Descobertas no rio Japurá revelam impactos históricos e ambientais e reforçam a importância da ocupação humana na Amazônia para a conservação do território.
Uma expedição científica identificou 50 sítios arqueológicos no oeste do Amazonas, ao longo do rio Japurá, em uma região próxima à fronteira com a Colômbia. Os vestígios reforçam a presença histórica de populações na região e ajudam a reconstruir diferentes períodos da ocupação humana na Amazônia.
A pesquisa foi conduzida entre os dias 9 de fevereiro e 2 de março por especialistas do Instituto Mamirauá, que percorreram cerca de 200 quilômetros no Alto Japurá. Durante o trabalho de campo, foram registrados elementos como gravuras rupestres, fragmentos de cerâmica, áreas de terra preta, fontes de matérias-primas e até mesmo artefatos relacionados ao Ciclo da Borracha.
Foto: Divulgação
Esse período, considerado um dos marcos econômicos da história regional, teve auge entre o fim do século XIX e o início do século XX, quando a exploração da borracha chegou a representar metade da economia do Amazonas. Vestígios dessa fase também foram identificados durante a expedição, ampliando a compreensão sobre a dinâmica histórica da ocupação humana na Amazônia.
A iniciativa integra uma ação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e busca reunir informações ambientais, arqueológicas e socioculturais para orientar políticas públicas. O objetivo é subsidiar estratégias de conservação e definir a destinação de áreas de floresta ainda sem proteção formal, além de valorizar o patrimônio histórico amazônico. Os dados coletados serão sistematizados em um relatório que será encaminhado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O projeto também destaca o papel central das comunidades locais. Indígenas e ribeirinhos participaram ativamente da expedição, guiando as equipes e compartilhando conhecimentos sobre a região. Segundo os pesquisadores, esses saberes são fundamentais para a identificação e interpretação dos sítios arqueológicos e para aprofundar o entendimento sobre a ocupação humana na Amazônia.
Além do Instituto Mamirauá e do ministério, a iniciativa reúne instituições nacionais e internacionais, como o Field Museum of Natural History, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e a Amazon Conservation Team.
Os primeiros resultados do levantamento já foram apresentados em Manaus, em março, e devem orientar novas etapas da pesquisa, aprofundando o conhecimento sobre a história humana na Amazônia e suas implicações para a conservação da floresta.
“Na transição para a Indústria 4.0, o maior risco não está na substituição do trabalho humano, mas na perda da autonomia crítica. A Amazônia industrial exige trabalhadores capazes de interpretar, questionar e dominar a inteligência artificial – não apenas operá-la.”
Coluna Follow-Up
É nesse ponto que o mito da caverna de Platão deixa de ser apenas uma alegoria filosófica e passa a operar como chave interpretativa do nosso tempo.
Na caverna mitológica de Platão, os homens observam sombras e as tomam como verdade. Não porque desejam ser enganados, mas porque não conhecem outra referência. A realidade, mediada, torna-se suficiente. A dúvida desaparece. O esforço de compreender é substituído pela aceitação do que se apresenta.
A inteligência artificial, por sua vez, projeta respostas com tal fluidez e autoridade que pode induzir à aceitação automática, reduzindo o impulso de questionar, investigar e compreender. O trabalhador deixa de buscar o mundo fora da caverna — o esforço da análise, da dúvida, do confronto com o real — e passa a operar confortavelmente dentro dela, guiado por algoritmos que não domina. A armadilha, portanto, não é a tecnologia em si, mas a acomodação intelectual que ela pode produzir quando não há formação crítica à altura.
Ficamos, portanto, diante de um ponto de inflexão silencioso atravessando o Polo Industrial de Manaus — e ele não está nas linhas de montagem, nem nos incentivos fiscais, nem mesmo na geopolítica industrial. Ele está na cabeça de quem opera, decide, projeta e interpreta. Está na relação entre o trabalhador e a inteligência artificial.
A Indústria 4.0 não é apenas uma reorganização tecnológica. É uma reconfiguração cognitiva.
Se, no passado, o desafio era treinar mãos para operar máquinas, hoje o desafio é formar mentes capazes de dialogar com sistemas que “pensam” em velocidade exponencial. E é aqui que a provocação ganha densidade: sem qualificação crítica, a inteligência artificial não eleva o trabalhador — ela o rebaixa a um operador de respostas prontas.
O risco não é a substituição do trabalho humano. É a substituição do pensamento humano.
No contexto do Polo Industrial de Manaus, isso assume uma dimensão estratégica. Estamos falando de um modelo que sustenta emprego qualificado, arrecadação e presença industrial em uma das regiões mais sensíveis do planeta. Se a base humana desse sistema passa a operar sob lógica de dependência cognitiva, o que se compromete não é apenas a produtividade, mas a própria soberania intelectual do modelo.
A caverna de Platão, nesse caso, ganha contornos industriais.
Interfaces inteligentes, dashboards preditivos, sistemas automatizados de decisão. Tudo funciona, tudo responde, tudo parece correto. Mas quem está por trás da validação dessas respostas? Quem questiona o algoritmo? Quem compreende os limites do dado?
Sem essa camada crítica, o trabalhador deixa de ser agente e passa a ser extensão.
A qualificação que se impõe, portanto, não é apenas técnica. Não basta saber operar sistemas, interpretar gráficos ou alimentar plataformas. É necessário compreender a lógica que estrutura essas ferramentas. Entender como modelos são treinados, quais vieses podem carregar, como erros se manifestam e, principalmente, quando desconfiar.
