Casa Blog Página 11

BR-319: a estrada que pode redefinir o futuro da Amazônia

Entre isolamento logístico e pressão ambiental, a BR-319 expõe os desafios de integrar a Amazônia sem ampliar o desmatamento e a ilegalidade.

A BR-319, que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), está no centro de um dos debates mais complexos sobre o futuro da Amazônia. Hoje ela simboliza o impasse entre a necessidade urgente de integração logística do Amazonas, um estado marcado pelo isolamento geográfico e pela precariedade logística, e os riscos ambientais associados ao avanço do desmatamento e da ocupação desordenada da floresta – sobretudo por atividades ilegais e pelo crime organizado.

Com cerca de 885 quilômetros de extensão, a retomada da pavimentação da estrada reúne discussões sobre desenvolvimento econômico no norte do Brasil, preservação ambiental, direitos humanos e governança territorial.

O que é a BR-319? 

A BR-319, oficialmente Rodovia Álvaro Maia, é uma rodovia federal com cerca de 885 quilômetros de extensão e que liga Manaus, no Amazonas, a Porto Velho, em Rondônia. Essa é a única conexão terrestre entre a capital amazonense e o restante do país. A estrada atravessa uma extensa área da floresta amazônica, passando por municípios, rios e regiões de alta sensibilidade ambiental. 

Dividida em diferentes trechos, a rodovia possui partes trafegáveis e outras intrafegáveis, marcadas pelo desgaste e negligência, especialmente o chamado “Trecho do Meio”, que concentra grande parte das discussões sobre repavimentação, licenciamento ambiental e impactos socioambientais.

Entre integração e impactos: a origem da BR-319

A história da BR-319 está diretamente ligada ao Plano de Integração Nacional (PIN), formulado durante a ditadura civil-militar sob o governo de Emílio Garrastazu Médici. Projetada para conectar o Amazonas ao restante do país por via terrestre, a rodovia fazia parte da política de ocupação da Amazônia baseada no lema “integrar para não entregar”, que defendia a ampliação da presença do Estado na região diante do temor de uma possível internacionalização da floresta.

Um dos principais fatores que impulsionaram a construção da estrada foi a consolidação da Zona Franca de Manaus (ZFM). Em 1967, o Decreto-Lei nº 288 modernizou o modelo criado na década anterior, ampliando incentivos fiscais, a abrangência territorial e criando a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa). O objetivo era atrair indústrias, fortalecer a economia regional e estruturar uma base logística capaz de sustentar o crescimento do novo polo industrial. 

Com a chegada das indústrias ao Amazonas, tornaram-se evidentes os desafios logísticos enfrentados pela região. O transporte de mercadorias dependia quase exclusivamente dos modais fluvial e aéreo, elevando custos e dificultando a integração econômica com o restante do Brasil. Nesse contexto, a BR-319 surgiu como uma solução estratégica para conectar Manaus ao sistema viário nacional, permitindo o escoamento de matérias-primas e produtos industrializados do Polo Industrial de Manaus (PIM).

As obras começaram em 1968 e avançaram rapidamente, apesar dos desafios impostos pelo clima e pela floresta amazônica. Em apenas quatro anos, a rodovia já estava totalmente pavimentada e em funcionamento, embora sua inauguração oficial só tenha ocorrido em 27 de março de 1976, durante o mandato de Ernesto Geisel. Na ocasião, o general classificou a estrada como de “caráter experimental”.

Durante a década de 1970, a BR-319 viveu seu período de maior atividade, com fluxo regular de passageiros e cargas que ajudavam a abastecer o PIM e reduzir parte do isolamento logístico do Amazonas.

A crise de manutenção da BR-319

Entretanto, a partir do fim da década de 1970 e ao longo dos anos 1980, a falta de planejamento da obra para as particularidades do ecossistema amazônico começou a comprometer a durabilidade da infraestrutura. Os altos índices de chuva, os solos instáveis de várzea e terra firme e a ausência de manutenção contínua aceleraram a deterioração da rodovia.

Com isso, o chamado “Trecho do Meio”, entre os quilômetros 250 e 655, tornou-se praticamente intransitável, marcado por atoleiros, pontes improvisadas e pelo avanço da regeneração natural da floresta sobre partes do antigo asfalto. O abandono da BR-319 aprofundou o isolamento logístico do Amazonas e ampliou a dependência quase exclusiva dos modais fluvial e aéreo para o transporte de pessoas, insumos, remédios e mercadorias. 

A limitação da conexão terrestre elevou os custos de produção e distribuição, encareceu produtos básicos e reduziu a competitividade econômica do estado, especialmente do Polo Industrial de Manaus (PIM), que passou a enfrentar gargalos para escoamento e abastecimento.

Ao longo dos anos 2000, o debate sobre a repavimentação da rodovia voltou à pauta nacional, mas em um contexto muito diferente daquele da década de 1970. A discussão passou a envolver questionamentos sobre desmatamento, ocupação irregular, grilagem de terras e os impactos socioambientais associados à abertura de estradas na Amazônia, e se estendeu por décadas até hoje.

O custo do isolamento logístico do Amazonas

Manaus é hoje a única capital brasileira sem conexão terrestre contínua com o restante do país. A precariedade da BR-319 aprofundou a dependência do Amazonas dos modais fluvial e aéreo, elevando custos logísticos, encarecendo produtos básicos e dificultando a integração econômica da região. Os últimos dados indicam que cerca de 65% das cargas do estado dependem do transporte pelo Rio Amazonas (HN-100), enquanto o chamado “Trecho do Meio” da BR-319, com 405,7 quilômetros, permanece praticamente intrafegável durante boa parte do ano.

A dependência quase exclusiva do modal fluvial impõe longos prazos de deslocamento e torna o abastecimento regional altamente vulnerável a eventos climáticos extremos. O transporte de cargas via Belém, por exemplo, pode ultrapassar 15 dias, especialmente durante períodos de seca severa, quando rios amazônicos apresentam dificuldades de navegação. 

Especialistas apontam que a plena trafegabilidade da BR-319 reduziria significativamente o tempo de transporte, impactando diretamente o preço final de alimentos, medicamentos e mercadorias no Amazonas. O professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e Coordenador das Comissões de Competitividade e de Logística do CIEAM, Augusto César Barreto Rocha, fornece uma série de reflexões de imenso valor sobre o tema em seus artigos, acesse-os AQUI.

A seca de 2024 e o colapso da logística fluvial

A seca histórica de 2024 evidenciou os limites desse modelo logístico baseado quase exclusivamente nos rios. Naquele ano, os principais rios da Bacia Amazônica atingiram os níveis mais baixos já registrados, provocando isolamento de comunidades, desabastecimento e interrupção de serviços básicos em diversas regiões do Amazonas. Todos os 62 municípios do estado decretaram situação de emergência, enquanto mais de 850 mil pessoas foram diretamente afetadas pela estiagem, segundo a Defesa Civil estadual. Os prejuízos superaram $ 620 milhões em 2024. 

“A recorrência de eventos climáticos extremos, especialmente as secas severas que atingem os grandes rios da região, alterou o eixo do debate. Já não se trata apenas de discutir infraestrutura, mas de compreender os limites de um modelo histórico de mobilidade que passa a dar sinais claros de esgotamento”, afirma Nelson Azevedo.

O peso logístico sobre a economia amazonense

O impacto dessa limitação logística se reflete diretamente no Polo Industrial de Manaus (PIM), considerado um dos principais motores econômicos da Região Norte. Em 2025, o PIM ultrapassou R$ 200 bilhões em faturamento acumulado antes mesmo do encerramento do ano e manteve uma média superior a 131 mil empregos diretos. Apesar da relevância econômica, o alto custo logístico reduz a competitividade das indústrias instaladas em Manaus, especialmente no mercado externo. Em 2025, as exportações do polo alcançaram US$ 663,92 milhões, mas continuam limitadas pelos custos de transporte e pela dificuldade de integração com outros centros produtivos do país.

