Casa Blog Página 26

Discutimos o que destruir e esquecemos como construir

“As democracias parecem não funcionar para os cidadãos porque as discussões estão muito fora da realidade”

Há uma dificuldade para olharmos para nós mesmos e para o Brasil. Uma grande razão para isso é o nosso tamanho e diversidade. Não temos um país, mas vários países dentro de uma mesma estrutura. Temos tido dificuldade de estabelecer um consenso mínimo do que é o tal “conjunto de reformas”, que vez por outra entra na fala das pessoas. Afinal, o que queremos mudar? Ou queremos mudar, para que continue ou mesmo ou queremos mudar para que fique ainda melhor para mim?

Esta dificuldade gera um dilema severo de comunicação. Podemos ficar na primeira fala, mas podemos nos aprofundar para uma segunda fala. Outro ponto importante no mundo da sociedade do clique rápido é o quanto a pessoa fala a verdade ou não. Por qual razão quando uma pessoa ou líder erra suas previsões e estimativas de maneira reiterada, mas segue sendo considerada como digna de ser ouvida na nova previsão?

Os interesses em debate público são de grupos econômicos com nome e sobrenome, mas ganham contorno de ‘interesse do país’. Por outro lado, o interesse de grandes regiões ou de uma quantidade expressiva de pessoas, não ganha as incontáveis horas de debate que demandaria para enfrentar o superar o desafio. Peguemos uma pauta mínima, como exercício, o transporte de ônibus nas cidades. 

O desafio dos sistemas de ônibus enfrentado com sucesso poderia levar a uma economia de tempo enorme nas grandes cidades. Entretanto, ele está completamente fora dos problemas nacionais em discussão na formação da agenda pública. Preferimos nos ater a minucias de interesses minúsculos do que grandes problemas. Grandes problemas continuados passam a integrar a paisagem. É inacreditável e inaceitável que um aspecto tão claramente problemático do país não seja alçado a um grau de importância muito maior.

DISCUTIMOS O QUE DESTRUIR
© VER.2.00

Enquanto isso, ficamos discutindo nas pautas públicas muito mais o que destruir do que como construir. As democracias parecem não funcionar para os cidadãos porque as discussões estão muito fora da realidade. Não temos pauta em debate público para a solução que contemplem problemas do cotidiano das massas. Não é de se espantar que as populações não se sintam acolhidas no debate público e político.

Chegou o desafio de apresentar projetos com início, meio e fim, mas que seja compreensível por especialistas e pelas massas. Estamos longe deste debate. Qual o projeto de país ou de Estado que temos em debate? Esta pergunta não é respondida, nem feita. Queremos reduzir a floresta a um punhado de dólares (como provocou o Caco Galhardo, em seu quadrinho de 27/03/2026) ou queremos encontrar um jeito de protegê-la e gerar alguns reais? Ou será que o queremos é apenas manter as estruturas de poder para conservar o bom e velho patrimonialismo? 

Produzir, empregar, preservar: o legado de longo prazo de Bosco Saraiva à frente da Suframa

Há um cuidado importante quando se pretende analisar o desempenho recente da Zona Franca de Manaus: separar o entusiasmo legítimo com os resultados de qualquer tentação de simplificação. O que os indicadores de 2024 e 2025 revelam não é apenas um bom momento econômico, mas um ciclo consistente de expansão que merece ser interpretado com rigor técnico, institucional e histórico.

O Polo Industrial de Manaus ultrapassou, em 2024, a marca simbólica dos R$ 200 bilhões de faturamento e avançou ainda mais em 2025, alcançando cerca de R$ 227 bilhões. Não se trata de um salto episódico. O crescimento veio acompanhado de aumento no nível de emprego, expansão das exportações e, sobretudo, de uma carteira ativa de novos projetos industriais aprovados. Esse conjunto de variáveis aponta para algo mais estruturado: continuidade.

Bosco Saraiva
Foto divulgação

É nesse ponto que a atuação da Suframa precisa ser considerada com seriedade. Não como protagonista isolada do resultado econômico, mas como elemento relevante na construção das condições que permitiram esse desempenho. A autarquia opera em um ambiente complexo, onde decisões de investimento dependem de fatores macroeconômicos, dinâmica setorial, estabilidade regulatória e confiança empresarial. O que os dados sugerem é que, no período recente, esse ambiente funcionou com maior previsibilidade.