Isso redefine completamente a agenda de formação no PIM.
A capacitação precisa incorporar letramento em IA como eixo transversal, articulado com filosofia da tecnologia, ética aplicada e pensamento analítico. Não como luxo acadêmico, mas como requisito operacional. Um operador que não questiona o sistema que utiliza é, no limite, um risco sistêmico.
Por outro lado, quando essa qualificação acontece, o efeito é inverso e poderoso.
O trabalhador deixa de consumir respostas e passa a produzir perguntas melhores. Deixa de seguir fluxos e passa a redesenhá-los. A IA deixa de ser uma “autoridade invisível” e passa a ser uma ferramenta de ampliação intelectual. Nesse cenário, o Polo não apenas acompanha a Indústria 4.0 — ele se posiciona como referência de inteligência aplicada à floresta em pé.
Isso tem implicações diretas para a estratégia amazônica.
Uma região que precisa conciliar produção, conservação e inovação não pode se dar ao luxo de formar profissionais passivos diante da tecnologia. Ao contrário, precisa formar intérpretes críticos, capazes de usar a IA para otimizar cadeias produtivas, monitorar impactos ambientais, desenvolver novos materiais, integrar bioeconomia e indústria.
A IA, aqui, não é apenas eficiência. É instrumento de leitura da complexidade amazônica.
Mas isso exige uma decisão clara: investir na qualificação humana com a mesma intensidade com que se investe em tecnologia.
Programas de formação continuada, parcerias com universidades, integração com centros de pesquisa, inclusão de disciplinas de pensamento crítico e IA aplicada nos currículos técnicos. Não como adendo, mas como estrutura.
Porque, no fim, a equação é simples e implacável.
Sem qualificação, a IA simplifica o humano.
Com qualificação, ela o expande.
O Polo Industrial de Manaus sempre foi uma resposta estratégica do Brasil para a Amazônia. Agora, diante da inteligência artificial, ele tem a oportunidade de dar um passo além: tornar-se um laboratório de reumanização tecnológica.
Não se trata de resistir à máquina.
Trata-se de formar pessoas à altura dela.
E talvez seja essa a verdadeira fronteira da Indústria 4.0 na Amazônia: não a automação dos processos, mas a elevação da consciência de quem os conduz.
Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br
Proposta aprovada na Câmara redireciona investimentos obrigatórios em inovação para fortalecer a bioeconomia na Amazônia, com foco em biotecnologia, energia e cadeias sustentáveis.
A Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara dos Deputados aprovou uma propostaque direciona parte dos investimentos obrigatórios em pesquisa e desenvolvimento das empresas instaladas na Zona Franca de Manaus para iniciativas de bioeconomia na Amazônia. A medida busca impulsionar atividades sustentáveis baseadas no uso da biodiversidade e no avanço tecnológico na região.
O texto aprovado altera a destinação de uma parcela específica dos recursos já exigidos por lei. Atualmente, as empresas devem aplicar ao menos 5% do faturamento bruto em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Dentro desse total, 2,7% possuem maior flexibilidade de uso, fração sobre a qual incidirá a nova regra.
Foto: Secretaria Geral de Manaus.
A proposta estabelece um cronograma progressivo para o redirecionamento desses recursos. No primeiro ano, 4% dessa parcela deverão ser destinados a projetos de bioeconomia na Amazônia. O percentual aumentará gradualmente até alcançar 20% a partir do quinto ano. Segundo o relator, deputado Lucas Ramos, a medida não cria novos custos para o setor produtivo, apenas redefine a aplicação de investimentos já obrigatórios.
O conceito de bioeconomia previsto no projeto abrange o desenvolvimento de biotecnologias, a criação de novos materiais a partir de recursos naturais, o fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis e o aproveitamento de resíduos para geração de energia. A proposta também ressalta o potencial de inclusão da agricultura familiar nesse modelo, ampliando oportunidades econômicas na região.
Os projetos deverão ser executados por organizações sociais vinculadas ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, responsáveis pela gestão e monitoramento das iniciativas. Para garantir transparência, será obrigatória a divulgação pública de informações sobre investimentos, resultados e impactos ambientais.
A matéria ainda será analisada por outras comissões da Câmara antes de seguir para votação no plenário e no Senado. Caso avance em todas as etapas e seja sancionada, a iniciativa pode fortalecer a bioeconomia na Amazônia e fortalecer a região como um polo estratégico de inovação sustentável.
Fenômeno associado a bloqueios atmosféricos mantém temperaturas elevadas por dias e amplia impactos da onda de calor nos Estados Unidos, fenômeno cada vez mais frequente no cenário de aquecimento global.
Uma onda de calor nos Estados Unidos atípica para o mês de março avança e já estabelece uma série de recordes históricos no país. Impulsionado por uma intensa “cúpula de calor”, o fenômeno pode se tornar um dos episódios mais abrangentes já registrados, segundo meteorologistas.
O sistema se formou no sudoeste e se desloca em direção ao leste, elevando as temperaturas em grande parte do território. A previsão indica que o calor persistirá por vários dias, com enfraquecimento apenas próximo à chegada de abril.
A chamada cúpula de calor ocorre quando uma área de alta pressão atua como uma barreira na atmosfera, dificultando a circulação de ar e aprisionando o calor próximo à superfície. Esse bloqueio mantém as temperaturas elevadas de forma contínua, ampliando a duração e a abrangência do evento.