Para o professor e especialista em logística Augusto Rocha, a infraestrutura é um dos principais entraves ao desenvolvimento regional. “A logística poderá ser a ‘arquitetura da competitividade’, o grande elemento que falta ao Amazonas para ser ainda mais contribuinte para o país”, afirma.

O chamado “Custo Amazônia”, que reúne gastos adicionais com transporte, energia, burocracia e falta de infraestrutura, também ajuda a explicar as dificuldades econômicas da região. Estudos do Banco Mundial indicam que, se o Amazonas estivesse localizado geograficamente no Espírito Santo, seu Produto Interno Bruto (PIB) seria 27,2% maior. A mesma análise aponta que uma redução de apenas 12,5% nos custos de transporte poderia elevar o PIB amazonense em até 38%.

A desigualdade estrutural da infraestrutura brasileira também aparece na qualidade das rodovias. Enquanto estradas concedidas à iniciativa privada, concentradas principalmente no Sul e Sudeste, apresentam melhores índices de conservação, a malha rodoviária pública do Norte sofre com falta de manutenção, problemas de sinalização e dificuldades operacionais agravadas pelas condições climáticas da Amazônia.

Impactos sociais da falta de logística

Os impactos da precariedade logística ultrapassam a esfera econômica e atingem direitos básicos da população. Em muitos municípios amazônicos, o acesso à saúde depende exclusivamente do transporte fluvial ou aéreo, tornando deslocamentos longos, caros e arriscados. Durante períodos de cheia ou seca extrema, comunidades inteiras enfrentam dificuldades para acessar hospitais, medicamentos e água potável.

A insegurança alimentar também se agrava diante do isolamento. Apesar de concentrar uma das maiores biodiversidades do planeta, o Amazonas enfrenta dificuldades de abastecimento e aumento no preço de alimentos, especialmente em municípios do interior, onde o alto custo do frete impacta diretamente a população mais vulnerável. A dificuldade de escoamento da produção local também limita pequenos produtores rurais e comunidades extrativistas.

Ao mesmo tempo, especialistas apontam que a ausência de infraestrutura e de presença efetiva do Estado favorece a expansão da ilegalidade na região. Para Alfredo Lopes, consultor ambiental e editor geral do portal Brasil Amazônia Agora “cruzar os braços significa automaticamente favorecer a expansão da criminalidade”. Já o presidente do Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e vice-presidente da FIEAM, Nelson Azevedo afirma que “o rigor [ambiental], quando não vem acompanhado de coordenação institucional, deixa de ser proteção e passa a produzir paralisia”.

Nesse contexto, a discussão sobre a BR-319 também passou a ser associada ao futuro da bioeconomia amazônica. Pesquisadores e representantes do setor produtivo defendem que cadeias sustentáveis ligadas a produtos como açaí, castanha, óleos vegetais e recursos pesqueiros dependem de infraestrutura logística mais eficiente para ganhar escala e competitividade. No entanto, gargalos como ausência de armazenagem refrigerada, dificuldade de assistência técnica e custos elevados de transporte ainda limitam a expansão da economia da floresta em pé.

Os riscos socioambientais no entorno da BR-319

O principal risco ambiental associado à BR-319 não está apenas na rodovia em si, mas no modelo de ocupação desordenada que historicamente acompanha a abertura de estradas na Amazônia.

Um dos fenômenos mais recorrentes é o chamado desmatamento em “espinha de peixe”, caracterizado pela abertura de ramais laterais, em sua maioria ilegais, que avançam para o interior da floresta a partir da via principal. Em imagens de satélite, o padrão lembra uma espinha de peixe: uma linha central cercada por diversas ramificações laterais.

Esses ramais facilitam a ocupação de áreas antes isoladas e impulsionam atividades como grilagem de terras públicas, extração ilegal de madeira, garimpo e abertura de pastagens. Estudos do Observatório BR-319 identificaram cerca de 18,8 mil quilômetros de ramais na área de influência da rodovia, extensão mais de vinte vezes superior ao comprimento da própria BR-319. Parte dessas vias já avança sobre áreas protegidas, incluindo Unidades de Conservação e Terras Indígenas – localizam-se 42 Unidades de Conservação e 69 Terras Indígenas ao redor da BR-319. 

A abertura dessas vias clandestinas está diretamente ligada à expectativa de valorização fundiária associada à possível pavimentação da BR-319. Esse movimento tem atraído grandes pecuaristas e produtores de soja de estados como Rondônia e Mato Grosso, alterando o perfil produtivo da região, historicamente marcado pelo extrativismo e pela agricultura de subsistência. Nesse contexto, o fenômeno conhecido como “AMACRO”, zona de expansão agrícola entre Amazonas, Acre e Rondônia, exerce pressão crescente sobre o sul do Amazonas, tendo a BR-319 como eixo de avanço territorial.

O geógrafo Heitor Pinheiro, pesquisador do comitê de monitoramento e inteligência do Observatório BR-319, afirmou em entrevista à Agência Brasil que outra pressão crescente relativa aos ramais é a mineração, crescente de forma ilegal e com processos de autorização em trâmite. “Fora do agro, a gente tem uma pressão agora pela mineração. Eu arrisco que cerca de 80% de todos os ramais que foram identificados estão sobrepostos a esses processos minerários”, afirmou.

Biodiversidade sob pressão

Além da perda de cobertura florestal, pesquisadores alertam para impactos diretos sobre a biodiversidade amazônica. A fragmentação da floresta causada pela reabertura de estradas altera habitats, interfere em rotas migratórias de animais e reduz a conectividade ecológica entre áreas preservadas. Espécies de mamíferos, aves, anfíbios e répteis tornam-se mais vulneráveis ao isolamento populacional, à caça ilegal e à perda de áreas de alimentação e reprodução.

Outro impacto recorrente associado à expansão rodoviária é o aumento de atropelamentos de fauna silvestre. Em regiões de alta biodiversidade como o Interflúvio Madeira-Purus, a circulação de veículos pode afetar espécies ameaçadas e comprometer corredores ecológicos. Especialistas apontam que, sem medidas de mitigação, como passagens de fauna, cercamentos e monitoramento permanente, a pavimentação tende a ampliar os impactos sobre ecossistemas já pressionados pelo avanço da ocupação humana.

Queimadas e avanço da degradação

Em 2024, cerca de 40% das Unidades de Conservação localizadas na área de influência da BR-319 registraram perda de vegetação, totalizando 962 hectares desmatados, área equivalente a mais de 1.300 campos de futebol. Além do desmatamento por corte raso, as queimadas também se consolidaram como um dos principais vetores de degradação ambiental na região. Embora os dados do INPE indiquem redução no desmatamento em 2023 e 2024, os focos de calor apresentaram picos alarmantes em diferentes localidades. 

O fogo costuma ser utilizado como estratégia de limpeza do solo após a retirada ilegal de madeira, consolidando ocupações irregulares. Em operações, como a “Operação Maravalha”, realizada pelo Ibama em 2026, foram identificados empreendimentos madeireiros ilegais, áreas desmatadas e queimadas ao longo da rodovia, resultando em multas milionárias e embargos ambientais.

queimadasbr319
Foto: Orlando K. Júnior / FAS

Violência agrária e conflitos fundiários

O avanço da ocupação irregular também intensificou conflitos fundiários e a violência no campo. Regiões como Humaitá e o distrito de Realidade são apontadas pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) como algumas das áreas mais críticas da Amazônia em relação à grilagem, disputa por terras e violência agrária. A expectativa pela pavimentação da BR-319 alimentou um mercado ilegal de terras, no qual florestas públicas e territórios tradicionais passaram a ser alvo de grileiros e milícias rurais.

Os dados de 2025 revelam um aumento de 100% no número de assassinatos no campo em comparação com o ano anterior, com a Região Norte concentrando 61% dessas ocorrências. Segundo relatórios da CPT, fazendeiros e empresários do agronegócio aparecem entre os principais agentes envolvidos em ameaças contra lideranças extrativistas e ribeirinhas. A violência também ocorre por meios jurídicos, com o uso de “interditos proibitórios” e outras medidas para expulsar famílias posseiras sem título definitivo de terra.