A gestão liderada por Bosco Saraiva assumiu um sistema que historicamente alterna momentos de dinamismo e de incerteza. Ao longo de 2023 e 2024, observa-se um esforço consistente de reorganização administrativa, aproximação com o setor produtivo e melhoria de processos internos. Esse movimento não aparece diretamente nas estatísticas de produção, mas se materializa naquilo que antecede o crescimento: decisão de investir.

A aprovação de centenas de projetos industriais nesse período, com bilhões de reais em novos investimentos previstos, é um indicador relevante. Mais do que números absolutos, esse fluxo sinaliza confiança. Empresas não ampliam capacidade nem iniciam novos empreendimentos sem algum grau de segurança institucional. Nesse sentido, a Suframa cumpriu um papel clássico de agência de desenvolvimento: reduzir fricções, dar clareza ao processo decisório e sustentar a credibilidade do modelo.

Outro aspecto que reforça essa leitura é o reconhecimento obtido na área de governança pública. A colocação da Suframa em posição de destaque nacional em avaliação de gestão não é, por si só, garantia de impacto econômico direto, mas indica que houve avanço em organização interna, transparência e capacidade de execução. Em ambientes complexos como o da Zona Franca, esses fatores costumam ser pré-condição para resultados mais amplos.

54295371358 8e008e86a8 k
Vista aérea da Zona Franca de Manaus (Ricardo Oliveira/CENARIUM)

É igualmente importante observar a qualidade do crescimento. O desempenho industrial recente não ficou concentrado em um único segmento. Houve expansão relevante em bens de informática, eletroeletrônicos e duas rodas, mas também sinais positivos em outros subsetores. Essa dispersão reduz a vulnerabilidade do modelo e sugere maior resiliência diante de oscilações de mercado.

Ainda assim, qualquer análise responsável precisa reconhecer os limites dessa interpretação. O crescimento do Polo Industrial de Manaus não pode ser atribuído exclusivamente à gestão da Suframa. Variáveis externas tiveram peso significativo, como a recuperação da demanda nacional, ajustes nas cadeias globais de suprimentos, comportamento do câmbio e desempenho específico de setores industriais estratégicos. A Zona Franca sempre operou como um sistema aberto, sensível a fatores que vão além da governança local.

O mérito da gestão, portanto, não está em “produzir” o crescimento, mas em não bloqueá-lo — e, mais do que isso, em criar condições para que ele se sustentasse e se ampliasse. Em ambientes institucionais frágeis, o mais comum é que gargalos administrativos, insegurança regulatória e distanciamento entre Estado e setor produtivo atuem como freios. O que se observa no período recente é o oposto: um sistema que voltou a fluir.

Essa distinção é essencial para evitar leituras panfletárias. A grandeza da Zona Franca de Manaus não reside em resultados de curto prazo, mas na sua capacidade histórica de articular indústria, território e preservação ambiental. O ciclo de 2024 e 2025 reforça essa vocação ao demonstrar que é possível crescer com base em uma estrutura consolidada, sem romper com os fundamentos do modelo.

O que emerge dessa análise é uma oportunidade. Se a combinação entre governança mais eficiente e ambiente econômico favorável produziu resultados expressivos, o desafio agora é transformar esse ciclo em trajetória. Isso implica aprofundar a agenda de modernização, ampliar a integração com cadeias de valor mais sofisticadas, fortalecer a inserção internacional e avançar na conexão entre indústria e bioeconomia.

A Zona Franca de Manaus segue sendo uma das experiências mais singulares de política industrial e regional do país. Os números recentes não encerram o debate sobre sua efetividade, mas oferecem evidências de que, quando o arranjo institucional funciona, seus impactos se ampliam. A gestão da Suframa, nesse contexto, aparece como parte de um sistema que voltou a operar com maior coerência.

Mais do que celebrar recordes, o momento convida a consolidar aprendizados. Porque o que está em jogo não é apenas o desempenho de um parque industrial, mas a capacidade do Brasil de sustentar, na Amazônia, um modelo que combina produção, emprego e preservação — com densidade econômica e legitimidade institucional.

A Via Crucis dos Pintos Certificados ou Licença para Criar Galinhas 

Há algo de profundamente revelador quando o Estado decide regular o destino de uma dúzia e meia de galinhas.

Não se trata apenas de uma anedota administrativa, dessas que rendem risos amarelos em conversas de fim de tarde. O episódio do senhor Gonçalves – baseado em fatos reais – expõe uma engrenagem mais complexa, onde o zelo normativo, em vez de proteger, passa a operar como filtro de exclusão. A exigência de certificar pintos, com escritura, instalações formalizadas e uma via-sacra burocrática até um órgão de difícil acesso, não é um excesso isolado. É sintoma.

