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Energia, o nervo exposto da economia global

O agravamento das tensões envolvendo o Irã devolveu ao petróleo um protagonismo que jamais desapareceu completamente. Bastou a escalada do conflito para os preços reagirem, os mercados internacionais oscilarem e governos revisitarem uma preocupação histórica que parecia parcialmente adormecida: a segurança energética continua sendo uma das maiores fragilidades da economia global.

O noticiário a respeito, ao analisar os efeitos econômicos da guerra no Oriente Médio, mostra que países produtores de petróleo ampliaram receitas e ganhos estratégicos em meio à instabilidade. Mas revela também um movimento menos imediato e talvez mais importante. Cada nova crise geopolítica acelera a percepção de que a dependência excessiva de combustíveis fósseis produz vulnerabilidades econômicas, logísticas e políticas difíceis de administrar.

Esse cenário coincidiu, de maneira emblemática, com os debates da COP30, realizada em Belém. O Brasil chegou à conferência tentando exercer protagonismo diplomático em torno de um “mapa do caminho” para a redução gradual da dependência global de petróleo, gás e carvão.

A proposta encontrou resistência firme das grandes economias produtoras de combustíveis fósseis. Arábia Saudita, Rússia e Índia bloquearam a inclusão de prazos e referências explícitas ao abandono dos fósseis no texto final da conferência. Utilizando a regra de consenso da ONU, impediram que a COP30 assumisse compromissos mais contundentes sobre a transição energética global.

economia global
(Rafa Neddermeyer/COP30 Brasil Amazônia/PR)

A transição energética não é apenas uma agenda ambiental. Ela envolve disputas econômicas, geopolíticas e estratégicas de enorme dimensão. O planeta reconhece a urgência climática, mas continua profundamente dependente das estruturas energéticas que sustentaram a economia industrial do último século.

A substituição dessa engrenagem não ocorrerá por retórica, voluntarismo ou pressão moral isolada. Ela exigirá tecnologia, infraestrutura, segurança regulatória, inovação industrial e capacidade de coordenação internacional em um ambiente crescentemente conflituoso.

 Mais do que uma solução complementar às fontes renováveis, o armazenamento tornou-se um instrumento essencial para otimizar custos operacionais, aumentar a eficiência energética e ampliar a estabilidade dos sistemas elétricos.

Em um cenário marcado pela volatilidade dos combustíveis fósseis, operações estruturadas com BESS reduzem significativamente a vulnerabilidade energética causada pela dependência do diesel, do petróleo e do gás natural.

Cada oscilação no preço internacional do barril, cada crise logística ou tensão geopolítica impacta diretamente os custos de geração, transporte e consumo de energia. Ter um sistema de armazenamento operando significa criar uma camada adicional de segurança e previsibilidade, capaz de proteger empresas, indústrias, concessionárias e comunidades contra interrupções, picos tarifários e instabilidades externas.

Petroleo dispara no mercado
Foto divulgação

Além de permitir melhor aproveitamento da geração renovável, o BESS atua no gerenciamento inteligente da demanda, reduz desperdícios energéticos, diminui custos sistêmicos e fortalece a resiliência da infraestrutura elétrica. Em regiões isoladas ou dependentes de geração térmica, como diversas áreas da Amazônia, o armazenamento representa não somente eficiência operacional, mas redução concreta da exposição aos riscos associados aos combustíveis fósseis.

A guerra no Oriente Médio e o impasse da COP30 demonstram justamente isso. O debate energético deixou de ser apenas ambiental. Tornou-se questão de soberania, estabilidade econômica e segurança nacional.

Essa discussão ganha relevância ainda maior no Brasil diante do avanço do Leilão de Reserva de Capacidade, que reforça a necessidade de soluções capazes de oferecer flexibilidade, confiabilidade e segurança ao sistema elétrico nacional. À medida que fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica, ampliam participação na matriz energética, cresce também a importância do armazenamento como elemento fundamental para equilibrar oferta e demanda, reduzir custos sistêmicos e aumentar a resiliência da infraestrutura elétrica brasileira.

Uma questão permanece: a Amazônia passou a ocupar posição singular na reorganização energética global. A região concentra uma das maiores biodiversidades do planeta, enorme potencial de geração renovável e, ao mesmo tempo, uma das maiores contradições energéticas do país. Milhares de comunidades amazônicas ainda dependem de sistemas movidos a diesel, caros, poluentes e vulneráveis a crises logísticas cada vez mais frequentes.

A transição energética, aqui, assume um significado mais concreto e urgente. Não se trata apenas de reduzir emissões. Trata-se de garantir estabilidade operacional, acesso à energia, redução de custos, autonomia regional e melhoria das condições sociais. É nesse ponto que tecnologias de geração distribuída, sistemas híbridos, armazenamento inteligente e soluções energéticas descentralizadas ganham importância estratégica cada vez maior. 

O Brasil possui condições raras para participar dessa transformação com protagonismo. Tem matriz relativamente limpa, capacidade renovável abundante, patrimônio mineral estratégico e uma posição geográfica privilegiada para liderar novas cadeias produtivas ligadas à economia de baixo carbono. Mas potencial, sozinho, nunca garantiu liderança histórica a nenhuma nação.

A energia limpa deixou de ser somente uma pauta ambiental. Tornou-se um ativo estratégico da competitividade global.
E talvez a Amazônia esteja mais próxima do centro dessa transformação do que o próprio Brasil ainda percebeu.

Amazônia no centro do tabuleiro

A fotografia diplomática publicada pelo New York Times nesta semana talvez diga mais sobre o futuro da Amazônia do que muitos discursos produzidos em conferências climáticas nos últimos anos. Donald Trump recebendo Luiz Inácio Lula da Silva na Casa Branca, depois de meses de atritos públicos e tensões comerciais, não representa exatamente uma reconciliação política. Representa algo mais profundo: um rearranjo de interesses num mundo que começa a reorganizar sua economia em torno de energia, tecnologia e minerais estratégicos.