Povos indígenas e territórios ameaçados

Os povos indígenas estão entre os grupos mais vulneráveis à expansão da ocupação irregular, ao menos 69 Terras Indígenas podem ser impactadas pela pavimentação da BR-319. O avanço dos ramais sobre os povos indígenas compromete a segurança alimentar dessas populações e ameaça grupos em isolamento voluntário na região Trans-Purus. 

protestoindigenacontraviolencia
Foto: Diego Baravelli/Greenpeace

Desmatamento e risco de novas doenças

Outro risco associado, apontado por pesquisadores da Fiocruz e da Unicamp, é o de uma explosão de doenças infecciosas e zoonoses decorrentes do desmatamento e da alteração do uso do solo. A fragmentação florestal aumenta o contato entre humanos e reservatórios de patógenos silvestres, podendo elevar a incidência de malária, leishmaniose e novas arboviroses. Além disso, a melhoria do acesso rodoviário facilita a circulação de vírus entre centros urbanos populosos e o interior da floresta, criando desafios epidemiológicos inéditos para o sistema de saúde pública regional.

O debate atual sobre a BR-319 e os caminhos possíveis

Após uma nova reviravolta judicial, o governo federal retomou o processo de licitação para obras de repavimentação no chamado “Trecho do Meio” da BR-319 em abril de 2026. O processo havia sido suspenso pela Justiça Federal do Amazonas às vésperas da abertura das propostas, mas a decisão foi revertida no mesmo dia pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).

Ao derrubar a liminar, a desembargadora federal Maria do Carmo Cardoso, presidente do tribunal, afirmou que a paralisação das obras causava “dano concreto e irreversível ao interesse público”, especialmente diante da vulnerabilidade logística do Amazonas. Com a nova decisão, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) reabriu o prazo para envio de propostas, com abertura da licitação marcada para 20 de maio.

Os novos editais contemplam dois lotes entre os quilômetros 250,7 e 433,1 da rodovia, reduzindo temporariamente o escopo previsto pelo DNIT em março de 2026. Segundo a autarquia, os demais lotes seguem em processo de participação social e permanecem incluídos nos procedimentos licitatórios em andamento.

Photos by Alberto Cesar Araujo for Amazonia Real The impacts of BR 319 road 149
Foto: Alberto Cesa Araujo/Amazênia-Real

Licenciamento ambiental e disputa jurídica

A disputa judicial ocorre em meio às mudanças no debate sobre licenciamento ambiental no Brasil. A nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental reacendeu discussões sobre flexibilização de regras, simplificação de procedimentos e possibilidade de dispensa de estudos ambientais em obras classificadas como estratégicas ou de manutenção. No caso da BR-319, parte do impasse jurídico gira em torno da definição do que seria “manutenção” de uma rodovia já existente e quais intervenções exigiriam novos estudos ambientais completos.

O enquadramento enfrenta resistência técnica do Ibama e de órgãos de controle, que argumentam que os impactos no Trecho do Meio equivalem aos de uma obra nova. Para o Observatório do Clima, a pavimentação de uma área isolada por décadas altera profundamente a dinâmica da floresta, especialmente pela presença de Unidades de Conservação, Terras Indígenas e áreas de alta biodiversidade ao redor da estrada. “Se o empreendimento já exigiu a elaboração de EIA/Rima, é porque foi classificado como de significativo impacto ambiental. E, nesses casos, a legislação não permite a dispensa de licenciamento”, afirma Fábio Ishisaki, assessor de políticas públicas da organização.

A divergência alimenta um ciclo de instabilidade jurídica, no qual decisões administrativas relacionadas à “manutenção” da rodovia acabam frequentemente judicializadas, mantendo a BR-319 em um impasse. Por outro lado, defensores da recuperação da estrada argumentam que a ausência de infraestrutura e de presença efetiva do Estado favorece justamente o avanço da ilegalidade na região.

As soluções propostas para a BR-319

Parte das propostas em discussão busca romper com o modelo histórico de ocupação desordenada associado às estradas amazônicas. Entre as condicionantes debatidas para a BR-319 estão monitoramento via satélite, bases permanentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF), integração entre órgãos ambientais e forças de segurança, controle de ramais clandestinos, gestão ativa de Unidades de Conservação e fortalecimento da vigilância territorial indígena. Também são discutidas medidas de mitigação para a fauna, como corredores ecológicos, passagens subterrâneas, pontes aéreas para animais e cercamentos em áreas sensíveis, para reduzir atropelamentos e fragmentação de habitats.

Outro ponto considerado central é a realização de diagnósticos socioambientais participativos, a consulta prévia a povos indígenas — conforme a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) — e programas de desenvolvimento sustentável para comunidades impactadas pela rodovia. Especialistas defendem que a BR-319 seja tratada como um corredor acompanhado de governança territorial contínua e não apenas como uma obra isolada de infraestrutura.

Mesmo organizações ambientalistas que criticam o projeto atual afirmam que o debate não deve ser reduzido à dicotomia entre “estrada ou floresta”. O Observatório do Clima sustenta que não é contrário à pavimentação em si, mas condiciona qualquer avanço à existência de “condições rigorosas de governança ambiental capazes de conter o desmatamento”, incluindo fortalecimento da fiscalização, combate à grilagem e ordenamento territorial. Em nota, o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) também declarou apoio à repavimentação, desde que o processo ocorra “através de um licenciamento rigoroso e respeitando a legislação e suas salvaguardas sociais e ambientais”.

O empresário Denis Minev, CEO do Grupo Bemol, afirma que a pavimentação pode ocorrer sem provocar desmatamento descontrolado, desde que exista gestão territorial eficiente. “Eu acho que é perfeitamente possível o Brasil construir uma estrada que não cause desmatamento”, declarou.

Ibama Multas ambientais meio ambiente
Foto: Reprodução

Para o consultor ambiental, escritor e filósofo, Alfredo Lopes, “o problema não é o asfalto; é o vazio de Estado”. Segundo ele, a recuperação da BR-319 deve ser acompanhada de planejamento territorial, monitoramento ambiental, regularização fundiária e presença permanente das forças de segurança. Lopes também argumenta que a rodovia pode impulsionar cadeias sustentáveis ligadas ao Polo Industrial de Manaus, agricultura familiar, biomassa, biocombustíveis e manejo florestal sustentável, desde que o desenvolvimento ocorra dentro dos limites ecológicos da Amazônia.

Nesse contexto, a BR-319 passou a simbolizar um debate mais amplo sobre qual modelo de desenvolvimento o Brasil pretende adotar para a Amazônia. Mais do que discutir a pavimentação de uma rodovia, o impasse envolve a capacidade do Estado brasileiro de integrar a região com governança permanente, desenvolvimento econômico e proteção socioambiental.

Amazônia: potencial desperdiçado também no setor aéreo

“Entre gargalos logísticos e apostas regulatórias, a aviação na Amazônia segue revelando um dos maiores casos de potencial desperdiçado da economia brasileira”

Falta de voos se resolve com regulagem, regulagem, aviões, aeroportos, aeródromos, pessoas e dinamismo econômico. Não escrevi errado: a regulagem é mais importante que todo o resto, por mais que o todo seja necessário. Temos problemas em todas as dimensões no setor aéreo nacional e a distribuição é equânime, ou seja, temos duas vezes mais problemas com regulagem do que com as demais questões.

Pessoas, empresários e tecnologias certamente estão também na equação, mas ficam plenamente representados nas demais dimensões, afinal aviões não operarão sem pessoas, empresários ou tecnologias. Tal qual, não teremos aeroportos sem pessoas, empresários e tecnologias. A questão que me inquieta é que nossas pessoas não conseguem fazer a regulação apropriada do setor aéreo nacional. A quantidade de empresas aéreas que faliram ou foram incorporadas por outras por severos problemas financeiros é, antes de qualquer outra questão, um sintoma de um problema regulatório.