O Estado, nesse caso, não está olhando para o risco sanitário real, nem para a escala da produção, nem para o propósito social de destinar alimentos à própria família e a uma entidade filantrópica. Ele está olhando para o formulário. Para o protocolo. Para a existência — ou não — de um carimbo.

E é aqui que a lógica se inverte de forma quase cruel. A pequena produção, aquela que poderia ser a base de uma economia mais distribuída, resiliente e interiorizada, passa a ser tratada como irregular por definição. Não porque cause dano, mas porque não consegue cumprir o ritual.

VIA CRUCIS

O problema não está no ovo, nem na galinha. Está no percurso. Um caminho burocrático que só se completa para quem já chegou.

O resultado é previsível e perverso. Quem tem estrutura, assessoria técnica, capital para navegar na burocracia, certifica seus pintos sem maiores sobressaltos. Quem não tem, aprende rapidamente que a formalidade não foi desenhada para ele. E então surgem as duas saídas possíveis: permanecer invisível ou atravessar a linha.

A informalidade deixa de ser uma escolha e passa a ser uma condição de sobrevivência. A ilegalidade, por sua vez, deixa de ser um desvio moral e começa a se insinuar como alternativa pragmática. Não por vocação, mas por asfixia.

Porque não se trata apenas de ineficiência. Há uma seletividade implícita. Um sistema que, sob o pretexto de organizar, termina por concentrar. Que, ao exigir padrões pensados para grandes operações, inviabiliza os pequenos. Que fala em desenvolvimento regional, mas ergue barreiras que nem mesmo um produtor urbano de subsistência consegue transpor.

A cena é simples: um produtor, algumas galinhas e um Estado inteiro pedindo documentos. No fundo, não se trata de sanidade. Trata-se de quem consegue pagar o custo da legalidade.

Interiorizar o desenvolvimento, diversificar a economia, estimular cadeias produtivas locais — tudo isso permanece no campo das intenções enquanto a realidade exigir que até os pintos passem por um labirinto documental incompatível com a vida real de quem produz.

No fim, a cena é quase simbólica: um homem, suas galinhas e um Estado inteiro incapaz de distinguir escala, contexto e propósito.

Talvez o problema não esteja nos pintos que precisam ser certificados. Talvez esteja no sistema que perdeu a capacidade de reconhecer o que, de fato, precisa ser regulado — e o que precisa, antes de tudo, ter permissão para existir.

Antes de tudo, o homem precisa provar que existe legalmente para então poder criar o que sempre existiu: uma galinha.  

Transformar uma pequena criação doméstica em infração não protege a sociedade. Apenas redefine quem pode produzir.  

O Estado que deveria incentivar o pequeno produtor começa pelo caminho inverso.  Exigir certificação para quem cria algumas dezenas de galinhas não é política pública. É descolamento da realidade.  

Quando o incentivo vem acompanhado de exigências incompatíveis, o resultado é previsível: empurra-se o produtor para a margem.  

E, para sustentar essa engrenagem, cria-se uma estrutura cara, pesada e distante — não do problema, mas das pessoas.  

No fim, a ironia se impõe: não é o pinto que precisa ser certificado. É o cidadão que precisa provar que tem o direito de existir dentro da regra.  

Estudo com IA revela terras agrícolas abandonadas no Cerrado

Com apoio de inteligência artificial, estudo identifica terras agrícolas abandonadas no Cerrado e aponta oportunidades para reflorestamento, corredores ecológicos e políticas públicas mais eficientes.

Uma pesquisa conduzida pela Embrapa, em parceria com a Universidade de Brasília, utilizou inteligência artificial para identificar terras agrícolas abandonadas no Cerrado com potencial para recuperação ambiental. O estudo analisou dados do município de Buritizeiro, no norte de Minas Gerais, e indicou novos caminhos para políticas públicas de restauração ecológica.

A tecnologia aplicada combina imagens de satélite da Agência Espacial Europeia com algoritmos de aprendizado profundo capazes de reconhecer padrões de uso do solo. Com isso, os pesquisadores conseguiram classificar diferentes tipos de cobertura, como vegetação nativa, lavouras, pastagens e plantações de eucalipto. Além de detectar, de forma inédita, terras agrícolas abandonadas no Cerrado com alta precisão.

O índice de acerto do modelo chegou a 94,7%, considerado elevado para estudos de sensoriamento remoto. A identificação detalhada dessas áreas permite direcionar ações de recuperação ambiental e uso mais eficiente do território.

