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ENAMED: o termômetro do País — e a febre que a Amazônia já padece há décadas

O ENAMED estreou como um espelho tardio: refletiu, em números frios, aquilo que a população sente na pele há anos — a formação médica brasileira está se tornando um loteamento, e não um pacto civilizatório.

Os dados divulgados nesta primeira edição são um alarme: entre formandos de cursos privados que fizeram a prova, 38,8% não atingiram o patamar de proficiência (nota menor que 60 em 100). O contraste expõe uma desigualdade que não é só de renda — é de projeto de país. Entre as 49 faculdades com nota máxima, 40 são públicas, e as duas únicas com 100% de alunos considerados proficientes são federais (UFSCar e UFMS). Do outro lado, multiplicam-se cursos com desempenho crítico, muitos abertos no rastro de uma expansão apressada, judicializada e frequentemente descolada de campos de prática e de corpo docente robusto.

O governo promete medidas: tornar o exame anual, restringir vagas e até suspender ingressos em cursos com baixo percentual de concluintes proficientes; o Conselho Federal de Medicina defende o exame de proficiência como pré-requisito para registro profissional; a associação das universidades particulares contesta critérios e bases de dados. Em Brasília, discute-se a régua. No Brasil real, discute-se a sobrevivência.

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Foto divulgação

Há um equívoco que se repete, com a teimosia dos erros convenientes: acreditar que quantidade resolve o que é, antes de tudo, qualidade, território e responsabilidade.

A medicina não é linha de montagem. É presença, técnica, ética, escuta e repertório humano. E repertório não se improvisa em salas sem laboratório, sem hospital de ensino, sem preceptor, sem vivência de SUS, sem enfrentamento do sofrimento concreto — sobretudo onde o Brasil é mais difícil.

O ENAMED aparece como termômetro. Mas o país insiste em tratar termômetro como remédio.

Quando a formação cai, o preço sobe. Sobe em erros, em filas, em judicialização, em iatrogenia, em desconfiança. Sobe no custo emocional de famílias que peregrinam de porta em porta. E sobe na desigualdade: quem pode paga pelo “melhor”; quem não pode, aprende a aceitar o “possível”.

O resultado é perverso: a medicina que deveria reduzir a dor passa a redistribuí-la — concentrando excelência onde já há estrutura, e espalhando fragilidade onde a saúde pública é mais frágil.

Se o ENAMED quer medir a aptidão do país, a Amazônia é o seu estágio obrigatório.

Aqui, a distância é uma especialidade. O rio é estrada. A floresta é farmácia viva. O calor, a umidade, as doenças negligenciadas, a precariedade logística e a diversidade cultural não são “temas” — são o próprio cotidiano clínico.

ENAMED
Especialistas que estudam a Amazônia

E é justamente aqui que a formação médica brasileira revela seu maior pecado: a arrogância epistemológica.

A medicina ensinada como se São Paulo fosse o mundo — e o mundo fosse um laboratório sem povo — chega à Amazônia sem idioma, sem humildade e, muitas vezes, sem utilidade. Vira técnica sem chão. Vira protocolo sem território. Vira receita que ignora a casa, o rio, a roça, o corpo coletivo das comunidades.

Pior: a medicina, por vezes, se comporta como se fosse a única forma legítima de cuidar — avessa aos saberes originários, indiferente às inteligências tradicionais, desconfiada da fitoterapia como se a floresta fosse superstição, e não ciência acumulada por séculos de observação, uso e transmissão.

Se a intenção é proteger o paciente — e não apenas ajustar manchetes — o país precisa de uma reforma que encare o problema inteiro, com coragem, com prioridade e civilidade.

Curso de medicina sem campo de prática adequado, sem preceptoria, sem hospital-escola ou rede conveniada de qualidade, não pode funcionar. Não é punição: é proteção social.

Na Amazônia, “saúde” inclui logística, saneamento, nutrição, doenças tropicais, clima extremo, violência, mercúrio, desmatamento, saúde mental comunitária. Isso precisa deixar de ser apêndice e virar eixo.

Sem plano de carreira, condições de trabalho e rede de apoio, não há médico que permaneça — e quando permanece, adoece. Fixação não se pede: se constrói com estrutura e dignidade.

Não como folclore para discurso, mas como diálogo técnico, intercultural e responsável. A Amazônia precisa de uma medicina que saiba escutar — e que reconheça, com método, o valor dos conhecimentos tradicionais.

A floresta em pé é também um horizonte terapêutico e científico. O SUS pode — e deve — integrar práticas fitoterápicas com segurança, pesquisa, protocolos e respeito aos detentores do conhecimento. Sem biopirataria, sem arrogância, sem apagamento.

O ENAMED pode ser porta, não destino. Qualidade precisa ser medida também por desfechos: atuação na atenção básica, resolutividade, ética, capacidade de trabalhar em equipe, vínculo com território.

O ENAMED revelou uma rachadura. Mas a rachadura não começou na prova: começou quando o país aceitou que formar médicos poderia virar um mercado sem contrapartida pública, uma concessão sem compromisso, um diploma sem pacto.

Na Amazônia, essa rachadura vira abismo — porque aqui a medicina não é luxo: é fronteira de humanidade.

Se o Brasil quiser mesmo “avaliar a formação médica”, precisa fazer uma coisa simples e difícil: parar de fingir que o centro explica a periferia — e começar a construir uma medicina que caiba no país inteiro.

E, sobretudo, uma medicina capaz de reconhecer que, em plena crise sanitária e climática, ignorância não é apenas falha técnica: é grave risco social.

Quando a ciência vira febre e a saúde vira fantasia

“Hoje são as canetas. Amanhã será outra coisa. O nome do ciclo é o mesmo, performance. E performance, quando vira religião, transforma cuidado em cobrança, ciência em atalho, e saúde em vitrine”

As canetas de GLP-1 saíram do consultório e entraram no feed. No caminho, uma terapia legítima para diabetes e obesidade foi capturada pela lógica do desejo rápido, do pertencimento e do consumo ansioso. O resultado não é só moral ou cultural. É sanitário, econômico e político.

O Brasil vive uma contradição que não cabe na piada pronta nem na demonização automática. De um lado, há uma epidemia silenciosa e persistente. Em 2023, nas capitais brasileiras e no Distrito Federal, 61,4% dos adultos tinham excesso de peso e 24,3% já estavam em obesidade, segundo o Vigitel.  Em Manaus, a obesidade aparece acima da média nacional das capitais, na casa de 27%.  Do outro lado, a cultura do corpo perfeito transforma qualquer avanço em espetáculo. E, quando o espetáculo toma conta, a medicina deixa de ser linguagem de cuidado e passa a ser linguagem de status.

É aqui que a ciência começa a perder o nome e virar apelido. Chama-se “caneta emagrecedora” o que, na origem, é um conjunto de fármacos desenhados para modular glicemia, apetite e metabolismo. A tecnologia existe e é potente. Ensaios clínicos com semaglutida 2,4 mg apontam perdas médias de peso na faixa de 15% a 17% em cerca de 68 semanas em adultos com sobrepeso ou obesidade.  Com tirzepatida, a perda média de peso chegou a 20,9% em 72 semanas na dose de 15 mg no estudo SURMOUNT-1.   É ciência de alto impacto, não truque. Só que a cultura não compra método, compra promessa.