Há uma competição super saudável em qualquer setor da economia. Todavia, as empresas não podem ter uma competição tão acirrada que sejam levadas a operar com estrutura de preços de venda abaixo de seu custo, pois será destrutivo para o negócio.  Uma empresa aérea é mais que um negócio, pois é um serviço fundamental para uma economia desenvolver. Em uma região isolada, tipicamente é mais que isso, pois se torna essencial e pode viabilizar ou inviabilizar a vida em uma região.

A falta de voos se resolve com regulagem. A falta de infraestrutura se resolve com investimentos. A falta de um setor aéreo competitivo e dinâmico afeta profundamente a construção de uma economia pujante, por mais que tenhamos virtualizado muito de nossas vidas. Voar na Amazônia é muito caro. O PL 539/2024, que abre o setor para empresas estrangeiras, não terá o condão de melhorar a situação da região. O que teremos será um setor ainda mais desmantelado, pois não atua na causa dos problemas. 

potencial desperdiçado

A análise é míope, pois os voos que sobrevoam a Amazônia não ofertarão assentos para conectar o interior com as capitais. Não haverá mais rotas de cargueiros por causa disto. O que teremos é potencial competição de empresas sujeitas a outro marco regulatório ou uma letra de lei que é apenas uma semente para criar outra base de subserviência da nossa economia nacional para empresas estrangerias, ao invés de decifrar por completo a causa de nossas empresas aéreas não superarem as barreiras que impedem uma operação rentável e competitiva.

A saída regulatória na Amazônia passa pela criação de um espaço com tarifas máximas reguladas e concessões de rotas rentáveis para empresas de pequeno e médio porte poderem operar regularmente e saudavelmente, conectando o interior profundo com as capitais. Para isso poderemos usar a ANAC, os Governos dos Estados e aviões da Embraer, trazendo uma nova onda de companhias aéreas regionais. Este tipo de ação poderá mudar toda a dinâmica econômica da Amazônia.

Expo Amazônia Bio&TIC 2026: a floresta entra definitivamente na era da inteligência

Idealizada por Vania Thaumaturgo, a quarta edição do evento Expo Amazônia Bio&TIC 2026 propõe uma aliança inédita entre bioeconomia, tecnologia da informação, indústria, ciência e novos empreendedores da Amazônia para transformar biodiversidade em inovação, riqueza sustentável e protagonismo global

Entrevistas Exclusiva ao Portal Brasil Amazônia Agora

1.⁠ ⁠A Expo Amazônia Bio&TIC chega à sua quarta edição em um momento em que bioeconomia e transformação digital parecem finalmente caminhar de forma mais integrada. O que essa convergência representa para a Amazônia?

A Amazônia deixou de ser observada apenas como reserva de recursos naturais e passou a ser percebida como território de inteligência estratégica. A convergência entre bioeconomia e tecnologia da informação cria as condições para transformar biodiversidade em conhecimento, rastreabilidade, inovação, propriedade intelectual e negócios de valor agregado.

A Expo Amazônia Bio&TIC nasce exatamente para estimular esse encontro entre cientistas, startups, indústrias, investidores, povos da floresta, universidades e desenvolvedores de tecnologia. É uma agenda de futuro, mas também uma necessidade imediata diante das mudanças climáticas e da disputa global por soluções sustentáveis.

2.⁠ ⁠Você costuma destacar que a Expo Bio & TIC é um ambiente de articulação entre “atores antigos e novos” da Amazônia. Quem são esses atores e qual o papel deles nesta edição?

Os atores antigos são aqueles que há décadas sustentam a economia regional, como a indústria instalada no Polo Industrial de Manaus, as instituições de pesquisa, universidades, centros tecnológicos e organizações que resistiram defendendo a floresta em pé quando esse tema ainda era marginal.

Os novos atores são as startups de bioeconomia e de TIC, hubs de inovação, comunidades tecnológicas, juventudes empreendedoras, desenvolvedores de IA, especialistas em blockchain, em inteligência artificial, economia criativa e negócios de impacto. A quarta edição da Expo Bio & TIC quer justamente aproximar essas gerações e experiências. O conhecimento tradicional da Amazônia precisa dialogar com a inteligência artificial, com a conectividade e com a nova economia digital.

Expo Amazônia Bio&TIC 2026: a floresta entra definitivamente na era da inteligência

3.⁠ ⁠Qual é a importância da presença da indústria da Zona Franca de Manaus nesse debate sobre bioeconomia e tecnologia?

A indústria do Amazonas possui uma experiência acumulada em engenharia, gestão, logística, produção em escala e integração global que pode acelerar a bioeconomia amazônica. Muitas vezes existe uma falsa separação entre floresta e indústria, quando o desafio contemporâneo é justamente construir uma indústria da floresta, intensiva em ciência, tecnologia e sustentabilidade. O Polo Industrial de Manaus pode contribuir com infraestrutura tecnológica, investimento em P&D, formação profissional e integração com cadeias globais de valor. A Expo Amazônia Bio&TIC reconhece esse papel estratégico.

4.⁠ ⁠A tecnologia da informação passa a ocupar um espaço central na discussão sobre desenvolvimento amazônico?

Sem dúvida. Hoje não existe bioeconomia competitiva sem dados, conectividade, inteligência computacional, rastreabilidade e proteção digital dos ativos da biodiversidade. A tecnologia da informação permite mapear cadeias produtivas, monitorar carbono, conectar comunidades isoladas, desenvolver plataformas de mercado, proteger conhecimento tradicional e ampliar acesso a financiamento climático.

A Amazônia precisa deixar de ser apenas exportadora de matéria-prima e se tornar também exportadora de inteligência biotecnológica e soluções digitais. Além disso a tecnologia pode tornar os diversos mercados amazônicos, mais eficientes e produtivos, e as soluções podem ser encontradas aqui mesmo.

IMG 4738

5.⁠ ⁠O evento também busca mobilizar juventudes e novos empreendedores da região?

Esse é um dos grandes objetivos. A Amazônia possui uma juventude extremamente criativa, mas que muitas vezes não encontra ecossistemas capazes de absorver seu potencial. Queremos mostrar que é possível empreender na região sem reproduzir modelos predatórios. A combinação entre bioeconomia, inovação e TIC abre espaço para novos negócios ligados à saúde, alimentos, cosméticos, serviços ambientais, games, softwares, monitoramento climático e educação tecnológica. Precisamos criar pertencimento e perspectiva para os jovens amazônidas.

cropped Vania Thaumaturgo Associacao do Polo Industrial de Manaus

6.⁠ ⁠Como a Expo Amazônia Bio&TIC pretende dialogar com o cenário internacional, especialmente diante da COP30 que se estende até novembro próximo?

A Amazônia está no centro das discussões globais sobre clima, biodiversidade e transição econômica. A COP30 ampliou ainda mais essa visibilidade. A Expo Bio & TIC quer demonstrar que a região não deseja apenas ser tema de debates internacionais, mas protagonista de soluções. Temos ciência, conhecimento tradicional, capacidade industrial e criatividade para contribuir com uma nova economia de baixo carbono. O mundo busca alternativas sustentáveis, e a Amazônia pode oferecer muito mais do que discursos simbólicos.

7.⁠ ⁠O que diferencia a Expo Amazônia Bio&TIC de outros eventos voltados à inovação e sustentabilidade?

A diferença está justamente no território e na identidade amazônica. Não se trata de importar modelos prontos. A Expo Bio & TIC nasce da realidade regional e procura conectar desenvolvimento econômico, inclusão social, floresta em pé e soberania tecnológica. O evento reúne desde pesquisadores e investidores até comunidades tradicionais e empresários da indústria. É um espaço de construção coletiva, onde a Amazônia é tratada como centro de inteligência e não como periferia do debate nacional.

8.⁠ ⁠Qual é a principal mensagem que você deseja deixar para os setores produtivos, governos, academia e sociedade nesta quarta edição?

