BR-319: Se a proteção ignora as pessoas, o impasse se torna injustiça

Coluna Follow-Up

A nova suspensão dos editais da BR-319 mal havia sido assimilada quando veio a contraordem. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região restabeleceu a tramitação das licitações, revertendo a decisão anterior.

Mais do que um episódio jurídico, o movimento revela que o problema não está apenas na decisão A ou B. Está na incapacidade do sistema de produzir uma trajetória minimamente estável.

O que se vê é um ciclo. Suspende-se, restabelece-se, volta-se a questionar. E, nesse intervalo, o Amazonas permanece no mesmo lugar.

A decisão recente é clara ao reconhecer que a paralisação provoca efeitos concretos e imediatos. Afeta a economia pública, compromete a logística, amplia riscos sanitários e pode tornar inviável a execução das obras no ciclo climático adequado.

Mas o fato de essa constatação surgir apenas depois da interrupção reforça a ideia que o país reage aos danos depois que eles já começaram a ocorrer.

Quando o rigor perde o sentido prático

Não há dúvida sobre a necessidade de rigor ambiental. A Amazônia exige isso. O que está em questão é outra coisa. O rigor, quando não vem acompanhado de coordenação institucional, deixa de ser proteção e passa a produzir paralisia. E a paralisia, neste caso, tem consequências sociais diretas.

A própria decisão do TRF1 reconhece que a BR-319 não é uma obra qualquer. Trata-se da única ligação terrestre permanente entre o Amazonas e o restante do país, com implicações diretas para abastecimento, mobilidade e acesso a serviços essenciais. Ignorar esse dado não fortalece a agenda ambiental. Apenas a desconecta da realidade.

O erro de transformar o debate em disputa

A oscilação decisória também alimenta uma narrativa improdutiva. De um lado, ambientalistas vistos como obstáculo. De outro, gestores tratados como ameaça. Essa simplificação impede qualquer avanço. O próprio processo mostra que não há ausência de análise técnica. Há, sim, excesso de instâncias sem convergência.

A decisão que suspendeu a liminar menciona a existência de múltiplas avaliações técnicas e jurídicas no âmbito do Executivo. A decisão anterior, por sua vez, questiona essa mesma base. O resultado é conflito institucional.

A omissão que se torna invisível

Enquanto o debate se concentra no risco ambiental — legítimo e necessário —, outro risco permanece sem tratamento equivalente. O custo da ausência de infraestrutura.

A decisão do tribunal toca nesse ponto ao destacar que a precariedade da rodovia impõe vulnerabilidade logística e sanitária às populações da região, além de encarecer permanentemente a manutenção do próprio sistema. Mas essa dimensão raramente encontra o mesmo nível de exigência institucional.

A pergunta continua válida. Quem responde pela omissão?

O dano não está na obra, está no intervalo

A cada interrupção, perde-se mais do que tempo. Perde-se a janela operacional, elevam-se custos, agrava-se a deterioração da estrada e prolonga-se a exposição das populações a condições precárias.

A justiça reconhece que, no contexto amazônico, decisões aparentemente temporárias podem produzir efeitos irreversíveis, especialmente quando interferem no calendário climático da região. Esse é o ponto mais sensível.

O dano não está apenas na decisão de fazer ou não fazer. Está na incapacidade de decidir de forma contínua.

Interlocução ou repetição

A BR-319 já tornou-se um espelho institucional. Um país que acumula diagnósticos, produz decisões qualificadas em diferentes instâncias, mas falha em organizá-las em uma direção comum.

A decisão mais recente apenas desloca o pêndulo.

Sem um ambiente de coordenação entre Judiciário, órgãos ambientais e gestão pública, cada nova medida continuará sendo seguida por sua reversão.

E o resultado será sempre o mesmo.

A repetição do impasse.

A Amazônia precisa de previsibilidade.


Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas, às quartas, quintas e sextas-feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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2 Comentários

  1. A rodovia BR-319 não dispõe, até o presente momento, de estudos robustos que comprovem, de forma consistente, sua viabilidade econômica, indicando o risco de geração de ônus significativo para a região. Adicionalmente, o processo decisório associado à sua implantação evidencia fragilidades quanto ao rigor ambiental, especialmente no que se refere à avaliação integrada de impactos cumulativos e sinérgicos, os quais têm sido objeto de questionamentos por órgãos de controle, pela comunidade científica e pela sociedade civil.
    No caso específico da BR-319, embora estudos ambientais tenham sido elaborados ao longo dos anos, não se verifica a existência de um EIA/RIMA definitivamente aprovado que contemple, de forma integrada e conclusiva, o conjunto dos impactos associados à reconstrução e pavimentação do trecho central da rodovia, especialmente o denominado “trecho do meio”.
    Observa-se, ainda, potencial limitação das capacidades institucionais — técnicas, financeiras e operacionais — dos órgãos competentes para assegurar a fiscalização efetiva, tanto no âmbito ambiental quanto no enfrentamento de ilícitos associados. Evidências empíricas na Amazônia Legal demonstram que a abertura de eixos viários, quando não acompanhada de instrumentos eficazes de governança territorial — lacuna recorrente na região — tende a desencadear processos de desmatamento, extração ilegal de madeira, mineração criminosa, ocupação irregular do solo e degradação socioambiental.
    Nesse contexto, a BR-319 pode configurar-se como vetor de intensificação de dinâmicas ilegais, ao ampliar a acessibilidade a extensas áreas contínuas e ainda relativamente preservadas da floresta. Tal cenário pode favorecer ainda mais a atuação de organizações criminosas, com risco de consolidação de um novo corredor logístico para atividades ilícitas, incluindo o narcotráfico internacional, com impactos relevantes sobre a segurança pública e a governança territorial na região.

  2. A rodovia BR-319 não dispõe, até o presente momento, de estudos robustos que comprovem, de forma consistente, sua viabilidade econômica, indicando o risco de geração de ônus significativo para a região. Adicionalmente, o processo decisório associado à sua implantação evidencia fragilidades quanto ao rigor ambiental, especialmente no que se refere à avaliação integrada de impactos cumulativos e sinérgicos, os quais têm sido objeto de questionamentos por órgãos de controle, pela comunidade científica e pela sociedade civil.
    No caso específico da BR-319, embora estudos ambientais tenham sido elaborados ao longo dos anos, não se verifica a existência de um EIA/RIMA definitivamente aprovado que contemple, de forma integrada e conclusiva, o conjunto dos impactos associados à reconstrução e pavimentação do trecho central da rodovia, especialmente o denominado “trecho do meio”.
    Observa-se, ainda, potencial limitação das capacidades institucionais — técnicas, financeiras e operacionais — dos órgãos competentes para assegurar a fiscalização efetiva, tanto no âmbito ambiental quanto no enfrentamento de ilícitos associados. Evidências empíricas na Amazônia Legal demonstram que a abertura de eixos viários, quando não acompanhada de instrumentos eficazes de governança territorial — lacuna recorrente na região — tende a desencadear processos de desmatamento, extração ilegal de madeira, mineração criminosa, ocupação irregular do solo e degradação socioambiental.
    Nesse contexto, a BR-319 pode configurar-se como vetor de intensificação de dinâmicas ilegais, ao ampliar a acessibilidade a extensas áreas contínuas e ainda relativamente preservadas da floresta. Tal cenário pode favorecer ainda mais a atuação de organizações criminosas, com risco de consolidação de um novo corredor logístico para atividades ilícitas, incluindo o narcotráfico internacional, com impactos relevantes sobre a segurança pública e a governança territorial na região.

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