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Quando a promessa entra em cena, a regra do jogo muda. O tratamento deixa de ser decisão clínica com risco e benefício, e vira acessório de identidade. A pessoa não quer apenas reduzir peso. Quer comprar uma sensação de recomeço. Quer uma forma rápida de apagar o “antes”. Quer um atalho para ser aceita, para calar a autocobrança, para vencer uma guerra íntima que a sociedade lucra em manter acesa. O remédio vira ritual de adequação.

A Anvisa enxergou que a febre já tinha passado do ponto. Em abril de 2025, a agência aprovou controle mais rígido na prescrição e dispensação dos agonistas de GLP-1. A receita passou a ser exigida em duas vias, com retenção na farmácia, com validade de até 90 dias.  A justificativa não foi estética. Foi farmacovigilância. A própria Anvisa menciona um número elevado de eventos adversos associados ao uso fora das indicações aprovadas e um sinal comparativo mais alto no Brasil, com base em notificações no VigiMed.  O Conselho Federal de Farmácia informou que as novas regras passaram a valer em 23 de junho de 2025, vinculadas à Instrução Normativa nº 360/2025.  

Essa mudança regulatória é um retrato do nosso tempo. A agência não está combatendo um medicamento. Está tentando conter um comportamento. A compulsão contemporânea por controle do corpo, quando encontra uma tecnologia eficiente, tende a exigir que ela funcione como milagre. E milagre é sempre perigoso, porque dispensa contexto. Dispensa diagnóstico. Dispensa acompanhamento. Dispensa o fato mais básico e mais incômodo, o de que obesidade não é capricho nem fraqueza moral, mas doença crônica, multifatorial, com determinantes sociais, emocionais, ambientais e econômicos. A febre apaga isso tudo e reduz o problema a um enredo simplório de vontade individual.

Há também o efeito colateral social, que raramente vira manchete com a mesma força do antes e depois. Quando um medicamento vira tendência de consumo, ele tende a faltar para quem precisa dele como tratamento de base. Em 2024, redes de farmácias no Brasil relataram escassez de Ozempic, associada ao aumento da procura pelo uso para perda de peso, e pacientes foram empurrados a improvisos e trocas que exigem supervisão médica.  O hype, em vez de democratizar acesso à inovação, pode concentrá-lo ainda mais. A caneta vira símbolo de desigualdade, um objeto que separa quem pode “resolver” o corpo com cartão e quem precisa enfrentar a doença com fila, escassez e frustração.

É por isso que o debate precisa ser duro e, ao mesmo tempo, justo. Demonizar as canetas é infantil, porque desrespeita pacientes com diabetes e pessoas com obesidade que finalmente encontram uma ferramenta eficaz dentro de um plano terapêutico sério. Romantizar as canetas é igualmente infantil, porque transforma farmacologia em fantasia, reduzindo a complexidade do cuidado a uma compra recorrente. Entre um moralismo e outro, a realidade continua, com 24,3% de obesidade nas capitais e 61,4% de excesso de peso, números que não se resolvem com trend.  

O ponto mais provocativo talvez seja este. A sociedade que exige corpos impecáveis sempre tentará capturar a medicina para servir ao mercado da insegurança. Hoje são as canetas. Amanhã será outra coisa. O nome do ciclo é o mesmo, performance. E performance, quando vira religião, transforma cuidado em cobrança, ciência em atalho, e saúde em vitrine. A resposta não está em proibir o avanço. Está em devolver o avanço ao seu lugar correto, o lugar da clínica, do acompanhamento, da ética e do tempo.

Quando a seca vira gargalo, a logística vira destino

Coluna Follow-Up

A escassez insistente — e a coreografia cada vez mais frequente dos extremos climáticos — deixou de ser “tema ambiental” para se tornar problema de competitividade. No Amazonas, isso tem um nome direto: logística. Quando o rio baixa além do previsível, não é só o mapa que muda; mudam o custo do frete, o prazo de entrega, o abastecimento, a rotina do comércio, a segurança alimentar e a previsibilidade industrial. E, num território em que a água é estrada, a hidrologia é economia.

É nesse ponto que a atuação institucional deixa de ser cerimônia e vira trincheira técnica. E é aqui que a Follow Up registra, com justiça, o papel das entidades que não se escondem quando a realidade aperta: FIEAM e CIEAM, em especial por meio de suas Comissões de Logística, têm operado como espaços permanentes de articulação — onde o setor produtivo transforma urgência em agenda, e agenda em pressão qualificada por soluções.

O que muda quando a indústria trata logística como política pública

A indústria do Polo Industrial de Manaus aprendeu, há décadas, que competitividade na Amazônia vai muito além da questão da eficiência interna, é infraestrutura, governança, rota e previsibilidade. Por isso, quando os eventos climáticos extremos passam a reconfigurar sazonalidades, o debate deixa de ser “circunstancial” e passa a ser estrutural.

As comissões do CIEAM com a participação da FIEAM têm um mérito silencioso: elas organizam o caos. Reúnem diagnósticos, aproximam empresas, chamam operadores, portos, transportadores, academia, órgãos reguladores e governos para a mesma mesa — e produzem aquilo que falta nos momentos críticos: coordenação.

Numa Amazônia pressionada por secas severas e pelo encarecimento das rotas, coordenação é mais valiosa do que improviso heroico.

Paisagem da Amazônia afetada por secas quentes, com solo exposto, vegetação ressecada e árvores sob estresse hídrico causado pelo aumento das temperaturas.

A Amazônia já paga caro pela distância, pela dependência hidroviária e pela instabilidade histórica de investimentos estruturantes. Agora, paga também pela volatilidade climática. Ignorar essa soma é condenar a região à desvantagem permanente.
Foto: Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil.

Competitividade é custo, tempo e risco

A Comissão de Logística nas entidades tem ajudado a colocar o problema onde ele deve estar: na contabilidade real do país. Cada dia de instabilidade logística é custo adicional; cada surpresa de calado é risco; cada ruptura de previsibilidade é perda de eficiência sistêmica.

E isso não ameaça apenas o Polo. A ameaça é nacional, porque o que sai de Manaus abastece o Brasil — e o que não chega a Manaus quebra cadeias. O debate é, portanto, federativo: a Amazônia não pode ser tratada como exceção geográfica, quando é coluna logística e ambiental do presente e do futuro do país.

O setor público, quando acerta, acerta junto

Também é preciso registrar os esforços do setor público que têm buscado enfrentar o desafio com pragmatismo — seja na integração à coordenação emergencial em períodos críticos, seja na tentativa de antecipar cenários, ajustar operações, negociar soluções e garantir rotas mínimas de abastecimento.

O que a crise climática exige do poder público é menos retórica e mais três verbos: planejar, integrar, executar. E, quando há interlocução com as entidades e com o setor produtivo, há ganho coletivo: os diagnósticos ficam mais precisos, as medidas menos improvisadas, as respostas mais rápidas.

Essa é a chave: a crise não se resolve com monólogo institucional, mas com um pacto operacional entre quem regula, quem investe, quem produz e quem pesquisa.

