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Startup transforma biodiversidade amazônica em tecnologia que acelera cicatrização

Inovação baseada na biodiversidade amazônica gera soluções para feridas complexas e cosméticos, conectando ciência, sustentabilidade e desenvolvimento econômico na região.

Uma startup brasileira vem apostando na integração entre ciência de ponta e recursos naturais da Amazônia para desenvolver produtos de alto valor agregado. Fundada em 2023, a BioSpin nasceu a partir de uma pesquisa acadêmica e hoje atua na criação de tecnologias baseadas em nanofibras bioativas, com aplicações nas áreas de saúde e dermocosméticos. 

O empreendimento, que tem como base a biodiversidade amazônica, foi idealizado por Andrey Marcos Pinho da Silva, doutor em Ciência e Engenharia de Materiais pela Universidade Federal de Santa Catarina. Após concluir o doutorado, o pesquisador retornou a Manaus com o objetivo de levar o conhecimento científico para além do ambiente acadêmico e transformá-lo em soluções práticas.

Andrey Marcos Pinho da Silva, fundador da BioSpin, pesquisa aplicações da biodiversidade amazônica em nanotecnologia para saúde
Andrey Marcos Pinho da Silva idealizou a BioSpin a partir de pesquisa acadêmica, transformando a biodiversidade amazônica em soluções inovadoras. Foto: Divulgação.

A proposta da empresa é utilizar compostos extraídos da biodiversidade amazônica para desenvolver produtos inovadores, agregando valor a insumos que tradicionalmente são comercializados como commodities. Entre os destaques do portfólio estão um curativo biodegradável voltado ao tratamento de feridas complexas e um sérum regenerativo com ativos naturais.

O curativo, desenvolvido com tecnologia de nanofibras, forma uma película ultrafina aplicada diretamente sobre a lesão. A estrutura libera substâncias bioativas que auxiliam na regeneração celular, com foco em casos como o pé diabético, condição associada a 28 amputações diárias no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. O produto passa por testes em pacientes para validação clínica e regulatória, etapa necessária antes da entrada no mercado em larga escala.

Já o sérum regenerativo utiliza ingredientes da biodiversidade amazônica, como copaíba, pracaxi, castanha-do-brasil e cumaru. Com produção ainda limitada, o item já é comercializado localmente e integra a estratégia inicial de geração de receita da startup.

Sérum regenerativo desenvolvido com ativos da biodiversidade amazônica é comercializado em Manaus
Produto à base de biodiversidade amazônica já é vendido em Manaus e integra estratégia de inovação da BioSpin. Foto: Divulgação.

A trajetória da BioSpin também inclui participação em programas de incentivo ao empreendedorismo na região. A empresa foi selecionada em iniciativas apoiadas pelo Sebrae Nacional e por aceleradoras voltadas à bioeconomia, garantindo recursos e apoio técnico para o desenvolvimento das tecnologias.

Entre 2024 e 2025, a startup captou cerca de R$ 190 mil para avançar na maturação dos produtos. O objetivo agora é escalar a produção e alcançar níveis mais avançados de desenvolvimento tecnológico, como o TRL 7, que indica testes em ambiente operacional.

Além do foco em inovação, a BioSpin também prevê impacto socioambiental. A empresa planeja destinar parte dos lucros para comunidades extrativistas da Amazônia, fortalecendo cadeias produtivas locais e incentivando o uso sustentável dos recursos naturais. Nesse contexto, a valorização da biodiversidade amazônica também se conecta à geração de renda e à conservação da floresta.

Super El Niño pode acontecer? Veja o que dizem especialistas sobre o termo viral

Projeções sobre o El Niño apontam mudanças no regime de chuvas e temperatura no Brasil, mas pesquisadores alertam para a complexidade do fenômeno e riscos de interpretações simplificadas.

A expressão “super El Niño” ganhou força nas redes sociais nas últimas semanas, impulsionada por projeções de aquecimento no Oceano Pacífico em 2026. Apesar da popularização do termo, especialistas alertam que ele não é uma classificação oficial e que, até o momento, não há evidências suficientes para afirmar que um evento extremo dessa magnitude vá se consolidar.

Dados recentes indicam que a temperatura da superfície do mar na região central do Pacífico, conhecida como Niño 3.4, atingiu o limiar mínimo de +0,5 °C, condição inicial para caracterizar o fenômeno. Ainda assim, o El Niño não foi formalmente declarado, pois é necessário que esse padrão se mantenha por várias semanas consecutivas, acompanhado de mudanças na atmosfera.

Modelos climáticos internacionais apontam uma probabilidade elevada de formação do El Niño ao longo do ano. Projeções indicam cerca de 66% de chance de desenvolvimento entre meados de 2026 e mais de 90% no fim do ano. No entanto, quando se trata da intensidade, os cenários divergem significativamente. 

Essa incerteza é justamente o ponto central do debate científico. Embora haja possibilidade de eventos mais fortes, a chance de um episódio muito intenso ainda é considerada menor. Além disso, especialistas destacam que a variabilidade entre os modelos impede previsões precisas sobre a magnitude do fenômeno com grande antecedência.

Outro fator que dificulta a leitura atual é a chamada “barreira de previsibilidade”, período entre abril e junho em que os modelos climáticos historicamente apresentam menor precisão. Pequenas variações nas condições do oceano e da atmosfera podem alterar significativamente os cenários projetados para os meses seguintes.

O aquecimento global adiciona uma camada extra de complexidade. Em um planeta mais quente, eventos de El Niño podem ter impactos mais intensos, mesmo quando classificados como moderados. Ainda assim, cientistas reforçam que o fenômeno, por si só, não determina a ocorrência de desastres extremos, mas pode aumentar a probabilidade de certos eventos, como chuvas intensas ou ondas de calor.

No Brasil, os efeitos tendem a ser desiguais. Historicamente, o Sul registra aumento de chuvas, enquanto áreas do Norte e Nordeste podem enfrentar períodos mais secos. Também é comum a elevação das temperaturas médias, especialmente durante a primavera e o verão.

Seca na Amazônia com baixos níveis de água e vegetação afetada
Períodos de seca na Amazônia podem se intensificar com fenômenos como o El Niño, impactando rios, floresta e comunidades locais. Foto: Redação Revista Amazônia.

Diante desse cenário, a principal visão dos especialistas é de que o termo “super El Niño” simplifica uma dinâmica complexa e ainda incerta. No estágio atual, o mais provável é a configuração de um evento de intensidade moderada, com possibilidade, ainda limitada, de cenários mais extremos.

Há sinais consistentes de aquecimento no Pacífico, mas qualquer previsão sobre intensidade deve ser feita com prudência. O comportamento do fenômeno nos próximos meses dependerá da evolução conjunta de múltiplos fatores atmosféricos e oceânicos, ainda em desenvolvimento.

Florestas africanas já emitem mais carbono do que absorvem, diz estudo

Pesquisa internacional aponta que as florestas africanas já não compensam emissões, evidenciando impactos do desmatamento e lições urgentes para a proteção de florestas tropicais, como a Amazônia. 

As florestas africanas deixaram de ser sumidouros de carbono e passaram a contribuir para o aumento das emissões de carbono. Um estudo internacional recente aponta que, após décadas funcionando como importantes sumidouros de CO₂, esses ecossistemas inverteram seu papel e hoje liberam mais carbono do que conseguem absorver.

A pesquisa, publicada na revista Scientific Reports e conduzida por cientistas ligados ao National Centre for Earth Observation, no Reino Unido, revela que essa mudança começou a se consolidar após 2010. Até então, as florestas do continente apresentavam saldo positivo de captura de carbono, mas o avanço do desmatamento e da degradação ambiental alterou esse equilíbrio nas florestas africanas.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram dados de satélite combinados com técnicas de aprendizado de máquina, analisando mais de uma década de informações sobre biomassa florestal, indicador que mede o carbono armazenado na vegetação. O levantamento identificou uma queda acentuada na capacidade de retenção de carbono, especialmente entre 2010 e 2017, período em que o continente perdeu cerca de 106 bilhões de quilos de biomassa por ano.

Imagem aérea mostra área de desmatamento, com troncos de árvores cortadas empilhados e clareiras abertas na vegetação. Desmatamento é a principal causa da transformação das florestas africanas em emissoras de carbono.
O desmatamento é a principal causa do aumento das emissões de carbono nas florestas africanas, ao liberar o CO₂ armazenado nas árvores e reduzir a capacidade natural de absorção da vegetação. Foto: Pok Rie/Pexels

As maiores perdas foram registradas em florestas tropicais úmidas, principalmente na República Democrática do Congo, em Madagascar e em regiões da África Ocidental. Embora as áreas de savana tenham apresentado algum aumento de vegetação, esses ganhos foram insuficientes para compensar a perda nas florestas densas.

O estudo acende um alerta para a política climática global. Com a redução da capacidade natural de absorção de carbono, cresce a pressão sobre outros setores para reduzir emissões de gases de efeito estufa, especialmente para cumprir as metas do Acordo de Paris e limitar o aquecimento global a 2°C.

Além disso, os dados têm impacto direto no mercado de carbono e em iniciativas internacionais de financiamento climático. Programas como o AFR100, que busca restaurar 100 milhões de hectares de paisagens degradadas até 2030, são apontados como caminhos possíveis para reverter a tendência, junto com o fortalecimento da governança florestal e o combate ao desmatamento ilegal nas florestas africanas.

Os pesquisadores destacam que a situação reflete uma transformação no balanço global de carbono. Caso essa tendência se mantenha, o papel dos ecossistemas naturais na regulação climática pode ser significativamente comprometido, tornando ainda mais urgente a adoção de medidas coordenadas entre governos, setor privado e organizações internacionais.

Terras raras, Amazônia e o fator IME: a soberania começa pelo conhecimento

Coluna Follow-Up

A geopolítica dos minerais críticos já não se limita a aquisições bilionárias ou a acordos de offtake costurados entre governos e grandes corporações. Ela começa a se redesenhar, de forma silenciosa, nos territórios onde ciência, tecnologia e soberania se encontram. A instalação do Instituto de Pesquisas do Exército na Amazônia (IPEAM), como extensão do IME, em Manaus, insere o Brasil nesse tabuleiro por um caminho menos evidente, mas potencialmente mais estruturante.

Amazônia: fronteira mineral ou fronteira tecnológica?

O debate recente sobre a mina de Pela Ema, em Goiás, expôs uma fragilidade recorrente. O país detém recursos, mas não domina plenamente as etapas que geram valor e poder. O que está em jogo não é apenas a posse do minério, mas o controle da inteligência que transforma esse recurso em insumo estratégico para cadeias industriais sofisticadas. Nesse ponto, a Amazônia deixa de ser apenas um território de reservas potenciais e passa a ser um espaço de disputa tecnológica.

O fator IME: conhecimento como estratégia de Estado

A presença do IPEAM precisa ser lida nessa chave. Não se trata apenas de uma iniciativa de descentralização acadêmica ou de formação de quadros. O foco em inteligência artificial, sensoriamento remoto, ciberdefesa e pesquisas avançadas indica uma tentativa de construir capacidade de leitura e controle sobre o território. Em uma região onde a riqueza mineral convive com pressões ambientais, interesses internacionais e fragilidades institucionais, quem detém os dados, os modelos e os algoritmos detém uma parte relevante do poder.

Eduardo Braga no Ipeam Manaus 1
O senador Eduardo Braga acompanhou a visita do comandante do IME, general de divisão Juraci Ferreira Galdino, ao local preparado para ser sede do Ipeam (Foto: Divulgação)

Quem lê o território controla o jogo

A Amazônia concentra indícios e reservas de minerais críticos ainda subexplorados, muitos deles associados a contextos geológicos complexos e ambientalmente sensíveis. A exploração desses recursos, se conduzida de forma convencional, tende a reproduzir os erros históricos de ocupação predatória. Mas ignorá-los não elimina o problema. Apenas transfere a decisão para outros centros de poder.

Minerais críticos e soberania: uma equação incompleta

É nesse ponto que o vetor tecnológico se torna decisivo. Sensoriamento remoto de alta precisão, modelagem geológica assistida por inteligência artificial e monitoramento em tempo real podem redefinir o padrão de exploração mineral. Não apenas tornando-o mais eficiente, mas sobretudo mais controlável, auditável e compatível com os compromissos ambientais que o Brasil afirma assumir. A parceria com estruturas como o Censipam, a UEA e a FAPEAM sugere a formação de um ecossistema capaz de integrar ciência, política pública e aplicação prática.

O risco de repetir o ciclo da dependência

Há um elemento adicional que não pode ser negligenciado. A presença do Exército, por meio do IME, introduz a dimensão da soberania de forma explícita. Minerais críticos não são apenas insumos industriais. São ativos estratégicos em cadeias de defesa, energia e tecnologia. Países que compreenderam isso há décadas estruturaram políticas de Estado consistentes. A China construiu sua hegemonia pelo domínio do refino e da cadeia produtiva. Os Estados Unidos respondem com instrumentos legislativos e financeiros. A Europa tenta recuperar terreno com regulações e incentivos.

Do laboratório à indústria: o elo que falta

O Brasil, historicamente, oscilou entre a abundância de recursos e a escassez de estratégia. A criação de uma eventual empresa de capital misto para minerais críticos, como sugerido no debate recente, só fará sentido se estiver conectada a uma base tecnológica robusta. Sem isso, corre-se o risco de criar mais uma estrutura institucional incapaz de competir em um ambiente dominado por conhecimento, escala e coordenação.

Amazônia como plataforma de decisão

O IPEAM pode representar um ponto de inflexão, desde que não seja tratado como um projeto isolado. Sua efetividade dependerá da capacidade de articular pesquisa aplicada, formação de talentos e integração com a indústria. Mais do que produzir estudos, será necessário produzir soluções. Mais do que formar engenheiros, será preciso formar estrategistas de cadeias produtivas complexas.

Entre a estratégia e a inércia

A Amazônia, nesse contexto, deixa de ser apenas um ativo ambiental ou uma fronteira mineral. Ela se afirma como laboratório de uma nova síntese entre desenvolvimento e soberania. Um território onde a decisão não será apenas se explorar ou preservar, mas como integrar conhecimento, tecnologia e responsabilidade em um modelo que não repita o passado.

O teste brasileiro já começou

A geopolítica das terras raras chegou ao Brasil pelos ativos. Pode se consolidar pela inteligência. O movimento do IME sugere que essa disputa começa a ser compreendida. Ainda de forma inicial, ainda cercada de incertezas, mas com um elemento que historicamente faltou ao país: a intenção de pensar o território com densidade estratégica.

