Ave inhambu em floresta densa no Acre, uma das novas espécies na Amazônia descritas em 2025.
Inhambu-serra (Tinamus resonans). Reprodução/Morais et al, Zootaxa (2025)


Ave descrita em 2025 e restrita às florestas montanhosas da Serra do Divisor (AC). Foi detectada primeiro pelo canto forte e incomum. A população é pequena e concentrada, o que reforça a importância da conservação do território.

Rã-de-vidro (Hyalinobatrachium mashpi) – 2022


A pequena rã-de-vidro foi descrita em 2022 no Equador, encontrada nas reservas Mashpi e Tayra. Mede cerca de 2 cm, tem dorso verde-limão e ventre totalmente transparente, que permite ver os órgãos internos. Foi identificada por diferenças genéticas e pelo canto agudo característico, reforçando a importância de proteger habitats ameaçados por mineração e desmatamento.

Sapo macho (A) e fêmea (B) da rã-de-vidro Hyalinobatrachium mashpi, uma das novas espécies na Amazônia, fotografados lado a lado.
Sapo macho (A) e fêmea (B) da rã-de-vidro Hyalinobatrachium mashpi, uma das novas espécies na Amazônia, fotografados lado a lado. Foto: Juan M. Guayasamin et.al.

Pupunha-branca (Bactris gasipaes kunt) – 2021

Pupunha-branca, fruto amazônico associado a novas espécies na Amazônia e agrobiodiversidade.
Pupunha-branca (Bactris gasipaes kunt). Foto: Alexandre de Moraes/UFPA


Variação rara (albina) da pupunha registrada no Pará. Além da cor branca, apresenta composição diferente: menos óleo e mais fibras e amido. A descoberta revela o potencial da agrobiodiversidade amazônica.

Sucuri-verde-do-norte (Eunectes akayima) – 2024

Sucuri-verde-do-norte (Eunectes akayima). Sucuri-verde gigante em ambiente aquático amazônico, uma das novas espécies na Amazônia reconhecidas em 2024.
Foto: Fernando Flores


Reconhecida em 2024 após análises genéticas que separaram a “sucuri-verde” em duas espécies. A akayima vive no norte da Amazônia e bacia do Orinoco, podendo passar de 6 m. É um exemplo de como novas espécies na Amazônia podem estar escondidas em plena megafauna.

Perema-do-Pará (Mesoclemmys sabiniparaensis) – 2023

Pequena tartaruga de água doce em igarapé no Pará, uma das novas espécies na Amazônia descritas em 2023.
Perema-do-pará (Mesoclemmys sabiniparaensis). Foto: Marinus Hoogmoed/divulgação


Tartaruga de água doce descrita em 2023, encontrada em igarapés do sudeste do Pará, no Arco do Desmatamento. É a menor do gênero (cerca de 15 cm) e foi identificada a partir de exemplares de coleção científica.

Rã-venenosa azul-metálica (Ranitomeya aetherea) – 2025

Pequena rã azul-metálica em floresta úmida do Amazonas, uma das novas espécies na Amazônia descritas em 2025.
Rã-venenosa azul-metálica (Ranitomeya aetherea). Foto: Reprodução, Alexander T. Mônico


Pequena rã descrita em 2025 na bacia do rio Juruá (AM). Destaca-se pelo corpo azul-claro e marcas metálicas. Foi identificada em monitoramentos ecológicos recentes, reforçando que novas espécies na Amazônia seguem surgindo mesmo hoje.

“Foram os 20 dias mais felizes das nossas vidas”: morre David Benedito, filho recém-nascido do prefeito David Almeida

A cidade amanheceu menor nesta sexta-feira, 23 de janeiro de 2026, com a notícia da morte de David Benedito Almeida, filho recém-nascido do prefeito de Manaus, David Almeida, e da primeira-dama Izabelle Fontenelle. O bebê tinha apenas 20 dias de vida.

A confirmação veio pelas redes sociais do prefeito, em uma mensagem marcada por fé e gratidão — a tentativa humana de segurar o indizível quando a dor atravessa qualquer linguagem. “Foram os 20 dias mais felizes das nossas vidas”, escreveu David Almeida ao anunciar a despedida, referindo-se ao menino como “filho da promessa”.  