A próxima fronteira: inteligência aplicada ao rio

Se os extremos climáticos se repetem, o Amazonas precisa avançar do modo “emergência” para o modo “infraestrutura”. Por isso, a discussão sobre capacidade técnica instalada — como o fortalecimento de centros de monitoramento, modelagem e pesquisa aplicada — entra no coração da competitividade. Não para produzir relatórios, mas para produzir previsibilidade.

O rio precisa – insistimos – ser tratado como sistema: com dado, simulação, cenário e decisão. E a logística precisa deixar de ser refém do susto para virar política de resiliência.

Porto de Manaus zona franca de manaus zfm

Uma nota de realidade

A Amazônia já paga caro pela distância, pela dependência hidroviária e pela instabilidade histórica de investimentos estruturantes. Agora, paga também pela volatilidade climática. Ignorar essa soma é condenar a região à desvantagem permanente. Enfrentá-la é afirmar um princípio simples: não existe competitividade possível sem logística confiável — e não existe logística confiável sem planejamento climático.

É por isso que este ensaio destaca: quando FIEAM e CIEAM operam suas comissões como centros de articulação, e quando o setor público escolhe o caminho do diálogo técnico e da ação coordenada, o Amazonas dá um passo para sair da reação e entrar na estratégia. 

Sugestões de ontem para um debate imediato

O Amazonas não precisa de mais susto para entender o que já está claro. Precisa transformar experiência acumulada em decisão pública. Aqui vão cinco sugestões de medidas prioritárias — para as Comissões de Logística defenderem com firmeza, com prazos e com governança.

Sala de Situação Permanente da Logística 

Instalar uma Sala de Situação (rotina semanal e protocolo de crise), reunindo empresas âncoras, operadores, transportadores, terminais/portos, SUFRAMA e órgãos estaduais/federais. Missão: antecipar gargalos (calado, janelas de navegação, estoque crítico, rotas alternativas) e coordenar respostas.

Protocolo de Seca e Continuidade Operacional do PIM 

Defender um protocolo com gatilhos objetivos (nível do rio + previsões), definindo “carga crítica”, regras de prioridade, estoque mínimo e planejamento de expedição. Meta: reduzir o custo do “apagão logístico” e dar previsibilidade à cadeia.

Pacote de Infraestrutura de Contorno e Resiliência 

Consolidar uma carteira de obras e medidas operacionais (hidrovias, terminais, retroáreas, acessos, pátios, intermodalidade), com quatro exigências públicas: cronograma, fonte de recursos, responsáveis e metas. Sem isso, vira calendário de promessas.

Inteligência Hidrológica Aplicada à Logística

Defender um núcleo técnico com UFAM e SGB para modelagem hidrodinâmica e cenários operacionais, traduzindo ciência em decisão (risco por trecho, janelas, planejamento de frota/carga). O clima entrou na planilha — e ficará.

Agenda Nacional de “Competitividade Logística Amazônica” 

Propor reconhecimento formal de um regime de competitividade logística amazônica, com metas de desempenho (tempo/custo), investimentos mínimos anuais e mecanismos de financiamento e inovação. Tese: se o país se beneficia do PIM, precisa garantir as condições estruturais de funcionamento em cenário climático adverso.

O debate já amadureceu. É hora do passo seguinte: governança, prioridade e execução — para que a Amazônia deixe de reagir e comece a conduzir.


Follow Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, consultor da entidade e editor do portal https://brasilamazoniaagora.com.br

Pacaraima sob pressão: quando a disputa entre Trump e a Venezuela empurra a crise para dentro da Amazônia

Em 2026, vulnerabilidade se transformou em instabilidade crônica. O fechamento intermitente da passagem, decidido unilateralmente pelo governo venezuelano após novos episódios de tensão política e diplomática, não apenas interrompeu fluxos: reorganizou a vida social, econômica e criminal do lado brasileiro da fronteira. O que se vê hoje em Pacaraima não é um evento isolado, mas um estado permanente de alerta.

A fronteira abre e fecha conforme o humor político do regime venezuelano e a temperatura da relação com Washington. Não há previsibilidade. Para o Brasil, isso significa lidar com consequências diretas de uma disputa da qual não participa como protagonista, mas da qual absorve os custos humanos, institucionais e ambientais.

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Katarine Almeida/ Material cedido ao Metrópoles

Desde 2015, mais de um milhão de venezuelanos atravessaram essa fronteira. Esse dado, por si só, desmonta qualquer tentativa de enquadrar a situação como “crise migratória episódica”. O fluxo nunca cessou; apenas se reorganizou conforme as condições políticas e econômicas do país vizinho. Entre 2020 e 2025, mais de 128 mil venezuelanos foram oficialmente registrados no Brasil, mas esse número não captura a totalidade do fenômeno.

Há uma massa flutuante, invisibilizada, que entra, sai, retorna ou permanece à margem de qualquer estatística. Em 2026, mesmo com restrições adicionais e fechamentos temporários, a pressão continua. A razão é simples: a deterioração das condições de vida na Venezuela não oferece alternativas reais. Para muitos, atravessar a fronteira deixou de ser escolha e passou a ser estratégia de sobrevivência.

O problema é que, ao chegar, encontram um território igualmente frágil, incapaz de absorver indefinidamente esse contingente sem gerar tensões internas. Pacaraima tornou-se, assim, um ponto de compressão social. Serviços públicos já limitados — saúde, educação, assistência social — operam sob sobrecarga constante. A convivência entre moradores locais e migrantes, inicialmente marcada por solidariedade, passa a conviver com episódios de xenofobia, disputa por trabalho informal e desgaste comunitário. Esse ambiente não surge do nada: ele é produzido pela ausência de soluções estruturais e pela transformação da exceção em regra.

A Operação Acolhida, concebida para organizar esse fluxo, representa um esforço institucional relevante do Estado brasileiro. Seu desenho — ordenamento de fronteira, acolhimento emergencial e interiorização — evitou um colapso humanitário ainda maior. Mais de 150 mil venezuelanos foram interiorizados para outros estados, redistribuindo parcialmente a pressão concentrada em Roraima. Ainda assim, a operação atua como amortecedor, não como solução definitiva.

Nos últimos dois anos, sinais de subfinanciamento e esgotamento operacional tornaram-se mais evidentes. Abrigos funcionam no limite, equipes trabalham sob estresse contínuo e a integração efetiva ao mercado de trabalho avança em ritmo inferior ao necessário.

Quando a interiorização desacelera e a fronteira fecha, o migrante fica preso em uma zona cinzenta: não avança, não retorna, não se integra. É exatamente nesse intervalo que a vulnerabilidade se transforma em ativo para o crime organizado. A fronteira Brasil–Venezuela não é apenas corredor humanitário; é também território de oportunidades ilícitas.

Redes de tráfico de pessoas, exploração sexual, trabalho forçado, drogas e armas se alimentam da fragilidade institucional e da desesperança de quem chega sem documentos, renda ou proteção. O crime oferece aquilo que o Estado demora a entregar: transporte, abrigo, renda imediata e uma forma distorcida de pertencimento.