De acordo com especialistas, entre um quarto e um terço dos Estados Unidos continentais podem registrar temperaturas próximas ou acima dos recordes históricos para março, localidades na Califórnia e no Arizona já chegaram a cerca de 44 °C, valor cerca de 2 °C acima do recorde anterior para o mês.
O impacto do fenômeno também é medido pelo volume de marcas superadas. Dados indicam que centenas de estações meteorológicas registraram novos recordes mensais e diários ao longo de poucos dias. Ao menos 14 estados, incluindo Califórnia, Nevada, Kansas e Minnesota, tiveram os dias mais quentes de março desde o início das medições.
Embora amplo, o episódio é considerado menos intenso do que ondas de calor históricas registradas no verão, como as da década de 1930 durante o Dust Bowl ou o evento extremo de 2021 no noroeste do Pacífico. Um dos fatores que amenizam os efeitos atuais é a menor umidade do ar, que reduz a sensação térmica e os riscos à saúde.
O fenômeno está associado a um bloqueio na corrente de jato, responsável por transportar sistemas climáticos de oeste para leste. Com essa circulação interrompida, o calor permanece estacionado sobre o território norte-americano, enquanto outras regiões enfrentam condições opostas, como chuvas intensas e inundações.
Estudos recentes indicam que eventos desse tipo estão fortemente ligados às mudanças climáticas. Segundo pesquisadores, o aquecimento global tornou episódios como a onda de calor nos Estados Unidos até 800 vezes mais prováveis, além de mais frequentes e intensos.
A expectativa é de que o sistema comece a perder força ao longo da próxima semana, mas, até lá, a alta temperatura continua predominante em grande parte do país, tornando a onda de calor nos Estados Unidos um dos principais eventos climáticos do período.
Mapa mostra a intensidade da onda de calor nos Estados Unidos, com temperaturas elevadas se espalhando por grande parte do território. Foto: Weather.com
“Uma economia que utiliza a inteligência artificial para extrair mais rápido? Ou uma economia que utiliza a inteligência para gerar valor com responsabilidade, mantendo a floresta em pé e ampliando as oportunidades para quem vive nela?”
Se a soberania cognitiva define quem pensa, a bioeconomia inteligente define quem transforma.
A Amazônia sempre foi vista como um território de riqueza. O problema é que, historicamente, essa riqueza foi explorada de forma predatória, fragmentada ou subordinada a cadeias de valor externas. Extraía-se matéria, exportava-se valor. Permanecia a floresta, mas não necessariamente o desenvolvimento.
A inteligência artificial introduz uma nova variável nesse processo.
Ela permite reorganizar a forma como enxergamos, estruturamos e operamos a economia da floresta. Não se trata apenas de digitalizar atividades existentes, mas de redesenhar cadeias produtivas com base em informação qualificada, análise de dados e integração de conhecimento.
Mas, mais uma vez, há um ponto decisivo.
Sem inteligência humana qualificada, não hábioeconomia inteligente. A IA pode mapear padrões, identificar oportunidades, sugerir caminhos. Pode cruzar dados de biodiversidade, clima, logística e mercado. Pode acelerar pesquisas, otimizar processos, reduzir custos. Mas ela não define propósito. Não estabelece prioridades. Não compreende, por si só, o valor simbólico, cultural e ecológico da floresta.
Esse discernimento continua sendo humano.
E é exatamente aí que a bioeconomia se diferencia de uma simples economia baseada em recursos naturais. Ela exige leitura de contexto, visão de longo prazo e compromisso com sustentabilidade real — não apenas como discurso, mas como critério de decisão.
Quando bem utilizada, a inteligência artificial pode ser uma aliada poderosa.
Pode ajudar a identificar ativos da biodiversidade com potencial econômico ainda não explorado. Pode apoiar o desenvolvimento de novos produtos a partir de cadeias sustentáveis. Pode integrar comunidades locais a mercados mais amplos com maior eficiência e transparência. Pode contribuir para rastreabilidade, certificação e valorização de produtos da floresta.
Foto divulgação
Pode, inclusive, ajudar a equilibrar uma equação historicamente desigual.
Transformar conhecimento local em valor econômico sem romper com o território.
Mas esse potencial não se realiza automaticamente.
Existe um risco claro de captura.
Se a inteligência artificial for utilizada sem estratégia, a bioeconomia pode ser incorporada a modelos externos que reproduzem a lógica de sempre: dados coletados localmente, processados fora, transformados em valor em outros centros. A floresta permanece, mas a inteligência sobre ela não pertence ao território.
Esse é o ponto crítico.
A bioeconomia inteligente exige que a Amazônia não seja apenas fonte de dados, mas centro de interpretação e decisão. Que os sistemas utilizados sejam alimentados por conhecimento local. Que universidades, institutos de pesquisa e empresas estejam conectados em um ecossistema capaz de transformar informação em inovação.
Bioeconomia na Amazonia
Isso implica investimento, coordenação e visão.
Implica formar profissionais capazes de transitar entre tecnologia, ciência e território. Implica valorizar o conhecimento tradicional não como elemento folclórico, mas como ativo estratégico. Implica criar pontes entre o que já existe na floresta e as ferramentas que podem potencializar esse valor.
A inteligência artificial, nesse cenário, funciona como catalisador.
Ela acelera processos que, sem ela, levariam décadas. Mas também acelera erros, se mal direcionada. Amplia acertos, se bem orientada. Por isso, a pergunta central deixa de ser tecnológica e passa a ser estratégica.
Que tipo de economia queremos construir na Amazônia?
