“Enquanto focarmos no desenvolvimento de fora para dentro, não teremos mudança das perspectivas — é a organização do atraso. Enquanto as aspirações e desejos regionais forem negligenciados, enquanto for de fora para dentro, da capital para o interior, seguiremos na perspectiva conservadora ou extratora”
A Amazônia tem um atraso que é organizado por nós. Assim, como a desigualdade não é um acaso, o baixo padrão de desenvolvimento é um efeito e não uma causa. Para muitos, convém manter o atraso. Por exemplo, para os conservacionistas, convém manter a floresta intacta. Para aqueles que pretendem usar o recurso no futuro, também convém.
Para os outros a quem agrada alocar os investimentos em outras regiões, também é interessante. Ou seja, a redução da desigualdade regional no país agrada a poucas pessoas. Somos poucos habitantes na Amazônia. Há ainda uma oportunidade de extração. E isso não tem nada de conexo com desenvolvimento. No modelo colonial, extrair e transferir recursos da colônia para o império nunca foi desenvolver a colônia.
O investimento estrangeiro (ou interestadual direto) tem como propósito a extração de recursos e não o desenvolvimento do outro. O desenvolvimento vira uma externalidade e não o alvo. Quando um país estrangeiro construiu um porto em Manaus, o que ele pretendia era extrair o látex a um custo mais interessante

Não havia ali um interesse direto, genuíno ou focado em transformar a nossa realidade. Para uma boa subordinação também é importante que a sociedade não se transforme ampliando seus horizontes ou suas competências. A diversificação de atividades econômicas também é algo que normalmente não agrada às metrópoles, salvo se aquela matriz de oportunidades e de recursos siga integralmente para ela. Assim, o olhar sobre a Amazônia é sempre numa perspectiva extrativa ou conservacionista
Não há um olhar transformador ou diversificador. Assim, convém o atraso. Convém o isolamento. Agrada a poucos a transformação da realidade para um modelo mais próspero e desenvolvido. Além da destruição, o olhar será da extração e da transferência. As pessoas e as cidades ficam sem nomes, sem aspirações, sem sonhos, sem objetivos e sem perspectivas de mudança. Assim, o atraso da realidade vira o atraso da perspectiva. Extrai-se a esperança e o desejo de mudança, pois convém ficar como sempre esteve e é “assim mesmo”. O atraso é um atraso organizado.
A transcendência só será possível quando houver uma perspectiva integrativa e diversificadora. Enquanto focarmos no desenvolvimento de fora para dentro, não teremos mudança das perspectivas. Enquanto as aspirações e desejos regionais forem negligenciados, enquanto for de fora para dentro, da capital para o interior, seguiremos na perspectiva conservadora ou extratora. Nada fazer versus saquear. Precisamos quebrar esta armadilha mental ou só nos restará seguir a organizar o atraso como um atraso continuado e conformado
