Pesquisa com participação de Paulo Artaxo revela que gotículas de neblina carregam micro-organismos vivos e compostos bioativos, ampliando o papel da atmosfera na dinâmica da floresta.
A Amazônia não é apenas o que se vê ao nível do solo. Parte essencial de seu funcionamento acontece no ar — e, mais especificamente, dentro das gotículas quase invisíveis dos nevoeiros que percorrem a floresta.
Um estudo recente publicado na Communications Earth & Environment, com participação do físico e pesquisador Paulo Artaxo, revela que essas formações atmosféricas abrigam micro-organismos vivos, incluindo bactérias e fungos, capazes de sobreviver e se deslocar por longas distâncias.

A pesquisa foi realizada com base em medições feitas na torre ATTO (Amazon Tall Tower Observatory), uma das principais infraestruturas científicas do mundo para o estudo da atmosfera tropical. Ali, cientistas identificaram vida ativa em gotículas de neblina — um achado que reposiciona a própria atmosfera como um ambiente biológico.
Mais do que transporte passivo, essas gotículas funcionam como micro-habitats.
Elas protegem os organismos da radiação ultravioleta e da desidratação, criando condições para que permaneçam viáveis durante o deslocamento. Em outras palavras, o nevoeiro não apenas carrega vida — ele preserva essa vida em trânsito.
A implicação é direta
A floresta amazônica pode estar sendo constantemente “reabastecida” por micro-organismos transportados pelo ar, incluindo partículas vindas de outras regiões do planeta. Análises metagenômicas realizadas no mesmo sistema identificaram, por exemplo, aerossóis provenientes do continente africano, carregando material biológico que chega à Amazônia.
Esse intercâmbio invisível amplia o conceito de biodiversidade.
Não se trata apenas das espécies que habitam o solo e o dossel, mas também daquelas que circulam pela atmosfera e participam de processos ecológicos ainda pouco compreendidos.
Gotículas preciosas
Diz Paulo Artaxo: “Trabalho em que colaboramos na torre ATTO, medindo micro-organismos em gotículas de neblina na Amazônia, identificou bactérias e fungos vivos nessas gotículas. SIM, a atmosfera contém organismos vivos e também fizemos metagenômica de partículas de aerossóis provenientes da África no ATTO. Biodiversidade sendo transportada para a Amazônia.
As gotículas funcionam como abrigo contra a radiação ultravioleta do sol e a desidratação. A neblina é um hábitat microbiológico. Ciência legal sendo feita…”

Entre esses processos está a própria regeneração da floresta
Micro-organismos transportados por neblina podem atuar na decomposição de matéria orgânica, na ciclagem de nutrientes e até na interação com plantas, influenciando seu crescimento e resiliência. São bioativos que operam em uma escala microscópica, mas com efeitos potencialmente macroscópicos.
A descoberta também reforça uma ideia que vem ganhando força na ciência climática: a Amazônia funciona como um sistema integrado, em que solo, vegetação e atmosfera operam de forma interdependente.
O ar é parte do ecossistema
Essa visão desafia abordagens simplificadas sobre conservação e uso da floresta. Proteger a Amazônia não é apenas preservar árvores, mas manter a integridade de um sistema que inclui fluxos invisíveis de vida, energia e matéria.
No limite, o que a ciência começa a revelar é uma floresta que respira, troca, se conecta e se renova — inclusive por meio do que chega pelo céu.
Base científica desta publicação
Este conteúdo foi elaborado com base no artigo “Amazonian fog harbors viable microbes” (Godoi et al., 2026), publicado na revista Communications Earth & Environment, e em dados experimentais coletados na torre ATTO (Amazon Tall Tower Observatory), com participação de pesquisadores do INPA e de instituições internacionais.