Entre 2018 e 2022, a análise revelou que mais de 13 mil hectares deixaram de ser utilizados na região, cerca de 4,7% da área agrícola local. A maior parte dessas áreas (87%) corresponde a antigos cultivos de eucalipto voltados à produção de carvão vegetal, cuja viabilidade econômica vem sendo reduzida por fatores como aumento de custos logísticos e baixa rentabilidade.

Plantação de eucalipto associada a terras agrícolas abandonadas no Cerrado, comum em áreas de produção de carvão vegetal.
Antigos cultivos de eucalipto concentram grande parte das terras agrícolas abandonadas no Cerrado. Foto: Getty Images Pro

Segundo os pesquisadores, o mapeamento pode subsidiar decisões estratégicas, como a criação de corredores ecológicos e a priorização de áreas para reflorestamento. Além disso, essas informações contribuem para estimativas mais precisas de sequestro de carbono, reforçando o papel do Cerrado no enfrentamento das mudanças climáticas e ampliando o uso sustentável das terras agrícolas abandonadas no Cerrado.

Apesar dos avanços, o estudo ressalta limitações. A análise considerou apenas dois recortes temporais, o que dificulta diferenciar abandono permanente de práticas temporárias, como o pousio. Ainda assim, os resultados demonstram o potencial da inteligência artificial para captar mudanças sutis no uso da terra e apoiar a gestão ambiental em biomas complexos.

Os autores defendem que a ampliação da base de dados e o uso contínuo de imagens de maior resolução podem tornar o monitoramento mais robusto, consolidando a tecnologia como aliada na transição para modelos mais sustentáveis de ocupação do solo no Cerrado.

Terra preta da Amazônia amplia crescimento do diâmetro de árvores em até 88%

Estudo revela que a terra preta da Amazônia reorganiza microrganismos do solo, acelera o crescimento de árvores e surge como solução promissora para restaurar áreas degradadas.

Um estudo conduzido no Amazonas aponta que a chamada terra preta da Amazônia, um solo fértil criado por populações indígenas ao longo de séculos, pode impulsionar significativamente o crescimento de árvores nativas e contribuir para a recuperação de áreas degradadas.

Pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (Cena-USP), da Embrapa Amazônia Ocidental e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) observaram que mudas cultivadas com pequenas quantidades desse solo apresentaram ganhos expressivos de desenvolvimento em campo. No caso do ipê-roxo (Handroanthus avellanedae), houve aumento de até 55% na altura e 88% no diâmetro do tronco em apenas 180 dias. Já o paricá (Schizolobium amazonicum) registrou crescimento de 20% em altura e 15% em diâmetro no mesmo período.

Os resultados indicam que o diferencial da terra preta da Amazônia não está apenas na concentração de nutrientes, mas principalmente na composição microbiológica. O solo abriga uma diversidade de bactérias, arqueas e, sobretudo, fungos que favorecem a absorção de nutrientes pelas plantas e reduzem a presença de microrganismos patogênicos. Esse equilíbrio contribui para um ambiente mais propício ao desenvolvimento vegetal.

Detalhe de terra preta da Amazônia com fragmentos de carvão vegetal destacados
Fragmentos de carvão presentes na terra preta da Amazônia ajudam a explicar a alta fertilidade e a atividade microbiológica do solo. Foto: Holger Casselmann/Wikimedia Commons

Segundo os pesquisadores, a adição da terra preta promove uma reorganização da microbiota ao redor das raízes, ampliando a eficiência dos processos biológicos que sustentam o crescimento das plantas. Os fungos, em especial, desempenham papel central na decomposição da matéria orgânica e na ciclagem de nutrientes, tornando-os mais disponíveis para as espécies cultivadas.

O experimento foi realizado no Amazonas, com mudas inicialmente cultivadas em viveiro e posteriormente transferidas para campo aberto, sem uso de fertilizantes ou herbicidas. Mesmo nessas condições, todas as plantas sobreviveram e aquelas tratadas com terra preta apresentaram desempenho superior.

Além de reforçar o valor do conhecimento ancestral na formação desses solos, o estudo abre caminho para o desenvolvimento de soluções baseadas na microbiologia da terra preta da Amazônia. Como seu uso direto é protegido por lei, o foco dos cientistas está em identificar os microrganismos e processos responsáveis por suas propriedades, com o objetivo de replicá-los em larga escala.