A reportagem americana deixa escapar, nas entrelinhas, aquilo que os grandes centros de poder já compreenderam há algum tempo. O Brasil passou a ocupar posição decisiva na reorganização industrial do planeta. E boa parte dessa importância repousa justamente sobre a Amazônia.

Não apenas pela floresta.

Terras raras, nióbio, cobre, grafite, manganês e outros minerais críticos transformaram-se no novo eixo da economia digital e da transição energética. São esses insumos que sustentam baterias, semicondutores, inteligência artificial, carros elétricos, satélites, data centers e sistemas de defesa. O petróleo continua importante, mas o mundo começa a disputar outra geografia de poder.

E o Brasil aparece no centro desse movimento.

Durante décadas, os Estados Unidos permitiram que a China consolidasse domínio sobre etapas decisivas da cadeia global desses minerais. Agora tentam reconstruir alternativas. Nesse cenário, o território brasileiro deixa de ser apenas um parceiro comercial relevante e passa a ser tratado como ativo estratégico da segurança econômica americana.

É aqui que a discussão ganha densidade.

A matéria do New York Times associa explicitamente a relação Brasil-EUA a temas como crime organizado, cooperação militar e minerais críticos. À primeira vista, parece apenas um esforço diplomático contra facções transnacionais. Mas o subtexto é mais delicado. Quando interesses minerais, insegurança territorial e competição global passam a coexistir no mesmo discurso, abre-se uma zona cinzenta historicamente sensível para o Brasil.

A Amazônia conhece bem esse tipo de movimento.

Em diferentes períodos, surgiram narrativas humanitárias, ambientais, científicas e militares utilizadas como formas indiretas de influência sobre a região. Agora surge uma nova camada de pressão: a corrida pelos insumos estratégicos da economia verde e digital.

A transição energética mundial tampouco eliminou a lógica predatória das grandes potências. Apenas trocou parte da dependência do petróleo pela dependência mineral. A floresta passou a interessar não somente pelas árvores em pé, mas também pelo que repousa abaixo delas.

Nesse contexto, o desafio brasileiro exige maturidade estratégica rara.

O país não pode transformar a Amazônia apenas em estoque mineral destinado a alimentar a disputa industrial entre Estados Unidos e China. Tampouco pode repetir o velho padrão de exportação primária sem inteligência tecnológica, agregação de valor e domínio sobre cadeias produtivas.

A questão central talvez seja outra:

A resposta passa por ciência, bioeconomia, industrialização avançada, defesa territorial, tecnologia e governança ambiental séria. Passa também pela compreensão de que soberania não se exerce apenas com retórica patriótica. Soberania exige presença econômica inteligente, infraestrutura, pesquisa, educação e ocupação produtiva qualificada do território.

amazonia no centro

É justamente nesse ponto que a Zona Franca de Manaus reaparece sob nova perspectiva histórica. O modelo industrial amazônico pode deixar de ser visto apenas como mecanismo regional de compensação fiscal para assumir função estratégica numa economia global que busca manufatura verde, rastreabilidade e cadeias produtivas menos dependentes da Ásia.

Talvez seja isso que comece a emergir silenciosamente nas entrelinhas da reportagem americana.

O mundo voltou os olhos para a Amazônia. Mas agora por razões muito mais concretas, industriais e geopolíticas.

Já não se trata apenas da floresta como símbolo climático ou abstração ambiental conveniente. A Amazônia começa a ser percebida como território-chave da reorganização econômica global.

E o Brasil precisará decidir rapidamente qual papel pretende ocupar nesse novo ciclo.

Protagonista estratégico de um modelo soberano de desenvolvimento ou simples fornecedor bruto de riquezas para projetos concebidos fora daqui.

A reforma tributária e o Amazonas: a hora de discutir o próximo passo

Coluna Follow-Up

Durante décadas, a economia do Amazonas foi organizada a partir de um eixo relativamente estável. A Zona Franca de Manaus concentrou investimentos, estruturou cadeias industriais e definiu o centro gravitacional do desenvolvimento regional. Esse modelo produziu resultados relevantes para o estado e para o país, sobretudo ao consolidar uma economia formal numa região historicamente vulnerável à ocupação predatória.

Mas a reforma tributária altera parte importante das condições que sustentaram esse arranjo.

O fim da confortável centralidade passiva

Ao reduzir o peso dos incentivos fiscais como principal elemento de decisão locacional e ao criar um sistema mais uniforme de tributação sobre consumo, o novo ambiente econômico tende a deslocar progressivamente os critérios de competitividade. Logística, infraestrutura, produtividade, conectividade e capacidade territorial passam a ganhar importância crescente.

Essa mudança não produz efeitos imediatos, mas inaugura uma transição estrutural. E é exatamente aqui o debate muda de natureza.

O próximo passo exige mais do que discurso

Durante muito tempo, a principal preocupação regional foi preservar o modelo existente. Agora, surge uma questão mais ampla e mais difícil: qual será o próximo ciclo econômico do Amazonas?

A resposta para isso não pode surgir apenas de discursos sobre bioeconomia, inovação ou sustentabilidade. Essas agendas são importantes, mas insuficientes quando desacompanhadas de planejamento territorial, coordenação institucional e capacidade de investimento.

DESENVOLVIMENTO sustentavel Amazonia imagem ia

O próximo passo supõe um plano

Mas não qualquer plano. Supõe um projeto de reorganização econômica do território amazonense capaz de responder simultaneamente a três desafios: manter a competitividade industrial de Manaus, estruturar novas bases produtivas no interior e construir infraestrutura compatível com as dimensões geográficas da Amazônia.

Nesse ponto, o debate fiscal torna-se inevitável.

Nenhum plano sobrevive sem base fiscal

Porque nenhum plano de desenvolvimento sobrevive apenas de intenção estratégica. Ele depende de condições materiais de execução. E isso nos leva a uma questão central ainda pouco enfrentada no debate regional: quais serão as bases fiscais do Amazonas no período pós-reforma tributária?