Uma economia que utiliza a inteligência artificial para extrair mais rápido? Ou uma economia que utiliza a inteligência para gerar valor com responsabilidade, mantendo a floresta em pé e ampliando as oportunidades para quem vive nela?
A resposta a essa pergunta definirá não apenas o modelo econômico da região, mas seu papel no mundo. A Amazônia tem condições de liderar uma nova lógica de desenvolvimento. Uma lógica em que natureza, tecnologia e inteligência humana não competem, mas se integram. Em que inovação não significa ruptura com o território, mas aprofundamento de sua compreensão.
A bioeconomia inteligente é, no fundo, isso.
A capacidade de transformar conhecimento em valor sem destruir sua origem. E, nesse processo, a inteligência artificial pode ser ferramenta decisiva.
Desde que, mais uma vez, o humano permaneça no comando.
A aproximação entre o CIEAM e o Inmetro inaugura um novo ciclo de confiança, eficiência e protagonismo da Amazônia na construção de um país mais competitivo, integrado e comprometido com a qualidade e o interesse público.
Coluna Follow-Up
Há que se destacar o diálogo institucional quando deixa de ser um rito formal e passa a representar um verdadeiro ponto de inflexão na trajetória do desenvolvimento nacional. A aproximação entre o Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM) e o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), é um desses momentos.
O que se estabelece não é apenas uma agenda de trabalho. É a construção de um entendimento mais sofisticado sobre o papel da indústria e do Estado na promoção de um Brasil competitivo, integrado e comprometido com o interesse público. De um lado, a indústria que produz, investe, emprega e inova. De outro, a instituição que assegura padrões, certifica processos e protege a confiança do mercado e da sociedade.
Essa convergência tem produzido resultados concretos. A escuta ativa do Inmetro às demandas do setor produtivo da Zona Franca de Manaus já se traduz em medidas que reduzem custos, simplificam processos e aumentam a previsibilidade regulatória. Trata-se de um avanço importante para o ambiente de negócios, sobretudo em uma região que historicamente enfrenta desafios logísticos e estruturais que exigem respostas diferenciadas.
Mas há um aspecto ainda mais estratégico nesse movimento. A decisão de fortalecer a infraestrutura metrológica e laboratorial na região Norte representa uma mudança de paradigma. Não estamos mais falando apenas de produzir na Amazônia. Estamos falando de validar, certificar e desenvolver conhecimento técnico a partir da Amazônia. Isso altera o eixo da dependência histórica e inaugura um novo patamar de autonomia e protagonismo regional.
Ao fomentar a acreditação de laboratórios, a formação de profissionais especializados e a consolidação de uma base técnica local, o país dá um passo relevante para reduzir assimetrias e acelerar ciclos produtivos. A indústria ganha em eficiência. O Brasil ganha em capacidade competitiva. E a Amazônia se afirma como território de inteligência aplicada, e não apenas de vocação produtiva.
Os benefícios desse alinhamento alcançam também o cidadão. Quando metrologia, qualidade e certificação se aproximam do chão de fábrica, o resultado aparece na ponta. Produtos mais seguros, mais eficientes e mais confiáveis. Isso significa proteção ao consumidor, valorização do mercado formal e fortalecimento da confiança na economia nacional.
Outro sinal promissor está na agenda que se desenha para o futuro. A incorporação de temas como indústria 4.0, eficiência energética, combate à ilegalidade e reconhecimento internacional de certificações indica que não estamos apenas resolvendo entraves históricos. Estamos preparando o Brasil para competir em um ambiente global cada vez mais exigente, onde qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade são critérios inegociáveis.
Esse processo revela algo essencial. O desenvolvimento não se constrói a partir de esforços isolados. Ele exige coordenação, confiança e propósito comum. Quando o setor produtivo e o sistema de regulação caminham em sintonia, cria-se um ambiente onde a inovação floresce, os investimentos se ampliam e a sociedade colhe resultados consistentes.
A Amazônia, nesse contexto, deixa de ser vista apenas como desafio e se consolida como parte da solução. Uma solução que combina indústria, sustentabilidade, tecnologia e responsabilidade institucional. Uma solução que dialoga com o Brasil e com o mundo.
O que estamos testemunhando é mais do que uma aproximação institucional. É a construção de um caminho. Um caminho onde o desenvolvimento regional se conecta ao projeto nacional, onde a indústria se fortalece com base na qualidade e onde o interesse público deixa de ser discurso e passa a ser prática. O Amazonas destaca e agradece, na pessoa do presidente do InMetro, Márcio André Brito, a toda equipe qualificada e dedicada da instituição.
Seguimos confiantes. Porque quando há alinhamento de propósito, consistência técnica e compromisso com o país, o futuro deixa de ser uma promessa distante e passa a ser uma construção concreta, feita a muitas mãos.
“A dependência tecnológica se instala quando terceirizamos à inteligência artificial a interpretação da nossa própria realidade”
Se o primeiro desafio da inteligência artificial é técnico, o segundo é político. E o terceiro, mais profundo, é civilizatório.
A Amazônia entra nesse debate em uma posição singular. Não apenas como território de interesse global, mas como espaço historicamente submetido a interpretações externas. Durante décadas, a região foi descrita, analisada e enquadrada por narrativas que, muitas vezes, pouco dialogavam com sua complexidade real.
Agora, esse processo ganha uma nova camada.
A inteligência artificial não apenas organiza informações. Ela estrutura narrativas, sintetiza interpretações e, em muitos casos, define os enquadramentos a partir dos quais a realidade será compreendida. E esses sistemas não são neutros. São treinados com dados, valores, prioridades e visões de mundo que refletem os contextos em que foram desenvolvidos.