A aplicação desse conhecimento pode ser estratégica para restaurar áreas degradadas, melhorar sistemas agrícolas e fortalecer serviços ecossistêmicos essenciais, como o sequestro de carbono e a conservação da biodiversidade.

A ciência errou sobre as mudanças climáticas: a crise do clima deve acontecer antes do esperado

Coluna Follow-Up

A edição de 26 de março de 2026 do The New York Times, no artigo “The Planet’s Warning Signs Are Flashing Red”, traz mais do que uma atualização sobre o aquecimento global. O texto, assinado por David Gelles, revela uma inflexão no próprio discurso científico: os impactos das mudanças climáticas estão ocorrendo mais rápido do que os modelos previam.

Essa constatação não emerge do vazio. Ela dialoga diretamente com a base consolidada do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) – a maior autoridade científica sobre o clima do planeta -, especialmente o Sexto Relatório de Avaliação (AR6), que já indicava a intensificação de eventos extremos, o avanço do aquecimento próximo de 1,5°C e o risco crescente de ultrapassagem de limites críticos do sistema climático. O que agora se impõe é a percepção de que esses processos estão sendo acelerados por mecanismos ainda insuficientemente capturados pelos modelos.

A literatura científica recente tem chamado atenção para esses fenômenos. Estudos publicados em periódicos como Nature Climate Change e Science apontam para a aproximação de pontos de inflexão – os chamados tipping points – em sistemas como a criosfera, os oceanos e grandes florestas tropicais. Esses pontos marcam transições abruptas e potencialmente irreversíveis, nas quais o sistema deixa de responder de forma linear e passa a operar por retroalimentação.

roxanne desgagnes qbtyUQtqJ8k unsplash
Foto: Roxanne Desgagnes/Unsplash

É nesse contexto que a reportagem destaca sinais já observáveis: aquecimento acelerado dos oceanos, degelo intensificado, elevação do nível do mar e aumento da frequência e intensidade de secas, ondas de calor e tempestades. Não se trata de projeções. Trata-se de um diagnóstico em curso.

O texto também evidencia um elemento adicional de instabilidade: a fragmentação da governança climática global. Após o Acordo de Paris, consolidou-se uma expectativa de coordenação internacional mínima em torno da redução de emissões. No entanto, decisões recentes de grandes emissores, como a retomada de combustíveis fósseis e o uso estratégico da energia em disputas geopolíticas, tensionam esse arranjo e comprometem a trajetória de mitigação.

Esse desalinhamento político ocorre no exato momento em que a ciência aponta para a necessidade de maior velocidade nas respostas. A consequência é um descompasso estrutural entre o ritmo da crise e a capacidade de coordenação global.

Há, ainda, uma dimensão menos explorada, mas central. Como lembra o próprio artigo, a civilização contemporânea se desenvolveu ao longo de milhares de anos sob relativa estabilidade climática. Infraestruturas, cadeias produtivas, sistemas urbanos e modelos agrícolas foram concebidos dentro desse intervalo. Ao sair dessa zona de previsibilidade, não se trata apenas de adaptar setores isolados, mas de reconfigurar a base material da organização econômica e social.

Amazônia assume uma posição estratégica

Do ponto de vista científico, a floresta desempenha papel determinante na regulação do ciclo hidrológico e na absorção de carbono. Pesquisas conduzidas por instituições como o INPA e contribuições de cientistas como Carlos Nobre e Thomas Lovejoy já alertaram para o risco de savanização da Amazônia caso determinados limiares de desmatamento e aquecimento sejam ultrapassados. Esse processo configuraria um tipping point regional com repercussões globais.

Do ponto de vista geopolítico, a crescente centralidade do clima eleva o valor estratégico de territórios capazes de oferecer serviços ambientais. Isso tende a intensificar tanto oportunidades de financiamento climático quanto pressões externas sobre a governança desses ativos.

E, do ponto de vista econômico, emerge um campo de disputa ainda em formação. A transição para uma economia de baixo carbono abre espaço para cadeias produtivas baseadas em ativos biológicos, inovação tecnológica e conhecimento científico aplicado à biodiversidade. A bioeconomia, nesse contexto, deixa de ser um conceito periférico e passa a integrar a lógica de competitividade global.

O desafio reside no tempo

Se os sinais estão, de fato, se antecipando aos cenários previstos, o intervalo para respostas graduais se estreita. Isso exige não apenas políticas mais ambiciosas, mas também modelos de desenvolvimento capazes de operar simultaneamente com produção, conservação e inovação.

O Brasil, e em particular a Amazônia, não ocupam mais uma posição marginal nesse debate. Estão no centro de uma equação que envolve clima, soberania, economia e estabilidade global.