Essa talvez seja a discussão mais importante dos próximos anos. O estado precisará compreender como ficará sua capacidade de arrecadação, investimento e financiamento diante da nova arquitetura tributária nacional. Precisará discutir compensações, fundos de desenvolvimento regional, mecanismos de transição e novos instrumentos de financiamento territorial.

Mas precisará, sobretudo, abandonar uma cultura histórica de dependência quase exclusiva da renúncia fiscal como motor econômico.

A reforma tributária impõe ao Amazonas uma exigência inédita: transformar vantagem fiscal em capacidade estrutural.

Isso significa utilizar o período de transição para construir ativos permanentes capazes de sustentar competitividade para além do incentivo fiscal. Infraestrutura logística, integração energética, conectividade digital e inteligência territorial deixam de ser temas paralelos e passam a compor a própria base material do desenvolvimento. O mesmo vale para a capacidade científica, a verticalização produtiva e a formação de cadeias regionais mais densas, capazes de transformar recursos locais em valor agregado e permanência econômica.

O PED como ensaio de reorganização territorial

O debate sobre o chamado “próximo passo” precisa então amadurecer.

Não se trata apenas de defender incentivos ou reivindicar compensações federativas. Trata-se de discutir qual arquitetura econômica poderá sustentar o Amazonas nas próximas décadas.

O próprio Plano Estratégico de Desenvolvimento já sugere parte dessa transição ao propor integração hidroviária, retroportos, aeroportos regionais, reorganização logística e articulação territorial das atividades econômicas.

Mas a existência de um plano, por si só, não resolve o problema. A questão decisiva é sua viabilidade política e institucional. Isso envolve capacidade de coordenação entre governo, setor produtivo e municípios, continuidade administrativa entre mandatos, segurança jurídica, financiamento de longo prazo e, sobretudo, uma estrutura técnica capaz de transformar diretrizes estratégicas em execução concreta.

BR-319, um falso dilema 

Nesse contexto, a própria discussão sobre infraestrutura deixa de ser apenas logística e passa a ser territorial. A controvérsia em torno da BR-319 ajuda a revelar parte desse dilema amazônico. Ao longo de décadas, consolidou-se a ideia de que preservar significava, necessariamente, limitar integração econômica e circulação. Mas regiões desprovidas de função econômica organizada frequentemente acabam submetidas às formas mais precárias e predatórias de ocupação. 

A experiência internacional mostra que a proteção duradoura de um patrimônio natural depende também de sua inserção racional na economia formal, na presença do Estado e em cadeias produtivas capazes de gerar valor, renda e permanência social no território.

Talvez esteja aí uma das discussões mais desconfortáveis da Amazônia contemporânea: a proteção efetiva de um território raramente decorre do vazio econômico. Na maior parte das vezes, ela depende justamente da capacidade de atribuir função econômica organizada, presença institucional e integração racional ao espaço que se pretende conservar.

BR 319 Foto Marcos Amend WCS Brasil
Foto: Marcos Amend

O desafio é execução. Não mais diagnóstico.

Talvez o maior desafio do Amazonas não seja mais formular diagnósticos. O estado já produziu estudos, propostas e agendas suficientes para compreender boa parte de seus obstáculos históricos.

O verdadeiro desafio passa a ser capacidade de execução. Isso exigirá escolhas difíceis.

Nem todo investimento poderá ser simultâneo. Nem toda região crescerá no mesmo ritmo. Nem toda narrativa ambiental aceitará expansão de infraestrutura. Nem todo setor produtivo aceitará condicionantes territoriais mais rigorosas. 

O debate sobre o “próximo passo” precisa abandonar a abstração confortável e entrar no terreno das escolhas concretas. Isso implica discutir prioridades econômicas, funções produtivas regionais, mecanismos de financiamento, capacidade estatal e critérios objetivos para ocupação econômica do território. 

A Amazônia diante da própria encruzilhada histórica

A reforma tributária talvez represente a primeira grande oportunidade, em décadas, para o Amazonas, a Amazônia, reorganizar sua economia olhando para além da dependência fiscal que estruturou seu ciclo industrial.

A questão agora já não é apenas preservar um modelo. É decidir o que fazer com a transição que já começou.


Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do BrasilAmazoniaAgora.

Cobra com patas de 100 milhões de anos muda teoria sobre evolução das serpentes

Fóssil de cobra com patas encontrado na Argentina revela novas pistas sobre a evolução das serpentes e desafia antigas teorias sobre a origem do grupo.

Um fóssil encontrado na Argentina está mudando a forma como cientistas entendem a evolução das cobras. A espécie extinta Najash rionegrina, que viveu há cerca de 100 milhões de anos, preserva características consideradas fundamentais para reconstruir os primeiros estágios evolutivos das serpentes modernas, incluindo patas traseiras e ossos do crânio ausentes nas cobras atuais.

Descrita em um estudo publicado na revista Science Advances em 2019, a descoberta demonstra que os ancestrais das cobras não eram pequenos animais subterrâneos, como sugeriam hipóteses anteriores. As evidências apontam para serpentes primitivas de corpo relativamente grande e boca ampla, capazes de ocupar diferentes ambientes. Para os pesquisadores, o fóssil representa uma importante evidência de uma antiga cobra com patas que viveu durante o período Cretáceo.

Os fósseis analisados vieram da região da Patagônia, no sul da Argentina, área que há milhões de anos fazia parte do supercontinente Gondwana. A equipe utilizou técnicas de microtomografia computadorizada para investigar o interior dos crânios sem danificar o material. O método permitiu visualizar nervos, vasos sanguíneos e estruturas ósseas escondidas na rocha.

