Expedições científicas na Amazônia revelam áreas inéditas e espécies desconhecidas

Expedições científicas na Amazônia percorrem áreas remotas para revelar novas espécies, mapear saberes tradicionais e preencher lacunas críticas da pesquisa brasileira.

Equipes multidisciplinares apoiadas pela Iniciativa Amazônia+10 têm percorrido regiões remotas da floresta em busca de dados sociais, biológicos e geológicos ainda pouco documentados.

Em junho, um grupo de pesquisadores encontrou, no Acre, o fóssil mais completo já identificado no Brasil da tartaruga gigante Stupendemys geographicus, espécie de água doce que viveu há cerca de 10 milhões de anos. O casco, com mais de 1 metro de largura, foi escavado às margens do rio Acre e exigiu uma operação improvisada para ser transportado.

A descoberta integra um edital que financia 22 expedições científicas na Amazônia Legal. A chamada, articulada por fundações de apoio à pesquisa e instituições internacionais, exige equipes diversas e participação efetiva de povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas. Até agora, sete projetos já iniciaram atividades de campo. 

O objetivo é reduzir a concentração histórica de estudos em áreas próximas aos grandes centros urbanos. “Partimos de quatro objetivos nessa chamada. O primeiro foi superar vieses espaciais e taxonômicos, incentivando pesquisas em áreas e grupos pouco estudados.

O segundo, valorizar trabalhos de campo ambiciosos, apoiados com recursos para logística, infraestrutura e equipamentos”, explica Rafael Andery, secretário-executivo da Iniciativa Amazônia+10. Segundo ele, os demais objetivos incluem garantir relação respeitosa com os territórios e investir em planos de armazenagem de dados na Amazônia Legal.

Imagens de diversos locais e espécies das expedições científicas na Amazônia.
Bolsistas indígenas, biólogos, botânicos e militares coletaram mais de mil amostras de fungos, solos e plantas em áreas remotas do Amazonas. Foto: Charles Eugene Zartman

Parte desse esforço mira grupos pouco estudados, como fungos, briófitas e insetos. Em julho, uma das expedições científicas na Amazônia explorou a região da serra da Bela Adormecida, próxima a São Gabriel da Cachoeira (AM), coletando mais de mil amostras vegetais e microbiológicas.

A altitude de 1.200 metros e a logística desafiadora — marcada por longos deslocamentos em canoas motorizadas — reduziu o ritmo dos trabalhos, mas a equipe identificou espécies possivelmente inéditas. O projeto envolve 11 bolsistas indígenas de diferentes etnias, que também solicitaram apoio para criar um catálogo colaborativo de plantas medicinais.

Outra expedição percorreu áreas de altitude no Pará e em Roraima em busca de insetos aquáticos, cuja distribuição ainda é pouco conhecida. Para os pesquisadores, mapear essa fauna é essencial diante da tendência de deslocamento de espécies para regiões mais frias, um possível efeito das mudanças climáticas. A iniciativa também prevê livros de divulgação científica em línguas indígenas, ampliando o alcance educacional das expedições científicas na Amazônia.

Há ainda projetos dedicados à segurança alimentar. Em Mato Grosso, pesquisadores trabalham com comunidades da Terra Indígena Tirecatinga para recuperar variedades tradicionais de milho, amendoim e outras espécies afetadas pelo avanço das monoculturas. Em outra frente, cientistas devem mapear a biodiversidade em territórios quilombolas no Pará e no Amazonas com uso de DNA ambiental, criando modelos de monitoramento conduzidos pelas próprias comunidades.

Mulher indígena segura planta de araruta, símbolo da resistência de cultivos tradicionais em comunidade amazônica.
Vanessa Nambikwara, moradora da Terra Indígena Tirecatinga (MT), exibe araruta cultivada em sua aldeia, onde iniciativas buscam resgatar alimentos tradicionais. Foto: Irene Lôbo | Moacir Haverroth

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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