Isso coloca uma questão central.
Quem está pensando a Amazônia quando utilizamos inteligência artificial?
Se a resposta for “modelos treinados majoritariamente fora da Amazônia, fora do Brasil, fora do Sul Global”, então estamos diante de um risco concreto de dependência cognitiva. Um processo silencioso em que decisões locais passam a ser influenciadas por interpretações que não emergem do território.
Imagem gerada por IA
Não se trata de rejeitar a tecnologia.
Trata-se de compreender que o domínio técnico, por si só, não garante autonomia. É possível utilizar ferramentas avançadas e, ainda assim, reproduzir dependências históricas — agora com maior sofisticação e menor visibilidade.
A soberania, nesse contexto, deixa de ser apenas territorial ou econômica. Ela passa a ser também cognitiva.
Soberania cognitiva significa a capacidade de interpretar a própria realidade, formular as próprias perguntas e construir as próprias respostas, mesmo quando se utilizam ferramentas externas. Significa não terceirizar o sentido. Não delegar o juízo. Não aceitar como definitivo aquilo que chega pronto.
Esse é o ponto de inflexão.
Sem essa capacidade, a inteligência artificial pode se tornar um vetor de alinhamento automático a agendas que não necessariamente correspondem aos interesses da região. Pode influenciar políticas públicas, direcionar investimentos, moldar percepções internacionais e até redefinir prioridades de desenvolvimento.
Com ela, o cenário se transforma.
A tecnologia passa a ser utilizada de forma estratégica, como instrumento de fortalecimento das capacidades locais. Permite mapear cadeias produtivas, analisar dados ambientais com precisão, identificar oportunidades na bioeconomia, apoiar decisões logísticas e industriais, integrar conhecimento científico e saber tradicional.
Imagem IA
Mas nada disso acontece de forma automática.
Depende de quem opera.
Depende da formação de uma geração capaz de dialogar com a tecnologia sem se submeter a ela. Capaz de utilizar modelos de linguagem, sistemas de análise e plataformas digitais com consciência crítica, domínio conceitual e clareza de propósito.
A construção dessa capacidade exige investimento em educação, formação interdisciplinar e articulação institucional. Exige universidades conectadas com os desafios do território, centros de pesquisa orientados à aplicação e ambientes produtivos capazes de absorver e transformar conhecimento em valor.
Exige, sobretudo, uma mudança de mentalidade.
A Amazônia não pode ser apenas usuária de inteligência artificial.
Precisa ser também produtora de inteligência.
Precisa alimentar sistemas com seus próprios dados, suas próprias pesquisas, suas próprias narrativas. Precisa desenvolver competências locais que permitam não apenas operar ferramentas, mas influenciar os rumos de sua evolução.
Esse movimento não é trivial.
Ele implica reconhecer que a disputa do século XXI não se dará apenas por recursos naturais, mas por capacidade de interpretação. Por quem define problemas, por quem formula soluções, por quem constrói os modelos que passam a orientar decisões.
A inteligência artificial, nesse cenário, não é apenas uma tecnologia.
É uma infraestrutura de poder. E, como toda infraestrutura de poder, pode ser utilizada para ampliar autonomia ou consolidar dependência. A escolha não está na ferramenta. Está na forma como a sociedade decide se posicionar diante dela.
Para a Amazônia, isso significa assumir um papel ativo. Investir na formação de suas inteligências, valorizar seus centros de conhecimento, integrar ciência, tecnologia e saber tradicional. Construir uma base crítica que permita utilizar a inteligência artificial como aliada de um projeto próprio de desenvolvimento. Um projeto que não seja importado, mas construído a partir do território.
Porque, no fim, soberania não é apenas controlar recursos. É compreender profundamente aquilo que se tem — e decidir, com consciência, o que fazer com isso.
Conheça os animais do fundo do mar que vivem sem luz, sob pressão extrema, e desenvolveram adaptações únicas para sobreviver nas regiões mais profundas do oceano.
Abaixo da superfície do oceano existe um mundo que desafia a lógica da vida na Terra. Sem luz, sob pressões esmagadoras e temperaturas extremas, os animais do fundo do mar desenvolveram adaptações surpreendentes, muitas delas dignas de ficção científica. Antes de conhecer os animais do fundo do mar, vale entender onde eles vivem. O oceano é dividido em zonas de profundidade que mudam drasticamente conforme a luz desaparece, a temperatura cai e a pressão aumenta.
Na chamada zona da luz, próxima à superfície, ainda há sol suficiente para sustentar a maior parte da vida marinha. Mas, à medida que se desce, o cenário muda rapidamente: a luz some, o frio se intensifica e a pressão se torna esmagadora.
Foto: Max Gotts/Unsplash
Na zona da meia-noite, por exemplo, a escuridão é total e muitas espécies produzem sua própria luz para sobreviver. Já na zona abissal, a mais de 4 mil metros de profundidade, a vida depende quase exclusivamente de restos orgânicos que descem lentamente das camadas superiores. E nas fossas oceânicas, na zona hadal, estão alguns dos ambientes mais extremos e inexplorados do planeta.
É nesses cenários que vivem alguns dos animais mais estranhos já registrados, criaturas que desenvolveram estratégias surpreendentes para existir onde, à primeira vista, a vida pareceria impossível.
Zona da Meia-Noite
Nesta profundidade, a luz solar não existe. Para sobreviver, muitas criaturas recorrem à bioluminescência, produzindo sua própria luz para atrair presas, se comunicar ou confundir predadores.