A Amazônia não pode continuar fragmentada entre setores que pouco dialogam entre si. Precisamos construir convergência. A bioeconomia depende da ciência. A ciência depende da conectividade. A conectividade depende de infraestrutura. A infraestrutura depende de visão estratégica e cooperação institucional.

A Expo Amazônia Bio&TIC é um convite para essa construção conjunta. O futuro da região passa pela capacidade de unir floresta, conhecimento, indústria, tecnologia e pessoas em torno de um projeto comum de desenvolvimento sustentável. Nesta edição a ExpoAmazônia Bio & TIC estará juntamente com a Conferência ANPROTEC debaixo do Amazônia Innovation Summit, será um encontro imperdível.

Energia, o nervo exposto da economia global

O agravamento das tensões envolvendo o Irã devolveu ao petróleo um protagonismo que jamais desapareceu completamente. Bastou a escalada do conflito para os preços reagirem, os mercados internacionais oscilarem e governos revisitarem uma preocupação histórica que parecia parcialmente adormecida: a segurança energética continua sendo uma das maiores fragilidades da economia global.

O noticiário a respeito, ao analisar os efeitos econômicos da guerra no Oriente Médio, mostra que países produtores de petróleo ampliaram receitas e ganhos estratégicos em meio à instabilidade. Mas revela também um movimento menos imediato e talvez mais importante. Cada nova crise geopolítica acelera a percepção de que a dependência excessiva de combustíveis fósseis produz vulnerabilidades econômicas, logísticas e políticas difíceis de administrar.

Esse cenário coincidiu, de maneira emblemática, com os debates da COP30, realizada em Belém. O Brasil chegou à conferência tentando exercer protagonismo diplomático em torno de um “mapa do caminho” para a redução gradual da dependência global de petróleo, gás e carvão.

A proposta encontrou resistência firme das grandes economias produtoras de combustíveis fósseis. Arábia Saudita, Rússia e Índia bloquearam a inclusão de prazos e referências explícitas ao abandono dos fósseis no texto final da conferência. Utilizando a regra de consenso da ONU, impediram que a COP30 assumisse compromissos mais contundentes sobre a transição energética global.

economia global
(Rafa Neddermeyer/COP30 Brasil Amazônia/PR)

A transição energética não é apenas uma agenda ambiental. Ela envolve disputas econômicas, geopolíticas e estratégicas de enorme dimensão. O planeta reconhece a urgência climática, mas continua profundamente dependente das estruturas energéticas que sustentaram a economia industrial do último século.

A substituição dessa engrenagem não ocorrerá por retórica, voluntarismo ou pressão moral isolada. Ela exigirá tecnologia, infraestrutura, segurança regulatória, inovação industrial e capacidade de coordenação internacional em um ambiente crescentemente conflituoso.

 Mais do que uma solução complementar às fontes renováveis, o armazenamento tornou-se um instrumento essencial para otimizar custos operacionais, aumentar a eficiência energética e ampliar a estabilidade dos sistemas elétricos.

Em um cenário marcado pela volatilidade dos combustíveis fósseis, operações estruturadas com BESS reduzem significativamente a vulnerabilidade energética causada pela dependência do diesel, do petróleo e do gás natural.

Cada oscilação no preço internacional do barril, cada crise logística ou tensão geopolítica impacta diretamente os custos de geração, transporte e consumo de energia. Ter um sistema de armazenamento operando significa criar uma camada adicional de segurança e previsibilidade, capaz de proteger empresas, indústrias, concessionárias e comunidades contra interrupções, picos tarifários e instabilidades externas.

Petroleo dispara no mercado
Foto divulgação

Além de permitir melhor aproveitamento da geração renovável, o BESS atua no gerenciamento inteligente da demanda, reduz desperdícios energéticos, diminui custos sistêmicos e fortalece a resiliência da infraestrutura elétrica. Em regiões isoladas ou dependentes de geração térmica, como diversas áreas da Amazônia, o armazenamento representa não somente eficiência operacional, mas redução concreta da exposição aos riscos associados aos combustíveis fósseis.

A guerra no Oriente Médio e o impasse da COP30 demonstram justamente isso. O debate energético deixou de ser apenas ambiental. Tornou-se questão de soberania, estabilidade econômica e segurança nacional.

Essa discussão ganha relevância ainda maior no Brasil diante do avanço do Leilão de Reserva de Capacidade, que reforça a necessidade de soluções capazes de oferecer flexibilidade, confiabilidade e segurança ao sistema elétrico nacional. À medida que fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica, ampliam participação na matriz energética, cresce também a importância do armazenamento como elemento fundamental para equilibrar oferta e demanda, reduzir custos sistêmicos e aumentar a resiliência da infraestrutura elétrica brasileira.

Uma questão permanece: a Amazônia passou a ocupar posição singular na reorganização energética global. A região concentra uma das maiores biodiversidades do planeta, enorme potencial de geração renovável e, ao mesmo tempo, uma das maiores contradições energéticas do país. Milhares de comunidades amazônicas ainda dependem de sistemas movidos a diesel, caros, poluentes e vulneráveis a crises logísticas cada vez mais frequentes.

A transição energética, aqui, assume um significado mais concreto e urgente. Não se trata apenas de reduzir emissões. Trata-se de garantir estabilidade operacional, acesso à energia, redução de custos, autonomia regional e melhoria das condições sociais. É nesse ponto que tecnologias de geração distribuída, sistemas híbridos, armazenamento inteligente e soluções energéticas descentralizadas ganham importância estratégica cada vez maior. 

O Brasil possui condições raras para participar dessa transformação com protagonismo. Tem matriz relativamente limpa, capacidade renovável abundante, patrimônio mineral estratégico e uma posição geográfica privilegiada para liderar novas cadeias produtivas ligadas à economia de baixo carbono. Mas potencial, sozinho, nunca garantiu liderança histórica a nenhuma nação.

A energia limpa deixou de ser somente uma pauta ambiental. Tornou-se um ativo estratégico da competitividade global.
E talvez a Amazônia esteja mais próxima do centro dessa transformação do que o próprio Brasil ainda percebeu.

Amazônia no centro do tabuleiro

A fotografia diplomática publicada pelo New York Times nesta semana talvez diga mais sobre o futuro da Amazônia do que muitos discursos produzidos em conferências climáticas nos últimos anos. Donald Trump recebendo Luiz Inácio Lula da Silva na Casa Branca, depois de meses de atritos públicos e tensões comerciais, não representa exatamente uma reconciliação política. Representa algo mais profundo: um rearranjo de interesses num mundo que começa a reorganizar sua economia em torno de energia, tecnologia e minerais estratégicos.

A reportagem americana deixa escapar, nas entrelinhas, aquilo que os grandes centros de poder já compreenderam há algum tempo. O Brasil passou a ocupar posição decisiva na reorganização industrial do planeta. E boa parte dessa importância repousa justamente sobre a Amazônia.

Não apenas pela floresta.

Terras raras, nióbio, cobre, grafite, manganês e outros minerais críticos transformaram-se no novo eixo da economia digital e da transição energética. São esses insumos que sustentam baterias, semicondutores, inteligência artificial, carros elétricos, satélites, data centers e sistemas de defesa. O petróleo continua importante, mas o mundo começa a disputar outra geografia de poder.

E o Brasil aparece no centro desse movimento.

Durante décadas, os Estados Unidos permitiram que a China consolidasse domínio sobre etapas decisivas da cadeia global desses minerais. Agora tentam reconstruir alternativas. Nesse cenário, o território brasileiro deixa de ser apenas um parceiro comercial relevante e passa a ser tratado como ativo estratégico da segurança econômica americana.

É aqui que a discussão ganha densidade.

A matéria do New York Times associa explicitamente a relação Brasil-EUA a temas como crime organizado, cooperação militar e minerais críticos. À primeira vista, parece apenas um esforço diplomático contra facções transnacionais. Mas o subtexto é mais delicado. Quando interesses minerais, insegurança territorial e competição global passam a coexistir no mesmo discurso, abre-se uma zona cinzenta historicamente sensível para o Brasil.

