ENAMED: o termômetro do País — e a febre que a Amazônia já padece há décadas

O ENAMED estreou como um espelho tardio: refletiu, em números frios, aquilo que a população sente na pele há anos — a formação médica brasileira está se tornando um loteamento, e não um pacto civilizatório.

Os dados divulgados nesta primeira edição são um alarme: entre formandos de cursos privados que fizeram a prova, 38,8% não atingiram o patamar de proficiência (nota menor que 60 em 100). O contraste expõe uma desigualdade que não é só de renda — é de projeto de país. Entre as 49 faculdades com nota máxima, 40 são públicas, e as duas únicas com 100% de alunos considerados proficientes são federais (UFSCar e UFMS). Do outro lado, multiplicam-se cursos com desempenho crítico, muitos abertos no rastro de uma expansão apressada, judicializada e frequentemente descolada de campos de prática e de corpo docente robusto.

O governo promete medidas: tornar o exame anual, restringir vagas e até suspender ingressos em cursos com baixo percentual de concluintes proficientes; o Conselho Federal de Medicina defende o exame de proficiência como pré-requisito para registro profissional; a associação das universidades particulares contesta critérios e bases de dados. Em Brasília, discute-se a régua. No Brasil real, discute-se a sobrevivência.

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Foto divulgação

Há um equívoco que se repete, com a teimosia dos erros convenientes: acreditar que quantidade resolve o que é, antes de tudo, qualidade, território e responsabilidade.

A medicina não é linha de montagem. É presença, técnica, ética, escuta e repertório humano. E repertório não se improvisa em salas sem laboratório, sem hospital de ensino, sem preceptor, sem vivência de SUS, sem enfrentamento do sofrimento concreto — sobretudo onde o Brasil é mais difícil.

O ENAMED aparece como termômetro. Mas o país insiste em tratar termômetro como remédio.

Quando a formação cai, o preço sobe. Sobe em erros, em filas, em judicialização, em iatrogenia, em desconfiança. Sobe no custo emocional de famílias que peregrinam de porta em porta. E sobe na desigualdade: quem pode paga pelo “melhor”; quem não pode, aprende a aceitar o “possível”.

O resultado é perverso: a medicina que deveria reduzir a dor passa a redistribuí-la — concentrando excelência onde já há estrutura, e espalhando fragilidade onde a saúde pública é mais frágil.

Se o ENAMED quer medir a aptidão do país, a Amazônia é o seu estágio obrigatório.

Aqui, a distância é uma especialidade. O rio é estrada. A floresta é farmácia viva. O calor, a umidade, as doenças negligenciadas, a precariedade logística e a diversidade cultural não são “temas” — são o próprio cotidiano clínico.

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Especialistas que estudam a Amazônia

E é justamente aqui que a formação médica brasileira revela seu maior pecado: a arrogância epistemológica.

A medicina ensinada como se São Paulo fosse o mundo — e o mundo fosse um laboratório sem povo — chega à Amazônia sem idioma, sem humildade e, muitas vezes, sem utilidade. Vira técnica sem chão. Vira protocolo sem território. Vira receita que ignora a casa, o rio, a roça, o corpo coletivo das comunidades.

Pior: a medicina, por vezes, se comporta como se fosse a única forma legítima de cuidar — avessa aos saberes originários, indiferente às inteligências tradicionais, desconfiada da fitoterapia como se a floresta fosse superstição, e não ciência acumulada por séculos de observação, uso e transmissão.

Se a intenção é proteger o paciente — e não apenas ajustar manchetes — o país precisa de uma reforma que encare o problema inteiro, com coragem, com prioridade e civilidade.

Curso de medicina sem campo de prática adequado, sem preceptoria, sem hospital-escola ou rede conveniada de qualidade, não pode funcionar. Não é punição: é proteção social.

Na Amazônia, “saúde” inclui logística, saneamento, nutrição, doenças tropicais, clima extremo, violência, mercúrio, desmatamento, saúde mental comunitária. Isso precisa deixar de ser apêndice e virar eixo.

Sem plano de carreira, condições de trabalho e rede de apoio, não há médico que permaneça — e quando permanece, adoece. Fixação não se pede: se constrói com estrutura e dignidade.

Não como folclore para discurso, mas como diálogo técnico, intercultural e responsável. A Amazônia precisa de uma medicina que saiba escutar — e que reconheça, com método, o valor dos conhecimentos tradicionais.

A floresta em pé é também um horizonte terapêutico e científico. O SUS pode — e deve — integrar práticas fitoterápicas com segurança, pesquisa, protocolos e respeito aos detentores do conhecimento. Sem biopirataria, sem arrogância, sem apagamento.

O ENAMED pode ser porta, não destino. Qualidade precisa ser medida também por desfechos: atuação na atenção básica, resolutividade, ética, capacidade de trabalhar em equipe, vínculo com território.

O ENAMED revelou uma rachadura. Mas a rachadura não começou na prova: começou quando o país aceitou que formar médicos poderia virar um mercado sem contrapartida pública, uma concessão sem compromisso, um diploma sem pacto.

Na Amazônia, essa rachadura vira abismo — porque aqui a medicina não é luxo: é fronteira de humanidade.

Se o Brasil quiser mesmo “avaliar a formação médica”, precisa fazer uma coisa simples e difícil: parar de fingir que o centro explica a periferia — e começar a construir uma medicina que caiba no país inteiro.

E, sobretudo, uma medicina capaz de reconhecer que, em plena crise sanitária e climática, ignorância não é apenas falha técnica: é grave risco social.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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