Entre os principais achados está a presença do osso jugal, localizado na região da bochecha. Essa estrutura praticamente desapareceu ao longo da evolução das cobras modernas, mas ainda estava presente em Najash. Segundo os pesquisadores, a descoberta ajuda a esclarecer uma longa discussão científica sobre quais ossos foram perdidos durante a transformação dos lagartos ancestrais em serpentes.

Além do crânio mais próximo do padrão observado em lagartos, Najash também mantinha patas traseiras bem desenvolvidas. O fóssil indica que a perda dos membros aconteceu de forma gradual e muito mais tarde do que se imaginava anteriormente. A preservação do animal permitiu aos cientistas analisar em detalhes como essa antiga cobra com patas apresentava características intermediárias entre lagartos e serpentes modernas.

De acordo com os autores do estudo, a combinação de patas, corpo alongado e adaptações cranianas intermediárias torna a espécie uma das evidências mais importantes para compreender a transição evolutiva das serpentes.

Nos últimos anos, novas pesquisas ampliaram ainda mais o debate sobre a origem das cobras. Em 2020, paleontólogos descreveram no Brasil a espécie Boipeba tayasuensis, uma antiga cobra-cega do período Cretáceo. O fóssil revelou que algumas linhagens primitivas podiam atingir tamanhos muito maiores do que as espécies aparentadas atuais.

Reconstituição artística da cobra com patas ancestral Boipeba tayasuensis ao lado de um crocodiliforme pré-histórico no interior de São Paulo.
Arte mostra a antiga cobra com patas Boipeba tayasuensis, espécie fóssil encontrada no interior paulista durante pesquisas sobre a evolução das serpentes. Foto: Jorge Blanco.

Já em 2023, outro estudo publicado na Science Advances analisou cérebros de répteis modernos e fósseis para reconstruir o comportamento dos ancestrais das cobras. Os resultados sugerem que essas espécies poderiam combinar hábitos subterrâneos com comportamento oportunista, explorando diferentes ambientes e estratégias de alimentação.

Mais recentemente, em 2025, pesquisadores descreveram na revista Nature um réptil do Jurássico Médio encontrado na Escócia com características misturando traços de lagartos e serpentes. O achado reforçou a hipótese de que a evolução inicial dos escamados, grupo que inclui lagartos e cobras, foi marcada por intensa experimentação anatômica.

Mesmo diante das descobertas recentes, Najash rionegrina continua sendo uma das peças centrais para entender como as cobras adquiriram o formato corporal atual. O fóssil registra um momento intermediário da evolução, quando as serpentes ainda mantinham patas e estruturas cranianas ancestrais, mas já apresentavam adaptações típicas das cobras modernas. Para os cientistas, a descoberta dessa cobra com patas ajuda a preencher lacunas importantes sobre a origem evolutiva do grupo.

O que são panapanás? Entenda o fenômeno das borboletas na Amazônia

Observado na vazante dos rios, o panapaná atrai espécies em busca de minerais e pode indicar alterações ambientais, conectando biodiversidade, clima e degradação na Amazônia.

Todos os anos, com a chegada da vazante dos rios amazônicos, período conhecido como “verão amazônico”, um espetáculo natural toma conta das margens e praias recém-expostas: grandes concentrações de borboletas, chamadas de panapanás. O fenômeno, que pode reunir centenas de milhares de indivíduos, é ao mesmo tempo um evento ecológico relevante e um indicativo das transformações sazonais da região.

O termo “panapaná”, de origem tupi, designa coletivos de borboletas e carrega em sua sonoridade a ideia de movimento contínuo. Embora esses insetos sejam, em geral, solitários, eles se agrupam em momentos específicos do ano, principalmente para suprir necessidades nutricionais. Durante a vazante, bancos de areia e solos úmidos ficam expostos, oferecendo sais minerais essenciais à reprodução, o que atrai diferentes espécies em grandes números.

Panapaná com grande agrupamento de borboletas amarelas do gênero Phoebis nas margens de um rio amazônico durante a vazante
Foto: Carlos Durigan

Entre as mais comuns nesses agrupamentos estão borboletas amarelas do gênero Phoebis e Marpesia, além de espécies alaranjadas e outras de coloração mais escura. Dependendo da região e das condições ambientais, é possível observar uma diversidade significativa, com agrupamentos multicoloridos que chamam atenção pela intensidade visual.

Relatos históricos ajudam a dimensionar a magnitude do fenômeno. No século XIX, o naturalista Henry Bates descreveu verdadeiras “nuvens” de borboletas atravessando rios em faixas de vários quilômetros de largura. Observações contemporâneas confirmam essa escala: em poucos minutos, milhares de indivíduos podem ser vistos cruzando o céu ou se acumulando nas margens.

Além do valor ecológico, os panapanás também têm implicações culturais e ambientais. Em comunidades amazônicas, sua presença é associada a mudanças no clima, como períodos de seca mais intensa ou aumento de queimadas. Nos últimos anos, a maior frequência desses agrupamentos em áreas urbanas tem chamado atenção de pesquisadores, que consideram o fenômeno um possível indicador de extremos climáticos e degradação ambiental.

A sobrevivência dessas borboletas em cidades como Manaus depende diretamente da existência de áreas verdes, como fragmentos florestais, quintais e árvores urbanas. Esses espaços funcionam como refúgio e fonte de alimento, reforçando a importância da conservação mesmo em ambientes urbanizados. Assim, os panapanás revelam a conexão entre ciclos naturais, biodiversidade e mudanças ambientais na Amazônia.

Borboleta Marpesia zerynthia dentigera (Nymphalidae: Cyrestinae) registrada na Amazônia, espécie que pode compor o panapaná em agrupamentos de borboletas
A espécie Marpesia zerynthia dentigera integra a diversidade de borboletas que pode participar do panapaná, fenômeno que reúne diferentes grupos nas margens dos rios amazônicos. Foto: Dr. Alexey Yakovlev

Terras raras, soberania rara

Coluna Follow-Up

A confirmação da reunião entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, marcada para o dia 7 de maio corrente, talvez seja um dos movimentos diplomáticos mais importantes para o Brasil à luz da centralidade geopolítica da Amazônia. Não pela liturgia do encontro. Nem pelo simbolismo das duas figuras políticas. Mas pelo que está efetivamente em disputa no século XXI.