A Amazônia conhece bem esse tipo de movimento.

Em diferentes períodos, surgiram narrativas humanitárias, ambientais, científicas e militares utilizadas como formas indiretas de influência sobre a região. Agora surge uma nova camada de pressão: a corrida pelos insumos estratégicos da economia verde e digital.

A transição energética mundial tampouco eliminou a lógica predatória das grandes potências. Apenas trocou parte da dependência do petróleo pela dependência mineral. A floresta passou a interessar não somente pelas árvores em pé, mas também pelo que repousa abaixo delas.

Nesse contexto, o desafio brasileiro exige maturidade estratégica rara.

O país não pode transformar a Amazônia apenas em estoque mineral destinado a alimentar a disputa industrial entre Estados Unidos e China. Tampouco pode repetir o velho padrão de exportação primária sem inteligência tecnológica, agregação de valor e domínio sobre cadeias produtivas.

A questão central talvez seja outra:

A resposta passa por ciência, bioeconomia, industrialização avançada, defesa territorial, tecnologia e governança ambiental séria. Passa também pela compreensão de que soberania não se exerce apenas com retórica patriótica. Soberania exige presença econômica inteligente, infraestrutura, pesquisa, educação e ocupação produtiva qualificada do território.

amazonia no centro

É justamente nesse ponto que a Zona Franca de Manaus reaparece sob nova perspectiva histórica. O modelo industrial amazônico pode deixar de ser visto apenas como mecanismo regional de compensação fiscal para assumir função estratégica numa economia global que busca manufatura verde, rastreabilidade e cadeias produtivas menos dependentes da Ásia.

Talvez seja isso que comece a emergir silenciosamente nas entrelinhas da reportagem americana.

O mundo voltou os olhos para a Amazônia. Mas agora por razões muito mais concretas, industriais e geopolíticas.

Já não se trata apenas da floresta como símbolo climático ou abstração ambiental conveniente. A Amazônia começa a ser percebida como território-chave da reorganização econômica global.

E o Brasil precisará decidir rapidamente qual papel pretende ocupar nesse novo ciclo.

Protagonista estratégico de um modelo soberano de desenvolvimento ou simples fornecedor bruto de riquezas para projetos concebidos fora daqui.

A reforma tributária e o Amazonas: a hora de discutir o próximo passo

Coluna Follow-Up

Durante décadas, a economia do Amazonas foi organizada a partir de um eixo relativamente estável. A Zona Franca de Manaus concentrou investimentos, estruturou cadeias industriais e definiu o centro gravitacional do desenvolvimento regional. Esse modelo produziu resultados relevantes para o estado e para o país, sobretudo ao consolidar uma economia formal numa região historicamente vulnerável à ocupação predatória.

Mas a reforma tributária altera parte importante das condições que sustentaram esse arranjo.

O fim da confortável centralidade passiva

Ao reduzir o peso dos incentivos fiscais como principal elemento de decisão locacional e ao criar um sistema mais uniforme de tributação sobre consumo, o novo ambiente econômico tende a deslocar progressivamente os critérios de competitividade. Logística, infraestrutura, produtividade, conectividade e capacidade territorial passam a ganhar importância crescente.

Essa mudança não produz efeitos imediatos, mas inaugura uma transição estrutural. E é exatamente aqui o debate muda de natureza.

O próximo passo exige mais do que discurso

Durante muito tempo, a principal preocupação regional foi preservar o modelo existente. Agora, surge uma questão mais ampla e mais difícil: qual será o próximo ciclo econômico do Amazonas?

A resposta para isso não pode surgir apenas de discursos sobre bioeconomia, inovação ou sustentabilidade. Essas agendas são importantes, mas insuficientes quando desacompanhadas de planejamento territorial, coordenação institucional e capacidade de investimento.

DESENVOLVIMENTO sustentavel Amazonia imagem ia

O próximo passo supõe um plano

Mas não qualquer plano. Supõe um projeto de reorganização econômica do território amazonense capaz de responder simultaneamente a três desafios: manter a competitividade industrial de Manaus, estruturar novas bases produtivas no interior e construir infraestrutura compatível com as dimensões geográficas da Amazônia.

Nesse ponto, o debate fiscal torna-se inevitável.

Nenhum plano sobrevive sem base fiscal

Porque nenhum plano de desenvolvimento sobrevive apenas de intenção estratégica. Ele depende de condições materiais de execução. E isso nos leva a uma questão central ainda pouco enfrentada no debate regional: quais serão as bases fiscais do Amazonas no período pós-reforma tributária?

Essa talvez seja a discussão mais importante dos próximos anos. O estado precisará compreender como ficará sua capacidade de arrecadação, investimento e financiamento diante da nova arquitetura tributária nacional. Precisará discutir compensações, fundos de desenvolvimento regional, mecanismos de transição e novos instrumentos de financiamento territorial.

Mas precisará, sobretudo, abandonar uma cultura histórica de dependência quase exclusiva da renúncia fiscal como motor econômico.

A reforma tributária impõe ao Amazonas uma exigência inédita: transformar vantagem fiscal em capacidade estrutural.

Isso significa utilizar o período de transição para construir ativos permanentes capazes de sustentar competitividade para além do incentivo fiscal. Infraestrutura logística, integração energética, conectividade digital e inteligência territorial deixam de ser temas paralelos e passam a compor a própria base material do desenvolvimento. O mesmo vale para a capacidade científica, a verticalização produtiva e a formação de cadeias regionais mais densas, capazes de transformar recursos locais em valor agregado e permanência econômica.

O PED como ensaio de reorganização territorial

O debate sobre o chamado “próximo passo” precisa então amadurecer.

Não se trata apenas de defender incentivos ou reivindicar compensações federativas. Trata-se de discutir qual arquitetura econômica poderá sustentar o Amazonas nas próximas décadas.

O próprio Plano Estratégico de Desenvolvimento já sugere parte dessa transição ao propor integração hidroviária, retroportos, aeroportos regionais, reorganização logística e articulação territorial das atividades econômicas.

Mas a existência de um plano, por si só, não resolve o problema. A questão decisiva é sua viabilidade política e institucional. Isso envolve capacidade de coordenação entre governo, setor produtivo e municípios, continuidade administrativa entre mandatos, segurança jurídica, financiamento de longo prazo e, sobretudo, uma estrutura técnica capaz de transformar diretrizes estratégicas em execução concreta.

BR-319, um falso dilema 

Nesse contexto, a própria discussão sobre infraestrutura deixa de ser apenas logística e passa a ser territorial. A controvérsia em torno da BR-319 ajuda a revelar parte desse dilema amazônico. Ao longo de décadas, consolidou-se a ideia de que preservar significava, necessariamente, limitar integração econômica e circulação. Mas regiões desprovidas de função econômica organizada frequentemente acabam submetidas às formas mais precárias e predatórias de ocupação. 

A experiência internacional mostra que a proteção duradoura de um patrimônio natural depende também de sua inserção racional na economia formal, na presença do Estado e em cadeias produtivas capazes de gerar valor, renda e permanência social no território.

Talvez esteja aí uma das discussões mais desconfortáveis da Amazônia contemporânea: a proteção efetiva de um território raramente decorre do vazio econômico. Na maior parte das vezes, ela depende justamente da capacidade de atribuir função econômica organizada, presença institucional e integração racional ao espaço que se pretende conservar.

BR 319 Foto Marcos Amend WCS Brasil
Foto: Marcos Amend

O desafio é execução. Não mais diagnóstico.

Talvez o maior desafio do Amazonas não seja mais formular diagnósticos. O estado já produziu estudos, propostas e agendas suficientes para compreender boa parte de seus obstáculos históricos.

O verdadeiro desafio passa a ser capacidade de execução. Isso exigirá escolhas difíceis.

Nem todo investimento poderá ser simultâneo. Nem toda região crescerá no mesmo ritmo. Nem toda narrativa ambiental aceitará expansão de infraestrutura. Nem todo setor produtivo aceitará condicionantes territoriais mais rigorosas. 