Se será suficiente, ainda é cedo para afirmar. Mas, pela primeira vez em muito tempo, o debate sobre minerais críticos na Amazônia começa a sair do subsolo e a alcançar aquilo que realmente define poder no século XXI: a capacidade de entender, processar e decidir.


Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, do portal brasilamazoniaagora.com.br

Conheça a lenda da vitória-régia, símbolo da flora amazônica

Conheça a lenda da vitória-régia, narrativa amazônica que fala sobre a origem de uma das plantas mais emblemáticas da floresta e sua conexão com a cultura indígena.

Poucas plantas representam tão bem a grandiosidade da Amazônia quanto a vitória-régia. Com suas folhas circulares que podem ultrapassar dois metros de diâmetro e sua flor de abertura noturna, a espécie é considerada um dos maiores símbolos da flora amazônica e também carrega uma das histórias mais conhecidas da região: a lenda da vitória-régia.

A história de Naiá e a Lua

A lenda da vitória-régia conta a história de Naiá, uma jovem indígena que se apaixonou por Jaci, a Lua. Em antigos relatos dos pajés, Jaci descia à Terra para escolher moças e transformá-las em estrelas, levando-as para o céu. Encantada com essa possibilidade, Naiá passou a desejar o mesmo destino.

Determinada, ela recusava todos os pretendentes da aldeia e dedicava suas noites a contemplar a Lua, esperando o momento em que poderia alcançá-la. No entanto, Jaci parecia sempre distante.

A cada noite, Naiá corria pela floresta tentando alcançar o reflexo da Lua no horizonte, apesar de exausta e adoecida, ela persistia em sua busca. Em uma dessas tentativas, ao ver o reflexo de Jaci nas águas de um igarapé, a jovem acreditou finalmente estar próxima de seu amor e mergulhou. Mas Naiá acabou se afogando.  

O nascimento da vitória-régia

Comovida pelo sacrifício de Naiá, Jaci decidiu transformá-la em algo especial. Em vez de levá-la para o céu, fez dela uma “estrela das águas”: a vitória-régia.  

É a partir desse momento que a lenda da vitória-régia explica o surgimento da planta que flutua sobre os rios da Amazônia, abrindo suas flores à noite, como se ainda buscasse o brilho da Lua. Seu perfume marcante e sua beleza singular reforçam o caráter simbólico dessa transformação.

Entre a tradição oral e a natureza

A narrativa ajuda a explicar características reais da planta. A vitória-régia (do gênero Victoria) floresce durante a noite e está diretamente associada aos ambientes aquáticos da Amazônia, o que dialoga com a narrativa de Naiá e sua ligação com as águas e o luar.

Mais do que uma curiosidade, a lenda revela a forma como os povos indígenas constroem conhecimento e identidade a partir da natureza. Ao transformar a planta em símbolo de amor, persistência e conexão com o cosmos, a história fortalece o valor cultural e ambiental da floresta.

Menina indígena sobre flor em referência à lenda da vitória-régia.
Foto: Conti Outra.

Um símbolo que vai além da beleza

Hoje, a vitória-régia é reconhecida não apenas por sua imponência, mas também como um ícone da biodiversidade amazônica. Presente em lagos e igarapés, a planta desempenha papel ecológico importante, servindo de abrigo para pequenos animais e contribuindo para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos. Entre ciência e tradição, a vitória-régia continua a flutuar como um símbolo da conexão entre o conhecimento ancestral e a riqueza natural da Amazônia.

Brasil, clima e o que ficou fora do papel — uma leitura necessária sobre a COP30

A crítica de que o Brasil chegou ao Diálogo  de Petersburg, na Alemanha com “promessas vencidas no bolso” parte de um dado real, mas constrói uma conclusão apressada. É verdade que a COP30 não consagrou, em seu texto final, um compromisso formal de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis. Esse ponto é incontornável. O que merece revisão é a interpretação de que esse resultado decorre de omissão brasileira.

A negociação climática internacional não opera sob lógica doméstica. Não há maioria simples, não há decisão unilateral, não há autoridade central capaz de impor diretrizes. O que existe é um sistema de vetos cruzados, onde interesses energéticos, segurança nacional e estratégia econômica pesam tanto quanto — ou mais — do que a própria urgência ambiental.

Foi nesse ambiente que o Brasil atuou. E, ao contrário da leitura superficial, atuou de forma propositiva.

cop30
Imagem: Lightspring/Shutterstock

A tentativa de inserir um “mapa do caminho” para a redução progressiva dos combustíveis fósseis não apenas esteve na mesa como foi articulada politicamente pelo país. O impasse surgiu onde costuma surgir: na resistência de economias fortemente dependentes da produção de petróleo e gás. Não se trata de um episódio isolado da COP30, mas de uma linha de continuidade que atravessa as últimas conferências climáticas.

O resultado final — a ausência desse compromisso no texto oficial — não expressa ausência de liderança. Expressa o limite do consenso possível dentro de um sistema que ainda não conseguiu reconciliar transição energética com interesses geopolíticos consolidados.

Ao mesmo tempo, reduzir a atuação brasileira a esse ponto específico ignora movimentos estruturantes que foram consolidados ao longo da conferência. O país operou uma inflexão importante ao integrar agendas que historicamente caminharam separadas, aproximando clima, biodiversidade e uso do solo sob uma mesma lógica de solução. Isso não é apenas retórica. É uma mudança de arquitetura no debate internacional, especialmente quando essa articulação se ancora na Amazônia.

Há também um elemento que raramente aparece na superfície do debate. Em negociações multilaterais, nem tudo que importa está no texto final. Muitas vezes, os avanços mais relevantes são deslocados para instrumentos paralelos, coalizões políticas e compromissos que não carregam caráter vinculante imediato, mas que estruturam o caminho das próximas rodadas. Foi nesse espaço que o Brasil manteve ativo o debate sobre a transição energética, preservando a pauta mesmo diante do bloqueio formal.

A leitura que se impõe, portanto, exige algum rigor. Há, sim, frustração legítima com o ritmo das decisões globais. Há, também, uma cobrança justa por maior ambição. Mas transformar o resultado da COP30 em evidência de omissão brasileira é ignorar a natureza do processo e, sobretudo, os vetores de força que definem o que entra e o que fica de fora de um acordo internacional.

O Brasil não saiu da COP30 sem agenda. Saiu com uma agenda em disputa.

E talvez esse seja o ponto mais relevante. A chamada “promessa pendente” não desapareceu. Ela foi deslocada para o terreno onde as negociações continuam acontecendo — menos visível, mais complexo e, muitas vezes, mais determinante do que o texto final de uma conferência.

No debate climático global, o que não está no papel nem sempre está ausente. Às vezes, está apenas em construção

Onde está o carbono da Amazônia?


O carbono tem endereço: onde a Amazônia guarda o que o mundo emite

 
Estudos do INPA revelam como a floresta armazena carbono em sua biomassa e por que esse estoque é decisivo para o clima global.


Onde o carbono fica

Se o carbono circula na floresta, como vimos nos episódios anteriores, surge uma pergunta inevitável: onde exatamente ele fica?

A resposta leva ao conceito mais concreto da ciência florestal: o estoque

Pesquisas conduzidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), no âmbito do projeto CADAF, mostram que a Amazônia funciona como um imenso reservatório, armazenado principalmente na biomassa das árvores — troncos, galhos, folhas e raízes.

Esse estoque não é aleatório 

Estimativas indicam que a floresta amazônica brasileira armazena entre 60 e 80 bilhões de toneladas de carbono, um volume capaz de influenciar diretamente o equilíbrio climático global  .

Em escala local, medições de campo apontam valores médios em torno de 167 toneladas por hectare, com base em inventários florestais contínuos  .

CARBONO
Pesquisador Niro Higuchi Inpa

Esses números ajudam a entender o que está em jogo.

Cada árvore não é apenas um organismo vivo — é uma unidade de armazenamento de carbono construída ao longo de décadas. Cada hectare de floresta representa um acúmulo histórico desse processo.

Mas o estoque não é estático.

A dinâmica florestal envolve crescimento, recrutamento de novas árvores e mortalidade. Esse equilíbrio determina se a floresta está acumulando ou perdendo carbono ao longo do tempo.

Estudos de parcelas permanentes mostram que, mesmo sem intervenção, a floresta pode continuar acumulando carbono, funcionando como sumidouro ativo  .

Esse ponto é decisivo.

O carbono que hoje está armazenado na floresta não desaparece por conta própria. Ele só retorna rapidamente à atmosfera quando há ruptura — desmatamento, queimadas ou degradação.

É por isso que a discussão sobre a Amazônia não pode ser reduzida a números globais. Ela exige entender onde o carbono está, como ele é mantido e o que acontece quando esse sistema é interrompido.

No limite, proteger a floresta é proteger esse estoque — e evitar que bilhões de toneladas retornem à atmosfera em um intervalo muito curto de tempo.

ANOTAÇÕES PARA O NOVO LUSTRO DA ECONOMIA BRASILEIRA: 2026 A 2030 – A GRANDE TRANSFORMAÇÃO – Parte VII

Paulo R. HaddadMembro da Academia Mineira de LetrasBelo Horizonte Abril/2026

A partir do início de 2026, deverá ocorrer um amplo conjunto de debates, durante o processo eleitoral, relativo ao futuro da economia nacional e das economias estaduais. Elaborei 10 textos que, a partir de minhas experiências de planejamento nos três níveis de governo, durante algumas décadas, poderão eventualmente ser úteis como subsídios atualizados para propostas de planos, políticas públicas e projetos dos candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais.

Esses textos se referem ao resgate dos processos de planejamento de médio e de longo prazo, à avaliação das políticas públicas em andamento, à articulação das políticas macroeconômicas de curto prazo com as políticas de desenvolvimento sustentável (=crescimento econômico globalmente competitivo + equidade social + sustentabilidade ambiental) e às propostas da estrutura de novos planos de governo. O décimo texto irá conter um esboço de uma proposta para uma Grande Transformação do Brasil, no próximo lustro.

Mahatma Gandhi

“Digo que minha música vem da natureza, agora mais do que nunca. Amo as árvores, as pedras, os passarinhos. Acho medonho que a gente esteja contribuindo para destruir essas coisas”.

Antônio Carlos Jobim

“Temos que ter consciência de que uma abordagem ecológica deve sempre se tornar uma abordagem social, deve integrar questões de justiça nos debates sobre o meio ambiente, de tal forma a ouvir ambos o grito da terra e o grito dos pobres”.

Papa Francisco

INTRODUÇÃO

Tem sido difícil sensibilizar a opinião pública brasileira sobre a atual crise ambiental que o País atravessa. A sociedade permanece politicamente conformista, mesmo sendo informada, através dos meios de comunicação social, que restam apenas 8% da nossa exuberante Mata Atlântica e que o desmatamento já atingiu mais de 20% da prístina Floresta Amazônica, sendo que muitas das nossas bacias e microbacias hidrográficas estão se transformando em lixões a céu aberto, além, claro, das mudanças climáticas, que vêm provocando inúmeras catástrofes nas metrópoles, nas zonas costeiras e nos principais biomas do País. Como dizia Victor Hugo, é triste pensar que a natureza fala e que o gênero humano não a ouve.

A crise ambiental tornou-se tão profunda ao longo de nossa história, que os problemas passados e atuais dos processos de degradação ambiental nos cinco biomas (Mata Atlântica, Amazônia, Cerrados, Pantanal e Pampas) não se equacionam através de ajustes incrementais, mas através de grandes transformações apoiadas em novas ideias.

Como diz o cientista político Mark Blyth*, em momentos de crise as ideias importam e são poderosas. Elas têm a capacidade de dar substância histórica à diversidade dos interesses dos diferentes grupos sociais em termos de ações programáticas. Elas são capazes de determinar a forma e o conteúdo das instituições que formulam e definem a trajetória histórica de um país, de suas regiões e classes sociais.

As ideias, tomadas como parte de uma sequência geral de mudança institucional, reduzem incertezas, atuam como recursos para a construção de coalisões, empoderam protagonistas para contestar as instituições existentes, atuam como recursos na construção de novas instituições e, finalmente, coordenam as expectativas dos agentes, reproduzindo, portanto, estabilidade institucional.

Como as ideias são, frequentemente, a base inicial para a concepção e a implementação de políticas públicas, de programas e de projetos, elas podem ser avaliadas pela sua capacidade de transformação a partir de seus objetivos propostos e efeitos inesperados.

Um dos documentos que contém e provisiona ideias substantivas para um programa que pode sintetizar uma agenda de Grande Transformação do Brasil é a ENCÍCLICA LAUDATO SI’ do Papa Francisco, divulgada em junho de 2015. Conhecida como “O Cuidado da Casa Comum”, foi construída com a colaboração de mais de cem dos mais destacados cientistas do mundo. Em seus diferentes capítulos, funciona como uma lanterna de popa para novas trajetórias de desenvolvimento da humanidade e serviram como referência para muitas das discussões e controvérsias ocorridas durante a COP-30, em Belém.

A Encíclica defende uma ecologia integral, uma vez que o ambiente humano e o ambiente natural se deterioram conjuntamente. Não estamos diante de duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas de uma crise que é, ao mesmo tempo, social e ambiental. “Estratégias para uma solução demandam uma abordagem integrada para combater a pobreza, restaurar a dignidade dos excluídos e, ao mesmo tempo, proteger a natureza”.

Pode-se observar essa tese central da Encíclica no caso da formação histórica das áreas economicamente deprimidas no Brasil. São áreas que incluem quase 1700 dos 5570 municípios brasileiros, caracterizando-se pelos altos índices de pobreza e de miséria de sua população, pelas elevadas taxas de desemprego e de subemprego, pela precária infraestrutura econômica e social. Essas áreas se localizam, principalmente, no Sertão e no Agreste do Nordeste, nos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri, no Norte de Minas Gerais, em quatro microrregiões do Vale do Rio Doce, nas regiões historicamente desmatadas da Amazônia.

A sua população (quase 60% das famílias) sobrevive precariamente de mesadas das políticas sociais compensatórias (Bolsa Família, Lei Orgânica de Assistência Social, Previdência Social) e as suas Prefeituras através de transferências fiscais (mais de 70% da receita total) do Governo Federal (FPM, Fundos Fiscais de Saúde e Educação).

