Terceiro setor acelera adoção de IA, mas ainda enfrenta desigualdades

O uso de inteligência artificial (IA) começa a ganhar espaço no terceiro setor brasileiro, ainda que de forma desigual e cercada por desafios estruturais. Pesquisas recentes do Gife (Grupo de Institutos Fundações e Empresas), assim como análises veiculadas pela imprensa, indicam que organizações da sociedade civil têm adotado IA principalmente em tarefas operacionais, enquanto apenas uma parcela avança para usos mais estratégicos.

No campo socioambiental, essa adoção é ainda incipiente, marcada por limitações de acesso à tecnologia, capacitação técnica e financiamento. Na Amazônia, no entanto, algumas iniciativas pioneiras começam a se destacar.

O Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia) tem investido de forma consistente em automação de processos, capacitação institucional e desenvolvimento de produtos digitais que integram dados, inovação e gestão. Essa experiência demonstra como a IA pode acelerar rotinas internas, qualificar análises de dados e aumentar a eficiência na implementação e no monitoramento de projetos socioambientais.

A área financeira é um dos exemplos mais concretos desse avanço. O Idesam implantou robôs de RPA (Robotic Process Automation) integrados ao ERP institucional e a portais bancários, automatizando fluxos de pagamento, conferências e outras atividades repetitivas.

Operando com regras predefinidas e conectados a dashboards de controle gerencial, esses sistemas reduzem erros, agilizam processos e fortalecem a transparência, um aspecto especialmente sensível na gestão e na prestação de contas de projetos socioambientais.

A automação de processos administrativos, aliás, é apontada por especialistas como uma das tendências mais consolidadas no terceiro setor global, justamente por liberar tempo e energia das equipes para atividades estratégicas e de maior impacto.

Outro gargalo recorrente nas pesquisas sobre inovação no setor é a falta de capacitação interna. Para enfrentar esse desafio, o Idesam adotou uma política institucional de formação e capacitou 100% de sua equipe em 2025, com certificação. Os módulos abordaram o uso responsável da IA, boas práticas, limites éticos e aplicações concretas no cotidiano de trabalho.

Essa iniciativa dialoga com uma discussão cada vez mais presente no campo socioambiental: sem governança clara e formação adequada, os riscos associados ao uso de IA, como vieses algorítmicos, interpretações equivocadas de dados ou dependência excessiva de ferramentas, tendem a superar seus benefícios.

Para além da automação interna, o Idesam também investiu no desenvolvimento de painéis interativos e mapas de Business Intelligence (BI) que apoiam tanto a gestão quanto o trabalho em campo. Entre eles estão o painel de Indicadores, o painel de Projetos de Carbono Florestal no Brasil, o painel Redes da Sociobiodiversidade, o mapa de plantio e o painel do Programa Prioritário de Bioeconomia.

Essas plataformas consolidam dados sobre projetos, territórios, cadeias produtivas e redes comunitárias, permitindo que equipes técnicas, gestores e parceiros tenham acesso a informações mais precisas e atualizadas. A tecnologia contribui para o monitoramento de impacto e para uma tomada de decisão mais qualificada, especialmente em regiões remotas, onde os dados costumam ser fragmentados ou de difícil integração.

Apesar dos avanços, os desafios permanecem. Especialistas destacam que a adoção de IA no terceiro setor ainda esbarra na escassez de recursos, nas desigualdades tecnológicas entre organizações, na ausência de políticas robustas de proteção de dados e em dilemas éticos, sobretudo em projetos que envolvem populações vulneráveis.

Nesse contexto, pesquisadores apontam que o próximo passo não está apenas na incorporação de novas tecnologias, mas na combinação entre inovação e fortalecimento institucional. O objetivo é garantir que a IA não apenas aumente a eficiência operacional, mas amplie o impacto social e ambiental de forma ética, justa e responsável.


Artigo publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo e republicado com autorização da autora

Paola Bleicker é diretora executiva do Idesam, bióloga com ênfase em ecologia, especialista em turismo e desenvolvimento local pela UEA (Universidade do Estado do Amazonas)

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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