Geopolítica do clima: Como o aquecimento global molda as novas disputas por recursos e influência

Estados Unidos, China e Rússia ampliam presença em regiões estratégicas enquanto o aquecimento global redefine fronteiras, rotas e o acesso a recursos naturais.

A crise climática deixou de ser uma preocupação apenas ambiental para se consolidar como eixo estratégico das grandes potências no século XXI. Para Estados Unidos, China e Rússia, o aquecimento global representa não apenas uma ameaça coletiva, mas também uma oportunidade para redefinir fronteiras de poder, território e influência econômica.

Mais do que conter seus efeitos, esses países buscam explorar as transformações em curso. O degelo, a escassez hídrica e os eventos climáticos extremos reconfiguram rotas comerciais, alianças e prioridades militares. Ao mesmo tempo, o acesso a recursos estratégicos — como água doce, petróleo, terras raras e zonas de cultivo — torna-se mais volátil, elevando o valor geopolítico de regiões antes periféricas e tornando o clima um novo catalisador de disputas globais.

Degelo e disputa por soberania: por que o Ártico está no centro das tensões?

O Ártico é o exemplo mais evidente dessa dinâmica: a região aquece cerca de quatro vezes mais rápido que a média global e é hoje uma nova fronteira estratégica. Alguns pontos essenciais tornam essa parte do tabuleiro visado pelas grandes potências. Primeiro, o degelo abre novas rotas comerciais marítimas que podem reduzir em até 40% o tempo de transporte entre Ásia e Europa, diminuindo o tempo de trânsito entre Atlântico e Pacífico.

Um levantamento da U.S. Geological Survey (USGS) de 2008 também indicou que a região abriga cerca de 13% das reservas não exploradas de petróleo e 30% do gás natural do mundo, além de minerais críticos, essenciais para novas tecnologias de Inteligência Ariticial, digitalização e transição energética.

O derretimento do ártico também expõe áreas antes inacessíveis, o que aumenta a competição por direitos de exploração marítima e instalação de infraestrutura logística e militar. Especialmente para Rússia, EUA, China e Canadá, o Ártico é visto como peça-chave na defesa de seu território, controle de rotas e projeção de poder e influência geopolítica. 

As mudanças climáticas estão redefinindo o cenário econômico e ambiental e o aquecimento global na Rússia tem efeitos contraditórios sobre o território. O país aquece duas vezes mais rápido que a média global e assiste a uma expansão acelerada da agricultura na Sibéria, ao mesmo tempo em que enfrenta o colapso de sua infraestrutura nas regiões de permafrost.

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Militarização do Ártico

A presença de ativos militares das grandes potências no Ártico atingiu os maiores níveis desde a Guerra Fria, com o clima atuando como facilitador estratégico dessa expansão. A Rússia modernizou suas bases árticas ao longo da última década, com sistemas de mísseis, frotas de submarinos nucleares e instalações autossustentáveis na Península de Kola, além de reforçar patrulhas na Rota Marítima do Norte. Apesar de não instalar bases ou tropas no Ártico, a China tem colaborado com a Rússia no desenvolvimento de tecnologias na região e financiado avanços logísticos em conjunto. 

Em resposta, a OTAN — fortalecida pela entrada de Finlândia e Suécia — intensificou sua presença na região, priorizando prontidão operacional e vigilância. Já a Estratégia Ártica dos EUA, lançada em 2024, prevê cooperação com aliados e expansão das capacidades de inteligência e dissuasão.

No Canadá, essa intensificação acirrou atritos diplomáticos: enquanto os EUA defendem o status de estreito internacional para a Passagem Noroeste, o governo canadense reivindica soberania plena sobre essas águas, consideradas parte de seu território interno. O governo canadense tem investido na Iniciativa dos Corredores do Norte, que prevê a construção de portos, pistas de pouso e redes de banda larga para integrar e fortalecer sua presença civil e militar no Ártico. 

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Mapa das bases militares no Ártico, com destaque por país: Estados Unidos (azul escuro), Canadá (roxo), Groenlândia (rosa), Islândia (laranja), Noruega (amarelo) e Rússia (turquesa). Fonte: Simons Foundation Canada.

Por que a Groenlândia atrai tanto interesse de Donald Trump?

O interesse dos Estados Unidos na Groenlândia se intensificou em 2025 e 2026, ultrapassando a esfera diplomática e podendo assumir contornos militares mais evidentes. A administração Trump defendeu abertamente a aquisição ou o dominação militar da ilha dinamarquesa como forma de impedir a instalação de bases russas e chinesas no Atlântico Norte.

Em janeiro de 2026, o governo estadunidense sinalizou que o uso de meios militares e pressão econômica para “proteger” a Groenlândia é uma opção ativa, alegando que as capacidades de defesa da Dinamarca são insuficientes diante do aumento da presença naval russa e chinesa na região. Entretanto, não há nenhum nível de evidência ou razão analisada por especialistas que coloca a Groelândia como possível alvo dos Russos. Já a China não possui histórico de invasão a outros territórios soberanos há décadas.