O que há de comum entre essas áreas? O fato de terem historicamente usado, de forma predatória ou não sustentável, a sua base de recursos naturais renováveis e não renováveis, através do extrativismo vegetal e mineral. A degradação dos ativos e serviços ambientais em uma região no presente, significa uma população socialmente empobrecida e carente no futuro, com a sensível redução do seu potencial produtivo e da produtividade total dos fatores de produção. Assim, enquanto se cuida de políticas de estabilização para evitar a insolvência financeira do País, é preciso, simultaneamente, ter consciência de que “uma abordagem ecológica deve sempre se tornar uma abordagem social, deve integrar justiça social nos debates sobre meio ambiente, de tal forma a ouvir ambos o grito da terra e o grito dos pobres”.

Ainda não conseguimos adotar um modelo circular de produção, capaz de preservar os recursos naturais para as gerações presentes e futuras, limitando ao máximo o uso de recursos não renováveis, moderando o seu consumo, maximizando o seu uso eficiente, reuso e reciclagem. Não é possível manter e reproduzir o nível atual de consumo dos países desenvolvidos e dos segmentos mais ricos da sociedade, nos quais os hábitos de desperdício e de descarte atingiram níveis sem precedência.

A exploração do Planeta já excedeu limites aceitáveis e ainda não se resolveram os problemas da pobreza e da miséria de muitos povos e grupos sociais. O processo de crescimento econômico deveria seguir os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS).

O cidadão brasileiro tem percebido a crise ambiental em virtude das mudanças climáticas e da crise hídrica em muitas regiões do País. Não associa, contudo, essa crise com a necessidade de mudanças do estilo de vida, dos modos de produção e dos padrões de consumo.

Muitas das pessoas pobres vivem em áreas particularmente afetadas por fenômenos relacionados com o aquecimento global e os seus meios de subsistência são amplamente dependentes das reservas naturais e dos serviços ecossistêmicos, como a agricultura, a pesca e a silvicultura. Na LAUDATO SI’, o Papa Francisco afirmou também que os efeitos mais graves de todos os ataques ao meio ambiente são sofridos pelos pobres.

A Encíclica não é apenas uma rigorosa análise da crise ambiental no Planeta, mas propõe, também, as diretrizes e recomendações para as políticas públicas ambientais, as quais servirão de legado para as discussões e os compromissos que permearão os planos e as políticas das novas administrações do Governo Federal e dos governos estaduais.

A comunidade científica, inúmeros empreendedores privados e muitas organizações não governamentais têm contribuído com um conjunto de ideias sobre programas e projetos de desenvolvimento sustentável, particularmente para a Amazônia. Esses projetos têm o seu valor insubstituível pois:

  1. eles permitem que a exploração econômica da Amazônia mantenha a floresta em pé;
  2. eles apresentam rentabilidade financeira compatível com as regras de mercado e rentabilidade socioeconômica compatível com as regras de sustentabilidade ambiental;
  3. todos são compatíveis com novos ciclos de inovação científica e tecnológica prevalecente;
  4. todos têm escala de produção necessária para gerar emprego e renda suficientes para erradicar a pobreza da região, dentro do trilema global: crescer, distribuir e preservar.

Como o Governo Federal passa por uma profunda crise fiscal, tendo que cortar algumas despesas essenciais, há uma impossibilidade de atender a avalanche de demandas que advêm dos mais diferentes grupos sociais, segmentos produtivos, interesses regionais/locais da região. Assim, novos projetos de desenvolvimento sustentável, ao serem formulados e executados, não podem depender significativamente do aporte de recursos fiscais do Governo Federal e dos governos estaduais.

O Estado poderá ser indutor desses projetos, mas o núcleo central das despesas de implantação e de operação deveria ser desempenhado pelo Segundo e Terceiro Setor e por recursos advindos da cooperação e das parcerias com instituições públicas e privadas, interessadas na mobilização rentável das potencialidades socioeconômicas e socioambientais da Amazônia, o mais importante bioma brasileiro do ponto de vista da humanidade.

Muitos desses projetos do Segundo e do Terceiro Setor já foram profundamente avaliados por instituições públicas e privadas, nacionais e internacionais, sendo que alguns deles já se encontram em nível de análise de implementação ou de pré-viabilidade econômico-financeira. Como não se implementam ideias, mas programas e projetos de investimento gerados por essas ideias, e como muitos países que participaram da COP-30 veem a Amazônia apenas do ponto de vista das mudanças climáticas, sem reconhecer que ali estão milhões de brasileiros a passar por necessidades básicas, cabe à sociedade estabelecer para a região um processo de planejamento de desenvolvimento sustentável de longo prazo.

II. A NOSSA CASA COMUM

Atualmente, a LAUDATO SI’ é o documento sobre a crise ecológica mais importante para a humanidade, por diversos motivos. A encíclica do Papa Francisco oferece um diagnóstico sintético sobre o que está acontecendo com “Nossa Casa Comum”, considerando as questões da água, da biodiversidade, do declínio na qualidade da vida humana, da desigualdade global e das respostas fracas e difusas às questões da poluição e da mudança climática. Oferece, também, as linhas de ação a serem seguidas a fim de que, com espiritualidade e educação ecológica, se estabeleça um novo diálogo sobre como construir o futuro do Planeta.

Mas, não se trata apenas de um relatório técnico abordando as raízes humanas da crise ecológica com a assistência de mais de uma centena dos maiores especialistas nas questões dos ecossistemas e da biodiversidade. A Encíclica é escrita a partir das doutrinas das religiões, da luz oferecida pela fé, da sabedoria dos ensinamentos da Bíblia, do mistério do universo, da mensagem de cada criatura na harmonia da Criação, da comunhão universal, da destinação comum dos bens etc.

Papa Francisco enfatizou a necessidade de um novo diálogo sobre como poderemos formatar o futuro do nosso Planeta. Propôs uma compreensão teológica da natureza visando a definir uma convivência harmônica da humanidade com a natureza. Na origem do mundo está o Criador, portanto o Criador precisa ser honrado em sua obra. Se não respeitarmos a obra, não respeitaremos o próprio Criador.

A Encíclica se inicia com uma breve resenha da atual crise ecológica a partir da melhor pesquisa científica disponível. Espera que deixemos os seus ensinamentos nos tocar profundamente e que possam prover um fundamento concreto para um itinerário ético e espiritual. Considera alguns princípios, extraídos da tradição judaico-cristã, que podem tornar nosso comprometimento com a natureza mais coerente.

Ainda na apresentação da Encíclica, o Papa Francisco mostrou que há uma tradição na Igreja Católica e em outras religiões presentes no Brasil, quanto aos seus discípulos terem responsabilidade dentro da Criação e dever em relação à natureza e ao Criador, uma parte essencial de sua fé. A Encíclica resume, nas primeiras páginas, alguns documentos e pronunciamentos das maiores autoridades religiosas que trataram das questões ecológicas do ponto de vista mais amplo e mais incisivo, com mensagens sobre os sintomas de doença evidentes no solo, na água, no ar e em todas as formas de vida. Podemos destacar:

ECONOMIA BRASILEIRA
Foto: Divulgação/Santuário de Fátima/ND
  1. Papa Paulo VI: menciona (1971), em visita à FAO/UN, as trágicas consequências da atividade humana descontrolada; o risco de a humanidade se destruir e tornar-se vítima dessa degradação devido à exploração irrefletida da natureza; o potencial de uma catástrofe ecológica decorrente de uma explosão efetiva da civilização industrial; a urgente necessidade de uma mudança radical na conduta da humanidade, pois, enquanto os avanços científicos mais extraordinários, as habilidades técnicas mais impressionantes e o mais surpreendente crescimento econômico não forem acompanhados de um autêntico progresso social e moral, eles definitivamente irão se voltar contra o próprio homem.
  2. Santo João Paulo II: afirma que os seres humanos parecem frequentemente não ver outro significado no seu ambiente natural a não ser o que serve para o seu imediato uso e consumo; que pouco esforço tem sido feito para salvaguardar as condições para uma autêntica ecologia humana; sustenta que todo esforço para proteger e melhorar nosso mundo implica mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo e nas estruturas estabelecidas de poder que hoje governam as sociedades, indicando uma convocação para uma conversão ecológica global; defende que todo desenvolvimento humano tem um caráter moral e pressupõe pleno respeito à pessoa humana e deve levar em consideração a natureza de cada ser e sua conexão mútua com um sistema ordenado.
  3. Bento XVI: propõe eliminar as causas estruturais das disfunções da economia mundial e corrigir modelos de crescimento que provaram ser incapazes de assegurar o respeito ao meio ambiente; aponta que o ambiente natural foi gravemente danificado tanto quanto o ambiente social devido à noção de que não há verdades indiscutíveis para guiar nossas vidas e, portanto, a liberdade humana é sem limites.
  4. Patriarca Bartolomeu: destaca a necessidade de cada um de nós arrepender-se das diferentes formas com que prejudicamos o Planeta; desafia-nos a reconhecer os nossos pecados contra a criação de Deus, ao degradar a integridade da terra, causando mudanças no clima, ao despojar a terra das suas florestas naturais ou ao destruir suas terras alagadas, ao contaminar as águas da Terra, suas áreas, seu ar e sua vida.

O Papa Francisco alerta que certo número de temas irá reaparecer no texto à medida que a Encíclica vai se desdobrando, embora cada capítulo tenha o seu próprio assunto e a sua própria abordagem. Como exemplo cita a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do Planeta; a convicção de que tudo no mundo está interconectado; a crítica aos novos paradigmas e formas de poder derivadas da tecnologia; uma convocação para pesquisar as formas de compreender a economia e o progresso; o valor próprio de cada criatura; o significado humano da ecologia; a necessidade de debate franco e honesto; a responsabilidade internacional séria assim como deve ser séria a política local; a cultura descartável e a proposta de uma nova vida. São questões que não são tratadas de uma única vez, mas reformuladas e enriquecidas repetidamente ao longo do texto da Encíclica.

A leitura da Encíclica deve se processar como uma proposta de Grande Transformação tanto na percepção que as pessoas têm da gravidade da atual crise ecológica do Planeta, quanto na precária insuficiência das ações que os homens e mulheres vêm conduzindo para mitigar e evitar as catástrofes e os colapsos no meio ambiente. Não é apenas um documento que avalia as condições de bem-estar das sociedades nem um plano de ajustes nas políticas públicas ambientais. 

A Encíclica recusa a estabelecer um tipo de relacionamento desrespeitoso entre a humanidade e a natureza, no qual a natureza é tão somente um mega almoxarifado de onde a sociedade humana extrai serviços e ativos ambientais para o seu consumo e deposita os resíduos e os dejetos de seu padrão de vida. Não aceita uma ideologia ambientalista que, ingenuamente, acredita que as forças desregulamentadas do mercado trarão o progresso tecnológico capaz de superar os processos de produção e de consumo intensivos de poluentes e de danos ecológicos.

O primeiro capítulo da Encíclica é dedicado a analisar o que está acontecendo com “Nossa Casa Comum”, onde se destaca o contraste entre a rapidez com que a atividade humana tem se desenvolvido e o ritmo naturalmente lento da evolução biológica. Felizmente, há uma crescente sensibilidade para o que ocorre no meio ambiente e a necessidade de proteger a natureza, sempre se enfatizando que temos de descobrir o que cada um de nós pode fazer pela evolução do Planeta. Destacamos algumas das principais proposições da Encíclica sobre o que está ocorrendo com o nosso Planeta, nas quais se sente a maior contribuição do grupo de cientistas colaboradores:

  • a tecnologia, vinculada aos interesses empresariais, é apresentada como o único caminho para resolver os problemas de poluição, dos dejetos e da cultura do desperdício, mas de fato ela tem sido incapaz de perceber a misteriosa rede de relações entre as coisas e assim, algumas vezes, consegue resolver um problema somente para criar outros;
  • nosso sistema industrial, no fim dos ciclos de produção e de consumo, não desenvolveu a capacidade para absorver e reusar dejetos e resíduos; ainda não conseguimos adotar um modelo circular de produção capaz de preservar os recursos para as gerações presentes e futuras, enquanto limitamos ao máximo o uso de recursos não renováveis, moderando o seu consumo, maximizando o seu uso eficiente, reuso e reciclagem;
  • o clima é um bem comum, pertencente a todos e destinado para todos; a Humanidade é convocada a reconhecer a necessidade de mudanças de estilo de vida, produção e consumo para combater o aquecimento global ou pelo menos as causas que o produzem ou o agravam;
  • muitas das pessoas pobres vivem em áreas particularmente afetadas por fenômenos relacionados com o aquecimento global e os seus meios de subsistência são amplamente dependentes das reservas naturais e dos serviços ecossistêmicos, como a agricultura, a pesca e a silvicultura;
  • não é possível manter o nível atual de consumo nos países desenvolvidos e nos setores mais ricos da sociedade nos quais o hábito de desperdício e de descarte atingiu níveis sem precedência; a exploração do Planeta já excedeu limites aceitáveis e ainda não se resolveu o problema da pobreza;
  • mesmo que a qualidade da água esteja constantemente diminuindo, em alguns lugares há tendência crescente, apesar da sua escassez, de privatizar esse recurso, tornando-o uma mercadoria sujeita às leis do mercado; contudo, o acesso à água potável é um direito humano básico e universal, desde que é essencial para a sobrevivência humana e, dessa forma, é uma condição para o exercício de outros direitos humanos;
  • os recursos da Terra estão também sendo pilhados por causa das abordagens de curto prazo da economia, do comércio e da produção; não basta, contudo, considerar as espécies simplesmente como “recursos” potenciais a serem explorados, esquecendo-se do fato de que têm valor em si mesmas;
  • na avaliação do impacto ambiental de qualquer projeto, a preocupação é com seus efeitos sobre o solo, a água e o ar; contudo, poucos estudos cuidadosos são elaborados sobre seu impacto sobre a biodiversidade, como se a perda de espécies ou animais e grupos de plantas fosse de pouca importância;
  • muitas cidades são imensas e ineficientes estruturas de excessivo desperdício de energia e água; áreas vizinhas, até mesmo as que foram construídas recentemente estão caóticas, congestionadas e carentes de espaço verde; muitas cidades cresceram desproporcionalmente e de forma desgovernada.

Assim, a leitura do primeiro capítulo da Encíclica destaca o declínio da qualidade da vida humana e o colapso da sociedade através de diferentes indicadores de desenvolvimento sustentável. Como os seres humanos são criaturas deste mundo, gozando o direito à vida e à felicidade e dotados de dignidade original, não podemos falhar em considerar os efeitos da deterioração ambiental sobre as vidas das pessoas, os modelos de desenvolvimento atuais e a cultura do desperdício.

