Polo Eletrônico, economia circular e a logística reversa como ativo estratégico do Amazonas

Porque, gostemos ou não, o aparelho que hoje ilumina nossa sala, conecta nossa família e dá produtividade ao trabalho será, amanhã, um resíduo. A pergunta estratégica é simples: esse resíduo será passivo ambiental ou será ativo econômico?

O mundo inteiro corre para reduzir dependências externas em materiais críticos — e descobre um paradoxo: a próxima grande “mina” não está apenas no subsolo, mas no lixo eletrônico e nos equipamentos guardados em armários. Há gargalo, inclusive, em conseguir resíduos suficientes, porque muito do pós-consumo “desaparece” dentro das casas, esperando um destino adequado. 

E o desperdício é gigantesco. Globalmente, menos de 1% das terras raras contidas em tecnologias descartadas é reciclado — não por falta de necessidade, mas porque por décadas “não fechava a conta”. Isso está mudando com tecnologia, escala e geopolítica. 

Enquanto isso, o próprio planeta nos lembra do tamanho do desafio: em 2022, o mundo gerou 62 bilhões de kg de lixo eletrônico, e apenas 22,3% foi documentado como coletado e reciclado formalmente de maneira ambientalmente adequada. 

ECONOMIA CIRCULAR
Produção de lixo eletrônico pela humanidade chegou a 62 milhões de toneladas

O Brasil é protagonista — inclusive no problema e, sobretudo, na solução. O Global E-waste Monitor 2024 registra que o Brasil é o maior gerador de lixo eletrônico da América do Sul (2,4 bilhões de kg por ano) e aponta também um dado decisivo: é o único país sul-americano com fabricação relevante de eletroeletrônicos, especialmente em bens de consumo. 

Se somos parte central da cadeia, precisamos ser parte central da resposta.

No Brasil, a logística reversa não é uma “boa ação voluntária”. Ela é dever e direção de Estado.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) estabeleceu princípios, instrumentos e responsabilidades para a gestão de resíduos, incluindo a lógica da responsabilidade compartilhada e os mecanismos de retorno pós-consumo. E o Decreto 10.240/2020 foi ainda mais direto ao estruturar a implementação do sistema de logística reversa para produtos eletroeletrônicos e seus componentes de uso doméstico, definindo papéis e a arquitetura operacional do sistema.

Ou seja: não se trata de “se” vamos fazer — trata-se de “como” faremos para transformar obrigação em vantagem competitiva.

O Polo Eletrônico do Amazonas já provou, ao longo das décadas, que sabe produzir com escala, qualidade e capacidade tecnológica. Agora, tem a chance histórica de liderar um novo capítulo: transformar Manaus e o Amazonas em referência brasileira de circularidade eletroeletrônica — com rastreabilidade, triagem, reuso, remanufatura, reciclagem e reinserção de materiais na indústria.

Isso vale ouro — literalmente. Processos modernos de reciclagem extraem cobre, aço, alumínio e metais valiosos; e começam a tornar viável também recuperar terras raras, reduzindo consumo de água e emissões em comparação à mineração tradicional. 

A lógica é cristalina: se a economia do futuro é a economia dos materiais, a logística reversa é o novo “porto” dessa economia.

Para sair do discurso e entrar no resultado, proponho uma agenda objetiva — com governança, escala e credibilidade:

1. Rede amazônica de pontos de recebimento, com metas, capilaridade e ao consumidor.

2 . Rastreabilidade digital do pós-consumo, conectando varejo, entidades gestoras, transportadores e recicladores — do descarte à destinação final.

3. Ambiente de negócios para reuso e remanufatura (o “R” que mais gera emprego), com incentivos e segurança regulatória.

4. P&D para recuperação de materiais críticos, aproximando indústria, universidades e centros tecnológicos.

5. Formalização e qualificação de cooperativas, elevando produtividade, segurança do trabalho e qualidade ambiental.

6. Compras públicas e corporativas circulares, criando demanda para equipamentos recondicionados e materiais reciclados.

Uma mensagem final: circularidade é soberania produtiva

O Polo Eletrônico não é apenas um conjunto de fábricas. É uma plataforma de conhecimento, empregos e integração nacional. A economia circular — e, em especial, a logística reversa — é a oportunidade de mostrar ao Brasil e ao mundo que a indústria na Amazônia pode ser sinônimo de inovação limpa, responsabilidade e soberania produtiva.

O futuro já começou. E ele não cabe mais no armário.

Rildo Silva
Rildo Silva
Rildo Silva é empresário e conselheiro da FIEAM e do CIEAM e membro da comissão ESG da indústria

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