Embora raro de forma natural, o fogo na Amazônia acompanha a presença humana há milênios — de aliado no manejo agrícola a motor do desmatamento. Entenda como essa marca humana molda a floresta.
Na Amazônia, o fogo nunca foi um elemento natural recorrente. Estudos indicam que incêndios naturais poderiam ocorrer apenas uma vez a cada 500 anos na floresta, dada a alta umidade do ar e do solo. Ainda assim, o fogo está presente há milênios no bioma — não de forma espontânea, mas como marca da ação humana.
Ele assume múltiplos usos e significados: pode abrir roças e criar solos férteis em práticas tradicionais ou avançar com o desmatamento e a devastação da floresta. Na percepção social, costuma ser visto apenas como desastre, sinônimo de destruição e perda. Essa leitura não está errada, mas esconde nuances: em determinados contextos, o fogo pode ser aliado da agricultura e da conservação; em outros, é força predatória que ameaça a biodiversidade, a saúde e o equilíbrio climático global. Entenda como a presença humana transformou o fogo em uma das maiores questões para a Amazônia.

Por que incêndios naturais quase não ocorrem na Amazônia?
Embora incêndios sejam registrados todos os anos na Amazônia, eles não fazem parte da dinâmica natural do bioma. Por ser uma floresta úmida, o fogo espontâneo é extremamente raro — estimativas científicas indicam que o fenômeno pode ocorrer apenas uma vez a cada 500 anos ou mais.
Mesmo na estação seca, entre maio e outubro, quando o clima é mais quente e a vegetação acumula material combustível no solo, a alta umidade da Amazônia impede que faíscas naturais, como as de raios, se transformem em grandes incêndios.
Isso diferencia a Amazônia de outros ecossistemas, como o Cerrado, onde o fogo integra o regime ecológico e molda a paisagem há milênios. Na Amazônia, ao contrário, o fogo não faz parte do funcionamento natural da floresta: quase todos os focos observados hoje resultam de ação humana, seja por desmatamento, queimadas agrícolas ou acidentes.

O uso tradicional do fogo para regenerar a floresta
Se o fogo natural é uma raridade na Amazônia, o uso humano do fogo faz parte da história milenar de ocupação do território. Registros paleoecológicos, a partir de camadas de carvão preservadas no solo, revelam que povos pré-colombianos já realizavam queimadas de baixa intensidade para abrir clareiras, cultivar alimentos, facilitar a caça e enriquecer o solo com cinzas e matéria orgânica.
Diferente das queimadas modernas, que devastam grandes áreas, essas práticas eram seletivas: preservavam árvores em pé e favoreciam a abundância de espécies úteis, como castanheiras e açaizeiros.
O manejo do fogo pelos povos indígenas transformou trechos da floresta, dando origem às chamadas Terras Pretas de Índio, solos férteis que ainda hoje são valorizados por agricultores. A prática, conhecida entre alguns povos originários como “fogo bom”, fazia parte de uma relação próxima com a paisagem, guiada pelo conhecimento dos ciclos da chuva, da vegetação e do comportamento do fogo.

Povos da Amazônia e de áreas de transição, como Xingu, Xavante, Pareci, Utiariti e Kadiwéu, mantêm a tradição do uso tradicional do fogo até hoje – tanto em agricultura e caça, quanto em rituais culturais.
Estudos indicam que queimadas ocasionais e de baixa intensidade favorecem a regeneração da biodiversidade em bordas de roça e áreas de transição, além de evitar o acúmulo de combustível que poderia alimentar incêndios de grandes proporções. A tradição indígena segue como exemplo de que o fogo pode ser aliado da floresta e não seu inimigo.
O fogo predatório que empurra a Amazônia para o colapso
Se no passado o fogo era usado de forma controlada por povos indígenas, hoje ele se tornou símbolo de destruição ligado à economia predatória. O fogo que consome a Amazônia é resultado direto da ação humana e do modelo econômico que avança sobre a floresta.
Queimadas são usadas como ferramenta barata, após a derrubada da floresta, para limpar o terreno e enriquecer o solo com cinzas. Esse processo alimenta a expansão da fronteira agropecuária — pastagens de gado e lavouras de soja — e impulsiona atividades ilegais, como grilagem e garimpo, que recorrem às chamas para abrir clareiras e confundir a fiscalização.

Entre julho e setembro de 2024, a Amazônia somou 69 mil focos, o maior número desde 2007, e encerrou o ano com mais de 140 mil incêndios — 42% a mais que em 2023. Em setembro, a região sudoeste do bioma chegou a se tornar a principal emissora de gases de efeito estufa do país, segundo o programa Copernicus.

As consequências são graves. No plano ecológico, incêndios frequentes e intensos degradam a floresta e favorecem espécies invasoras e gramíneas inflamáveis, aumentando o risco de novos focos. Áreas queimadas de forma repetida perdem diversidade, registram maior mortalidade de árvores e comprometem estoques de carbono, reduzindo a resiliência do bioma.
Espécies sensíveis, como orquídeas epífitas, samambaias e anfíbios de sub-bosque, estão entre as mais vulneráveis. Pesquisas no sul da Amazônia já apontam também o declínio de populações de primatas, aves e quelônios em regiões severamente atingidas pelo fogo.