Em uma avaliação criteriosa, observamos que os fundamentos doutrinários da LAUDATO SI’ são muito equilibrados. Muitos governos se propõem, através de planos, políticas, programas e projetos, a conceber e executar processos de desenvolvimento sustentável, os quais se baseiam no tripé dos objetivos de crescimento econômico globalmente competitivo, com melhor distribuição de renda e de riqueza e com sustentabilidade ambiental. Internamente esse tripé não é, em princípio, espontaneamente integrado, no sentido de que ao se implementar um, outros serão também implementados.

Na verdade, ele é eivado de conflitos e contradições: o crescimento econômico acelerado pode levar à concentração de renda e de riqueza assim como à degradação ambiental; o avanço da pobreza pode usar predatoriamente os recursos ambientais (florestas, pescas, fertilidade do solo, etc.) no sentido de reconhecer apenas o seu valor de uso direto; uma postura radical das ideologias ambientalistas preservacionistas pode ter um custo de oportunidade para a sociedade em termos de geração de renda e emprego em diferentes projetos de investimentos.

A Encíclica defende uma Ecologia Integral, uma vez que o ambiente humano e o ambiente natural se deterioram conjuntamente e não se pode combater a degradação ambiental a não ser que se atinjam as causas da degradação social e humana. Evidencia também que a pesquisa científica e a experiência cotidiana mostram que os efeitos mais graves de todos os ataques ao meio ambiente são sofridos pelos pobres. “Temos que ter consciência de que uma abordagem ecológica deve sempre se tornar uma abordagem social, deve integrar questões de justiça nos debates sobre o meio ambiente, de tal forma a ouvir ambos o grito da terra e o grito dos pobres”.

O conceito de Ecologia Integral é o eixo central em torno do qual giram as principais reflexões da LAUDATO SI’, tanto para analisar o que está acontecendo com nosso Planeta, como para definir as linhas de ação visando à construção de novo relacionamento entre a humanidade e natureza.

Papa Francisco apresenta a concepção de Ecologia Integral que não se limita a uma única dimensão dos problemas ambientais, uma vez que esses problemas estão muito interligados numa realidade ecológica ambiental, econômica, social e cultural. Como afirma: “A Ecologia estuda a relação entre os organismos vivos e o meio ambiente no qual se desenvolvem. Isto necessariamente implica reflexão e debate sobre as condições requeridas pela vida e pela sobrevivência da sociedade e a honestidade necessária para questionar certos modelos de desenvolvimento, produção e consumo”.

 De que forma a Encíclica propõe o conceito de integração no tratamento das questões ecológicas? Os aspectos mais destacados podem ser enumerados:

  1. tudo está interconectado; tempo e espaço não são independentes um do outro;
  2. a fragmentação do conhecimento e o isolamento de partes de informações podem se tornar, na verdade, uma forma de ignorância, a menos que conhecimento e informação sejam integrados numa visão mais ampla da realidade;
  3. a natureza não pode ser considerada como algo separado de nós ou apenas como um ambiente no qual vivemos; somos parte da natureza, incluídos nela e em constante interação com ela;
  4. não estamos diante de duas crises separadas, uma ambiental e outra social, ao contrário, trata-se de uma crise complexa que é, ao mesmo tempo, social e ambiental;
  5. é essencial buscar soluções compreensivas, que considerem as interações dentro dos próprios sistemas naturais e com os sistemas sociais;
  6. estratégias para uma solução demandam uma abordagem integrada para combater a pobreza, restaurar a dignidade excluída e, ao mesmo tempo, proteger a natureza.

A leitura completa da Encíclica nos conduz a um conjunto de reflexões para a formulação das políticas indispensáveis visando ao processo de desenvolvimento sustentável do Brasil, destacando-se os parágrafos 141 a 146. Nesses parágrafos, o Papa Francisco enfatiza as questões que podem nos orientar quanto às diretrizes a serem analisadas e discutidas sobre o futuro da economia brasileira no próximo lustro – 2026 a 2030.

No horizonte está a questão da exaustão dos recursos ambientais. O que levou Carlos Drummond de Andrade a escrever: “Eu por mim criaria o Ministério da Exaustão, que aconselharia o governo a dar lugar a outros governos, o velho a recomeçar quando vai esticando a canela. Ensinaria ao mesmo tempo o moço a fruir sua novidade ciente de que outra novidade venha aí, e que o mundo não acaba quando acabamos”.

III.  QUANDO A SOMBRA DO REVERENDO MALTHUS NOS ATORMENTA

Em 1798, o reverendo Thomas Robert Malthus publicou, na Inglaterra, um livro clássico onde previa que o crescimento geométrico da população versus a evolução da produção mais lenta de alimentos iria induzir a formação de um número inquestionável de miseráveis na sociedade*. Felizmente, Malthus se equivocou sobre a evolução de ambas as séries estatísticas que analisou. Os resultados do progresso científico e tecnológico da agropecuária ampliaram enormemente a produtividade por hectare nas zonas rurais em muitos países e mudanças nas taxas de mortalidade e de fecundidade evitaram a explosão demográfica no Planeta.

A “Revolução dos Cerrados Brasileiros” ocorrida nos anos 1970, por exemplo, transformou cerca de 60% de nosso território, desde então, em um dos mais expressivos celeiros mundiais de produção de proteína animal e de proteína vegetal. E o progresso tecnológico não para de avançar no campo, com destaque para a agricultura de precisão nas lavouras capitalizadas de muitas nações, o que abre novos horizontes para a produção de alimentos no Planeta. Somos atualmente responsáveis pela alimentação de 1 bilhão de habitantes da Terra.

Por outro lado, se o cenário de altas taxas de fertilidade mais próximo do pensamento de Malthus se realizasse nos países mais pobres, a população mundial chegaria a 28,6 bilhões em 2100, quatro vezes maior do que a atual. A ONU considera que esse cenário subestimou não apenas a queda nas taxas de mortalidade infantil e geral, mas também o papel das condições sociais das famílias e de sua liberdade de escolha sobre o custo de oportunidade de ter mais filhos. A ONU considera mais plausível a continuação das tendências recentes que estima a taxa anual de crescimento em 1,1% e a população total em 10,8 bilhões de pessoas em 2100.

Mas, a sombra de Malthus ainda continua a nos atormentar. Muitos países pobres, com altas taxas de fertilidade, estão envoltos em uma “armadilha demográfica”: têm muitas crianças e cada criança tem mais chance de crescer pobre, formando um círculo vicioso entre alta fertilidade e pobreza. A FAO destaca a necessidade de manter um ritmo acelerado das inovações, pois mais de 800 milhões de pessoas ainda passam fome no mundo e “em razão dos impactos das mudanças climáticas, os antigos riscos e incertezas com relação à produção de alimentos estão voltando”. Ou seja, da mesma forma que Malthus subestimou o progresso tecnológico, os economistas e planejadores estão subestimando os danos e perdas ambientais que comprometem o processo de desenvolvimento sustentável.

Philip Kotler*, um dos expoentes em moderna metodologia de marketing, destacou quatorze limitações do capitalismo que precisam ser superadas, mencionando que o sistema não apresenta o equacionamento da preservação, conservação e reabilitação dos ecossistemas, além de pouca ou nenhuma solução para a pobreza persistente, gerando um nível crescente de desigualdade de renda e de riqueza. Lembra o que Adam Smith afirmava em 1776: “Certamente nenhuma sociedade poderá ser próspera e feliz se a maioria dos seus membros for pobre e miserável.” É o caso do Brasil, um país com imensas potencialidades de desenvolvimento, mas cujas instituições econômicas e político-institucionais continuam a produzir desigualdades e assimetrias sociais.

Essas desigualdades são marcantes na Amazônia, onde diversos estudos têm apontado, de um lado, o imenso potencial de desenvolvimento da Bioeconomia na produção de alimentos, fibras, energia, etc., de forma sustentável, de outro lado, dramáticos bolsões de pobreza no Jardim do Éden.

Por exemplo: levando em consideração o parâmetro de US$ 6,85 per capita/dia para o Índice de Pobreza (recomendado pelo Banco Mundial), o IBGE estimou o Índice de Pobreza, em 2023, para as unidades da Federação. As maiores taxas de pobreza são encontradas nos seguintes estados: Maranhão, 51,6%; Acre, 51,5%; Amazonas, 45,8%; Pará, 39,5%; Roraima, 35,6%; Amapá, 33,0%; Rondônia, 24,4%. As menores são observadas em Santa Catarina, 11,6%; Rio Grande do Sul, 14,4%; Distrito Federal, 15,6%; e São Paulo, 16,3%.

O pensamento de Malthus voltou a nos atormentar com a divulgação das análises do Clube de Roma/MIT, nos anos 1970.

O Clube de Roma foi fundado, em 1968, por ilustres cidadãos, intelectuais e empreendedores, com o objetivo de avaliar questões de ordem política, econômica e social com relação ao meio ambiente. Os primeiros resultados que vieram com as simulações realizadas, tecnicamente se tornaram a referência para a modelagem de novos experimentos futuros, os quais começaram a identificar um descompasso entre a disponibilidade de recursos naturais do Planeta e a avalanche de demanda para bens e serviços intensivos direta e indiretamente de recursos naturais.

Em geral, todos os modelos de simulação do Clube de Roma/MIT apresentaram algumas variáveis explícitas relativas à população (taxa de natalidade, taxa de mortalidade), aos recursos naturais (estoques de recursos não renováveis), à produção (de alimentos, de energéticos), ao meio ambiente (poluição, capacidade de absorção), medidas em valores absolutos (ou números índices) e taxas de crescimento. Nos primeiros exercícios de simulação, já se destacavam as previsões pessimistas do Clube de Roma (1972):

“Podemos afirmar com certa confiança que, pressupondo que não haja mudanças significativas no atual sistema, a população e a produção industrial certamente irão paralisar ao máximo no próximo século”.

Depois da divulgação das diferentes simulações cada vez mais abrangentes e aperfeiçoadas, o Clube de Roma sofreu várias críticas, embora os seus trabalhos fossem considerados “as tentativas mais ambiciosas de combinar a escassez clássica Malthusiana e de Ricardo” com as questões modernas do desenvolvimento sustentável. As críticas se concentraram em alguns pontos:

a. a base de dados utilizados pela modelagem do Clube de Roma foi muito questionada;

b. os seus modelos em escala mundial foram construídos a partir de pressupostos pessimistas que somente poderiam gerar resultados pessimistas;

c. os modelos de computação tratam o mundo como uma entidade única, sem subdivisões e diferenciações geográficas;

d. os recursos naturais foram englobados na categoria de não renováveis sem distinguir entre eles aqueles que poder ser recicláveis;

e. os modelos ignoram a possibilidade de inovações tecnológicas e novas descobertas de recursos potenciais (ver o caso do Pré-Sal);

f. subestimam também o papel estimulante dos mecanismos de preços na conservação dos recursos, de sua substituição ou de sua economia nos novos processos tecnológicos.

De qualquer forma, o Clube de Roma alertava a opinião pública mundial sobre cenários de evolução do meio ambiente que teriam impactos sobre o empobrecimento e a fome em diferentes regiões e grupos sociais.

Os relatórios do Clube de Roma, com suas previsões vinham perdendo o seu interesse político-institucional até a publicação do Relatório Brundtland, intitulado “Nosso Futuro Comum”, em 1987. Esse documento analisou e disseminou mundialmente a ideia de desenvolvimento sustentável (= crescimento globalmente competitivo + justiça social + sustentabilidade ambiental).

A COMPLACÊNCIA NEOMALTHUSIANA

Ao estudar a situação demográfica dos principais países da Europa, Malthus, na sua obra clássica “Ensaio Sobre a População” (cap. IV), escreveu: “Afirmar que uma previsão das desigualdades em atender ao sustento de uma família atua como um obstáculo preventivo, e a miséria efetiva de algumas das classes mais pobres, em razão da qual estas são capazes de dar o alimento e os cuidados adequados para seus filhos, atua como um obstáculo positivo, impedindo o crescimento natural da população”.

Destacou diversos indicadores das desigualdades sociais que se acumularam na Inglaterra, na virada do século XVIII para o século XIX, afirmando: “Os filhos e as filhas dos camponeses nunca serão vistos na realidade como rosados querubins, como são descritos nos romances. Não pode deixar de ser assinalado, por aqueles que vivem no interior, que os filhos dos trabalhadores estão muito sujeitos a serem prejudicados em seu crescimento e demoram para atingir o desenvolvimento pleno. Os rapazes que você julgaria estar com 14 ou 15 anos, após verificação, constata ter 18 ou 19 anos …circunstância que só pode ser atribuída à falta de alimento adequado ou suficiente”.

Entretanto, Malthus via com ceticismo as propostas de reformas sociais elaboradas por outros pensadores nas primeiras décadas após a Revolução Industrial na Inglaterra, e atribuía ao descompasso entre o crescimento geométrico da população e o crescimento aritmético da produção de alimentos, a principal causa de a classe trabalhadora viver na pobreza e na miséria.

Mais de dois séculos após as previsões de Malthus, observa-se que a produção de alimentos cresceu com elevados níveis de produtividade e as taxas de fecundidade feminina despencaram em inúmeros países e regiões. A questão da pobreza e da miséria passou a ser considerada no campo das relações sociais de produção, especificamente nas relações entre os diferentes modos de acumulação e a distribuição de renda e de riqueza entre os diferentes grupos sociais.

O ensaio de Malthus sobre a população é instigante e lança argumentos que ainda constituem matéria-prima para as políticas públicas em vários países, em particular para as políticas de controle demográfico, as políticas sociais compensatórias, as políticas de sustentabilidade dos recursos naturais.

Entre as múltiplas questões relativas aos diagnósticos e as políticas públicas ambientais, o Papa Francisco, na Encíclica LAUDATO SI’, procurou responder à pergunta: qual é a relação entre pobreza e meio ambiente? Em primeiro lugar, a sociedade brasileira sempre tratou o meio ambiente como se fosse um grande almoxarifado de recursos naturais renováveis e não renováveis do qual retira, livremente, água para dessedentação humana e animal, madeira para bioenergia e manufatura, fertilidade das terras para a produção de alimentos, etc.

Da mesma forma, a nossa sociedade sempre considerou o meio ambiente como se fosse um mega depósito de lixo, onde joga os resíduos da produção e do consumo, poluindo os nossos rios, o ar puro, o espaço urbano, etc. Assim, o comportamento geral da sociedade, em termos de hábitos de consumo e de padrões de produção, está historicamente na base da degradação ambiental no Brasil, frequentemente sob a forma de biopirataria.

