A força transformadora da escuta

Existem momentos em que uma sociedade precisa interromper o ruído das disputas, das estatísticas e dos discursos para ouvir aquilo que normalmente permanece invisível.

Ao longo dos últimos anos, o Brasil avançou em diversas frentes relacionadas aos direitos das mulheres. Leis foram aperfeiçoadas, mecanismos de proteção foram fortalecidos e a conscientização social alcançou novos espaços. Ainda assim, a realidade insiste em nos confrontar com números alarmantes, episódios recorrentes de violência e situações que desafiam nossa capacidade de compreensão.

Em muitos casos, o que deveria provocar indignação coletiva começa a ser tratado como parte da rotina. A repetição da barbárie cria o risco mais perigoso de todos: sua naturalização.

Quando a violência deixa de causar espanto, a sociedade inteira adoece.

Foi a partir dessa inquietação que nasceu, no Tribunal de Contas do Amazonas, a Ouvidoria da Mulher. Antes de ser uma estrutura administrativa, ela surgiu como uma convicção.

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1- A convicção de que nenhuma política pública produz resultados duradouros sem escuta qualificada.

2- A convicção de que acolher não significa apenas receber uma denúncia, mas reconhecer a dignidade de quem busca ajuda.

3- A convicção de que compreender uma realidade é o primeiro passo para transformá-la.

Ao idealizarmos a Ouvidoria da Mulher, entendíamos que o desafio não estava apenas dentro dos limites físicos do Tribunal. As dificuldades enfrentadas pelas mulheres atravessam instituições, municípios, órgãos públicos e ambientes profissionais diversos. Por essa razão, construímos um modelo capaz de alcançar servidoras, colaboradoras e cidadãs ligadas aos órgãos jurisdicionados da capital e do interior do Amazonas.

O objetivo sempre foi ampliar os canais de diálogo e fortalecer as redes de proteção. Com o passar do tempo, compreendemos que estávamos diante de algo ainda maior. Cada atendimento realizado, cada orientação oferecida e cada situação acolhida passou a revelar um aspecto muitas vezes negligenciado pelas instituições públicas: a necessidade de criar ambientes onde as pessoas sintam segurança para falar.

A escuta é uma tecnologia social poderosa.

Talvez por isso a experiência amazonense tenha despertado o interesse de outras Cortes de Contas.

Receber representantes dos Tribunais de Contas do Amapá, do Rio Grande do Sul e anteriormente de Roraima não representa apenas um reconhecimento institucional. Representa a demonstração de que boas práticas podem ultrapassar fronteiras geográficas quando são construídas sobre valores universais.

Nenhuma instituição pública possui o monopólio das boas ideias. Ao contrário. O serviço público evolui quando compartilha experiências, multiplica aprendizados e transforma iniciativas bem-sucedidas em patrimônio coletivo.

A troca de conhecimentos entre os tribunais revela exatamente essa compreensão. Não se trata de replicar estruturas de forma mecânica. Trata-se de compartilhar princípios, métodos e caminhos que permitam a cada realidade construir suas próprias soluções.

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É nesse contexto que surge uma reflexão que considero essencial.

Precisamos construir uma verdadeira corrente de ouvidos atentos.

Uma rede institucional capaz de perceber sinais, acolher relatos, orientar caminhos e fortalecer mulheres que muitas vezes acreditam estar sozinhas diante de situações de abuso, constrangimento, discriminação ou violência.

Não estamos falando apenas de procedimentos administrativos. Estamos falando de presença humana. Estamos falando de empatia.

Estamos falando da capacidade das instituições públicas de reconhecer que, por trás de cada manifestação recebida, existe uma história, uma trajetória e uma pessoa que espera ser compreendida.

A experiência da Ouvidoria da Mulher do Tribunal de Contas do Amazonas demonstra que a escuta pode produzir mudanças concretas. Demonstra que acolhimento e eficiência não são conceitos opostos. Demonstra que o controle externo também pode contribuir para fortalecer valores de cidadania, respeito e dignidade.

O caminho ainda é longo. Os desafios permanecem imensos. Mas cada nova ouvidoria criada, cada canal de acolhimento implantado e cada profissional capacitado para ouvir representam um avanço civilizatório.

Porque nenhuma transformação social começa pela imposição. Toda mudança duradoura começa quando alguém encontra espaço para falar e descobre que existe alguém disposto a ouvir.

Yara Amazônia Lins
Yara Amazônia Lins
Yara Amazônia Lins é conselheira e presidente do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) e Diretora da Atricon. Pós-graduada em Ciências Contábeis pela UFAM e reúne um portfólio robusto em Espírito Publico nos seus mais de 40 anos de serviços prestados ao TCE-AM. Em seu atual mandato tem direcionado esforços, dentro das competências do órgão e da função que ocupa, para maiores realizações de valorização da Amazônia e da preservação do Meio Ambiente.

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