A Amazônia amplifica esse problema. Sua geografia — rios extensos, áreas remotas, baixa densidade estatal — faz da região um corredor logístico estratégico para atividades ilegais. Garimpo clandestino, tráfico de fauna, contrabando de madeira e combustíveis encontram na instabilidade fronteiriça um ambiente fértil. A crise migratória, nesse contexto, não é apenas humanitária ou social: ela se converte rapidamente em crise ambiental, com impactos que extrapolam Roraima e atingem todo o bioma amazônico.

Não por acaso, operações recentes de segurança identificaram conexões entre redes criminosas que atuam na fronteira norte e facções instaladas no Sudeste e em outras regiões do país. A Amazônia reaparece, mais uma vez, como porta de entrada e saída — agora não apenas de recursos naturais, mas de pessoas e capitais ilícitos. O que começa como deslocamento humano termina como engrenagem de economias clandestinas altamente lucrativas.

Diante desse cenário, o Estado brasileiro reforçou sua presença militar e de monitoramento. Exercícios como a Operação Atlas 2025 indicam que as Forças Armadas tratam a região como área de atenção estratégica. Esse movimento, contudo, revela uma tensão central: segurança e defesa não substituem política pública. O preparo militar responde a riscos de soberania, mas não resolve a pressão social, a integração dos migrantes nem o avanço do crime nas brechas institucionais.

O resultado é um modelo essencialmente reativo. Cada fechamento de fronteira exige improviso. Cada novo pico migratório testa os limites do sistema. Cada avanço do crime gera resposta pontual, sem atacar as causas profundas. Enquanto isso, o Brasil assume, na prática, o papel de amortecedor geopolítico de uma disputa entre Washington e Caracas.

A disputa não ocorre em Pacaraima, mas seus efeitos se materializam ali. Quando a fronteira fecha do lado venezuelano, o problema não desaparece — ele se acumula do lado brasileiro. Municípios pequenos, estados com baixa capacidade fiscal, comunidades indígenas e a própria floresta pagam a conta.

A Amazônia, mais uma vez, aparece como território onde o mundo descarrega suas crises. O caso de Pacaraima revela uma verdade incômoda: a Amazônia deixou de ser apenas fronteira ambiental ou econômica e passou a ser fronteira da geopolítica global. Ignorar isso é erro estratégico. Tratar a situação como emergência temporária é insistir na repetição do problema. O que está em jogo não é apenas a gestão de fluxos migratórios, mas a capacidade do Brasil de construir uma política de Estado para suas fronteiras sensíveis.

Isso exige financiamento estável, integração econômica real, inteligência financeira para sufocar redes criminosas, proteção ambiental articulada à segurança e desenvolvimento regional que reduza a vulnerabilidade local. Enquanto isso não ocorrer, Pacaraima continuará sendo o lugar onde crises internacionais ganham corpo, rosto e consequência. E a Amazônia seguirá sendo chamada a resistir — não apenas como floresta, mas como território humano submetido à pressão constante de um mundo em conflito.

Milhões de espécies invisíveis: fatos e curiosidades sobre a biodiversidade amazônica

A biodiversidade amazônica abriga milhões de espécies ainda desconhecidas da ciência. Nessa reportagem, revelamos por que a floresta concentra tanta vida, o que ainda não conhecemos e o risco de perder espécies antes da descoberta.

A biodiversidade amazônica é a maior do planeta e também a mais desconhecida da face do planeta terra. Resultado de milhões de anos de estabilidade climática e transformações geológicas, a floresta abriga um universo de espécies ainda invisíveis à ciência, com impactos diretos sobre o clima, a economia e o futuro sustentável do Brasil e do mundo.

Vista aérea da floresta amazônica conservada, área monitorada pelo Imazon.
Foto: Brk Ambiental

Por que a Amazônia concentra tanta biodiversidade?

A Amazônia é o maior reservatório de vida do planeta. A biodiversidade imensa do bioma é resultado de milhões de anos de relativa estabilidade climática, combinados a uma história geológica dinâmica que moldou rios, solos e habitats.

O soerguimento da Cordilheira dos Andes, iniciado há dezenas de milhões de anos, mudou o curso dos ventos, das chuvas e dos rios do continente. Antes disso, a drenagem amazônica seguia em direção ao Pacífico. Com o avanço das montanhas, a umidade vinda do Atlântico passou a se concentrar na região, intensificando as chuvas e criando o cenário ideal para a expansão de vida.

Imagem aérea da Cordilheira dos Andes, formação é crucial para explicar como surgiu a Amazônia.
Cordilheira dos Andes. Foto: Jorge Morales Piderit

Entre 23 e 10 milhões de anos atrás, grande parte da Amazônia ocidental foi ocupada por um imenso sistema de áreas alagadas conhecido como Sistema Pebas, um “pantanal continental” que isolou e reconectou populações ao longo do tempo. Esse vai e vem de barreiras naturais funcionou como um motor de diversificação biológica, favorecendo o surgimento de novas espécies.

Quando o Rio Amazonas finalmente inverteu seu curso, há cerca de 10 milhões de anos, conectando-se ao Atlântico, populações antes separadas se misturaram, enquanto outras foram isoladas. O resultado foi um mosaico ecológico extremamente complexo, base da megadiversidade atual.

O tamanho do desconhecido

Estima-se que a Amazônia concentre de 10 a 20% de todas as espécies conhecidas do planeta. Ainda assim, grande parte da biodiversidade amazônica permanece fora dos registros científicos. Esse vazio é conhecido como “déficit de Linneu” (Linnean Shortfall): a distância entre o número de espécies descritas pela ciência e o total que realmente existe.

O Brasil lidera a lista de países mais megadiversos do mundo, da UN environment programme, com cerca de 15% a 20% da biodiversidade global. A Amazônia concentra a maior fatia desse patrimônio. Só na região já foram registradas cerca de 15 mil espécies de plantas vasculares, mais de 2.700 espécies de peixes de água doce, cerca de mil espécies de aves e centenas de mamíferos, répteis e anfíbios. Mesmo assim, novas descobertas seguem em ritmo acelerado.

Infográfico número de espécies da biodiversidade amazônica.
Foto: Brasil Amazônia Agora.

Entre 2014 e 2015, uma nova espécie foi descrita na Amazônia a cada dois dias. Nos últimos anos, mais de 2 mil espécies foram oficialmente identificadas, incluindo vertebrados de médio e grande porte, algo raro em outros biomas já amplamente catalogados.

O maior lacuna de conhecimento da biodiversidade amazônica está nos insetos, fungos e microrganismos do solo. Uma única colher de chá de solo pode abrigar até 1.800 formas de vida microscópicas, muitas ainda fora dos registros científicos, responsáveis por processos essenciais como a ciclagem de nutrientes e a fertilidade da floresta.

Inseto amazônico sobre galho na Floresta Amazônica, representando a biodiversidade amazônica ainda pouco conhecida pela ciência.
Inseto coletado pelo INPA. Foto: Reprodução/INPA.

Esse desconhecimento tem consequências diretas. Com o avanço do desmatamento e da degradação ambiental, milhares de espécies amazônicas podem desaparecer antes mesmo de serem conhecidas pela ciência. Estima-se que mais de 8 mil espécies de plantas e 2.300 espécies de animais já estejam ameaçadas na região, o que pode significar a perda de potenciais alimentares, medicinais e tecnológicos ainda desconhecidos.