Nesta concepção, observa-se que, de fato, a população mais pobre, sem poder de compra para transformar as suas necessidades em demanda nos mercados, apela para os recursos ambientais livres, pelo seu valor de uso imediato. Recorre aos ativos e serviços da natureza quando tem de produzir (desmatamento para cultivar, extrativismo rudimentar, etc.) e quando tem de consumir (habitação nas encostas dos morros, vasculhamento das sobras do lixo orgânico e inorgânico, etc.). Esse comportamento precisa ser entendido não como decisões sobre o uso racional dos recursos escassos da sociedade, mas como estratégias de sobrevivência minimalistas de quem não tem portas de saída da miséria em que vive.

Mas, essas estratégias não têm escala suficiente para explicar o intenso processo de degradação do meio ambiente no Brasil. É como atribuir essa degradação àqueles que são as vítimas de um dramático processo de concentração de renda e de riqueza que vem se configurando desde o período escravocrata. (“Blaming the victim”).

Para explicar por que tem sido tão profunda a degradação dos nossos ecossistemas e porque essa aceleração tem ocorrido desde os anos 1970, precisamos de uma nova concepção do que seja o meio ambiente. Uma concepção que destaca o meio ambiente como um envoltório que contém, provisiona e sustenta a economia, sendo determinante para explicar a produtividade total dos fatores de produção e para o bem-estar social sustentável da população.

Quanto mais se degrada o capital natural menos estarão disponíveis os serviços ambientais, menores serão os indicadores de produtividade das atividades econômicas e do poder de compra da população e maiores serão os níveis de pobreza local.

O nosso meio ambiente tem sido intensamente degradado desde o Período Colonial quando, em cada um dos ciclos econômicos de exploração em grande escala da base de recursos naturais, se praticaram tecnologias predatórias ou não sustentáveis na produção agropecuária, no extrativismo mineral e vegetal, etc.

Assim foi com o ciclo do Pau-Brasil com a extração de 70 milhões de espécimes, como também com os ciclos da cana-de-açúcar, do café, da pecuária extensiva, da mineração colonial e pós-colonial. Infelizmente, esses processos de degradação econômica e social vêm se reproduzindo intensamente na Amazônia, quando os participantes da COP-30, se saíssem dos roteiros programados, poderiam ver na região três das dez maiores favelas do Brasil, segundo o Censo 2022 do IBGE – Cidade de Deus/Alfredo Nascimento (AM): 55.821 moradores; Comunidade São Lucas (AM): 53.674 moradores; Baixadas da Estrada Nova Jurunas (PA): 43.105 moradores.

Onde não foi possível recuperar e reabilitar os ecossistemas pela ação do tempo ou pela ação do homem, ficaram os rastros da pobreza e da miséria social para os seus habitantes.

IV. PERSPECTIVA DAS POLÍTICAS AMBIENTAIS

Quem observa os persistentes índices de desmatamento da Amazônia, as recorrentes perdas de qualidade de nossos recursos hídricos ou a crescente poluição do ar em nossas metrópoles, fica com a sensação de que pouco se fez em matéria de políticas ambientais no Brasil, desde a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, realizada no Rio de Janeiro, em 1992. Ledo engano, principalmente quando se compara a evolução da concepção e da implementação dessas políticas em três décadas no Brasil com a experiência centenária equivalente dos EE.UU. e de alguns países da União Europeia, países que detêm a mais ampla e sistemática política de proteção ambiental ao longo do século 20.

Os principais avanços ocorreram no campo das novas legislações ambientais (Lei dos Crimes Ambientais, Lei das Águas, Lei da Reciclagem de Resíduos Sólidos, etc.), na estruturação das organizações não governamentais, na mobilização da opinião pública pelos meios de comunicação, na qualidade técnica de pesquisas e estudos especializados, nas inovações tecnológicas da bioenergia, etc. A realização da COP-30 em Belém foi uma grande oportunidade para se mostrar os progressos dessas realizações, sem ufanismo, mas com convicção política, considerando a nossa liderança mundial nas mudanças da matriz energética, com a produção de energia limpa.

Na verdade, os processos de degradação dos nossos ecossistemas têm sido tão graves ao longo da história do País que a recuperação, a preservação e a conservação desses ecossistemas exigem uma intensidade, uma cadência e um sequenciamento das políticas ambientais que escapam à capacidade atual dos nossos governos e dos segmentos organizados da nossa sociedade civil em equacioná-los e geri-los adequadamente.

São políticas que, por sua própria natureza, envolvem intensos conflitos ideológicos, econômicos e sociais entre diferentes setores, regiões e grupos sociais. São políticas que sempre serão concebidas e executadas em regime de permanente tensão com lideranças empresariais que têm os pés no século 21, mas a cabeça nos anos 1970, como é o caso, por exemplo, das discussões sobre a nova Legislação Ambiental, tudo isso ocorrendo em um país que passa por uma crise fiscal nos três níveis de governo.

Há muitos programas e projetos de desenvolvimento sustentável bem formulados em bases científicas que, entretanto, carecem de recursos materiais, humanos e institucionais em intensidade suficiente para torná-los eficazes. Pouco adianta conceber ações estratégicas, se, no processo de sua implementação, são atribuídas, às instituições que as executam, recursos parcimoniosos, restritos, incertos e contingenciáveis.

Não conseguem acumular sinergia administrativa suficiente para superar as ineficiências e as inércias das burocracias tradicionais. Usualmente, o processo de desenvolvimento sustentável de um setor ou de uma região têm objetivos múltiplos, multi-institucionais e multissetoriais, que colocam a questão das mazelas e dos efeitos inesperados resultantes de erros de transversalidade no sequenciamento das ações programadas.

Embora muito tenha sido feito, há ainda muito mais a fazer: o fortalecimento do status político e orçamentário do Ministério do Meio Ambiente; a introdução de instrumentos econômicos lado a lado com os mecanismos de comando e controle nas políticas públicas; ecologizar ideologicamente os órgãos da administração pública direta e indireta; promover a melhoria da qualidade técnica dos EIAs e dos RIMAs dos projetos de investimento, fortalecer a capacidade institucional de implementação das políticas; conscientizar politicamente a opinião pública nacional quanto às questões ambientais do País; conferir maior respeito às ações das organizações não governamentais e dos movimentos sociais; etc.

Na verdade, a questão maior das políticas públicas ambientais no Brasil é a imensa dificuldade que, internamente, o Governo Federal tem para gerar consenso sobre o conteúdo, a profundidade e a persistência dessas políticas em sua base aliada no Congresso.

Enquanto oscila entre preservar, conservar e executar o manejo sustentável dos recursos ambientais de um lado, e questionar a validade da intensidade, do sequenciamento e do cadenciamento dessas políticas do outro lado, enfraquece-se o status político da gestão das ações ambientais e permite-se o avanço da ação antrópica predatória sobre os recursos ambientais.

O PNUMA aponta como políticas de investimento em capital natural mais relevantes:

  • Investimentos para mudança, mitigação e adaptação climática. Exemplo: REDD (reducing emissions for deforestation and forest degradation), um instrumento baseado no pagamento de serviços ecossistêmicos para sequestro de carbono.
  • Investimentos em infraestrutura ecológica para manter a capacidade da natureza em prover água fresca, regulação climática, formação do solo, controle de erosão, gestão de riscos naturais, etc.
  • Investimentos em áreas protegidas para gerar benefícios local, nacional e globalmente.
  • Investimentos na restauração de ecossistemas degradados. Exemplo: produção de biodiesel de dendê em áreas degradadas do Pará.

De forma mais sistemática, os estudos de TEEB (The Economics of Ecosystem and Biodiversity – 4 volumes) do PNUMA apresentam uma tipologia das políticas de promoção e desenvolvimento de serviços ambientais a partir de experiências internacionais (ver Quadro 1).

QUADRO 1

TIPOS DE POLÍTICAS DE PROMOÇÃO E DESENVOLVIMENTO DE SERVIÇOS AMBIENTAIS A PARTIR DE EXPERIÊNCIAS INTERNACIONAIS

Fonte: TEEB, Earthscan, 2010 (PNUMA).

BOX 1

As Políticas Públicas Ambientais no Brasil

É importante destacar, brevemente, alguns aspectos gerais das políticas públicas ambientais no Brasil. Essa análise é complexa, mas algumas observações podem ser mencionadas para serem detalhadas em outros textos*.

Em primeiro lugar, vislumbra-se que o principal desafio dessas políticas está no processo de sua implementação, e não no processo de sua concepção e formulação. Atualmente, o Brasil dispõe de um número crescente de instituições e de especialistas capazes de conceber e formular diagnósticos, análises, relatórios e diretrizes que compõem um segmento importante das políticas públicas ambientais. Um trabalho que cada vez mais se aproxima das melhores práticas internacionais.

Por outro lado, o mesmo não pode ser dito sobre o grau de implementação dessas políticas, pois, em sua maioria, não têm saído do papel, embora se tenha obtido muito progresso operacional desde os anos 1990. Isso ocorre por diversos motivos: a mobilização organizada de lobbies de interesses empresariais contra a execução das políticas; a limitada capacidade da máquina administrativa para efetivar, controlar e fiscalizar as políticas; estruturas regulatórias de má qualidade técnica e indutoras de riscos jurisdicionais; a ausência de uma consciência ambientalista nos formadores de opinião; conflitos de interesses entre os três níveis de governo, etc.

Ao nível da configuração das políticas públicas ambientais, pode-se dizer que, no Brasil, há um excesso de diretrizes e de objetivos e, inconsistentemente, poucos instrumentos de ação. Qualquer política pública não se operacionaliza se não houver uma compatibilidade sistêmica entre os seus objetivos e metas, de um lado, e um número adequado de instrumentos eficazes e eficientes, do outro lado. Na verdade, nenhuma política pública se implementa se os governantes não acreditarem que elas são indispensáveis e, ao contrário, atuarem no sentido do desmonte das instituições que as tornam efetivas.

Existem diversas concepções de instrumentos econômicos e mecanismos institucionais que permitem fazer acontecer as políticas públicas ambientais, como ocorre em diferentes países da OCDE. Há situações mais comuns em que podem ser adotados incentivos fiscais e financeiros, taxas e multas visando a encorajar a redução de poluentes. Além dessa redução, instrumentos tributários podem também gerar receitas para financiar o monitoramento da poluição e pesquisas para ampliar o nível de conhecimento disponível sobre as funções envolvidas nos danos ambientais; para estimular inovações de tecnologias que reduzam o volume de emissões; ou, até mesmo, para compensar prejuízos daqueles afetados pelos danos ecológicos.

Há situações extremas em que as autoridades devem controlar as próprias taxas de crescimento econômico. Por exemplo: a não concessão de outorgas para o uso de recursos hídricos de determinada bacia, quando houver indicações inequívocas de que os padrões de crescimento vigentes já atingiram ou excederam os limites apropriados do ótimo antropocêntrico e do ótimo biocêntrico da bacia hidrográfica.

Finalmente, há que se destacar uma mudança de patamar das políticas públicas ambientais no Brasil, se essas vierem a adotar instrumentos econômicos inovadores que têm sido usados em alguns países com elevado grau de eficácia para atingir os seus objetivos. Cite-se, por exemplo, o caso dos títulos negociáveis, onde o governo estabelece um sistema de permissões negociáveis para o uso de um recurso ambiental (ar puro, bacia hidrográfica, etc.), leiloa ou distribui as permissões, monitorando o cumprimento de metas ambientais e o processo de negociação dessas permissões através de preços de mercado. Mas, para cada instrumento econômico a ser adotado para incentivar ou desincentivar o uso dos recursos ambientais, abre-se uma controvérsia de natureza ideológica entre especialistas (ver Quadros 2 e 3).

Evidentemente que há muitos obstáculos para se avançarem as políticas públicas ambientais visando a se escapar dos limites e das políticas de comando e controle predominantes atualmente no Brasil. Esses obstáculos vão desde as enormes dificuldades na obtenção de dados sobre a fronteira entre o sistema ecológico e o subsistema econômico, até a precificação dos custos e benefícios dos serviços ambientais.

Se fosse possível dispor de uma medida diária dos impactos adversos das atividades de produção e de consumo sobre os ecossistemas no Brasil e em suas regiões (poluitrometro à semelhança do que se dispõe atualmente para os impostos), certamente a população poderia perceber, de forma mais dramática, a absoluta necessidade de avançar a qualidade das políticas públicas ambientais no Brasil.

Fonte: TEEB, Earthscan, 2010 (PNUMA).

As Estruturas Regulatórias

As políticas ambientais no Brasil, ao longo das últimas décadas, se apoiaram intensamente no uso de regulamentações (leis, decretos, portarias, etc.) formuladas e executadas por órgãos da administração direta e da administração indireta dos três níveis de governo (União, estados e municípios) e, em princípio, articuladas entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Essas regulamentações têm, na Lei Federal 9.605, de fevereiro de 1998 (a Lei dos Crimes Ambientais) e em suas posteriores regulamentações, com base na Constituição de 1988, um poderoso dispositivo sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente.

Trata-se de um sistema de comando e controle para fazer valer os objetivos de uma política ambiental (de conservação ou de preservação dos ecossistemas, de recuperação de áreas ecologicamente degradadas, etc.) e apoiado por um conjunto de legislação específica para ativo e serviço ambiental. É na elaboração e na implementação dessas estruturas regulatórias que ocorre um jogo político dos conflitos de interesses de indivíduos e instituições privadas versus os interesses da sociedade, como ocorreu nos debates e na formulação da nova legislação ambiental.

É evidente que não se pode subestimar a estrutura regulatória que serve de base institucional para a concepção e a execução das políticas de desenvolvimento sustentável, inclusive as que utilizam mais amplamente os mecanismos baseados em mercado. Entretanto, quando se processa e se consolida todo o amplo conjunto de regulamentações relativas ao uso de recursos ambientais do Brasil, é difícil explicar como se generalizaram e se aprofundaram tanto as formas de exploração predatória desses recursos, deixando, em muitas situações, um rastro de pobreza e de devastação ecológica para as populações locais.