Os sinais já não são advertências distantes. São variáveis ativas de um sistema em transformação. Ignorá-los deixou de ser um erro de avaliação. Passa a ser um risco estratégico.

Escassez de diesel no Brasil avança e atinge 166 cidades no Sul do país

Com a alta global do petróleo, a escassez de diesel no Brasil compromete transporte, obras e saúde no RS, evidenciando riscos econômicos e a urgência de transição energética no país.

O número de municípios do Rio Grande do Sul com dificuldades no abastecimento de óleo diesel subiu para 166, segundo levantamento da Federação das Associações de Municípios do Estado (Famurs). Os dados, atualizados na manhã de quarta-feira (25), indicam avanço do problema em relação à semana anterior, quando 142 cidades haviam relatado impactos. O cenário reflete a crescente escassez do diesel no Brasil, que já afeta diferentes regiões.

A consulta reuniu respostas de 384 das 497 prefeituras gaúchas, o que revela que cerca de um terço do estado enfrenta algum nível de restrição no fornecimento do combustível. Entre os casos mais críticos, Formigueiro e Tupanciretã seguem em situação de emergência. A capital, Porto Alegre, não aparece na lista de municípios afetados.

Diante do cenário, administrações municipais passaram a priorizar o uso do diesel em atividades essenciais, como atendimento na área da saúde e transporte de pacientes. Serviços que dependem de maquinário pesado, como obras e manutenção de estradas, foram temporariamente suspensos em diversas localidades. A situação evidencia como a escassez de diesel no Brasil impacta diretamente a rotina e a prestação de serviços públicos.

Viatura e caminhão estacionados devido à interrupção de serviços causada pela escassez de diesel no Brasil
Serviços públicos e logísticos precisaram ser interrompidos devido à escassez de diesel no Brasil. Foto: Rodolpho Rodrigues/TV Brasil

A Famurs alerta que a instabilidade no abastecimento representa risco direto ao funcionamento de serviços públicos. O diesel é o principal combustível utilizado por caminhões, ônibus e equipamentos agrícolas, o que amplia os efeitos da escassez do diesel no Brasil sobre a logística, a mobilidade e a produção.

O problema tem origem em fatores externos. A escalada de tensões no Oriente Médio, especialmente após os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã no fim de fevereiro, vem pressionando a cadeia global de petróleo. Como o Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome, oscilações internacionais têm impacto direto no mercado interno e ajudam a explicar a atual escassez de diesel no Brasil.

Desde o início do conflito, o preço do combustível registrou alta aproximada de 20% no país, conforme dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em posicionamento anterior, o órgão regulador afirmou que não havia desabastecimento generalizado, mas dificuldades logísticas na distribuição.

Para conter os efeitos da escassez de diesel no Brasil, o governo federal adotou medidas emergenciais, como a zeragem de tributos federais, PIS e Cofins, e a concessão de um subsídio de R$ 0,32 por litro de diesel produzido ou importado. Também há articulação para que estados adotem mecanismos semelhantes.

A Petrobras, principal fornecedora do país, reajustou o preço do diesel em R$ 0,38 no último dia 14. Segundo a presidente da estatal, Magda Chambriard, o impacto ao consumidor foi parcialmente amortecido pelas ações governamentais. Enquanto isso, a ANP intensificou a fiscalização em postos e distribuidoras para monitorar o abastecimento no país.

Nova praga? Cientistas confirmam reprodução do peixe-leão na Amazônia e acendem alerta

Descoberta inédita revela que o peixe-leão na Amazônia superou barreiras naturais e já se reproduz, ampliando riscos ecológicos e exigindo estratégias urgentes de monitoramento e controle.

Uma larva de apenas 3,9 milímetros encontrada na costa norte do Brasil revelou um avanço preocupante do peixe-leão na Amazônia. O registro, feito na Plataforma Continental do Amazonas, confirma pela primeira vez que a espécie invasora já está se reproduzindo na região, um cenário que até então era considerado improvável pela comunidade científica.

O espécime, com cerca de nove dias de vida, foi identificado ainda em estágio inicial de desenvolvimento, quando apresenta baixa capacidade de deslocamento. Essa característica descarta a possibilidade de que tenha sido transportado por correntes marinhas desde o Caribe, onde o peixe-leão já é amplamente estabelecido. Para os pesquisadores, o achado indica reprodução local e adaptação consolidada ao ambiente amazônico, reforçando o avanço do peixe-leão na Amazônia.

