Manaus e a encruzilhada da inovação: o significado da Anprotec 2026

“Manaus se encontra diante de uma encruzilhada da inovação. Pode aproveitar o evento como alavanca para consolidar um novo ciclo de desenvolvimento, baseado em tecnologia, sustentabilidade e conhecimento”

A realização da Conferência Anprotec 2026 em Manaus, entre 29 de junho e 2 de julho, no Centro de Convenções Vasco Vasques, coloca a cidade em uma posição que vai além do simbolismo institucional. Trata-se de um teste concreto sobre a capacidade da Amazônia de se afirmar como território de inovação, e não apenas como objeto de interesse científico ou ambiental.

A escolha da capital amazonense não surgiu por acaso. Ela reflete um processo em curso, ainda em consolidação, mas já perceptível. Universidades, centros tecnológicos e o próprio setor industrial começam a operar com maior integração, criando um ambiente mais propício à geração de soluções baseadas em conhecimento.

A Universidade do Estado do Amazonas ocupa um papel relevante nesse arranjo. A manutenção de duas incubadoras de empresas, em Manaus e Itacoatiara, tem contribuído para estruturar o empreendedorismo de base tecnológica em uma região historicamente distante dos grandes polos de inovação do país.

Esse movimento ganha densidade com a participação da UEA na governança do Centro de Bioeconomia da Amazônia, em parceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo. Essa conexão entre Amazônia e Sudeste, mediada por ciência e tecnologia, indica um caminho mais consistente para a construção de uma bioeconomia viável.

Ao mesmo tempo, o Polo Industrial de Manaus atravessa um processo de transformação silencioso, porém estratégico. A base manufatureira segue relevante, mas já se observa a incorporação de novas agendas, como biotecnologia, economia verde e soluções digitais.

Esse avanço encontra respaldo em um instrumento pouco compreendido fora do setor: a Lei de Informática. Ao destinar 5% do faturamento das empresas incentivadas para pesquisa, desenvolvimento e inovação, a legislação criou um fluxo contínuo de recursos. Em 2024, esse volume alcançou cerca de R$ 1,8 bilhão na Amazônia Ocidental. Não se trata de um detalhe técnico. É um dos principais motores da transição econômica da região.

encruzilhada da inovação

Nesse ambiente, a atuação da Fundação Paulo Feitosa ajuda a dar materialidade ao discurso da inovação. Com 27 anos de trajetória, a instituição acumulou experiência em áreas que vão de software e hardware à biotecnologia e automação industrial. O reconhecimento recente, com o Prêmio Finep de Inovação 2025 na categoria Ambiente de Inovação, reforça a percepção de que já existe, em Manaus, uma infraestrutura técnica capaz de dialogar com padrões nacionais e internacionais.

A Anprotec chega, portanto, a um ecossistema que não parte do zero. O que o evento oferece é escala. Ao reunir startups, investidores, universidades, empresas e formuladores de políticas públicas, a conferência cria um ambiente de aceleração.

Ideias encontram financiamento, projetos encontram parceiros, e iniciativas locais ganham visibilidade fora de seus limites geográficos.

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Antônio de Lima Mesquita Filho, diretor-executivo da Agência de Inovação da UEA, Adriana Faria, presidente da Anprotec, e Leonardo Silva, Analista de Negócios na WIT Incubadora Tecnológica da FPF Tech (Fundação Paulo Feitoza). – Conferencia 2025

Há, em paralelo, uma oportunidade específica para a bioeconomia. A Amazônia dispõe de ativos naturais e conhecimento tradicional que ainda não foram plenamente traduzidos em modelos de negócio sustentáveis. A aproximação com centros de pesquisa, investidores e empresas pode encurtar esse caminho, desde que haja organização e estratégia. Sem isso, o risco é permanecer no campo das intenções.

A dimensão internacional do evento também merece atenção. A presença de redes globais de inovação amplia o alcance da Amazônia em um momento em que o mundo busca soluções para desafios climáticos e energéticos.

O interesse externo existe. O que ainda está em construção é a capacidade local de transformar esse interesse em projetos estruturados.

É nesse ponto que reside o principal desafio. Grandes conferências costumam gerar entusiasmo imediato, mas o impacto real depende do que permanece após o encerramento. A efetividade da Anprotec 2026 será medida menos pelo número de participantes e mais pela quantidade de parcerias firmadas, investimentos atraídos e iniciativas consolidadas.

Manaus se encontra diante de uma encruzilhada. Pode aproveitar o evento como alavanca para consolidar um novo ciclo de desenvolvimento, baseado em tecnologia, sustentabilidade e conhecimento. Ou pode limitar-se ao ganho reputacional, sem mudanças estruturais mais profundas.

A diferença entre esses dois caminhos não está no evento em si. Está na capacidade de articulação entre instituições, na continuidade das políticas e na disposição de transformar discurso em prática.

A Anprotec 2026 abre a porta. O que será feito a partir dela ainda está em aberto.

Antônio Mesquita
Antônio Mesquita
Antônio Mesquita é Diretor Executivo da Agência de Inovação Tecnológica e Propriedade Intelectual (AGIN) da Universidade do Estado do Amazonas-UEA.

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