Há diversos fatores que explicam o relativo fracasso das estruturas regulatórias que visam a controlar o uso predatório dos recursos naturais renováveis e não renováveis do Brasil (ver Paulo R. Haddad. Meio Ambiente, Planejamento e Desenvolvimento Sustentável, Saraiva, 2015, cap. I):

  • não há preocupação de se estimarem os custos e benefícios diferenciados das ações regulatórias para os diversos grupos sociais, setores produtivos e regiões impactados por essas ações (impactos distributivos); quem ganha e quem perde se essas ações forem efetivamente implementadas, quando emergem os conflitos de interesses que não foram objeto de um processo de negociação prévia;
  • não há a prática de se buscarem alternativas de políticas mais desejáveis em termos de menores custos administrativos, maior eficácia, efeitos distributivos, etc., para que os mesmos objetivos da regulamentação sejam atingidos, como, por exemplo, a alternativa de custo-efetividade do uso de algum mecanismo descentralizado de mercado;
  • falta de determinação política, principalmente dos níveis de poder local, para aplicar as leis com o rigor necessário, uma vez que, para as comunidades locais, os recursos ambientais têm valor econômico de uso e de troca, mesmo quando mobilizados predatoriamente; esse é um grande problema na Amazônia, onde os interesses (madeireiras, garimpeiros, etc.) das lideranças locais prevalecem sobre a legislação do Governo Federal e sobre os interesses das futuras gerações;
  • a debilidade administrativa e a fragilidade política de órgãos ambientais dos três níveis de governo e sua falta de articulação intra e intersetorial. 

Diante dessas dificuldades operacionais, os países que detêm uma experiência superior a um século (EE.UU., França, Inglaterra, etc.) no manejo de ações regulatórias, procuraram desenvolver mecanismos e instrumentos econômicos de mercado para viabilizar soluções para os problemas ambientais com menores custos de oportunidade para a sociedade. 

O sistema de preços relativos de mercado tem, em geral, a capacidade de emitir sinais para produtores e consumidores sobre a escassez relativa dos bens e serviços para o consumo da sociedade no presente e, também, no futuro, assim como os custos de oportunidade na produção de bens e serviços, ou seja, o valor real dos recursos utilizados na alternativa mais desejada. 

Por meio de mecanismos e instrumentos de intervenção direta e indireta, o Poder Público poderá estimular (incentivos fiscais e financeiros) ou desestimular (impostos e taxas) a produção e o consumo dos bens e serviços, de acordo com sua contribuição positiva ou negativa para o processo de desenvolvimento sustentável.

Na verdade, o uso de instrumentos econômicos nas políticas ambientais complementa os esforços dos mecanismos de comando e controle e os de gestão compartilhada dos recursos naturais. Esses instrumentos, que nos países desenvolvidos já se aproximam de 150 na prática, têm sua eficácia por meio de:

  1. alteração direta dos níveis de preços e de custos, por meio da emissão de taxas de efluentes, por exemplo;
  2. alteração indireta de preços e de custos, por incentivos fiscais ou financeiros, por exemplo;
  3. criação de mercados ou apoio a mercados, como, por exemplo, na organização de mercados de materiais secundários de reciclagem ou na estruturação de eco mercados. O Diagrama 1 ilustra diferentes situações de intervenção governamental, com o uso de instrumentos e mecanismos de mercado e com o uso de regulamentações.

Instrumentos Econômicos e Financeiros

As políticas ambientais no Brasil deverão progredir em termos de eficiência operacional e de eficácia estratégica quando, lado a lado com a melhoria e o aperfeiçoamento dos mecanismos de comando e controle, houver a oportunidade política para se introduzirem novos instrumentos econômicos na formulação e na execução dessas políticas. A partir daí, o Poder Público poderá melhor estimular e desestimular a produção e o consumo de bens e serviços de acordo com a sua contribuição para o processo de desenvolvimento sustentável da sociedade.

O Quadro 2 mostra algumas ilustrações de instrumentos fiscais e financeiros que contribuem para equacionar o hiato entre as aspirações da opinião pública quanto à preservação, conservação e reabilitação dos ecossistemas e a realidade político-administrativa das ações governamentais (Paulo R. Haddad – Economia Ecológica e Ecologia Integral. e-Galáxia, 2016).

QUADRO 2

Instrumentos Fiscais e Financeiros nas Políticas Ambientais

InstrumentosEscopo
1.    ECOCRÉDITO MUNICIPALMecanismo econômico de mercado, sob a forma de incentivo fiscal, que visa a estimular, dentro das propriedades rurais nos limites geográficos de um município, a formação de áreas de preservação ambiental, destinadas à conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos.
2.    ICMS ECOLÓGICOO ICMS Ecológico é a denominação de qualquer critério ou um conjunto de critérios de caráter ambiental, utilizado para o cálculo do valor que cada município de um estado tem direito a receber, quando do repasse de 25% dos recursos financeiros do ICMS, decididos autonomamente por lei estadual; quanto maior a participação do ICMS Ecológico nesse valor, maiores serão os incentivos fiscais para que os municípios implementem projetos de preservação ambiental, incluindo os ecossistemas de bacias hidrográficas e a sua biodiversidade.
3.    IMPOSTOS VERDES E TAXAS AMBIENTAISImposto verde ou uma taxa ambiental representa a imposição de um ônus financeiro sobre a poluição ou degradação ambiental incidente sobre as empresas que, nas fases de implantação, de operação e de manutenção de seus empreendimentos, provocassem danos ambientais, descarregando e emitindo resíduos no meio ambiente; as suas alíquotas diferenciadas seriam calibradas de acordo com o dano que a poluição do empreendimento provoca no meio ambiente; inversamente, poderia incidir um imposto verde positivo ou benefício para empresas e consumidores, como o Imposto de Renda Ecológico, por exemplo nos moldes da Lei Rouanet para o patrimônio natural.
4.    FINANCIAMENTOS INCENTIVADOSAbertura ou uso de linhas especiais de financiamento para projetos de investimento que tenham por objetivo a conservação e a preservação dos recursos ambientais, assim como a introdução de critérios ambientais na avaliação de projetos de investimentos de infraestrutura econômica e de projetos de investimento diretamente produtivos.

O objetivo central do uso de instrumentos fiscais e financeiros é estimular padrões de consumo, produção e acumulação de capital que atendam mais adequadamente a um processo de desenvolvimento sustentável do País e de suas regiões. Os instrumentos apresentados no Quadro 1 têm sido utilizados na política fiscal e financeira brasileira e em muitas Unidades da Federação, mas poderiam se multiplicar se mirassem as experiências dos países da OCDE.

Assim, quando se elaborar uma nova reforma tributária no Brasil, é muito importante incorporar a dimensão ambiental no seu escopo, integrando-a no tripé das funções típicas de um sistema tributário nacional: estabilização monetária, alocação de recursos escassos e distribuição da renda e da riqueza*.

O Quadro 3 mostra outros instrumentos econômicos cujo uso nas políticas ambientais brasileiras é incipiente, para não dizer nulo. Novamente, é preciso observar que esses instrumentos vêm ganhando espaço nas políticas ambientais dos países mais desenvolvidos, onde se acumulam experiências de sucesso e de fracasso das quais poderíamos nos beneficiar quando forem sendo incorporados de forma abrangente em nossa agenda de planejamento. (ver Box 3)

De modo geral, a crise fiscal e a crise ambiental, que têm se aprofundado em função da desmobilização das políticas públicas que vinham mitigando os seus impactos perversos e desastrosos para as atuais e as futuras gerações de brasileiros, podem levar a tensões e rupturas políticas de difícil previsibilidade, como sugere o conceito de tipping point.

QUADRO 3

Instrumentos de Políticas Públicas Ambientais

InstrumentosEscopo
1.    Permissões ou Certificados NegociáveisO Poder Público estabelece um sistema de permissões negociáveis para poluição ou uso do recurso ambiental (por exemplo: na outorga dos direitos de uso dos recursos hídricos), leiloa ou distribui as permissões e monitora o cumprimento; nesse caso, poluidores ou usuários do recurso negociam as permissões por meio de preços de mercado não regulados; trata-se de mecanismo orientado pelo mercado visando, por exemplo, a minimizar o nível de risco da degradação de uma bacia hidrográfica (blindagem das suas características de quantidade e de qualidade).
2.    Classificação de DesempenhoO Poder Público apoia programas de certificação ou de classificação que requeiram a divulgação de informações ambientais (temperatura, odor, nutrientes, oxigênio dissolvido, turbidez, etc.) de produtos ou serviços de uso final como as águas (consumo, pesca, natação, esportes), que sejam ambientalmente amigáveis; um mecanismo que valoriza a iniciativa privada crescentemente e a importância do sistema de informações sobre recursos ambientais.
3.    Educação e Persuasão MoralEste instrumento procura influenciar o comportamento de produtores e consumidores no sentido de melhorar resultados ambientais de maior expressão através da educação daqueles que criam externalidades, em torno dos benefícios públicos ou privados da redução dessas externalidades; por exemplo: campanhas sobre limpeza e lixo urbano.
4.    Licitação ou leilãoÉ uma abordagem alternativa para a distribuição de incentivos fiscais que envolvam a distribuição de recursos através de licitação ou leilão, envolve os agentes que procuram incentivos fiscais realizando ofertas que descrevem ações de mitigação e condições de rateio de custos. O Governo seleciona entre as ofertas realizadas, baseando-se no valor da mitigação pelo custo compartilhado, em moeda nacional.
5.    Compensação AmbientalCompensações ambientais são ações realizadas para alcançar um padrão (redução de poluição ou de impactos ambientais) em um local distante de onde a ação causadora de externalidade ambiental ocorre; o próprio agente causador da externalidade pode realizar a ação ou pagar para que outros o façam; por exemplo, para operar na região A, uma indústria assume o compromisso de financiar a organização de um parque ecológico na região B.
6.    Conscientização dos Consumidoresa melhoria de resultados ambientais através do aumento da consciência dos consumidores sobre os atributos de produtos, ou removendo barreiras às atividades do mercado; a criação de esquemas de rotulação de produtos é talvez o instrumento econômico mais utilizado nesta abordagem; envolve o fornecimento de informação sobre os resultados ambientais da produção, de tal forma que aqueles que valorizam a incorporação de benefícios ambientais possam expressar suas preferências através do mercado.

Podemos estabelecer algumas observações relevantes sobre o uso alternativo entre o uso de mecanismos de comando e controle e o uso de mecanismos de mercado:

  1. há situações críticas de degradação dos ativos ambientais nas quais o uso de instrumentos não baseados no mercado é a forma mais eficaz de intervenção governamental como, por exemplo: padrões baseados na produção ou no desempenho, um tipo de regulamentação que envolve o estabelecimento de limites no desempenho ou na produção, como limites na carga ou concentração de efluentes em uma bacia hidrográfica; insumos baseados em padrões de práticas ou processos, um tipo de mecanismo regulatório que envolve o estabelecimento de limites no nível de insumo (uma substância química, por exemplo), especificando uma tecnologia em particular a ser usada na produção (requisitos de tecnologia ou de prática de melhor gestão) ou regulamentação de desenvolvimento ou de zoneamentos econômico-ecológicos;
  2. o uso de instrumentos fiscais e financeiros apresenta uma grande vantagem ao permitir a sua operacionalização através das estruturas administrativas e organizacionais já estabelecidas com elevado grau de eficiência, tais como os órgãos da administração fazendária (Receita Federal) ou as instituições do sistema financeiro (Banco Central) vigentes;
  3. o uso de instrumentos econômicos nas políticas ambientais não pode gerar mecanismos fortemente regressivos (equidade), deve ter a confiança dos atores sociais relevantes, mesmo em um contexto de inevitáveis incertezas (fidedignidade), deve dar continuidade aos estímulos para as melhorias ambientais (incentivo dinâmico), etc.; a escolha dos instrumentos mais adequados para viabilizar os objetivos das políticas ambientais depende de cada contexto socioeconômico;
  4. o uso dos mecanismos de comando e controle pressupõe, para o seu sucesso, que a máquina de fiscalização seja moderna, eficiente e disponha de recursos orçamentários abrangentes, flexíveis e não contingenciáveis; é indispensável a cooperação e a integração das instituições político-administrativas dos três níveis de governo atuando em uma mesma região em termos de suas questões ecossistêmicas;
  5. tanto para os mecanismos de comando e controle quanto para os mecanismos de mercado é necessário evitar esquemas altamente técnicos e complexos assim como um volume despropositado de informações atualizadas, o que pode exigir custos administrativos e gerenciais incompatíveis com a realidade fiscal e administrativa do País;
  6. não há uma regra simples que permita decidir, em situações específicas de intervenção governamental, entre o uso de instrumentos e mecanismos de mercado e o uso de regulamentações; há vantagens e desvantagens em cada instrumento de intervenção, em termos de eficiência (fazer certo a coisa certa), de eficácia (fazer a coisa certa) e de equidade; sempre que possível, a melhor alternativa será alguma solução de compromisso que busque a sinergia entre as vantagens cumulativas dos dois tipos de instrumentos, dando-lhes um caráter de complementaridade e não de exclusão operacional; um exemplo desse tipo de solução de compromisso entre os dois instrumentos e mecanismos é dado pelo sistema de pagamentos pelos serviços ambientais*.

BOX 2

A PERSUASÃO MORAL

Como poderemos reverter o processo de exploração predatória dos nossos ecossistemas quando as principais autoridades, que deveriam coordenar as políticas públicas ambientais do País, são complacentes com os desmatamentos, os garimpos ilegais e a destruição da biodiversidade? Os países da OCDE, que têm maior experiência e longevidade em suas políticas ambientais, têm utilizado três conjuntos de instrumentos: os programas regulatórios de comando e controle, os mecanismos de mercado e os processos descentralizados, entre os quais se destaca a persuasão moral.

Por definição, a persuasão moral é um tipo de abordagem usada por uma autoridade pública ou por instituições não governamentais para levar os membros de uma sociedade a aderir a uma política, a uma meta ou a uma iniciativa de interesse coletivo das atuais ou futuras gerações. Envolve a aplicação de algum tipo de pressão, mas não de força, sem a utilização da legislação (comando e controle) ou de incentivos fiscais e financeiros nos preços de mercado, visando a atuar nas opções e preferências dos agentes econômicos.

No Brasil, muitos acordos voluntários sobre o uso dos recursos ambientais (por exemplo: as grandes redes de supermercados não adquirirem carnes produzidas em áreas de desmatamentos nas florestas prístinas) têm sido realizadas ainda que de forma lenta e pouco sistemática.

A persuasão moral envolve a atuação sobre o ambiente cultural, provendo informações sobre os impactos socioeconômicos e socioambientais do comportamento dos agentes produtores e consumidores como, por exemplo, as consequências da emissão de gases de efeito estufa decorrentes dos desmatamentos sobre as mudanças climáticas ou sobre o empobrecimento das populações regionais.