A pauta pública falará de comércio, investimentos, clima, tarifas, cooperação estratégica e segurança hemisférica. A pauta real provavelmente girará em torno de energia, minerais críticos, semicondutores, inteligência artificial, autonomia industrial e disputa tecnológica global. Em outras palavras: terras raras.

Durante décadas, a Amazônia foi tratada internacionalmente como um questão ambiental. Agora, ela passa a ser percebida também como solução energética, mineral e tecnológica.

Não se trata apenas da floresta. Trata-se do subsolo, da água, da biodiversidade, da capacidade energética, da bioengenharia natural e da posição estratégica do território amazônico em uma nova reorganização industrial do mundo.

Os Estados Unidos compreenderam isso. A China compreendeu isso há muito tempo. A Europa tenta compreender antes que seja tarde. O Brasil ainda oscila entre enxergar a Amazônia como periferia distante ou como núcleo de sua soberania futura.

É neste contexto que a reunião acontece

A guerra comercial e tecnológica entre Estados Unidos e China criou uma corrida silenciosa por minerais críticos. Terras raras, lítio, nióbio, grafita, cobre e cobalto passaram a ser tratados como ativos de segurança nacional. Não são apenas commodities. São a base material da transição energética, dos carros elétricos, das baterias, dos satélites, dos sistemas militares, da computação avançada e da inteligência artificial.

Quem controla essas cadeias controla parte decisiva da economia global das próximas décadas.

O problema americano é que embora possuam reservas, os EUA dependem fortemente da cadeia chinesa de processamento e refino. E o Brasil aparece como alternativa em um mundo que tenta reduzir dependências críticas.

Num mundo em disputa por minerais críticos, semicondutores, dados estratégicos e autonomia energética, defender a Amazônia exigirá mais do que presença territorial. Exigirá inteligência nacional, pesquisa aplicada e domínio tecnológico compatível com a importância geopolítica da região

Mas há uma diferença fundamental entre oportunidade histórica e repetição colonial.

O Brasil não pode aceitar entrar na nova economia verde ocupando o mesmo lugar subordinado da velha economia mineral. Exportar minério bruto enquanto importa tecnologia de alto valor agregado seria apenas reeditar, com nova linguagem climática, a lógica extrativista que historicamente empobreceu regiões ricas em recursos naturais.

A discussão verdadeira não deveria ser apenas “explorar ou não explorar”. Isso é insuficiente.

A questão central é: Quem controla a cadeia? Quem industrializa? Quem domina a tecnologia? Quem agrega valor? Quem decide o ritmo? Quem protege o território? Quem se beneficia socialmente dessa riqueza?

A Amazônia não pode se transformar numa nova corrida internacional por ativos estratégicos sem presença efetiva do Estado brasileiro, sem inteligência territorial, sem ciência nacional, sem bioindústria, sem governança ambiental e sem participação concreta das populações amazônicas.

Há um risco evidente de que a pressão internacional em torno das terras raras produza uma combinação explosiva:
mineração predatória, expansão ilegal sobre áreas sensíveis, tensão fundiária, criminalidade organizada e captura externa de cadeias produtivas.

Mas há também uma possibilidade rara de reorganização histórica.

O Brasil pode transformar sua condição mineral em plataforma de reindustrialização sustentável. Pode associar mineração responsável à verticalização tecnológica, à pesquisa científica, à indústria de transformação, à economia de baixo carbono e à bioeconomia amazônica. Pode converter território em inteligência estratégica.

Isso exigirá maturidade política, visão de Estado e coordenação nacional acima de disputas ideológicas imediatas.

Num mundo em disputa por minerais críticos, semicondutores, dados estratégicos e autonomia energética, defender a Amazônia exigirá mais do que presença territorial. Exigirá inteligência nacional, pesquisa aplicada e domínio tecnológico compatível com a importância geopolítica da região

Nesse contexto, ganha relevância silenciosa uma iniciativa ainda pouco debatida nacionalmente: a chegada do Instituto Militar de Engenharia ao Amazonas, através do Instituto de Pesquisas do Exército na Amazônia (IPEAM), em Manaus.

Mais do que descentralização acadêmica, trata-se de um sinal estratégico. Ao investir em pós-graduação voltada à engenharia de defesa, inteligência artificial, geointeligência, segurança cibernética e tecnologias quânticas, o país começa a reconhecer que a soberania amazônica dependerá crescentemente de capacidade científica e tecnológica instalada na própria região.

A parceria com UFAM, UEA e IFAM aponta para uma possibilidade historicamente rara: integrar indústria, universidades, defesa e inovação em torno de um projeto nacional para a Amazônia.

Num mundo em disputa por minerais críticos, semicondutores, dados estratégicos e autonomia energética, defender a Amazônia exigirá mais do que presença territorial. Exigirá inteligência nacional, pesquisa aplicada e domínio tecnológico compatível com a importância geopolítica da região

Talvez por isso uma frase recente do New York Times tenha chamado tanta atenção ao definir Lula como “provavelmente o estadista latino-americano mais importante deste século”. A frase é interpretativa, discutível e certamente carregada de leitura editorial. Mas ela revela algo importante: o mundo voltou a olhar o Brasil não apenas como mercado consumidor ou exportador agrícola, mas como ator geopolítico relevante.

E a razão principal disso atende pelo nome de “Amazônia”.

Não a Amazônia folclórica da contemplação distante. Nem a Amazônia reduzida a ativo ambiental para conferências climáticas. Mas a Amazônia como território decisivo da soberania mineral, energética, hídrica, biotecnológica e climática do planeta.

É isso que torna esta reunião importante.