A saúde é uma das áreas mais afetadas: em 2024, a fumaça das queimadas elevou a poluição do ar na Amazônia a níveis até 53 vezes acima do recomendado pela OMS, segundo o IPAM. Cidades como Altamira, Porto Velho e Manaus lideraram os rankings de pior qualidade do ar e hospitais ficaram lotados com casos respiratórios e cardiovasculares, sobretudo entre crianças e idosos.
Estudos já associam a exposição às partículas finas (PM2.5) a milhares de mortes prematuras.

Mudanças climáticas tornam a Amazônia inflamável
As mudanças climáticas estão alterando o regime de fogo na Amazônia e ampliando riscos antes improváveis em uma floresta tropical úmida. A seca prolongada, somada ao aumento das temperaturas e a fenômenos como o El Niño, cria condições ideais para que ações humanas se espalhem com rapidez.
Em 2023, mesmo com a queda do desmatamento, a área queimada aumentou de forma expressiva: mais de 56% da vegetação nativa foi atingida. Pesquisadores alertam que a floresta está mais vulnerável a secas sucessivas, tornando-se inflamável por períodos cada vez mais longos.
O fogo não surge espontaneamente, depende da ação humana, mas o clima extremo potencializa sua propagação. Esse ciclo cria uma interação perigosa entre desmatamento, fragmentação florestal e clima em transformação, no qual cada queimada abre clareiras, resseca o sub-bosque e acumula combustível para novos incêndios.
O ecólogo Carlos Peres alerta para o risco de savanização: a substituição de áreas densas de florestas tropicais por paisagens abertas e secas, semelhantes ao Cerrado. Essa transformação não só libera grandes quantidades de carbono, acelerando a crise climática, como também ameaça a biodiversidade e compromete serviços vitais, como a reciclagem de água e a regulação das chuvas que sustentam a agricultura em todo o continente.
Para a pesquisadora Luciana Gatti, a floresta “está doente”, pois partes do sudeste amazônico já emitem mais CO₂ do que absorvem, sinal de que o bioma se aproxima de um ponto crítico de não retorno.

O olhar da ciência: monitoramentos sobre o fogo na Amazônia
O avanço do fogo na Amazônia é monitorado por uma rede científica que reúne satélites e análises colaborativas. Desde 1998, o Programa Queimadas do INPE registra focos de calor e, em 2024, contabilizou mais de 278 mil no Brasil, maior número desde 2010.
O MapBiomas Fogo mostrou que cerca de 20% do território nacional já queimou ao menos uma vez entre 1985 e 2022, sobretudo na Amazônia e no Cerrado. Enquanto o Copernicus (UE) revelou que, em setembro de 2024, a Amazônia sudoeste foi a principal emissora de gases de efeito estufa do Brasil.
Pesquisas também mostram os impactos ecológicos: incêndios recorrentes favorecem espécies resistentes, mas ameaçam árvores de casca fina, orquídeas, anfíbios e aves de sub-bosque. Esses dados reforçam que a ciência e o monitoramento são peças-chave para proteger a Amazônia.

Iniciativas e estratégias sobre o fogo na Amazônia
Hoje, o enfrentamento às queimadas na Amazônia combina diferentes frentes de ação. Dentre elas, a de fiscalização do Ibama, Funai e Polícia Federal contra queimadas criminosas ligadas ao garimpo e ao desmatamento.

Mas o enfrentamento das queimadas vai além da fiscalização de incêndios ilegais e exige uma nova relação entre conservação, práticas culturais e atividades produtivas. Em 2024, o Brasil criou a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (MIF), que busca equilibrar prevenção, combate e valorização de saberes tradicionais.
A proposta reconhece que o fogo, quando usado de forma controlada, pode ser aliado da biodiversidade e da agricultura familiar, mas se transforma em ameaça quando vinculado ao desmatamento, ao garimpo e à grilagem.
Nesse contexto, brigadas indígenas e comunitárias, apoiadas pelo Prevfogo/Ibama e organizações, como o Instituto Socioambiental, atuam no Xingu, na TI Kayapó e na Terra do Meio, combinando monitoramento por satélite, aceiros e o uso do “fogo bom”.

Esse conhecimento local, baseado na escolha do momento certo e na intensidade das chamas, se junta ao monitoramento científico e ajuda a reduzir a vulnerabilidade a incêndios de grande escala.
O desafio é ampliar essas práticas. É preciso uma fiscalização rigorosa contra o fogo criminoso, mas também políticas que reconheçam e fortaleçam a sabedoria indígena e comunitária. Integrar ciência, tradição e governança é um caminho para reduzir impactos climáticos e proteger a Amazônia.

Na Amazônia, o fogo acompanha a presença humana há milênios: usado por povos indígenas como ferramenta de manejo, hoje ele também alimenta o desmatamento e atividades ilegais. Não é um elemento natural do bioma, nem pode ser classificado como “bom” ou “mau” em si. Seu impacto depende do contexto, do uso e da intensidade.
Enquanto queimadas criminosas destroem a biodiversidade, afetam a saúde pública e comprometem a regulação do clima, práticas tradicionais mostram que o fogo controlado pode ajudar a conservar a floresta. Reconhecer essa diferença é essencial para que políticas públicas integrem ciência e saberes locais, reduzindo riscos e fortalecendo a proteção do bioma. Afinal, o fogo na Amazônia é fruto da ação humana e, nessa condição, carrega a ambivalência de ser instrumento de cuidado ou de destruição.