Peixe “Diabo negro” (Melanocetus johnsonii)
Famoso principalmente pela cena em Procurando Nemo e também pela “lanterna” biológica que usa para atrair presas na escuridão total. Os machos são muito menores que as fêmeas e vivem como parasitas acoplados a elas.
Foto: Museo de Naturaleza y Arqueología, en Tenerife (MUNA)
Phronima (Phronima sedentaria)
Um pequeno crustáceo translúcido que consome o interior de salpas e transforma a carcaça em um “berçário” flutuante para seus ovos.
Foto: Jackson W.F. Chu
Olho-de-Vidro (Hoplostethus atlanticus)
Pode viver até 200 anos. Espécies das profundezas costumam ter metabolismo lento, o que contribui para sua longevidade.
Sua morfologia, com o olho esquerdo posicionado na crista dorsal da cabeça, dá a impressão de um “ciclopes” quando visto de frente. Essa posição central amplia o campo de visão periférica em comparação a outros peixes planos.
Foto: ROV SuBastian/Schmidt Ocean Institute (CC BY-NC-SA 4.0
Lula-Joia (Histioteuthis bonnellii)
Possui olhos de tamanhos diferentes: o maior detecta silhuetas acima, enquanto o menor capta luz bioluminescente ao redor.
Foto: Richard E. Young
Polvo-Telescópio (Amphitretus pelagicus)
Quase transparente, tem olhos tubulares que podem girar, ampliando o campo de visão.
Foto: Flamingo Natupark.
Isópode-Gigante (Bathynomus giganteus)
Parente gigante do tatuzinho-de-jardim. Em cativeiro, um exemplar chegou a sobreviver cinco anos sem se alimentar.
Foto: Eric A. Lazo-Wasem.
Tubarão-da-Groenlândia (Somniosus microcephalus)
O vertebrado mais longevo conhecido, podendo ultrapassar 400 anos. Nada lentamente para economizar energia.
Foto: Divulgação.
Lula-Colossal (Mesonychoteuthis hamiltoni)
Maior invertebrado do mundo, permaneceu desconhecido por mais de um século. Pode atingir cerca de 10 metros e 700 kg, com tentáculos equipados com ganchos giratórios.
Foto: Daniel Aplin
Peixe-olhos-de-barril (Macropinna microstoma)
Possui cabeça transparente e olhos tubulares que permitem enxergar acima sem se expor totalmente.
Foto: mbari.org
Quimeras (Chimaeriformes)
Conhecidas como “peixes-fantasma”, apresentam sensores capazes de detectar campos elétricos na escuridão.
Foto: SEFSC Pascagoula Laboratory; Collection of Brandi Noble, NOAA/NMFS/SEFSC
Verme-Lula (Teuthidodrilus samae)
Usa apêndices semelhantes a tentáculos para coletar “neve marinha”, detritos orgânicos que caem da superfície.
Foto: Natgeo
Grande-Engolidor (Chiasmodon niger)
Possui estômago altamente expansível, capaz de acomodar presas maiores que seu próprio corpo.
Foto: Emőke Dénes
Peixe-Víbora (Chauliodus sloani)
Seus dentes são tão grandes que ficam expostos, curvando-se para fora da boca.
Foto: NOAA Ocean Exploration, 2025 Beyond the Blue
Vive em fontes hidrotermais e desenvolveu uma espécie de armadura metálica natural, uma raridade entre os animais do fundo do mar.
Foto: David Shale
Lula-Vampiro (Vampyroteuthis infernalis)
O nome vem da membrana que liga seus tentáculos, formando uma espécie de “capa” que lembra um vampiro. Apesar disso, não caça presas vivas, alimenta-se principalmente de detritos orgânicos.
Foto: Emőke Dénes
Holotúria-Galinha-Sem-Cabeça (Enypniastes eximia)
Um pepino-do-mar nadador de aparência incomum que filtra sedimentos do fundo.
Predador de emboscada com dentes afiados até na língua, a espécie é também hermafrodita.
Foto: Gonzalo Mucientes Sandoval
Peixe-Baleia (Cetomimidae)
Apresenta formas tão distintas entre machos, fêmeas e juvenis que já foram classificados como famílias diferentes.
Foto: MBARI.
Merluza-Negra (Dissostichus eleginoides)
Possui proteínas anticongelantes no sangue, permitindo sobreviver em águas próximas de zero grau.
Foto: Domínio Público.
Polvo-Dumbo (Grimpoteuthis)
Recebeu esse nome pelas nadadeiras que lembram orelhas, usadas para nadar suavemente.
Foto: NOAA Okeanos Explorer
Zona Abissal
Esta zona se estende de 4.000 a 6.000 metros de profundidade. A pressão é extrema e a água permanece próxima do congelamento. Nesse ambiente extremo, os animais do fundo do mar dependem principalmente de matéria orgânica que desce lentamente das camadas superiores.
Água-viva Atolla (Atolla wyvillei)
Quando atacada, emite flashes de luz azul em forma circular, criando um efeito semelhante a um “alarme” que atrai predadores maiores.
Foto: Super Interessante.
Porco-do-Mar (Scotoplanes)
Pepino-do-mar que caminha pelo fundo em grupos, filtrando nutrientes da lama.
Foto: NOAA/MBARI
Tubarão-Boca-Grande (Megachasma pelagios)
Nada com a boca aberta para filtrar plâncton e medusas.