O essencial agora não é produzir fotografias diplomáticas nem slogans nacionalistas ocasionais. O essencial é assegurar que qualquer aproximação internacional preserve princípios inegociáveis, a saber:  soberania territorial; controle estratégico nacional; industrialização brasileira; ciência e tecnologia próprias; proteção ambiental séria; presença do Estado na Amazônia; respeito às populações locais e indígenas; e agregação de valor dentro do país.

O Brasil precisa rejeitar rejeitar subordinação estratégica sem, obviamente, rejeitar cooperação internacional.

Porque, desta vez, o que está em jogo é o lugar do Brasil na arquitetura do século XXI.


Estudo na revista Nature revela que microplásticos no ar foram superestimados

Nova análise com quase 3 mil medições atmosféricas revela que emissões terrestres de microplásticos superam em mais de 20 vezes as oceânicas.

Pesquisa publicada na revista Nature revela que emissões atmosféricas de microplásticos foram superestimadas e destaca novas incertezas sobre a poluição global. Os microplásticos já foram encontrados em regiões remotas do planeta, desde montanhas até áreas oceânicas isoladas. Agora, um novo estudo internacional indica que a maior parte dessas partículas transportadas pela atmosfera tem origem em fontes terrestres e não marinhas, como sugeriam pesquisas anteriores.

A pesquisa, conduzida pelo Departamento de Meteorologia e Geofísica da Universidade de Viena e publicada na revista Nature, também aponta que as estimativas globais sobre emissões de microplásticos no ar estavam significativamente infladas. Segundo os autores, modelos utilizados até agora previam concentrações muito superiores às observadas em medições reais.

Os microplásticos são partículas extremamente pequenas liberadas a partir da degradação de materiais plásticos. Elas podem ser emitidas diretamente por atividades humanas, como o desgaste de pneus, a liberação de fibras têxteis e processos industriais, além de retornarem ao ar a partir de solos e superfícies aquáticas já contaminadas. Uma vez suspensas na atmosfera, essas partículas podem percorrer grandes distâncias e ser inaladas por humanos e animais.

Grande quantidade de resíduos plásticos acumulados em aterro sanitário, evidenciando o impacto da poluição ambiental causada pelo descarte inadequado.
Poluição plástica em aterros contribui para a liberação de microplásticos transportados pelo ar em escala global. Foto: Tom Fisk/Pexels

Para chegar às conclusões, os pesquisadores Ioanna Evangelou, Silvia Bucci e Andreas Stohl reuniram 2.782 medições atmosféricas realizadas em diferentes partes do mundo. Os dados foram comparados com simulações computacionais baseadas em três modelos globais de emissões de microplásticos.

A comparação mostrou que os modelos superestimavam em várias ordens de magnitude a quantidade de partículas presentes no ar e depositadas na superfície terrestre. A partir desse descompasso, os cientistas recalibraram os cálculos e produziram novas estimativas para fontes terrestres e oceânicas.

Após os ajustes, os resultados mostraram que as emissões provenientes da terra continuam sendo amplamente dominantes. Segundo Andreas Stohl, mais de 20 vezes mais partículas de microplástico são lançadas na atmosfera a partir de áreas terrestres do que dos oceanos.

Apesar disso, os pesquisadores observaram um detalhe importante, embora a quantidade de partículas seja maior em terra, a massa total emitida pelos oceanos pode ser superior, devido ao tamanho médio mais elevado das partículas oceânicas.

O estudo também destaca que ainda existem grandes lacunas no entendimento sobre a circulação atmosférica dos microplásticos. Entre as principais incertezas estão a participação relativa de diferentes fontes de emissão e a distribuição real do tamanho das partículas transportadas pelo ar.

Os autores defendem a ampliação das medições globais para melhorar a precisão dos modelos climáticos e ambientais relacionados à poluição plástica. Segundo eles, compreender como os microplásticos se dispersam pela atmosfera é fundamental para avaliar impactos ambientais e possíveis riscos à saúde humana.

Leia o artigo na íntegra em:

Após 10 anos, Brasil atualiza lista de espécies aquáticas ameaçadas de extinção

Com base em critérios da ciência global, Brasil revisa dados sobre espécies aquáticas ameaçadas e define estratégias para conservação e sustentabilidade da pesca.

A Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção para peixes e invertebrados aquáticos foi atualizada após um processo de revisão iniciado em 2024. A nova versão incorporou 100 espécies e retirou outras 100, mantendo o total de 490 organismos classificados em diferentes níveis de risco no país, um retrato atualizado das espécies aquáticas ameaçadas no Brasil.

O levantamento abrange desde peixes ósseos e cartilaginosos, como tubarões e arraias, até invertebrados marinhos e de água doce, como estrelas-do-mar. Cada uma das espécies aquáticas ameaçadas foi reavaliada conforme critérios técnicos que consideram tamanho populacional, distribuição geográfica, qualidade do habitat e pressões como pesca excessiva e poluição.

A atualização substitui a lista anterior, publicada em 2014, e segue os parâmetros definidos pela União Internacional para a Conservação da Natureza, referência global em conservação da biodiversidade. As categorias adotadas — Vulnerável (VU), Em Perigo (EN) e Criticamente em Perigo (CR) — indicam o grau de ameaça enfrentado por cada espécie.

Acesse a lista inteira de espécies clicando aqui

Segundo o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, o novo documento resulta de um amplo esforço técnico e institucional. “O objetivo, a partir desta iniciativa, é mobilizar ações para que as espécies atualmente pressionadas por diversos fatores tenham suas populações recuperadas”, afirmou.

Embarcação realizando pesca de atum em alto-mar, atividade ligada à pressão sobre espécies aquáticas ameaçadas
Pesca em alto-mar ilustra pressões como captura intensiva que contribuem para o aumento de espécies aquáticas ameaçadas. Foto: Paul Nicklen/ National Geographic Creative.