A persuasão moral como mecanismo de mudança comportamental tem maiores chances de vingar em comunidades com elevados índices de capital cívico, o qual se define como a tradução de práticas de políticas democráticas, de confiança nas instituições, de preocupação pessoal com os assuntos públicos, de associatividade entre as esferas públicas e privadas, etc. Quando se observa o comportamento de biopirataria de agentes econômicos com interesse autocentrado, não é difícil identificar um grande déficit de capital cívico entre os que exploram predatoriamente os nossos ecossistemas.

A percepção comum é que os indivíduos sejam guiados pelos seus interesses, pelo que é mais vantajoso, como já apareceu no Capítulo II da obra “A Riqueza das Nações” de Adam Smith, em 1776: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse. Dirigimo-nos não à sua humanidade, mas à sua autoestima…”

É bastante provável que, no médio prazo, poderá vir dos países de liberalismo iluminado da União Europeia, a indução a um redirecionamento para o uso sustentável dos recursos ambientais dos nossos ecossistemas. Autoridades, produtores e consumidores desses países estão reduzindo a demanda de produtos intensivos de recursos naturais se esses forem produzidos em áreas de desmatamentos em florestas prístinas, o que impactará adversamente os negócios lucrativos nas fronteiras ecológicas.

SUMÁRIO

Políticas Ambientais: um Balanço

As políticas públicas ambientais se implementam através de instrumentos e mecanismos econômicos, assim como através de estruturas regulatórias (leis, normas, decretos etc.). No Brasil, o uso de instrumentos econômicos nas políticas ambientais é muito limitado, quando comparado com as experiências dos países da OCDE. Além do mais, precisamos utilizar os mecanismos de mercado de forma tão intensa como nos países mais desenvolvidos. Entre esses mecanismos, destacamos um sistema de permissões (títulos) negociáveis e um sistema de pagamentos por serviços ambientais pela sua eficácia e atualidade no planejamento do desenvolvimento sustentável.

Não se trata de se subestimar a importância das estruturas regulatórias, mas de buscar sua sinergia programática com os instrumentos e mecanismos econômicos. É o que tem ocorrido nos países onde as políticas ambientais estão mais evoluídas tanto em termos de concepção quanto em termos de implementação.

Entretanto, o maior desafio para o sucesso das políticas públicas ambientais está no fato de que o Governo Federal prioriza as políticas de estabilização de curto prazo, colocando lateralmente políticas, programas e projetos de desenvolvimento sustentável de médio e de longo prazo. A Ecologia Integral é uma base conceitual e doutrinária para a estruturação de um conjunto de políticas, programas e projetos que deem conteúdo a um sistema de planejamento para o Brasil, visando a integrar três objetivos: crescimento econômico com competitividade sistêmica global, justiça social na distribuição da renda e da riqueza nacional e conservação, preservação e restauração dos ecossistemas em benefício das atuais e das futuras gerações.

Ora, como dizia Keynes, em 1936: “O estado da expectativa a longo prazo, que serve de base para as nossas decisões, não depende, portanto, exclusivamente do prognóstico mais provável que possamos formular. Depende, também, da confiança com a qual fazemos este prognóstico – à medida que ponderamos a probabilidade de o nosso melhor prognóstico revelar-se inteiramente falso”.

Já há um consenso entre especialistas, no Brasil, sobre um conjunto de proposições que buscam atender aos objetivos perseguidos com as mudanças nas estruturas regulatórias e nos instrumentos econômicos das políticas ambientais. O grande desafio político-institucional é como implementá-las com eficiência e eficácia. Como dizia Guimarães Rosa: “Uma coisa é pôr ideias arranjadas; outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias… De sorte que carece de se escolher”.


* Mark Blyth – Great Transformations – Economic Ideas and Institutional Change in the Twentieth Century. Cambridge, 2011.

* Thomas Robert Malthus – Ensaio Sobre a População. Abril Cultural, 1983  

* Philip Kotler – Confronting Capitalism.  Amacon,2015

* P.R.Haddad – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) Narrativas para a Construção do Futuro. Ed. Caravana, 2023, cap. IV . Amazônia: Crise Social e Crise Ambiental. Ed. Caravana, 2023 

* Muitos países desenvolvidos têm realizado uma Reforma Tributária Verde (Green Tax Reform) e o New Deal Verde (Green New Deal) onde se dá maior peso na estrutura dos gastos públicos às despesas de conservação, preservação e reabilitação dos ecossistemas.

* O Projeto de Lei 12/15 criou a Política Nacional de Pagamentos por Serviços Ambientais (PNPSA), destinada a ajudar produtores, indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais a preservar áreas de manutenção, conservação ou melhoria da cobertura vegetal consideradas prioritárias.

34 flores da Amazônia mais bonitas que você precisa conhecer

De helicônias a orquídeas, as flores da Amazônia revelam um universo pouco conhecido que une ciência, natureza e bioeconomia.

A Amazônia abriga uma das maiores diversidades do planeta e entre rios, copas densas e áreas de várzea, as flores da Amazônia revelam um universo de cores, formas e estratégias de sobrevivência pouco conhecidas fora da floresta. 

Muito além do valor ornamental, as espécies de flores da Amazônia desempenham papéis essenciais na polinização, na cultura dos povos originários e no potencial da bioeconomia. Algumas são raras e endêmicas, outras se destacam pela beleza exótica ou pelo uso tradicional, mas todas ajudam a revelar a história desse ecossistema. Conheça flores que surpreendem pela diversidade e encantam pela beleza. 

As helicônias estão entre as flores da Amazônia mais marcantes, conhecidas pelas cores vibrantes e formas exóticas que se destacam no meio da floresta. Adaptadas a ambientes úmidos e sombreados, essas flores da Amazônia desempenham um papel importante na atração de polinizadores, como beija-flores, e também ganham destaque no paisagismo e na floricultura tropical. Suas inflorescências chamativas não são apenas belas, mas refletem a diversidade e a complexidade da flora amazônica.

Helicônia-pendente (Heliconia rostrata)

Famosa pelas brácteas vermelhas e amarelas em forma de cascata, é uma das espécies mais icônicas da Amazônia e muito usada em arranjos tropicais.

flores da Amazônia com cores vibrantes em ambiente de floresta tropical

Helicônia-pendente (Heliconia rostrata) - Foto: Cultivar Jardinagem
Helicônia-pendente (Heliconia rostrata) – Foto: Cultivar Jardinagem

Helicônia-papagaio (Heliconia psittacorum)

De porte menor e cores vibrantes, como laranja e vermelho, é amplamente utilizada no paisagismo por sua resistência e floração frequente. 

Heliconia psittacorum flores da Amazônia em close com pétalas detalhadas e cores vibrantes

Helicônia-papagaio (Heliconia psittacorum)
Helicônia-papagaio (Heliconia psittacorum) – Foto: Rewild Brazil. 

Helicônia-de-folha-estreita (Heliconia acuminata)

Apresenta inflorescências delicadas com tons de vermelho e amarelo, comuns no sub-bosque úmido da floresta amazônica.

Helicônia-de-folha-estreita (Heliconia acuminata)

flores da Amazônia com cores vibrantes em ambiente de floresta tropical
Helicônia-de-folha-estreita (Heliconia acuminata) – Foto: Bernard DUPONT/FRANCE

Helicônia-densa (Heliconia densiflora)

Caracteriza-se pelas inflorescências compactas e coloridas, com flores agrupadas que atraem especialmente beija-flores.

flores da Amazônia com cores vibrantes em ambiente de floresta tropical

Helicônia-densa (Heliconia densiflora)
Helicônia-densa (Heliconia densiflora) – Foto: IndiaMart

Helicônia-peluda (Heliconia hirsuta)

Possui brácteas coloridas e textura levemente aveludada, destacando-se pela adaptação a diferentes condições de luminosidade.

flores da Amazônia com cores vibrantes em ambiente de floresta tropical

Helicônia-peluda (Heliconia hirsuta)
Helicônia-peluda (Heliconia hirsuta) – Foto: Diego Rodriguez – Flickr: Heliconia hirsuta

Helicônia-erecta (Heliconia stricta)

Com inflorescências verticais e cores intensas, é muito valorizada ornamentalmente pela forma estruturada e durabilidade.

Helicônia-erecta (Heliconia stricta) - Foto: Tim McCormack (Phyzome)

flores da Amazônia com cores vibrantes em ambiente de floresta tropical
Helicônia-erecta (Heliconia stricta) – Foto: Tim McCormack (Phyzome)

Caetê-bravo (Heliconia chartacea)

Conhecida pelas longas inflorescências pendentes e exóticas, apresenta tons vibrantes que se destacam na vegetação densa.

flores da Amazônia com cores vibrantes em ambiente de floresta tropical

Caetê-bravo (Heliconia chartacea)
Caetê-bravo (Heliconia chartacea) – Foto: Gardens by the Bay 

Helicônia-do-Juruá (Heliconia juruana)

Espécie amazônica menos conhecida, com inflorescências elegantes e adaptada a ambientes úmidos da região do rio Juruá.

Helicônia-do-Juruá (Heliconia juruana)

flores da Amazônia com cores vibrantes em ambiente de floresta tropical
Helicônia-do-Juruá (Heliconia juruana) -Foto: Jiri Hodecek

Helicônia-marginata (Heliconia marginata)

Apresenta brácteas alongadas com variações de vermelho e amarelo, sendo comum em áreas de floresta tropical e bordas de mata.

flores da Amazônia com cores vibrantes em ambiente de floresta tropical

Helicônia-marginata (Heliconia marginata)
Helicônia-marginata (Heliconia marginata) – Foto: Tropical Heliconias

As orquídeas estão entre as flores da Amazônia mais sofisticadas e diversas, conhecidas pela variedade impressionante de formas, cores e aromas. Muitas espécies vivem sobre troncos e galhos, usando as árvores apenas como suporte, em uma relação harmônica com o ambiente. 

Além da beleza, essas flores da Amazônia desempenham um papel essencial nos ecossistemas, com estratégias de polinização altamente especializadas. Na floresta, as orquídeas são sinais de equilíbrio ambiental e também símbolos da complexidade e riqueza da biodiversidade amazônica.

Orquídea-cattleya (Cattleya gaskelliana)

Conhecida pelas flores grandes e perfumadas em tons de lilás e rosa, é muito valorizada pela beleza e uso ornamental.

Orquídea-cattleya (Cattleya gaskelliana)

As orquídeas estão entre as flores da Amazônia mais sofisticadas e diversas, conhecidas pela variedade impressionante de formas, cores e aromas. Muitas espécies vivem sobre troncos e galhos, usando as árvores apenas como suporte, em uma relação harmônica com o ambiente. 
Orquídea-cattleya (Cattleya gaskelliana) – Foto: Orquídeas Jph

Orquídea-da-Amazônia (Cattleya violacea)

Espécie típica da região amazônica, apresenta flores roxas intensas e perfume marcante, sendo uma das mais admiradas do gênero.

Orquídea-da-Amazônia (Cattleya violacea) 

As orquídeas estão entre as flores da Amazônia mais sofisticadas e diversas, conhecidas pela variedade impressionante de formas, cores e aromas. Muitas espécies vivem sobre troncos e galhos, usando as árvores apenas como suporte, em uma relação harmônica com o ambiente. 
Orquídea-da-Amazônia (Cattleya violacea) – Foto: Orquídeas Encanto e Paixão.

Orquídea-noturna (Epidendrum nocturnum)

Suas flores esverdeadas e alongadas exalam perfume à noite, atraindo polinizadores noturnos como mariposas.

As orquídeas estão entre as flores da Amazônia mais sofisticadas e diversas, conhecidas pela variedade impressionante de formas, cores e aromas. Muitas espécies vivem sobre troncos e galhos, usando as árvores apenas como suporte, em uma relação harmônica com o ambiente. 

Orquídea-noturna (Epidendrum nocturnum)
Orquídea-noturna (Epidendrum nocturnum) – Foto: Orquidário Maripá.

Cataseto (Catasetum macrocarpum)

Orquídea de formato exótico e mecanismo de polinização único, capaz de lançar pólen quando estimulada por insetos.

Cataseto (Catasetum macrocarpum)

As orquídeas estão entre as flores da Amazônia mais sofisticadas e diversas, conhecidas pela variedade impressionante de formas, cores e aromas. Muitas espécies vivem sobre troncos e galhos, usando as árvores apenas como suporte, em uma relação harmônica com o ambiente. 
Cataseto (Catasetum macrocarpum) – Foto: Maarten Sepp

Orquídea-dimerandra (Dimerandra emarginata)

De flores pequenas e delicadas em tons de lilás, é comum em ambientes abertos e bordas de floresta.

Orquídea-dimerandra (Dimerandra emarginata)

As orquídeas estão entre as flores da Amazônia mais sofisticadas e diversas, conhecidas pela variedade impressionante de formas, cores e aromas. Muitas espécies vivem sobre troncos e galhos, usando as árvores apenas como suporte, em uma relação harmônica com o ambiente. 
Orquídea-dimerandra (Dimerandra emarginata) – Foto: Jalo Nunes. 

Orquídea-chuva-de-ouro (Rodriguezia lanceolata)

Apresenta cachos de flores elegantes e coloridas, muito apreciadas por sua leveza e valor ornamental.

Orquídea-chuva-de-ouro (Rodriguezia lanceolata)

As orquídeas estão entre as flores da Amazônia mais sofisticadas e diversas, conhecidas pela variedade impressionante de formas, cores e aromas. Muitas espécies vivem sobre troncos e galhos, usando as árvores apenas como suporte, em uma relação harmônica com o ambiente. 
Orquídea-chuva-de-ouro (Rodriguezia lanceolata) – Foto: Merten Orquídeas. 

Orquídea-miniatura (Stelis sp.)

Grupo de pequenas orquídeas com flores discretas, geralmente esverdeadas, adaptadas ao ambiente úmido da floresta.

Orquídea-miniatura (Stelis sp.)

As orquídeas estão entre as flores da Amazônia mais sofisticadas e diversas, conhecidas pela variedade impressionante de formas, cores e aromas. Muitas espécies vivem sobre troncos e galhos, usando as árvores apenas como suporte, em uma relação harmônica com o ambiente. 
Orquídea-miniatura (Stelis sp.) – Foto: American Orchid Society.

Polystachya (Polystachya estrellensis)

Espécie de flores delicadas e claras, com inflorescências leves que se destacam pela simplicidade e elegância.