Foto: Divulgação/UFAL/Cláudio Sampaio
Peixe-Presas (Anoplogaster cornuta)
Seu nome se deve ao fato de que possui dentes desproporcionalmente grandes em relação ao corpo.
Foto: 2004 MBARI.
Peixe-Tripé (Bathypterois grallator)
Usa extensões das barbatanas como apoio, permanecendo imóvel enquanto espera alimento.
Foto: NOAA Office of Ocean Exploration and Research
Camarão-Caridea (Caridea)
Como característica adaptativa, muitas espécies perderam a visão, mas desenvolveram antenas altamente sensíveis, como é o caso do camarão-caridea.
Foto: Zoo keys.
Peixe-Sem-Rosto (Typhlonus nasus)
Não possui olhos visíveis e a boca fica na parte inferior da cabeça, criando a impressão de um rosto ausente.
Foto: NOAA/Photo Library.
Anfípode-Gigante (Alicella gigantea)
O maior anfípode do planeta, um exemplo do chamado gigantismo abissal. Pesquisas recentes que a espécie habita a maior parte dos oceanos do mundo.
Foto: Hadal Zone/Wikimedia Commons
Ofiuroide (Ophiuroidea)
Parente das estrelas-do-mar, com braços longos e flexíveis usados para locomoção e alimentação.
Foto: Hans Hillewaert
Peixe-Aranha-Abissal (Ipnops murrayi)
Em vez de olhos, apresenta placas sensíveis à luz no topo da cabeça.
Foto: NOAA Office of Ocean Exploration and Research
Zona Hadal
As fossas oceânicas mais profundas da Terra. Mais pessoas já estiveram na Lua do que nessas regiões, consideradas as mais inexploradas do planeta.
Peixe-Granadeiro (Coryphaenoides armatus)
Alimenta-se de restos orgânicos que chegam ao fundo das fossas.
Foto: NOAA/MBARI
Quíton-Hadal (Leptochiton)
Molusco adaptado para sobreviver em pressões extremas.
Foto: Senckenberg World of Biodiversity.
Água-viva-de-Pente (Ctenophora)
Move-se por meio de cílios que refletem luz em cores iridescentes.
Foto: Shane Anderson
Peixe-Caracol-Hadal (Pseudoliparis swirei)
Vive a mais de 8.000 metros de profundidade e apresenta ossos reduzidos e flexíveis.
Foto: Adam Summers, Friday Harbor Lab, Universidade de Washington
Enguia-Cusk (Ophidiidae)
Possui sistemas sensoriais altamente desenvolvidos para detectar movimentos na água.
Foto: NOAA/MBARI.
Anfípode-Hadal (Hirondellea gigas)
Consegue digerir materiais orgânicos que chegam até as maiores profundidades do oceano.
Foto: Dr. Alan Jamieson/Newcastle University/Divulgação
Mesmo nos ambientes mais extremos do planeta, a vida encontra formas de persistir. Os animais do fundo do mar revelam não apenas a biodiversidade da vida marinha, mas também os limites e as possibilidades da evolução da vida na Terra.
“Esse conjunto de contribuições posiciona Marilene Corrêa como uma das vozes mais consistentes na interpretação crítica da Amazônia e de seu papel no futuro do Brasil”
Ela permanece ativa, orientando, pesquisando e influenciando novos quadros, especialmente nos programas de pós-graduação, mantendo viva a vocação de formar e provocar pensamento.
Muitos reconhecimentos ultrapassam o protocolo institucional e se transformam em marco simbólico. É este o mote da concessão do título de Pesquisadora Emérita do CNPq à professora Marilene Corrêa se insere exatamente nessa categoria. Não se trata somente de uma honraria, mas a consagração de uma trajetória que ajudou a dar densidade intelectual à Amazônia enquanto objeto e sujeito de pensamento.
Marilene é mais do que uma acadêmica de excelência. Ela é formuladora de interpretações sobre a região que escapam das simplificações recorrentes. Seu trabalho construiu pontes entre ciência e cultura, entre universidade e território, entre teoria e experiência viva. Ao longo de mais de quatro décadas na Universidade Federal do Amazonas, sua atuação foi decisiva na formação de gerações de pesquisadores que hoje ajudam a sustentar o debate qualificado sobre a Amazôniano Brasil.
Foto reprodução
Sua produção se destaca por enfrentar uma questão central: compreender a Amazônia a partir de dentro, sem reduzi-la a um espaço exótico, periférico ou apenas ambiental. Ao articular saberes tradicionais com o pensamento social crítico, Marilene contribuiu para reposicionar a região no debate nacional, não como problema, mas como chave interpretativa do país.
O reconhecimento do CNPq, concedido desde 2005 a nomes de referência na ciência, ganha aqui um significado adicional. Ele ilumina a relevância da produção intelectual amazônica, frequentemente subestimada nos centros tradicionais de poder acadêmico. Ao premiar Marilene Corrêa, a comunidade científica brasileira também reconhece a centralidade da Amazônia na construção de conhecimento estratégico para o futuro.
As palavras da própria pesquisadora ajudam a dimensionar esse percurso. Há nelas um sentido de coerência, de escolha consciente por um campo de estudo e de vida. Sua trajetória não se encerra com a aposentadoria formal. Ela permanece ativa, orientando, pesquisando e influenciando novos quadros, especialmente nos programas de pós-graduação, mantendo viva a vocação de formar e provocar pensamento.
Essa homenagem, portanto, não se limita à pessoa. Ela reverbera como estímulo para jovens pesquisadores da região Norte, como afirmação da universidade amazônica e como lembrete de que ciência também é compromisso com o lugar de onde se fala.