“Enquanto estou querendo chegar a um lugar que para a ciência é desconhecido, os madeireiros, a mineração já chegaram lá”, afirma Rodrigo Costa Araújo, primatologista especialista em saguis.

Por que é tão difícil conhecer a biodiversidade amazônica?

A Amazônia ocupa cerca de 7 milhões de km², espalhados por nove países. A dimensão continental, aliada à baixa infraestrutura, torna expedições científicas caras, longas e logisticamente complexas.

Grande parte do conhecimento disponível está concentrada ao longo de rios e próximos a cidades como Manaus e Belém. Regiões de interflúvio, serras isoladas e áreas de altitude seguem praticamente inexploradas. Além disso, a maior parte da biodiversidade vive nas copas das árvores, o dossel, uma “cidade suspensa” de difícil acesso.

Dossel da Floresta Amazônica visto de cima, onde se concentra grande parte da biodiversidade amazônica.
Foto: Tim Lamán/Nat Geo Image Collection.

Outro obstáculo é o tempo. Descrever uma espécie pode levar anos entre coleta, comparação em coleções biológicas, análises genéticas e validação por especialistas. O número de taxonomistas é insuficiente para acompanhar a velocidade das transformações ambientais.

Novas tecnologias, como o DNA ambiental (eDNA), ajudam a acelerar o processo ao identificar espécies a partir de vestígios genéticos presentes na água ou no solo, sem a necessidade de capturas diretas. Ainda assim, esses avanços não substituem a necessidade de investimento contínuo, equipes qualificadas e da integração com o conhecimento local, essenciais para transformar dados em conhecimento científico e políticas de conservação.

Espécies amazônicas presentes no cotidiano e que poucas pessoas percebem

A biodiversidade amazônica já faz parte do cotidiano global. A floresta é um dos principais centros de domesticação de plantas do mundo, moldada por povos indígenas há milhares de anos.

A mandioca, base alimentar de milhões de pessoas, teve origem amazônica. O cacau, hoje símbolo da indústria do chocolate, foi domesticado na bacia amazônica antes de ganhar o mundo. A castanha-do-brasil, o açaí, o cupuaçu e dezenas de outras espécies foram selecionadas e manejadas por gerações.

Trabalhador abre fruto de cacau na Amazônia, espécie de origem amazônica ligada à biodiversidade amazônica e à bioeconomia.
Foto: Imago Xinhua

Óleos como andiroba, murumuru e pracaxi estão presentes em cosméticos e fármacos e resinas amazônicas fazem parte da perfumaria internacional. A fibra de curauá já é usada pela indústria automotiva como alternativa sustentável à fibra de vidro. Além disso, a Amazônia concentra uma vasta farmacopeia natural, com espécies como a quina e a copaíba, usadas há séculos na medicina tradicional e incorporadas à pesquisa farmacêutica moderna.

A Amazônia não é apenas um estoque de espécies: é uma infraestrutura viva que sustenta sistemas agrícolas, industriais e climáticos em escala continental. Conhecer e proteger essa biodiversidade é entender que o desconhecido na Amazônia não representa ausência, mas um enorme potencial ainda a ser revelado.

III Fórum ESG Amazônia: o ensaio geral do Acordo UE–Mercosul — e a chance de o PIM chegar primeiro

Coluna Follow-Up

O Acordo UE–Mercosul, assinado em 17 de janeiro de 2026, abriu uma nova etapa política e econômica, mas, sobretudo, instituiu uma nova gramática de mercado: a Europa não compra apenas mercadoria; compra evidência. Compra rastreabilidade. Compra credibilidade. Compra o que pode ser auditado sem pedir licença à retórica.

É por isso que a preparação do Fórum pode ser um momento privilegiado para matizar os desafios do Acordo — matizar no sentido forte, civilizado, que nos interessa. Não se trata de celebrar ou temer. Trata-se de olhar por dentro, ver onde o Acordo aperta, onde ele libera, onde ele exige, e onde ele premia quem se organiza primeiro.

O carbono virou alfândega

O primeiro aperto tem nome e calendário. O carbono está deixando de ser discurso e virando alfândega. O CBAM, mecanismo europeu de ajuste de carbono na fronteira, sai do regime de transição e entra em fase operacional plena a partir de 2026, e isso desloca o eixo competitivo: o preço do produto passa a carregar com mais nitidez o preço das emissões.  O que era reputação começa a virar custo. O que era promessa passa a virar documentação.

E, nesse ponto, o PIM precisa se perguntar, com frieza industrial: qual é o nosso passaporte de emissões por cadeia, por produto, por setor? Porque, se não houver resposta técnica, o mercado europeu fará a pergunta com a linguagem que ele domina: tarifa, exigência, barreira não-tarifária, tempo perdido.

Rastreabilidade não é pauta ambiental; é requisito comercial

Daí a ponte natural para o segundo aperto, que é rastreabilidade. A União Europeia está reforçando seus instrumentos contra o desmatamento e elevando as obrigações de diligência das cadeias, com prazos que foram ajustados, mas sem recuo no princípio. O relógio da implementação do regulamento anti-desmatamento foi empurrado para dezembro de 2026, mas o rumo segue o mesmo: quem não rastreia, não entra; quem não prova, não passa.  Isso empurra a Amazônia para um dilema que é também uma chance: ou ser tratada como território suspeito, ou converter-se em território premium pela capacidade de provar conformidade e impacto positivo.

Apreensao de madeira de desmatamento ilegal em Espigao do Oeste Rondonia foto Fernando Augusto Ibama
foto: Fernando Augusto/Ibama

A indústria como guarda-chuva da floresta em pé.

E é justamente aqui que o III Fórum ajuda a construir a virada narrativa que vale: a indústria como guarda-chuva da floresta em pé. Só que, para essa frase não virar apenas uma bela metáfora, ela precisa ganhar ossatura. Precisa virar argumento verificável, com indicadores, com governança, com trilhas de implementação, com um mínimo de padrão comum que permita ao PIM dizer ao mundo, sem tremor: nossa presença reduz pressão sobre a floresta, eleva produtividade por hectare inexistente, desloca a economia da devastação para a economia do valor, e faz isso de modo mensurável. Não se pede “compreensão”; oferece-se prova.

ESG sem métrica é folclore corporativo

Nesse sentido, o Fórum não pode ser apenas palco. Ele precisa funcionar como canteiro de obra. A Suframa já lançou a iniciativa ZFM+ESG, o que significa que existe base institucional para transformar intenção em programa.  O desafio agora é deixar de tratar ESG como ensaio e passar a tratá-lo como infraestrutura de mercado.

Isso exige rotina, exige protocolo, exige metas. Exige, principalmente, um acordo dentro do próprio PIM sobre o que será considerado “mínimo aceitável” de mensuração e transparência, para que cada empresa possa avançar com sua estratégia, mas sem que o conjunto fique vulnerável por falta de padrão.