Além da reclassificação, o governo federal publicou medidas específicas para proteção e recuperação das espécies aquáticas ameaçadas. Entre as principais ações estão a proibição de captura, transporte, armazenamento e comercialização, bem como a definição de diretrizes para planos de manejo e conservação.

Um dos casos destacados é o do pargo (Lutjanus purpureus), espécie de grande relevância econômica para a pesca brasileira. Ele passou da categoria Vulnerável para Em Perigo, o que implica o reforço das medidas de controle e monitoramento. O objetivo é conter a sobrepesca, especialmente a captura de indivíduos jovens, e garantir a recuperação dos estoques.

De acordo com o ministro da Pesca e Aquicultura, Edipo Araujo, a gestão dessas espécies exige equilíbrio entre conservação e atividade produtiva. “Quando falamos em sustentabilidade na pesca, falamos em garantir equilíbrio: proteger a espécie, respeitar a ciência e assegurar que a atividade pesqueira continue gerando alimento, renda e desenvolvimento para o Brasil. O pargo tem grande importância econômica, mas só haverá futuro para essa cadeia se houver responsabilidade no presente”, reforçou.

A nova lista também prevê articulação entre diferentes órgãos públicos, comunidade científica e setor produtivo. A expectativa é que as medidas contribuam não apenas para frear o risco de extinção, mas também para fortalecer práticas sustentáveis no uso dos recursos aquáticos brasileiros e redução no número de espécies aquáticas ameaçadas no país.

A Amazônia no limite invisível do carbono – Entrevista com Niro Higuchi

Coluna Follow-Up

Niro Higuchi fala da Amazônia como quem a mede há décadas, árvore por árvore, parcela por parcela, estação após estação.

Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) há mais de 40 anos, ele está entre os nomes que ajudaram a construir o entendimento científico sobre a dinâmica do carbono na floresta tropical. Seu trabalho integra uma geração que transformou a Amazônia de paisagem em sistema mensurável – e, ao mesmo tempo, revelou o quanto ainda escapa às medições.

Ao longo de sua trajetória, Higuchi acompanhou a passagem silenciosa de uma floresta vista como reserva inesgotável para um sistema sob pressão crescente. Seus estudos sobre biomassa, crescimento e mortalidade de árvores ajudaram a sustentar uma das perguntas mais delicadas do nosso tempo: até quando a Amazônia continuará prestando os serviços ambientais que o mundo tomou como garantidos?

É a partir desse acúmulo que ele responde, com precisão e cautela, às questões que hoje atravessam o debate climático. 

Confira:

Retrato do pesquisador Niro Higuchi, especialista em manejo florestal da Amazônia e coautor de estudo sobre os impactos das secas quentes no bioma.
Niro Higuchi, pesquisador do INPA e referência em manejo florestal – Foto: Lana Santos.
Alfredo Lopes – Professor, a partir de quando a ciência começou a entender a Amazônia como peça-chave no equilíbrio do carbono global?

Niro Higuchi – A compreensão mais robusta surge quando a ciência passa a integrar diferentes sistemas de observação. Inventários florestais de longo prazo, medições atmosféricas, torres de fluxo e sensoriamento remoto começam a conversar entre si. A partir daí, a Amazônia deixa de ser vista apenas como um reservatório de biodiversidade e passa a ser entendida como um sistema ativo no ciclo global do carbono. Mais recentemente, essa mesma ciência começa a identificar sinais de enfraquecimento dessa função em partes da floresta, o que muda o tom do debate.

AL – O que ainda surpreende a comunidade científica quando se mede, de fato, o carbono armazenado na floresta amazônica?

Niro Higuchi – A heterogeneidade. A Amazônia não é uma unidade homogênea. O estoque de carbono varia com solo, relevo, regime de chuvas, composição de espécies e histórico de perturbação. Pequenas diferenças metodológicas podem gerar variações relevantes nas estimativas. Medir carbono na floresta é, na prática, um exercício de integração entre botânica, estatística e tecnologia. Ainda há surpresas porque ainda estamos refinando essa integração.

AL – Em termos simples, como funciona o “vai e vem” do carbono dentro da floresta?

Niro Higuchi – A floresta captura carbono da atmosfera por meio da fotossíntese e o transforma em biomassa. Esse carbono circula entre troncos, folhas, raízes e solo. Ao mesmo tempo, ele retorna à atmosfera pela respiração das plantas, pela decomposição da matéria orgânica e por distúrbios como incêndios. O balanço entre entrada e saída define se a floresta está funcionando como sumidouro ou como fonte.

Antes de qualquer debate climático, existe o fato silencioso de que a floresta trabalha. Captura carbono, incorpora matéria, sustenta o invisível. O que se vê acima do solo é apenas parte de um sistema que se estende para baixo, onde o carbono também se acumula e se estabiliza.

AL – A Amazônia ainda está absorvendo mais carbono do que emite ou esse papel já está mudando?

Niro Higuchi – Depende da região. Áreas mais preservadas ainda mantêm capacidade de absorção. No entanto, regiões sob maior pressão, especialmente no sudeste da Amazônia, já apresentam sinais consistentes de emissão líquida. O que se observa não é uma virada uniforme, mas um mosaico de comportamentos que reflete o nível de conservação e o impacto das mudanças climáticas.

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AL – O que mais pesa hoje nesse equilíbrio: o desmatamento, o clima ou a própria dinâmica natural da floresta?

Niro Higuchi – O fator decisivo hoje é a interação entre eles. O desmatamento reduz estoque e abre espaço para o fogo. O clima, mais quente e seco, aumenta o estresse das árvores. A dinâmica natural continua operando, mas sob novas condições. O resultado é um sistema mais vulnerável, em que os impactos deixam de ser isolados e passam a se reforçar mutuamente.

A Amazônia não é estática. É um sistema em movimento contínuo, onde crescimento, morte e decomposição se equilibram. O carbono circula entre vida e matéria orgânica, num ciclo que depende de estabilidade para se manter funcional.