O debate sobre o “próximo passo” precisa abandonar a abstração confortável e entrar no terreno das escolhas concretas. Isso implica discutir prioridades econômicas, funções produtivas regionais, mecanismos de financiamento, capacidade estatal e critérios objetivos para ocupação econômica do território. 

A Amazônia diante da própria encruzilhada histórica

A reforma tributária talvez represente a primeira grande oportunidade, em décadas, para o Amazonas, a Amazônia, reorganizar sua economia olhando para além da dependência fiscal que estruturou seu ciclo industrial.

A questão agora já não é apenas preservar um modelo. É decidir o que fazer com a transição que já começou.


Follow-Up é publicada às quartas, quintas e sextas no Jornal do Comércio do Amazonas, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do BrasilAmazoniaAgora.

Cobra com patas de 100 milhões de anos muda teoria sobre evolução das serpentes

Fóssil de cobra com patas encontrado na Argentina revela novas pistas sobre a evolução das serpentes e desafia antigas teorias sobre a origem do grupo.

Um fóssil encontrado na Argentina está mudando a forma como cientistas entendem a evolução das cobras. A espécie extinta Najash rionegrina, que viveu há cerca de 100 milhões de anos, preserva características consideradas fundamentais para reconstruir os primeiros estágios evolutivos das serpentes modernas, incluindo patas traseiras e ossos do crânio ausentes nas cobras atuais.

Descrita em um estudo publicado na revista Science Advances em 2019, a descoberta demonstra que os ancestrais das cobras não eram pequenos animais subterrâneos, como sugeriam hipóteses anteriores. As evidências apontam para serpentes primitivas de corpo relativamente grande e boca ampla, capazes de ocupar diferentes ambientes. Para os pesquisadores, o fóssil representa uma importante evidência de uma antiga cobra com patas que viveu durante o período Cretáceo.

Os fósseis analisados vieram da região da Patagônia, no sul da Argentina, área que há milhões de anos fazia parte do supercontinente Gondwana. A equipe utilizou técnicas de microtomografia computadorizada para investigar o interior dos crânios sem danificar o material. O método permitiu visualizar nervos, vasos sanguíneos e estruturas ósseas escondidas na rocha.

Entre os principais achados está a presença do osso jugal, localizado na região da bochecha. Essa estrutura praticamente desapareceu ao longo da evolução das cobras modernas, mas ainda estava presente em Najash. Segundo os pesquisadores, a descoberta ajuda a esclarecer uma longa discussão científica sobre quais ossos foram perdidos durante a transformação dos lagartos ancestrais em serpentes.

Além do crânio mais próximo do padrão observado em lagartos, Najash também mantinha patas traseiras bem desenvolvidas. O fóssil indica que a perda dos membros aconteceu de forma gradual e muito mais tarde do que se imaginava anteriormente. A preservação do animal permitiu aos cientistas analisar em detalhes como essa antiga cobra com patas apresentava características intermediárias entre lagartos e serpentes modernas.

De acordo com os autores do estudo, a combinação de patas, corpo alongado e adaptações cranianas intermediárias torna a espécie uma das evidências mais importantes para compreender a transição evolutiva das serpentes.

Nos últimos anos, novas pesquisas ampliaram ainda mais o debate sobre a origem das cobras. Em 2020, paleontólogos descreveram no Brasil a espécie Boipeba tayasuensis, uma antiga cobra-cega do período Cretáceo. O fóssil revelou que algumas linhagens primitivas podiam atingir tamanhos muito maiores do que as espécies aparentadas atuais.

Reconstituição artística da cobra com patas ancestral Boipeba tayasuensis ao lado de um crocodiliforme pré-histórico no interior de São Paulo.
Arte mostra a antiga cobra com patas Boipeba tayasuensis, espécie fóssil encontrada no interior paulista durante pesquisas sobre a evolução das serpentes. Foto: Jorge Blanco.

Já em 2023, outro estudo publicado na Science Advances analisou cérebros de répteis modernos e fósseis para reconstruir o comportamento dos ancestrais das cobras. Os resultados sugerem que essas espécies poderiam combinar hábitos subterrâneos com comportamento oportunista, explorando diferentes ambientes e estratégias de alimentação.

Mais recentemente, em 2025, pesquisadores descreveram na revista Nature um réptil do Jurássico Médio encontrado na Escócia com características misturando traços de lagartos e serpentes. O achado reforçou a hipótese de que a evolução inicial dos escamados, grupo que inclui lagartos e cobras, foi marcada por intensa experimentação anatômica.

Mesmo diante das descobertas recentes, Najash rionegrina continua sendo uma das peças centrais para entender como as cobras adquiriram o formato corporal atual. O fóssil registra um momento intermediário da evolução, quando as serpentes ainda mantinham patas e estruturas cranianas ancestrais, mas já apresentavam adaptações típicas das cobras modernas. Para os cientistas, a descoberta dessa cobra com patas ajuda a preencher lacunas importantes sobre a origem evolutiva do grupo.

O que são panapanás? Entenda o fenômeno das borboletas na Amazônia

Observado na vazante dos rios, o panapaná atrai espécies em busca de minerais e pode indicar alterações ambientais, conectando biodiversidade, clima e degradação na Amazônia.

Todos os anos, com a chegada da vazante dos rios amazônicos, período conhecido como “verão amazônico”, um espetáculo natural toma conta das margens e praias recém-expostas: grandes concentrações de borboletas, chamadas de panapanás. O fenômeno, que pode reunir centenas de milhares de indivíduos, é ao mesmo tempo um evento ecológico relevante e um indicativo das transformações sazonais da região.

O termo “panapaná”, de origem tupi, designa coletivos de borboletas e carrega em sua sonoridade a ideia de movimento contínuo. Embora esses insetos sejam, em geral, solitários, eles se agrupam em momentos específicos do ano, principalmente para suprir necessidades nutricionais. Durante a vazante, bancos de areia e solos úmidos ficam expostos, oferecendo sais minerais essenciais à reprodução, o que atrai diferentes espécies em grandes números.

Panapaná com grande agrupamento de borboletas amarelas do gênero Phoebis nas margens de um rio amazônico durante a vazante
Foto: Carlos Durigan

Entre as mais comuns nesses agrupamentos estão borboletas amarelas do gênero Phoebis e Marpesia, além de espécies alaranjadas e outras de coloração mais escura. Dependendo da região e das condições ambientais, é possível observar uma diversidade significativa, com agrupamentos multicoloridos que chamam atenção pela intensidade visual.

Relatos históricos ajudam a dimensionar a magnitude do fenômeno. No século XIX, o naturalista Henry Bates descreveu verdadeiras “nuvens” de borboletas atravessando rios em faixas de vários quilômetros de largura. Observações contemporâneas confirmam essa escala: em poucos minutos, milhares de indivíduos podem ser vistos cruzando o céu ou se acumulando nas margens.

Além do valor ecológico, os panapanás também têm implicações culturais e ambientais. Em comunidades amazônicas, sua presença é associada a mudanças no clima, como períodos de seca mais intensa ou aumento de queimadas. Nos últimos anos, a maior frequência desses agrupamentos em áreas urbanas tem chamado atenção de pesquisadores, que consideram o fenômeno um possível indicador de extremos climáticos e degradação ambiental.

A sobrevivência dessas borboletas em cidades como Manaus depende diretamente da existência de áreas verdes, como fragmentos florestais, quintais e árvores urbanas. Esses espaços funcionam como refúgio e fonte de alimento, reforçando a importância da conservação mesmo em ambientes urbanizados. Assim, os panapanás revelam a conexão entre ciclos naturais, biodiversidade e mudanças ambientais na Amazônia.