Neutralização de carbono: oportunidade — desde que não vire atalho retórico

Aí entra o ponto mais delicado — e também o mais promissor. Certificação, neutralidade, inventário, auditoria: tudo isso pode ser vantagem comparativa real, desde que não vire atalho retórico. A própria discussão sobre neutralização do carbono do PIM, apresentada no ambiente CIEAM/Suframa, aponta uma direção potente ao colocar a floresta não como paisagem, mas como infraestrutura climática.

Só que a Europa não compra poesia ambiental. Ela compra método. Portanto, a pergunta decisiva não é “vamos neutralizar?”, mas “qual metodologia, qual governança, qual auditoria, qual cronograma, e quais setores começam primeiro?”.

Floresta Amazônica densa com vegetação úmida após chuvas, céu nublado ao fundo.

O Acordo também traz riscos — e “matizar” é olhar para eles de frente

Quando essa engrenagem se encaixa, uma consequência econômica emerge com naturalidade. Se o PIM se apresenta como plataforma industrial capaz de entregar conformidade, rastreabilidade e desempenho ambiental, ele vira também ímã. Ímã de investimento europeu, não por filantropia, mas por racionalidade: fabricar em Manaus para acessar Mercosul e outras rotas regionais, com um “selo territorial” que conversa com a nova régua europeia. O que hoje é desafio pode virar diferencial, desde que se trate ESG como produtividade aplicada.

Claro, tudo isso acontece sob tensão política. O Acordo ainda atravessa resistências e disputas, especialmente na ratificação europeia, e isso recomenda prudência.  Mas prudência não é paralisia. Pelo contrário: quando o cenário é incerto, quem se antecipa não perde tempo discutindo o vento; constrói o barco. E a preparação do III Fórum pode ser justamente esse momento de construção.

O que o III Fórum pode produzir além dos debates

Se quisermos que o Acordo UE–Mercosul seja oportunidade e mais do que manchete, o III Fórum precisa sair do formato “evento” e entrar no formato “entrega”. Um mapa claro das exigências europeias que realmente importam para as cadeias do PIM, trilhas setoriais com metas de 12 meses, um protocolo mínimo de inventário e auditoria, e uma carta de posicionamento que transforme a frase “indústria como guarda-chuva da floresta em pé” em compromisso mensurável.

Porque, no mundo que está nascendo, sustentabilidade não é medalha. É senha de acesso.

O Acordo União Europeia–Mercosul e o novo mapa das exigências: o que muda na prática para a ZFM

O acordo União Europeia–Mercosul não inaugura apenas um novo corredor de oportunidades comerciais. Ele inaugura, sobretudo, um novo mapa de exigências — um conjunto de filtros técnicos, ambientais, reputacionais e regulatórios que passa a funcionar como “alfândega invisível” do século XXI. A Zona Franca de Manaus, que historicamente se construiu como solução nacional para um problema regional, precisa agora se preparar como solução regional para um problema global.

O ponto de partida é objetivo: o acordo foi assinado em 17 de janeiro de 2026, em Assunção, encerrando um ciclo de negociações de mais de duas décadas, mas ainda depende dos trâmites internos de ratificação e conclusão institucional na Europa.
É, portanto, uma realidade aberta: a assinatura muda o jogo, ainda que a implementação plena siga seu rito.

A pergunta prática, então, não é “se” o mundo vai exigir mais. É quando e como essas exigências passarão a incidir sobre produtos, cadeias e reputações conectadas à Amazônia — inclusive quando a exportação direta da ZFM para a UE não for o centro do fluxo. Porque, no novo comércio, a exigência viaja junto: ela se torna padrão de contrato, padrão de auditoria, padrão de financiamento e padrão de compra.

Desafios e tarefas

O acordo reduz tarifas, mas aumenta o preço de entrada “não tarifário”

A narrativa tradicional de um acordo comercial é simples: reduz tarifas, abre mercado, amplia competitividade. Isso é verdadeiro — e está registrado nos próprios documentos europeus: o acordo prevê ampla liberalização tarifária e remoção de barreiras comerciais ao longo do tempo.

Mas o mundo de 2026 opera com uma segunda camada, mais decisiva: barreiras não tarifárias (padrões técnicos, sanitários, rastreabilidade, dados, certificações, auditorias, due diligence, comprovações de origem e de impactos).

Em outras palavras

A tarifa cai, mas o contrato fica mais exigente; a porta abre, mas o corredor fica mais estreito. Para a ZFM, isso muda a prática de três maneiras:

  • O acesso ao mercado europeu tende a exigir prova documental mais robusta (conformidade técnica, origem, processos, substâncias, resíduos, pegada de carbono, condições de produção).
  • A compra europeia passa a ser cada vez mais “compliance-driven”: quem não comprova, perde.
  • O custo de não conformidade cresce: risco de rejeição de lote, cancelamento de contrato, “lista interna” de fornecedores, encarecimento de crédito e seguros.

Sustentabilidade operacional, não discurso

O acordo é acompanhado de uma arquitetura institucional e temática que reforça compromissos de sustentabilidade no relacionamento comercial (inclusive por meio de capítulos e instrumentos específicos de “trade and sustainable development” no texto publicado pela Comissão Europeia).

Isso significa que a conversa “Amazônia” muda de plano: sai do marketing e entra na governança de cadeias. E aqui aparece a exigência mais sensível para o Brasil: a Europa está operando com legislação própria que condiciona comércio a critérios ambientais verificáveis.

O caso mais emblemático

Sem sombra de dúvida é a Regulação Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR). Pelas regras em vigor após o adiamento formalizado pelo Conselho, sua aplicação passa a valer a partir de 30 de dezembro de 2025.
Ao mesmo tempo, o próprio processo europeu discute ajustes e simplificações adicionais, com debates institucionais recentes sobre revisão e cronogramas.

O recado prático, para qualquer cadeia conectada a commodities sensíveis (direta ou indiretamente), é direto: geolocalização, rastreabilidade e due diligence deixam de ser diferencial e viram obrigação. E aqui está um ponto decisivo para a ZFM: mesmo quando a indústria local exporta manufaturados, ela pode carregar insumos, embalagens, matérias-primas ou componentes que entram em cadeias monitoradas por critérios ambientais.

O “efeito dominó” é inevitável: grandes compradores europeus repassam obrigações para toda a cadeia — e isso chega aos fornecedores.

O carbono passa a ser uma variável de preço

E também de acesso.

A Europa está implementando o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM). O regulamento estabelece um período transitório de 1º de outubro de 2023 a 31 de dezembro de 2025, com obrigações focadas em reporte.

A partir de 2026, inicia-se a fase de operação plena; e os detalhes de implementação e cronograma de certificados vêm sendo ajustados por atos normativos posteriores.

Mesmo que o CBAM incida, por enquanto, em grupos específicos de bens intensivos em emissões, ele estabelece uma lógica que tende a contaminar o restante do mercado: quem mede carbono, negocia; quem não mede, justifica; quem não justifica, perde.

Para a ZFM, isso cria uma urgência técnica: consolidar metodologias de cálculo, padronizar inventários, fortalecer auditoria e produzir um “idioma comum” de dados climáticos que seja aceito por compradores, bancos e seguradoras internacionais.

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Foto: L’Odyssée Belle

O acordo também reorganiza concorrência

A começar por investimento e reputação.