Larva de peixe-leão na Amazônia com 3,9 mm encontrada por pesquisadores na costa norte do Brasil
Larva de peixe-leão na Amazônia indica reprodução da espécie invasora na região. Foto: Divulgação

Durante décadas, a foz do rio Amazonas foi tratada como uma barreira natural contra a dispersão de espécies marinhas invasoras. O consenso era de que a grande descarga de água doce, associada à alta turbidez e à variação de nutrientes, criaria condições adversas para organismos que dependem de águas mais salinas e claras. No entanto, novas evidências mostram que essa dinâmica funciona mais como um filtro ecológico do que como um bloqueio absoluto.

O peixe-leão (Pterois volitans), conhecido pela elevada tolerância ambiental, conseguiu ultrapassar essa limitação. Segundo os pesquisadores, suas características fisiológicas permitem sobreviver em diferentes níveis de salinidade e temperatura, ampliando seu potencial de dispersão. A confirmação da espécie foi realizada por meio de DNA Barcoding, técnica que possibilita a identificação genética com alto grau de precisão.

A presença do predador na região representa uma ameaça direta ao Grande Sistema de Recifes da Amazônia, um dos ecossistemas mais singulares do planeta. Formado por corais e esponjas adaptados às condições da pluma do rio, o sistema abriga espécies endêmicas e ainda pouco conhecidas pela ciência.

Sem predadores naturais no Atlântico e com reprodução contínua ao longo do ano, o peixe-leão apresenta crescimento populacional acelerado. A sua alimentação inclui larvas e juvenis de peixes nativos, o que compromete a renovação das populações e pode gerar impactos em cascata na cadeia alimentar. Espécies de importância econômica, como garoupas e pargos, também estão entre as potenciais vítimas, afetando comunidades que dependem da pesca.

Diante desse cenário, especialistas avaliam que a erradicação da espécie já não é uma alternativa viável. A estratégia passa a ser o controle populacional e o monitoramento contínuo da invasão. Para isso, o estudo defende a ampliação de pesquisas na região, especialmente estudos sobre ictioplâncton, que permitam dimensionar os impactos e orientar ações de manejo diante da expansão do peixe-leão na Amazônia.

O registro da larva marca um novo capítulo na dinâmica ecológica da costa amazônica. Mais do que um achado isolado, ele sinaliza uma mudança em curso e a urgência de respostas coordenadas para evitar perdas irreversíveis na biodiversidade marinha.

O Amazonas conhece seu problema. Falta decidir enfrentá-lo

“O debate sobre o desenvolvimento do Amazonas já não sofre de falta de diagnóstico. Sofre de falta de decisão”

Os números estão postos. O Estado que sustenta um dos maiores polos industriais do país cresce menos que seus vizinhos. Enquanto outras economias regionais avançam com novos vetores produtivos, o Amazonas permanece excessivamente dependente de um único eixo.

A Zona Franca de Manaus continua sendo indispensável. É o coração econômico do Estado. Mas nenhum organismo sobrevive quando todo o seu funcionamento depende de um único órgão.

O problema não é o modelo. O problema é a ausência de um segundo motor. E essa ausência cobra seu preço no território.

AMAZONAS
Manaus concentra renda, emprego e infraestrutura – a (Fotos: Reprodução/Agência Brasil; Reproduçao/Freepik |

Manaus concentra renda, emprego e infraestrutura. O interior, em grande parte, permanece à margem das oportunidades. Não por falta de potencial, mas por ausência de política pública consistente capaz de transformar vocação em atividade econômica estruturada.

O Amazonas, neste momento, não enfrenta escassez de riqueza. Enfrenta escassez de estratégia.

Diante disso, surgem soluções fáceis. Algumas defendem a expansão de monoculturas extensivas. Outras apostam no extrativismo primário de baixo valor agregado. São caminhos que parecem rápidos, mas que carregam um custo elevado: degradam o principal ativo econômico do Estado.

A floresta. Esse atalho já é conhecido. E seus resultados também. O Amazonas não precisa escolher entre preservar e produzir. Precisa aprender a fazer as duas coisas ao mesmo tempo. E isso já está ao alcance.

Bioeconomia, cadeias produtivas florestais, aquicultura, fruticultura, turismo sustentável, indústria de base biológica e inovação tecnológica não são conceitos abstratos. São setores concretos, com demanda crescente e capacidade de geração de valor muito superior ao extrativismo tradicional.