Na publicação, o prefeito também recorreu ao livro de Jó (1:21) — um versículo que, para muitos, funciona como abraço quando a realidade parece impossível: o reconhecimento de que a vida é dom, e de que há perdas para as quais não existe explicação que baste.  

DAVID ALMEIDA

David Almeida revelou que batizou o filho com o próprio nome e com o nome de seu pai, Benedito Almeida — uma escolha que une gerações e transforma o nome em memória viva, mesmo quando a vida, tão breve, não teve tempo de crescer. 

O café volta à Amazônia para ensinar o Brasil a crescer

Coluna Follow-Up

Há quase 300 anos, a narrativa histórica associada a Francisco de Melo Palheta coloca o Pará como porta de entrada do grão. Depois, o Sudeste fez do café uma locomotiva nacional. Hoje, em plena era do carbono, da reputação climática e da economia da floresta em pé, o café retorna ao Norte com uma pergunta que vale mais do que qualquer estatística: a Amazônia pode produzir sem se trair?

Pode — quando a regra é método e a sustentabilidade deixa de ser etiqueta.

No Amazonas, os números recentes da Conab (Safra 2025) falam com clareza: o café está crescendo com produtividade praticamente estável — ou seja, o salto ocorre pela incorporação de área produtiva, não por truques estatísticos.

  • Área de produção: 528,6 ha (2024) → 985,5 ha (2025) (+86,4%)
  • Produção total: 18,8 mil sacas (2024) → 35,2 mil sacas (2025) (+87,2%)
  • Produtividade média: 35,6 → 35,7 sc/ha (+0,4%)

É aqui que entra o ponto político e moral: o que significa ampliar área na Amazônia?

A resposta correta — e a mais defensável — é: significa reocupar com inteligência áreas já abertas, degradadas, empobrecidas, muitas vezes abandonadas. A nova “fronteira” não é a da derrubada. É a da recuperação. O Polo Industrial de Manaus, certamente, escancara suas portas para a indústria cafeeira.

Quando o presidente da FAEA, Muni Lourenço, comenta o avanço, ele não se limita ao café como cultura agrícola. Ele enquadra o café como eixo de economia real — aquela que sustenta o interior e reduz vulnerabilidades.

E aponta a razão técnica do avanço:

O que nos interessa, no entanto, é a frase que muda o patamar do debate, porque coloca o café no lugar certo: como alternativa de recomposição.

Agro Amazonia Cafe Apui Agroflorestal 5set2024 Divulgacao

Aqui, o dado vira chão. Vira família. Vira método. Vira prova de que a Amazônia pode produzir sem ser refém do estigma e sem romper com a floresta.

Uma frase a ressoar pelo beiradão

Na Amazônia, café é economia do interior com recuperação de área degradada.

O consultor Thomaz Meirelles arremata o ponto que o Brasil, muitas vezes, evita: origem não é problema — é ativo. Desde que o “verde” seja comprovável.

Traduzindo em linguagem da “cabucada” legítima: “ A Amazônia precisa parar de pedir desculpas por existir.”

O que ela deve fazer é exigir que o país aprenda a reconhecer valor onde há método, ciência aplicada, tecnologia adaptada e responsabilidade territorial.

A sustentabilidade, quando é séria, não aparece no adjetivo — aparece no desenho do sistema. E é nesse ponto que iniciativas como as do IDESAM ganham relevância: porque ajudam a consolidar modelos em que o café entra como cultura de renda, enquanto o território recupera solo, cobertura vegetal e estrutura produtiva.

O café Apuí, para dar um exemplo em arranjos agroflorestais, é a síntese dessa lógica: a xícara deixa de ser apenas produto; vira mensagem técnica. Uma mensagem capaz de sobreviver ao ceticismo — porque tem prática, tem manejo, tem método.

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O Brasil virou gigante quando o café se industrializou como vocação nacional. Mas o café – não podemos esquecer- entrou pela Amazônia. E talvez por isso mesmo a Amazônia tenha agora o direito — e a responsabilidade — de mostrar ao país um café do futuro: um café que repara, que reocupa, que agrega valor, que organiza o interior e que sustenta reputação climática.

Se o século XVIII foi a porta de entrada, o século XXI pode ser a porta de saída: saída do velho modelo predatório rumo a uma economia em que área degradada vira território regenerado — e a xícara vira sentença:


Follow Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM, e coordenação editorial de Alfredo Lopes, responsável pelo portal