O mundo perde Edgar Morin, arquiteto de uma nova forma de compreender a humanidade

Filósofo, sociólogo, antropólogo, resistente ao nazismo, crítico do stalinismo, estudioso da comunicação, da cultura de massa, da educação e da condição humana, Morin morreu nesta sexta-feira, em Paris, aos 104 anos, deixando uma obra que se tornou uma das referências centrais para quem tenta compreender um mundo cada vez mais interligado, instável e difícil de explicar por categorias isoladas, destacou o Le Monde. 

Em tempos de especializações cada vez mais estreitas, Edgar Morin insistiu em fazer o caminho inverso. Enquanto a academia se organizava em departamentos, disciplinas e compartimentos, ele procurava religar saberes. Enquanto a política buscava respostas simplificadas para problemas complexos, ele lembrava que a realidade raramente se deixa aprisionar por fórmulas lineares.

 Edgar Morin

Foi dessa inquietação que nasceu o conceito pelo qual se tornou conhecido mundialmente: o pensamento complexo. Não uma teoria da confusão, como muitos interpretaram superficialmente, mas um esforço intelectual para compreender que fenômenos humanos, sociais, econômicos, ambientais e culturais são tecidos por relações múltiplas, simultâneas e inseparáveis, de acordo com a Wikipédia.

Sua obra monumental, “O Método”, construída ao longo de décadas, tornou-se uma espécie de cartografia da complexidade contemporânea. Nela, Morin propunha uma reconciliação entre ciência, filosofia, cultura e experiência humana, numa época em que o conhecimento parecia avançar justamente pela fragmentação.

Em “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, texto que circulou intensamente em universidades e centros educacionais de todo o mundo, Morin defendia que ensinar não poderia significar apenas transmitir conteúdos. Era preciso formar seres humanos capazes de compreender a incerteza, lidar com a diversidade, reconhecer a interdependência planetária e perceber que todo conhecimento carrega limites, contextos e riscos de erro. 

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Reconhecido como um dos principais pensadores contemporâneos, Edgar Morin deixou uma obra que influenciou universidades, educadores e pesquisadores em diferentes países ao longo de décadas.

Poucos territórios desafiam tanto as lógicas simplificadoras quanto a floresta amazônica. Ali, economia, biodiversidade, cultura, geopolítica, ciência, tecnologia, ancestralidade e sobrevivência convivem num emaranhado que resiste às análises compartimentadas. Talvez por isso o pensamento de Morin tenha encontrado tanta receptividade na América Latina e entre pesquisadores que enxergam o desenvolvimento como uma construção sistêmica, e não como uma soma de indicadores isolados. 

Num século marcado pela emergência climática, pela revolução tecnológica, pela crise das democracias e pela disputa em torno dos sentidos do progresso, sua obra permanece surpreendentemente atual. Ela oferece menos respostas prontas do que ferramentas para formular perguntas melhores.

Morin viveu o suficiente para assistir à ascensão e à queda de ideologias, à reconstrução da Europa após a guerra, ao surgimento da internet, à globalização e às novas crises planetárias. Em vez de se refugiar em certezas, escolheu cultivar a dúvida como método e a curiosidade como forma de resistência intelectual.

Sua morte encerra uma biografia extraordinária. Seu pensamento, porém, permanece como uma advertência discreta para uma época que continua seduzida por soluções simples para problemas cada vez mais complexos.

Num mundo que insiste em separar, Edgar Morin passou mais de um século tentando religar.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

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