ChatGPT Image 26 de mar. de 2026 17 01 38

O que falta não é oportunidade. É coordenação. Transformar essas vocações em economia exige mais do que discurso. Exige política pública orientada, investimento direcionado e, sobretudo, gestão. E aqui está o ponto central.

Os recursos existem. A Zona Franca gera riqueza, arrecadação e capacidade de investimento. Mas esses recursos ainda não estão sendo utilizados com a intensidade estratégica necessária para induzir desenvolvimento no interior.

O modelo precisa evoluir. A Zona Franca deve deixar de ser apenas um polo industrial concentrado e passar a funcionar como uma plataforma de integração econômica do Estado.

Isso significa financiar cadeias produtivas regionais. Significa estimular arranjos produtivos locais. Significa conectar ciência, tecnologia e produção. Significa levar desenvolvimento para onde hoje só chegam promessas. Nada disso será possível sem governança.

Transparência, participação social e acompanhamento de resultados não são exigências acessórias. São condições básicas para que qualquer estratégia funcione.

O Amazonas não precisa reinventar sua vocação. Ela já está dada pela sua geografia, pela sua biodiversidade e pela inteligência acumulada de seu povo. O que precisa é alinhar decisão política com essa realidade. O Estado já sabe o que não funciona. Já conhece seus gargalos. Já identificou suas oportunidades.

Não há mais espaço para soluções milagrosas. Muito menos para fórmulas midiáticas que prometem atalhos onde só existe trabalho estruturado.

O desenvolvimento do Amazonas não será fruto de um discurso. Será resultado de escolhas. E essas escolhas precisam, finalmente, começar a ser feitas.

Petrolíferas recuam no discurso climático e reforçam dependência global de combustíveis fósseis

Campanhas de grandes empresas reconfiguram discurso público e associam combustíveis fósseis à estabilidade econômica, levantando alertas sobre riscos ambientais e atraso em soluções sustentáveis.

As maiores empresas de petróleo e gás do mundo vêm reformulando sua comunicação pública e reduzindo a ênfase em compromissos climáticos, ao mesmo tempo em que reforçam a ideia de que a sociedade permanece dependente de combustíveis fósseis. A mudança de narrativa foi identificada em um estudo da Clean Creatives, que analisou quase 1,9 mil peças de campanhas publicitárias e institucionais entre 2020 e 2024.

Segundo a pesquisa, companhias como BP, Chevron, ExxonMobil e Shell abandonaram gradualmente o discurso de liderança na transição energética adotado após o Acordo de Paris. Em seu lugar, passaram a destacar a importância do petróleo e do gás para a segurança energética e o funcionamento da economia global, reforçando a centralidade dos combustíveis fósseis nesse processo.

A análise aponta uma evolução clara dessa comunicação ao longo dos anos. Em 2021, as campanhas enfatizavam compromissos climáticos; em 2022, o foco migrou para segurança energética; em 2023, surgiu um discurso híbrido, combinando expansão de fósseis com redução de emissões; e, em 2024, consolidou-se a narrativa de dependência desses recursos.

Além da mudança de tom, o estudo identifica o uso crescente de soluções consideradas controversas ou limitadas, como o gás natural e tecnologias de captura e armazenamento de carbono. Essas alternativas são frequentemente apresentadas como sustentáveis, embora ainda estejam associadas a combustíveis fósseis ou enfrentem desafios de escala.

Petrolíferas recuam no discurso climático e reforçam dependência global de combustíveis fósseis
Foto: Travis Leery/Unsplash

A estratégia, segundo os pesquisadores, também inclui a construção de mensagens que associam a continuidade da exploração de petróleo e gás à estabilidade econômica e à proteção de empregos. Em alguns casos, campanhas recorrem ao argumento de risco para reforçar a ideia de que a transição energética não pode ocorrer de forma acelerada.

Apesar de global, a mudança de narrativa é mais evidente nos Estados Unidos e no Reino Unido. Em outras regiões, como Ásia e Oriente Médio, predominam campanhas institucionais mais tradicionais, com foco em reputação e valores corporativos.

O reposicionamento das petrolíferas ocorre em um contexto de agravamento da crise climática. Dados recentes indicam que a última década foi a mais quente já registrada, com sucessivos recordes de temperatura e aquecimento contínuo dos oceanos.

Para o relatório, o contraste entre os lucros recordes do setor e o recuo nas metas ambientais evidencia um desalinhamento entre interesses econômicos e a urgência climática. A tendência, alertam os pesquisadores, pode retardar a transição energética global e ampliar riscos ambientais, sociais e econômicos nos próximos anos.