Celebrar Marilene Corrêa é, em última instância, reconhecer que a Amazônia pensa. E que esse pensamento tem voz própria, rigor e contribuição indispensável para o Brasil.
Principais contribuições de Marilene Corrêa
A trajetória acadêmica da professora Marilene Corrêa se consolidou como uma das mais relevantes na construção do pensamento social amazônico contemporâneo. Sua produção intelectual e atuação institucional se destacam por algumas contribuições centrais:
• Formulação de um pensamento amazônico próprio
Marilene ajudou a estruturar uma leitura da Amazônia a partir de dentro, valorizando suas dinâmicas sociais, culturais e políticas, em contraponto a interpretações externas e simplificadoras.
• Integração entre ciência e saberes tradicionais
Seus estudos promovem o diálogo entre conhecimento científico e saberes locais, contribuindo para abordagens mais complexas e inclusivas sobre a região.
• Análise crítica dos modelos de desenvolvimento
A pesquisadora construiu uma reflexão consistente sobre os limites de projetos econômicos impostos à Amazônia, destacando a necessidade de estratégias alinhadas à realidade regional.
• Contribuição para o entendimento da relação Amazônia–Brasil
Sua obra investiga como o Estado brasileiro historicamente se relaciona com a região, revelando tensões, assimetrias e oportunidades pouco exploradas.
• Formação de gerações de pesquisadores
Com mais de 40 anos de atuação na Universidade Federal do Amazonas, Marilene orientou mestres e doutores que hoje atuam na academia e em instituições públicas, ampliando o impacto de sua obra.
• Fortalecimento institucional da ciência na Amazônia
Sua participação na SBPC e na pós-graduação da UFAM contribui para inserir a Amazônia no centro do debate científico nacional.
• Produção interdisciplinar sobre sociedade e cultura amazônica
Seu trabalho articula sociologia, antropologia e ciência política, oferecendo uma visão integrada da complexidade regional.
Esse conjunto de contribuições posiciona Marilene Corrêa como uma das vozes mais consistentes na interpretação crítica da Amazônia e de seu papel no futuro do Brasil.
Um artigo recente de Adalberto Val e Vera Almeida-Val, publicado pela Royal Society, propõe uma mudança relevante na forma como a ciência compreende e protege a Amazônia. O ponto de partida é direto: a vida na floresta não pode ser explicada por médias.
Modelos tradicionais de conservação costumam trabalhar com valores médios de temperatura, oxigênio ou distribuição de espécies. Esses indicadores ajudam a formar uma visão geral, mas escondem o que realmente determina a sobrevivência dos organismos: as variações, os extremos e as adaptações locais.
Na Amazônia, onde os ambientes são altamente dinâmicos – com mudanças sazonais intensas, oscilações de oxigênio na água e variações químicas entre rios – a capacidade de adaptação é o fator central. Espécies aquáticas, especialmente os peixes, desenvolveram mecanismos fisiológicos e bioquímicos que permitem resistir a condições limite, muitas vezes invisíveis em análises baseadas em médias.
O artigo chama atenção para o risco de políticas públicas e estratégias de conservação que ignoram essa complexidade. Ao focar apenas no comportamento médio dos sistemas, essas abordagens deixam de considerar populações mais sensíveis ou adaptações raras, que podem ser decisivas em cenários de mudança climática.
Como alternativa, os autores defendem uma abordagem integrada, que combine dados ambientais detalhados com indicadores biológicos funcionais, como respostas metabólicas, limites térmicos e tolerância ao estresse. Esse tipo de análise permite identificar sinais precoces de desequilíbrio e antecipar possíveis colapsos ecológicos.
A proposta vai além do campo técnico. Preservar a Amazônia passa por proteger sua variabilidade biológica – genética, fisiológica e ecológica – que sustenta a capacidade de adaptação dos sistemas vivos.
O estudo reforça uma ideia central: a resiliência da floresta não está na estabilidade, mas na diversidade de respostas que ela é capaz de produzir diante das mudanças.
Onde foi publicado?
A Royal Society é uma das instituições científicas mais prestigiadas e antigas do mundo. Fundada em 1660, em Londres, ela surgiu em um momento decisivo da história, quando a ciência começava a se organizar como método sistemático de produção de conhecimento.
Seu nome completo é The Royal Society of London for Improving Natural Knowledge, o que já indica sua missão original: promover o avanço do conhecimento sobre a natureza com base em observação, experimentação e rigor intelectual.
Desde o início, a Royal Society esteve associada a nomes que moldaram a ciência moderna. Isaac Newton foi seu presidente, Charles Darwin publicou trabalhos sob sua influência, e ao longo dos séculos passaram por ela figuras como Faraday, Hooke e Hawking. Esse histórico não é apenas simbólico. Ele reflete um padrão de excelência científica mantido até hoje.
Publicar na Royal Society não é apenas uma conquista acadêmica. Significa que o trabalho passou por um processo rigoroso de revisão por pares e foi reconhecido como uma contribuição relevante para o avanço do conhecimento em escala global.
No contexto amazônico, isso tem um peso adicional. Quando pesquisadores da região publicam ali, estão colocando a Amazônia no centro do debate científico internacional — não como objeto exótico de estudo, mas como fonte de conhecimento estratégico para temas como clima, biodiversidade e resiliência ecológica.
Em termos simples: a Royal Society é um dos espaços onde a ciência que realmente importa para o mundo é validada, discutida e projetada. E estar presente ali é sinal claro de consistência, rigor e relevância.