O interesse dos Estados Unidos na Groenlândia tem raízes estratégicas e econômicas. A ilha ocupa posição-chave para sistemas de alerta precoce e defesa antimísseis, abrigando a Base Espacial de Pituffik, crucial para a vigilância no Atlântico Norte. Com o avanço do degelo, a região passou também a revelar vastos depósitos de terras raras, como o projeto Tanbreez, estimado em 28,2 milhões de toneladas métricas. Isso poderia reduzir a dependência global da China, atualmente responsável por até 92% da capacidade mundial de refino de minerais críticos. 

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Foto: Katie Miller/X

Qual o lugar da América Latina?

Enquanto o Ártico oferece novas rotas, a América Latina consolidou-se como um reservatório de recursos críticos à transição energética e tecnológica. A região tornou-se um ponto de fratura na nova ordem global, onde os interesses dos Estados Unidos e da China colidem diretamente.

Venezuela: o petróleo ainda é fator de tensões geopolíticas globais

Em 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram uma operação militar em grande escala que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro. A ação, denominada Operação Resolução Absoluta, marcou uma escalada nas tensões entre os dois países e gerou repercussões geopolíticas profundas, em especial pelo controle das vastas reservas de petróleo da Venezuela, administradas pela estatal PDVSA.

Embora questões como a falta de democracia no país latino e acusações sobre a participação do governo chavista no tráfico de drogas tenham sido apontadas como justificativa antes do evento, o próprio Donald Trump vem destacando a commodity como fator central no episódio de remoção de Nicolás Maduro. Enquanto isso, o próprio Departamento de Justiça dos EUA negou a existência do chamado "Cartel de Los Soles".

O ataque estadunidense refletiu uma tentativa de enfraquecer a influência de países como Rússia e China na região, impedir o abastecimento e de reposicionar os fluxos de petróleo para os EUA. Antes da intervenção, a China havia alcançado acesso privilegiado ao petróleo venezuelano por meio de contratos e acordos de fornecimento, que representavam cerca de 82% das exportações do país em 2025. 

Em um cenário de crescente e efusiva defesa do fim dos combustíveis fósseis para honrar os compromissos de descarbonização – feitos no Acordo de Paris para tentar impedir o aquecimento do planeta em mais de 1,5ºC -, as grandes potências deixam claro que teremos muitas décadas de uso extenso e estratégico do recurso.

Funcionários da PDVSA, petrolífera estatal da Venezuela, trabalhando em instalações de produção de petróleo.
Foto: Divulgação/PDVSA

O Triângulo do Lítio e a transição energética

Argentina, Bolívia e Chile formam o chamado “Triângulo do Lítio”, que concentra cerca de 50% das reservas globais do mineral, essencial para baterias de íons de lítio. Em 2025, a disputa pelo controle desses recursos se intensificou: a China manteve vantagem inicial com investimentos integrados, enquanto os Estados Unidos tentam recuperar espaço com estímulos da Lei de Redução da Inflação (IRA).

Há alguns anos, Elon Musk - o homem mais rico do mundo - chegou a tuitar "Daremos golpe onde quisermos” ao falar sobre a Bolívia.

O cenário político da região refletiu essa tensão, com debates sobre nacionalização no Chile, abertura a investidores ocidentais na Bolívia e exportações recordes na Argentina, que se consolidou como elo estratégico nas cadeias de suprimento global.

Mapa da América do Sul destacando o Triângulo do Lítio entre Argentina, Bolívia e Chile.
Foto: Diálogo Chino

Amazônia em disputa: entre o equilíbrio do clima e a pressão por petróleo

Mais ao norte, a disputa pelos recursos da Amazônia, historicamente presente, se intensifica com o avanço do aquecimento global. Em 2025, durante a COP30 em Belém, a região ocupou o centro das atenções internacionais, com destaque para a tensão entre grandes projetos de infraestrutura e a preservação do bioma.

Plataforma de perfuração offshore ao entardecer sobre o oceano, como a prevista na bacia da Foz do Amazonas.
Foto: Divulgação/Petrobras

Encerrada a conferência, a Amazônia saiu do foco diplomático, mas a pressão por recursos aumentou. Um levantamento da Coiab revelou que mais de 320 mil km² de Terras Indígenas, área equivalente ao estado do Maranhão, já estão afetados por blocos de exploração de petróleo e gás. 

Foram identificados 567 blocos petrolíferos ativos na Foz do Amazonas, além de 114 mil processos minerários que incidem sobre mais de 2.500 Terras Indígenas em oito países da região. 

Imagem aérea da Foz do Amazonas, região estratégica sob pressão de exploração petrolífera.
Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

Diante das disputas logísticos, territoriais e estratégicas entre as grandes potências na crise climática, conter o aquecimento global parece estar longe de ser prioridade. A meta não é frear o colapso climático, mas garantir vantagem nele.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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