AL – Até que ponto o aumento de CO₂ na atmosfera ajuda ou prejudica o crescimento da floresta?

Niro Higuchi – Existe um efeito de estímulo ao crescimento, conhecido como fertilização por CO₂. Em condições ideais, mais CO₂ pode significar maior taxa de fotossíntese. O problema é que esse efeito depende de água, nutrientes e estabilidade climática. Em um ambiente mais quente e com secas mais frequentes, o ganho pode ser compensado por aumento da mortalidade. A resposta da floresta não é linear.

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AL – Existe um risco real de a Amazônia perder sua capacidade de regular o clima? Estamos próximos desse limite?

Niro Higuchi – O risco existe e está sendo quantificado em termos probabilísticos, não como um ponto fixo no tempo. O que a ciência indica é um aumento da vulnerabilidade. Partes da floresta já operam próximas de limites ecológicos, especialmente onde há combinação de desmatamento e eventos climáticos extremos. Não se trata de um colapso súbito, mas de uma transição gradual com efeitos acumulativos.

Quando o equilíbrio se rompe, o fluxo se inverte. O que antes era captura passa a ser emissão. O que era estoque se transforma em perda. Não se trata apenas de floresta degradada, mas de um sistema que começa a operar em outra lógica.

AL – O quanto a ciência já consegue medir com precisão e onde ainda estamos trabalhando com grandes incertezas?

Niro Higuchi – Avançamos muito na medição da biomassa acima do solo e na dinâmica de crescimento das árvores. Ainda há incertezas importantes no carbono do solo, nas raízes, nos efeitos de degradação florestal e nas respostas a eventos extremos. A precisão aumenta quando diferentes métodos são combinados. Nenhuma ferramenta isolada dá conta da complexidade amazônica.

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AL – Por que a Amazônia não pode ser analisada apenas pelo carbono, como às vezes acontece no debate público?

Niro Higuchi – Porque o carbono é apenas uma das dimensões de um sistema muito mais amplo. A Amazônia regula o ciclo da água, abriga uma biodiversidade única, sustenta modos de vida e guarda conhecimento acumulado ao longo de séculos. Reduzir a floresta ao carbono empobrece a compreensão e pode levar a decisões equivocadas.

AL – Depois de décadas estudando a floresta, qual é o principal alerta que você considera que ainda não está sendo devidamente compreendido?

Niro Higuchi – A ideia de limite. A floresta é resiliente, mas essa resiliência não é infinita. O acúmulo de pressões altera o funcionamento do sistema. Quando certos limiares são ultrapassados, a recuperação deixa de ser garantida. O alerta central é que a estabilidade da Amazônia não pode ser presumida. Ela depende de escolhas concretas no presente.


Follow-Up é publicada no Jornal do Comércio do Amazonas às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br.

Compostos de copaíba-vermelha inibem entrada e replicação do coronavírus, diz estudo

Pesquisa internacional revela que compostos da copaíba-vermelha atuam em múltiplos alvos do SARS-CoV-2, reforçando o potencial da biodiversidade brasileira na descoberta de novos antivirais.

Substâncias extraídas das folhas da copaíba-vermelha (Copaifera lucens), espécie nativa da Mata Atlântica, demonstraram atividade antiviral significativa contra o SARS-CoV-2 em testes laboratoriais. Os resultados fazem parte de um estudo conduzido por pesquisadores de diferentes países e publicado na revista científica Scientific Reports.

A investigação focou em compostos conhecidos como ácidos galoilquínicos, já associados a propriedades biológicas relevantes em estudos anteriores, incluindo ações antifúngicas, anticancerígenas e antivirais. Agora, os cientistas identificaram que esses derivados também atuam de forma eficaz contra o coronavírus, responsável pela COVID-19.

Para avaliar o potencial terapêutico, os pesquisadores isolaram frações ricas nesses compostos e realizaram testes de citotoxicidade, etapa fundamental para verificar a segurança das substâncias em células hospedeiras. Em seguida, aplicaram ensaios de redução de placas, técnica utilizada para medir a capacidade de compostos em neutralizar vírus, e observaram uma expressiva diminuição da atividade viral.

Os resultados indicaram que os ácidos galoilquínicos interferem em diferentes etapas do ciclo do vírus. Entre os alvos estão a proteína Spike, responsável pela entrada do SARS-CoV-2 nas células humanas, a protease PLpro, envolvida na evasão do sistema imune, e a RNA polimerase, essencial para a replicação viral. A atuação simultânea nesses mecanismos reduz a capacidade do vírus de se multiplicar e se espalhar.

Ilustração científica da proteína Spike do coronavírus, alvo de compostos da copaíba-vermelha
Gráfico da proteína Spike do coronavírus, uma das estruturas inibidas por compostos da copaíba-vermelha em estudo científico. Foto: Shutterstock

Além do efeito direto sobre o patógeno, os compostos também apresentaram propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras, o que pode contribuir para equilibrar a resposta do organismo em infecções mais severas. Esse efeito combinado é considerado um diferencial em relação a antivirais que atuam em apenas um alvo molecular.

Outro ponto destacado pelos autores é o potencial de menor desenvolvimento de resistência viral. Como os derivados da copaíba-vermelha agem em múltiplas frentes, torna-se mais difícil para o vírus adaptar-se e contornar o tratamento, um desafio comum em terapias antivirais convencionais.

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores ressaltam que ainda são necessárias etapas adicionais antes de qualquer aplicação clínica. Testes em organismos vivos e estudos clínicos em humanos serão essenciais para confirmar a eficácia e a segurança do composto como medicamento.

O estudo reforça o papel estratégico da biodiversidade brasileira na descoberta de novas moléculas com potencial farmacêutico. Espécies nativas, como a copaíba-vermelha, continuam sendo fontes valiosas para o desenvolvimento de terapias inovadoras, especialmente em um cenário global que demanda novas soluções para doenças virais emergentes.