Há, ainda, um aspecto menos comentado: ao abrir uma grande zona de comércio e previsibilidade, o acordo tende a reordenar investimentos. A Comissão Europeia sustenta que o pacto melhora a segurança e a previsibilidade das cadeias e pode estimular fluxos em setores estratégicos.

Isso pode ser virtuoso para o Amazonas — desde que haja preparação institucional. Caso contrário, o investimento vai para onde já existem “pistas asfaltadas” de compliance, inovação e mão de obra qualificada.

E aqui entra o tema central desta preparação: a academia. Não como enfeite, mas como infraestrutura. Porque o novo mapa das exigências é um mapa de dados: séries históricas, métricas verificáveis, padrões de medição, validação, certificação, protocolos de auditoria, construção de indicadores e inovação aplicada. Sem isso, a região fica presa a uma defesa retórica — que não atravessa contratos.

O que muda amanhã na rotina da ZFM

Se este ensaio tivesse de resumir, em linguagem de chão de fábrica e sala de reunião, as mudanças práticas, listaria sete providências:

  1. A documentação vira produto: além de fabricar bem, será preciso “provar bem”.
  2. Rastreabilidade tende a subir na cadeia: fornecedores serão cobrados por compradores, não apenas por fiscalização.
  3. Sustentabilidade vira critério de compra, não apenas de comunicação.
  4. Medição de carbono entra no radar como variável de custo, acesso e reputação.
  5. A conformidade técnica europeia se torna referência dura — e pode ser replicada em outros mercados.
  6. O tempo de reação diminui: a exigência chega antes da lei, pela via dos contratos.
  7. Quem se organizar primeiro, define o padrão e se posiciona como “fornecedor confiável” num mercado que paga por previsibilidade.

Um chamado prático

Criar um “pacto de preparação” ainda em 2026. A assinatura do acordo em janeiro de 2026 deve ser lida como um marco simbólico e operacional: não é o fim da negociação; é o início da cobrança. A agenda mínima, para a região, poderia começar com ações simples e imediatas:

  • Um Observatório UE–Mercosul da Competitividade da ZFM, com participação real de indústria, governo e universidades, focado em exigências técnicas, ambientais e de dados.
  • Uma agenda de “compliance produtivo” setorial, para mapear lacunas de rastreabilidade, resíduos, energia e carbono.
  • Um programa de formação e certificação, com a academia na liderança, para transformar conhecimento em capacidade operacional.
  • O acordo abriu a porta. Agora, é método, unidade e coragem. E, sobretudo, é ciência aplicada: porque no mundo que se anuncia, a reputação não é retórica — é evidência.

A Porta e o Passaporte: o Polo Eletroeletrônico do Amazonas diante do Acordo UE–Mercosul

“A posição do SINAEES-AM é direta: tratar a oportunidade com disciplina. O que abre porta na Europa é prova: prova de origem, de qualidade, de rastreabilidade, de responsabilidade pós-consumo, de seriedade institucional. E nós podemos provar — desde que façamos agora o que o acordo vai cobrar depois”.

O Acordo UE–Mercosul. Para alguns, um mapa novo sobre a mesa. Para nós, no polo eletroeletrônico do Amazonas, ele é também um teste de maturidade: de competitividade, de governança industrial e de capacidade de antecipar exigências antes que se tornem barreiras.

Falo a partir do chão de fábrica e da responsabilidade institucional do SINAEES-AM: o setor eletroeletrônico, quando levado a sério, é mais do que engrenagem produtiva. Ele é infraestrutura invisível do cotidiano — e pode ser, se houver providência e estratégia, infraestrutura visível de um novo ciclo de desenvolvimento tecnológico e sustentável na Amazônia.

A Porta e o Passaporte: o Polo Eletroeletrônico do Amazonas diante do Acordo UE–Mercosul
Foto divulgação

O acordo pode abrir portas, sim. Mas porta aberta não é caminho desimpedido. A Europa negocia comércio, porém opera por regras: rastreabilidade, conformidade técnica, sustentabilidade, diligência na cadeia, padronização, segurança do consumidor, responsabilidade pós-consumo. O acordo, portanto, é expectativa e é salvaguarda; é oportunidade e é providência. E o polo eletroeletrônico precisa entrar nele com postura adulta: nem euforia ingênua, nem medo defensivo.

A primeira expectativa é a previsibilidade. Um acordo desse tipo tende a reduzir incertezas tarifárias, harmonizar parte de regras e oferecer um ambiente mais estável para investimentos, inclusive em modernização industrial.

Para o eletroeletrônico, previsibilidade não é detalhe: é o que viabiliza planos de longo prazo em P&D, engenharia, automação, qualificação e escalonamento produtivo. Com horizonte claro, a indústria decide melhor onde colocar capital, como redesenhar portfólio e como integrar cadeias. E previsibilidade é também reputação: quando um país e uma região se mostram confiáveis para o comércio, o mercado responde.

Na Zona Franca de Manaus existe um componente adicional: o acordo pode elevar a pressão por eficiência e conformidade, mas também pode ampliar nossa legitimidade — desde que façamos o dever de casa. A Europa compra de quem prova. A prova, no nosso caso, é industrial e socioambiental.

Nos acordos contemporâneos, a discussão não é só “quanto se exporta”, mas “como se produz”. E aqui entram as salvaguardas — não como burocracia, mas como condição de acesso real.

O setor eletroeletrônico é globalizado; componentes cruzam fronteiras diversas vezes. Se não houver leitura fina das regras, podemos cair num paradoxo: produzir muito, mas não atender origem para acessar preferência tarifária.

Providência: mapear cadeias, índices de conteúdo regional, etapas críticas e estratégias de adensamento produtivo.

Normas e certificações não são enfeites: são passaportes. Segurança elétrica, compatibilidade eletromagnética, eficiência energética, substâncias restritas, documentação técnica — tudo isso vira barreira se tratado como “último item”.

Providência: uma agenda setorial de normalização, centros de testes, rotinas de auditoria e qualificação de equipes.

A União Europeia intensifica exigências de diligência na cadeia (ambiental e social). Isso aumenta custo de conformidade, mas também diferencia quem faz certo.

Providência: rastrear cadeia, formalizar fornecedores, elevar práticas trabalhistas e ambientais, estabelecer governança de compliance e relatórios.

Energia, emissões e eficiência entram no cálculo de preço e de risco reputacional.

Providência: metas de eficiência, inventário de emissões e, quando fizer sentido, compensações confiáveis e auditáveis.

Se tratado como plataforma — e não como evento — o acordo abre oportunidades objetivas.

O tempo do acordo não é o tempo da fábrica. Se esperarmos a poeira baixar, entraremos atrasados. Há providências de empresa, de setor e de Estado.

Dito isto…

O Acordo UE–Mercosul não é um prêmio. É uma convocação. Ele nos pede uma escolha: ou entramos como plataforma madura — de conformidade, engenharia, eficiência e circularidade — ou veremos o acordo virar, contra nós, um jogo assimétrico em que uns chegam com passaporte e outros com promessa.