Polystachya (Polystachya estrellensis)

As orquídeas estão entre as flores da Amazônia mais sofisticadas e diversas, conhecidas pela variedade impressionante de formas, cores e aromas. Muitas espécies vivem sobre troncos e galhos, usando as árvores apenas como suporte, em uma relação harmônica com o ambiente. 
Polystachya (Polystachya estrellensis) – Foto: Orchi – Fotografia própria

Orquídea-aranha (Brassia chloroleuca)

Conhecida pelo formato alongado que lembra uma aranha, possui flores exóticas que atraem polinizadores específicos.

Orquídea-aranha (Brassia chloroleuca) - Foto: Canva Pro/Creative Commons 

As orquídeas estão entre as flores da Amazônia mais sofisticadas e diversas, conhecidas pela variedade impressionante de formas, cores e aromas. Muitas espécies vivem sobre troncos e galhos, usando as árvores apenas como suporte, em uma relação harmônica com o ambiente. 
Orquídea-aranha (Brassia chloroleuca) – Foto: Canva Pro/Creative Commons 

As Araceae reúnem algumas das flores da Amazônia mais características dos ambientes tropicais úmidos, conhecidas pelas folhas exuberantes e inflorescências singulares formadas por espata e espádice.

Presentes no sub-bosque da floresta, essas espécies se destacam tanto pela adaptação à sombra, quanto pelo valor ornamental, sendo amplamente utilizadas no paisagismo e cada vez mais valorizadas na bioeconomia.

Caládio/Tinhorão (Caladium bicolor)

Conhecido pelas folhas grandes e coloridas em tons de verde, rosa e vermelho, é uma das espécies ornamentais mais populares do sub-bosque tropical.

Caládio/Tinhorão (Caladium bicolor)

As Araceae reúnem algumas das flores da Amazônia mais características dos ambientes tropicais úmidos, conhecidas pelas folhas exuberantes e inflorescências singulares formadas por espata e espádice.
Caládio/Tinhorão (Caladium bicolor) – Foto: Derek Ramsey

Lírio-da-paz amazônico (Spathiphyllum cannifolium)

Espécie de folhas alongadas e inflorescência branca elegante, típica de ambientes úmidos e sombreados da floresta.

As Araceae reúnem algumas das flores da Amazônia mais características dos ambientes tropicais úmidos, conhecidas pelas folhas exuberantes e inflorescências singulares formadas por espata e espádice.

Lírio-da-paz amazônico (Spathiphyllum cannifolium) - Foto: Flickr/Vihh/Creative Commons
Lírio-da-paz amazônico (Spathiphyllum cannifolium) – Foto: Flickr/Vihh/Creative Commons

Tinhorão / inhame (Colocasia esculenta)

Planta de grandes folhas em formato de coração, amplamente cultivada tanto pelo valor alimentar quanto pelo uso ornamental em áreas tropicais. Discreta e raramente percebida.

Tinhorão / inhame (Colocasia esculenta)

As Araceae reúnem algumas das flores da Amazônia mais características dos ambientes tropicais úmidos, conhecidas pelas folhas exuberantes e inflorescências singulares formadas por espata e espádice.
Tinhorão / inhame (Colocasia esculenta) – Foto: Orchi – Fotografia própria

As bromélias (família Bromeliaceae) estão entre as mais emblemáticas flores da Amazônia, presentes em diferentes formas e tamanhos. Conhecidas pelas folhas organizadas em roseta e pelas inflorescências coloridas, muitas espécies acumulam água entre as folhas, criando pequenos ecossistemas que abrigam insetos e outros organismos. 

Neoregelia (Neoregelia eleutheropetala)

Bromélia de folhas em roseta com tons avermelhados intensos, que se destacam ao redor da inflorescência, muito valorizada no paisagismo tropical.

As bromélias (família Bromeliaceae) estão entre as mais emblemáticas flores da Amazônia, presentes em diferentes formas e tamanhos. 

Neoregelia (Neoregelia eleutheropetala)
Neoregelia (Neoregelia eleutheropetala) – Foto: Wikimedia Commons 

Barba-de-velho / bromélia-aérea (Tillandsia bulbosa)

Espécie epífita de formato escultural, com folhas alongadas e retorcidas que absorvem água e nutrientes diretamente do ar.

As bromélias (família Bromeliaceae) estão entre as mais emblemáticas flores da Amazônia, presentes em diferentes formas e tamanhos. 

Barba-de-velho / bromélia-aérea (Tillandsia bulbosa)
Barba-de-velho / bromélia-aérea (Tillandsia bulbosa) – Foto: Planta Sonya. 

Bromélia (Bromelia sp.)

Grupo de plantas tropicais de folhas rígidas e inflorescências coloridas, comuns em ambientes abertos e amplamente utilizadas como ornamentais.

Bromélia (Bromelia sp.)

As bromélias (família Bromeliaceae) estão entre as mais emblemáticas flores da Amazônia, presentes em diferentes formas e tamanhos.
Bromélia (Bromelia sp.) – Foto: ignartonosbg/Pixabay

As plantas da família Zingiberaceae reúnem algumas das flores da Amazônia mais aromáticas e visualmente marcantes da floresta, conhecidas pelas inflorescências exóticas e pelo uso em especiarias, medicina e cosmética. Com cores intensas e estruturas diferenciadas, essas espécies se destacam tanto pelo valor ornamental quanto pelo potencial na bioeconomia, graças à presença de óleos essenciais e compostos bioativos.

Gengibre-amargo / shampoo-gengibre (Zingiber zerumbet)

Espécie tropical com inflorescências em formato de cone vermelho que liberam líquido aromático, usada tradicionalmente em cuidados capilares e na medicina natural.

As plantas da família Zingiberaceae reúnem algumas das flores da Amazônia mais aromáticas e visualmente marcantes da floresta, conhecidas pelas inflorescências exóticas e pelo uso em especiarias, medicina e cosmética.

Gengibre-amargo / shampoo-gengibre (Zingiber zerumbet)
Gengibre-amargo / shampoo-gengibre (Zingiber zerumbet) – Foto: Picture This. 

Cúrcuma-zedoária (Curcuma zedoaria)

Planta de flores delicadas com brácteas rosadas e centro claro, conhecida pelo valor ornamental e pelo uso medicinal e aromático.

As plantas da família Zingiberaceae reúnem algumas das flores da Amazônia mais aromáticas e visualmente marcantes da floresta, conhecidas pelas inflorescências exóticas e pelo uso em especiarias, medicina e cosmética.

Cúrcuma-zedoária (Curcuma zedoaria)
Cúrcuma-zedoária (Curcuma zedoaria) – Foto: Medicina Natural. 

As plantas da família Amaryllidaceae se destacam pelas flores vistosas e bem estruturadas, que surgem geralmente em hastes elevadas acima da folhagem. Presentes em regiões tropicais, incluindo áreas da Amazônia, essas espécies combinam valor ornamental com adaptação a diferentes condições ambientais, florescendo muitas vezes em períodos específicos do ano e contribuindo para a diversidade visual da flora.

Flor-de-sangue/Lírio-Sangu-Salmão (Scadoxus multiflorus)

Destaca-se pela inflorescência em formato esférico, formada por dezenas de pequenas flores vermelhas, criando um efeito ornamental intenso e chamativo.

As plantas da família Amaryllidaceae se destacam pelas flores vistosas e bem estruturadas, que surgem geralmente em hastes elevadas acima da folhagem. Presentes em regiões tropicais, incluindo áreas da Amazônia, essas espécies combinam valor ornamental com adaptação a diferentes condições ambientais, florescendo muitas vezes em períodos específicos do ano e contribuindo para a diversidade visual da flora.

Flor-de-sangue/Lírio-Sangu-Salmão (Scadoxus multiflorus)
Flor-de-sangue/Lírio-Sangu-Salmão (Scadoxus multiflorus) – Foto: Flickr/Maja Dumat/Creative Commons

Lírio-aranha (Hymenocallis littoralis)

Conhecido pelas pétalas longas e finas que lembram uma aranha, apresenta flores brancas elegantes e perfumadas, comuns em ambientes tropicais úmidos.

As plantas da família Zingiberaceae reúnem algumas das flores da Amazônia mais aromáticas e visualmente marcantes da floresta, conhecidas pelas inflorescências exóticas e pelo uso em especiarias, medicina e cosmética.

Lírio-aranha (Hymenocallis littoralis)
Lírio-aranha (Hymenocallis littoralis) – Foto: Billjones94

Outras espécies 

Justícia-vermelha (Justicia secunda)

Espécie herbácea de flores vermelhas em forma tubular, muito atrativas para beija-flores e comuns no sub-bosque tropical.

flores da Amazônia com cores vibrantes em ambiente de floresta tropical

Justícia-vermelha (Justicia secunda)
Justícia-vermelha (Justicia secunda) – Foto: Boni Plantas. 

Erva-de-passarinho/visco (Psittacanthus robustus)

Planta hemiparasita com flores alaranjadas vibrantes que crescem sobre árvores, destacando-se pelo contraste com a vegetação hospedeira.

flores da Amazônia com cores vibrantes em ambiente de floresta tropical

Erva-de-passarinho/visco (Psittacanthus robustus)
Erva-de-passarinho/visco (Psittacanthus robustus) – Foto: Hans/Pixabay. 

Vitória-régia (Victoria amazonica)

Uma das plantas aquáticas mais emblemáticas da Amazônia, com flores grandes que mudam de cor e folhas gigantes que flutuam sobre a água.

flores da Amazônia com cores vibrantes em ambiente de floresta tropical

Vitória-régia (Victoria amazonica)
Vitória-régia (Victoria amazonica) – Foto: Getty Images 

Nenúfar (Nymphaea sp.)

Grupo de plantas aquáticas com flores delicadas que se abrem na superfície da água, variando entre tons de branco, rosa e azul.

flores da Amazônia com cores vibrantes em ambiente de floresta tropical

Nenúfar (Nymphaea sp.)
Nenúfar (Nymphaea sp.) – Foto: Rainhard Wiesinger/Unsplash

Aguapé (Eichhornia sp.)

Planta flutuante de flores arroxeadas e delicadas, comum em rios e lagos, conhecida pela rápida propagação em ambientes aquáticos.

flores da Amazônia com cores vibrantes em ambiente de floresta tropical

Aguapé (Eichhornia sp.)
Aguapé (Eichhornia sp.) – Foto: Evandro Marques

Ipê-amarelo (Tabebuia serratifolia)

Árvore de grande porte que se destaca pela floração intensa em amarelo vibrante, criando paisagens marcantes durante a estação seca.

flores da Amazônia com cores vibrantes em ambiente de floresta tropical

Ipê-amarelo (Tabebuia serratifolia)
Foto: Flickr / 小佳 顏 / CreativeCommons

Amazônia, as nuvens carregam e distribuem bioativos


A Amazônia não é apenas o que se vê ao nível do solo. Parte essencial de seu funcionamento acontece no ar – e, mais especificamente, dentro das gotículas quase invisíveis dos nevoeiros que percorrem a floresta.

Um estudo recente publicado na Revista Nature – Communications Earth & Environment, com participação do físico e pesquisador Paulo Artaxo, revela que essas formações atmosféricas abrigam micro-organismos vivos, incluindo bactérias e fungos, capazes de sobreviver e se deslocar por longas distâncias.

Pesquisa com participação de Paulo Artaxo revela que gotículas de neblina carregam micro-organismos vivos e compostos bioativos, ampliando o papel da atmosfera na dinâmica da floresta.
O cientista brasileiro, físico climatologista, Paulo Artaxo

A pesquisa foi realizada com base em medições feitas na torre ATTO (Amazon Tall Tower Observatory), uma das principais infraestruturas científicas do mundo para o estudo da atmosfera tropical. Ali, cientistas identificaram vida ativa em gotículas de neblina — um achado que reposiciona a própria atmosfera como um ambiente biológico.

Mais do que transporte passivo, essas gotículas funcionam como micro-habitats.

Elas protegem os organismos da radiação ultravioleta e da desidratação, criando condições para que permaneçam viáveis durante o deslocamento. Em outras palavras, o nevoeiro não apenas carrega vida — ele preserva essa vida em trânsito.

A implicação é direta

A floresta amazônica pode estar sendo constantemente “reabastecida” por micro-organismos transportados pelo ar, incluindo partículas vindas de outras regiões do planeta. Análises metagenômicas realizadas no mesmo sistema identificaram, por exemplo, aerossóis provenientes do continente africano, carregando material biológico que chega à Amazônia.

Esse intercâmbio invisível amplia o conceito de biodiversidade.

Não se trata apenas das espécies que habitam o solo e o dossel, mas também daquelas que circulam pela atmosfera e participam de processos ecológicos ainda pouco compreendidos.

Gotículas preciosas 

Diz Paulo Artaxo: “Trabalho em que colaboramos na torre ATTO, medindo micro-organismos em gotículas de neblina na Amazônia, identificou bactérias e fungos vivos nessas gotículas. SIM, a atmosfera contém organismos vivos e também fizemos metagenômica de partículas de aerossóis provenientes da África no ATTO. Biodiversidade sendo transportada para a Amazônia. As gotículas funcionam como abrigo contra a radiação ultravioleta do sol e a desidratação. A neblina é um hábitat microbiológico. Ciência legal sendo feita…”

Pesquisa com participação de Paulo Artaxo revela que gotículas de neblina carregam micro-organismos vivos e compostos bioativos, ampliando o papel da atmosfera na dinâmica da floresta.
Rios Voadores. Foto: Reprodução Doc Rios Voadores

Entre esses processos está a própria regeneração da floresta

Micro-organismos transportados por neblina podem atuar na decomposição de matéria orgânica, na ciclagem de nutrientes e até na interação com plantas, influenciando seu crescimento e resiliência. São bioativos que operam em uma escala microscópica, mas com efeitos potencialmente macroscópicos.

A descoberta também reforça uma ideia que vem ganhando força na ciência climática: a Amazônia funciona como um sistema integrado, em que solo, vegetação e atmosfera operam de forma interdependente.

O ar é parte do ecossistema

Essa visão desafia abordagens simplificadas sobre conservação e uso da floresta. Proteger a Amazônia não é apenas preservar árvores, mas manter a integridade de um sistema que inclui fluxos invisíveis de vida, energia e matéria.

No limite, o que a ciência começa a revelar é uma floresta que respira, troca, se conecta e se renova — inclusive por meio do que chega pelo céu.


Este conteúdo foi elaborado com base no artigo “Amazonian fog harbors viable microbes” (Godoi et al., 2026), publicado na revista Nature Communications Earth & Environment, e em dados experimentais coletados na torre ATTO (Amazon Tall Tower Observatory), com participação de pesquisadores do INPA e de instituições internacionais.

Leia o artigo na íntegra em: