Com dados de quase 50 anos, estudo revela que as florestas tropicais da Austrália estão liberando mais CO₂ do que conseguem absorver, ampliando os riscos climáticos globais.
As florestas tropicais da Austrália deixaram de exercer uma de suas funções mais relevantes na contenção da crise climática, a absorção de carbono. De acordo com um estudo publicado na revista Nature, essas áreas verdes passaram a emitir mais CO₂ do que conseguem reter, fenômeno que já ocorre também em áreas da Amazônia.

A constatação vem da análise de 49 anos de dados coletados em 20 florestas de Queensland. Os pesquisadores identificaram que, desde meados da década de 1990, o volume de carbono liberado por árvores mortas supera o sequestrado por novas árvores em crescimento. O fenômeno está ligado ao aumento das temperaturas extremas, à maior ocorrência de secas e à intensificação de ciclones, todos associados às mudanças climáticas que afetam as florestas tropicais da Austrália.
A biomassa morta, composta por troncos e galhos de árvores que não resistem às novas condições ambientais, transformou-se em uma importante fonte de emissões. Segundo a coordenadora da pesquisa, Hannah Carle, da Western Sydney University, os modelos climáticos atuais podem estar superestimando a capacidade de as florestas tropicais da Austrália funcionarem como sumidouros naturais de carbono.

Os pesquisadores alertam que o cenário australiano pode representar uma tendência mais ampla. Na floresa amazônica, o fenômeno se repete. Um estudo publicado na revista Nature, em 2021, indicou que o desmatamento reduziu a capacidade da Amazônia de absorver CO₂ da atmosfera.
Segundo a pesquisa, áreas do bioma com mais de 30% de desmatamento emitem dez vezes mais carbono do que regiões com desmatamento inferior a 20%. Esse cenário transformou a floresta amazônica de consumidora à fonte de carbono. O cientista Patrick Meir, coautor do estudo, acrescenta que outros ecossistemas tropicais podem reagir de forma semelhante se submetidos às mesmas pressões.

O resultado surge em um momento crítico para a Austrália, que tem sido alvo de críticas internacionais por sua dependência contínua de combustíveis fósseis, mesmo após anunciar novas metas climáticas. Dados recentes mostram que o país já ultrapassou o limite de 1,5 °C de aquecimento, o que agrava os riscos de impactos climáticos em cadeia.