A posição do SINAEES-AM é direta: tratar a oportunidade com disciplina. O que abre porta na Europa é prova: prova de origem, de qualidade, de rastreabilidade, de responsabilidade pós-consumo, de seriedade institucional. E nós podemos provar — desde que façamos agora o que o acordo vai cobrar depois.

Porque, no comércio do nosso tempo, vence quem antecipa. E o Polo de Manaus, se agir com providência, pode transformar exigência em vantagem e acordo em plataforma: para exportar melhor, inovar mais, circular com responsabilidade e reafirmar, com dados e entrega, que a Amazônia também é território de indústria avançada — quando a estratégia encontra o compromisso.

Concessão da infraestrutura: o desafio das periferias no desenvolvimento nacional

Quando o Brasil será um país para todos? Parece que isso está longe da pauta, pois os consensos e o que acontecem na institucionalidade carece de reverberação nas massas e para as periferias nacionais. As elites se protegem como todas as elites e as multidões se perdem em fofocas e no credo a um líder imaginado, que não tem ressonância nos fatos da realidade nua e crua.

Assim, o debate público se afasta de fatos e dados, salvo em alguns momentos, que precisamos aproveitar com zelo. Quando todos pensavam que o Governo atual seria contra privatizações, eis que vemos a pena assertiva da Folha de São Paulo, em 18/01/2026, com a métrica objetiva e o fato: o governo Lula 3 foi o que mais fez concessões de infraestrutura, com 50 leilões, quase o dobro das 26 dos governos FHC e, em 3 anos, com 5 a mais do que o governo Bolsonaro.

concessão da infraestrutura

E isso é negativo? Bem, depende. Tudo depende. Nenhum governo é apenas positivo ou negativo. Tudo dependerá do olhar de quem ganha, de quem perde. Afinal, concessões públicas podem ser positivas ou negativas, a depender de quem a observa ganhando ou perdendo.

A questão central aqui é que concessões são formas de fazer infraestrutura em localidades onde já há demanda econômica, onde é possível cobrar pelo uso delas, onde é possível extrair recursos do usuário para uma atividade que é ou deveria ser papel do Estado em troca dos impostos já pagos. Pode ser mais eficiente? Se a localidade é rica: com certeza! Para quem tem dinheiro, conviver com pedágios é palatável. Para quem não tem é impossível ou inaceitável.

Para a redução das desigualdades regionais, para as áreas mais pobres ou isoladas do Brasil, para onde se pode ter um crescimento, desenvolvimento e progresso muito maior do que nas demais regiões: muito negativo, pois simplesmente terá uma acentuação, um aumento, um incremento nas desigualdades, afinal, para estas localidades, não caberão concessões. Nós, do Norte do país, estaremos muito mais distantes da superação das desigualdades, pois as demais áreas seguem a aumentar a assimetria do estoque de infraestrutura.

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Foto divulgação


A história se repete. Parece positivo e é bom para os mais ricos. Parece negativo e é danoso para as regiões periféricas do Brasil. E é isso que irrita a periferia de qualquer aglomerado humano, seja no Irã, seja nos EUA, seja no Brasil: a prosperidade gritante para alguns e a pobreza e o esmagamento econômico para outros. O contraste é terrível. O Brasil poderá crescer além dos voos de galinha. Tudo depende se nos concentraremos em fofocas e nos fatos conectados com um passado que de próspero não tem nada ou daremos atenção para a construção de um país para todos.


Os métodos de concessão podem ser positivos para as concessionárias, podem ser rentáveis, mas são apenas uma forma de retirar do Estado um de seus papéis centrais, cobrando por cada pequeno dever básico, seguindo a arrecadar bilhões de impostos. O tal neoliberalismo que segue, com ares e rótulo de esquerda, mas que de esquerda não tem muito.

As concessões são ótimas, em um contexto, mas são péssimas em outros. Precisamos começar a distinguir quando cabem e quando não se admitem concessões e a construir infraestrutura das duas formas. Precisamos de mais jornalismo de dados e de política pública. Com reflexões assim talvez seja mais fácil compreender o que é um governo de “frente ampla” e porque outros grupos democráticos ficam com pouco espaço.

Iniciativa para guardar o tesouro ancestral das línguas da Amazônia 

Há um tipo de desmatamento que não aparece nos mapas. Ele acontece quando uma palavra some. Quando um modo de nomear a chuva se cala. Quando uma avó parte levando consigo uma biblioteca inteira — e ninguém mais sabe abrir aquela porta.

É contra esse silêncio que Juliano Dantas Portela decidiu trabalhar. Estudante de Ciência da Computação e Linguística, hoje nos Estados Unidos, Universidade de Yale,  com passagem por universidades de alta disputa, ele carrega no peito um compromisso que não muda de endereço: resgatar e fortalecer línguas indígenas amazônicas como quem protege um fogo antigo do vento.

Ainda adolescente, antes mesmo da universidade, Juliano criou o Linklado — um teclado digital pensado para permitir a escrita em dezenas de línguas indígenas da Amazônia. Parece simples, Brother: um teclado. Mas é um instrumento vital. Porque teclado é caminho. E caminho, na Amazônia, é sobrevivência.

Sem escrita possível, a língua vira peça de museu. Com escrita possível, ela volta a ser vida: mensagem, bilhete, escola, poesia, conversa de família, instrução de trabalho, cuidado, brincadeira, oração. A língua volta ao cotidiano — e o cotidiano é o lugar mais seguro do mundo para um patrimônio morar.

O projeto cresceu. Virou iniciativa com ambição de documentação e permanência: coletar registros orais e escritos, apoiar famílias linguísticas como Tikuna, Tukano e Sateré-Mawé, criar conteúdos educacionais, desenvolver tecnologias inclusivas — sistemas de autocorreção, tradução, adaptação de interfaces — até que seja natural usar o mundo digital sem abandonar o próprio mundo por dentro.

Porque a tecnologia, aqui, não é vitrine. É ponte. É rede. É o gesto de devolver às comunidades o direito de existir também no século XXI sem pagar o preço de se apagar.

Juliano insiste numa ideia que deveria ser óbvia, mas virou revolução: preservar uma língua é preservar uma ciência inteira de convivência com a floresta. Cada idioma guarda uma maneira singular de perceber ciclos, rios, frutos, peixes, ventos, remédios, perigos e cuidados. A língua é uma cartografia da vida. E a floresta, Brother, não é só um lugar — é um ser inteiro, feito de matéria e sentido, de corpo e consciência.

Em 2025, essa pauta ganhou projeção e entrou no debate climático global: sustentabilidade linguística não como adorno cultural, mas como chave de futuro. Porque não há “floresta em pé” duradoura onde a alma do território é empurrada para o rodapé da história.

Juliano fala também de juventude — não como slogan, mas como convocação: mais jovens amazônidas envolvidos, orgulhosos da própria fala, da cultura, da comida, do que são. Patrimônio não é palavra de cerimônia: é aquilo que a gente não deixa morrer.

E, no fundo, tudo converge para uma conclusão simples e definitiva: a melhor maneira de proteger a Amazônia é proteger o que ela pensa, o que ela diz, o que ela lembra — porque a floresta e a consciência da floresta são inseparáveis. Quando a gente entende o valor do que é nosso, a gente entende por que precisa proteger