Borboleta Marpesia zerynthia dentigera (Nymphalidae: Cyrestinae) registrada na Amazônia, espécie que pode compor o panapaná em agrupamentos de borboletas
A espécie Marpesia zerynthia dentigera integra a diversidade de borboletas que pode participar do panapaná, fenômeno que reúne diferentes grupos nas margens dos rios amazônicos. Foto: Dr. Alexey Yakovlev

Terras raras, soberania rara

Coluna Follow-Up

A confirmação da reunião entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, marcada para o dia 7 de maio corrente, talvez seja um dos movimentos diplomáticos mais importantes para o Brasil à luz da centralidade geopolítica da Amazônia. Não pela liturgia do encontro. Nem pelo simbolismo das duas figuras políticas. Mas pelo que está efetivamente em disputa no século XXI.

A pauta pública falará de comércio, investimentos, clima, tarifas, cooperação estratégica e segurança hemisférica. A pauta real provavelmente girará em torno de energia, minerais críticos, semicondutores, inteligência artificial, autonomia industrial e disputa tecnológica global. Em outras palavras: terras raras.

Durante décadas, a Amazônia foi tratada internacionalmente como um questão ambiental. Agora, ela passa a ser percebida também como solução energética, mineral e tecnológica.

Não se trata apenas da floresta. Trata-se do subsolo, da água, da biodiversidade, da capacidade energética, da bioengenharia natural e da posição estratégica do território amazônico em uma nova reorganização industrial do mundo.

Os Estados Unidos compreenderam isso. A China compreendeu isso há muito tempo. A Europa tenta compreender antes que seja tarde. O Brasil ainda oscila entre enxergar a Amazônia como periferia distante ou como núcleo de sua soberania futura.

É neste contexto que a reunião acontece

A guerra comercial e tecnológica entre Estados Unidos e China criou uma corrida silenciosa por minerais críticos. Terras raras, lítio, nióbio, grafita, cobre e cobalto passaram a ser tratados como ativos de segurança nacional. Não são apenas commodities. São a base material da transição energética, dos carros elétricos, das baterias, dos satélites, dos sistemas militares, da computação avançada e da inteligência artificial.

Quem controla essas cadeias controla parte decisiva da economia global das próximas décadas.

O problema americano é que embora possuam reservas, os EUA dependem fortemente da cadeia chinesa de processamento e refino. E o Brasil aparece como alternativa em um mundo que tenta reduzir dependências críticas.

Num mundo em disputa por minerais críticos, semicondutores, dados estratégicos e autonomia energética, defender a Amazônia exigirá mais do que presença territorial. Exigirá inteligência nacional, pesquisa aplicada e domínio tecnológico compatível com a importância geopolítica da região

Mas há uma diferença fundamental entre oportunidade histórica e repetição colonial.

O Brasil não pode aceitar entrar na nova economia verde ocupando o mesmo lugar subordinado da velha economia mineral. Exportar minério bruto enquanto importa tecnologia de alto valor agregado seria apenas reeditar, com nova linguagem climática, a lógica extrativista que historicamente empobreceu regiões ricas em recursos naturais.

A discussão verdadeira não deveria ser apenas “explorar ou não explorar”. Isso é insuficiente.

A questão central é: Quem controla a cadeia? Quem industrializa? Quem domina a tecnologia? Quem agrega valor? Quem decide o ritmo? Quem protege o território? Quem se beneficia socialmente dessa riqueza?

A Amazônia não pode se transformar numa nova corrida internacional por ativos estratégicos sem presença efetiva do Estado brasileiro, sem inteligência territorial, sem ciência nacional, sem bioindústria, sem governança ambiental e sem participação concreta das populações amazônicas.

Há um risco evidente de que a pressão internacional em torno das terras raras produza uma combinação explosiva:
mineração predatória, expansão ilegal sobre áreas sensíveis, tensão fundiária, criminalidade organizada e captura externa de cadeias produtivas.

Mas há também uma possibilidade rara de reorganização histórica.

O Brasil pode transformar sua condição mineral em plataforma de reindustrialização sustentável. Pode associar mineração responsável à verticalização tecnológica, à pesquisa científica, à indústria de transformação, à economia de baixo carbono e à bioeconomia amazônica. Pode converter território em inteligência estratégica.

Isso exigirá maturidade política, visão de Estado e coordenação nacional acima de disputas ideológicas imediatas.

Num mundo em disputa por minerais críticos, semicondutores, dados estratégicos e autonomia energética, defender a Amazônia exigirá mais do que presença territorial. Exigirá inteligência nacional, pesquisa aplicada e domínio tecnológico compatível com a importância geopolítica da região

Nesse contexto, ganha relevância silenciosa uma iniciativa ainda pouco debatida nacionalmente: a chegada do Instituto Militar de Engenharia ao Amazonas, através do Instituto de Pesquisas do Exército na Amazônia (IPEAM), em Manaus.

Mais do que descentralização acadêmica, trata-se de um sinal estratégico. Ao investir em pós-graduação voltada à engenharia de defesa, inteligência artificial, geointeligência, segurança cibernética e tecnologias quânticas, o país começa a reconhecer que a soberania amazônica dependerá crescentemente de capacidade científica e tecnológica instalada na própria região.

A parceria com UFAM, UEA e IFAM aponta para uma possibilidade historicamente rara: integrar indústria, universidades, defesa e inovação em torno de um projeto nacional para a Amazônia.

Num mundo em disputa por minerais críticos, semicondutores, dados estratégicos e autonomia energética, defender a Amazônia exigirá mais do que presença territorial. Exigirá inteligência nacional, pesquisa aplicada e domínio tecnológico compatível com a importância geopolítica da região

Talvez por isso uma frase recente do New York Times tenha chamado tanta atenção ao definir Lula como “provavelmente o estadista latino-americano mais importante deste século”. A frase é interpretativa, discutível e certamente carregada de leitura editorial. Mas ela revela algo importante: o mundo voltou a olhar o Brasil não apenas como mercado consumidor ou exportador agrícola, mas como ator geopolítico relevante.

E a razão principal disso atende pelo nome de “Amazônia”.

Não a Amazônia folclórica da contemplação distante. Nem a Amazônia reduzida a ativo ambiental para conferências climáticas. Mas a Amazônia como território decisivo da soberania mineral, energética, hídrica, biotecnológica e climática do planeta.

É isso que torna esta reunião importante.

O essencial agora não é produzir fotografias diplomáticas nem slogans nacionalistas ocasionais. O essencial é assegurar que qualquer aproximação internacional preserve princípios inegociáveis, a saber:  soberania territorial; controle estratégico nacional; industrialização brasileira; ciência e tecnologia próprias; proteção ambiental séria; presença do Estado na Amazônia; respeito às populações locais e indígenas; e agregação de valor dentro do país.

O Brasil precisa rejeitar rejeitar subordinação estratégica sem, obviamente, rejeitar cooperação internacional.

Porque, desta vez, o que está em jogo é o lugar do Brasil na arquitetura do século XXI.


Estudo na revista Nature revela que microplásticos no ar foram superestimados

Nova análise com quase 3 mil medições atmosféricas revela que emissões terrestres de microplásticos superam em mais de 20 vezes as oceânicas.

Pesquisa publicada na revista Nature revela que emissões atmosféricas de microplásticos foram superestimadas e destaca novas incertezas sobre a poluição global. Os microplásticos já foram encontrados em regiões remotas do planeta, desde montanhas até áreas oceânicas isoladas. Agora, um novo estudo internacional indica que a maior parte dessas partículas transportadas pela atmosfera tem origem em fontes terrestres e não marinhas, como sugeriam pesquisas anteriores.

A pesquisa, conduzida pelo Departamento de Meteorologia e Geofísica da Universidade de Viena e publicada na revista Nature, também aponta que as estimativas globais sobre emissões de microplásticos no ar estavam significativamente infladas. Segundo os autores, modelos utilizados até agora previam concentrações muito superiores às observadas em medições reais.

Os microplásticos são partículas extremamente pequenas liberadas a partir da degradação de materiais plásticos. Elas podem ser emitidas diretamente por atividades humanas, como o desgaste de pneus, a liberação de fibras têxteis e processos industriais, além de retornarem ao ar a partir de solos e superfícies aquáticas já contaminadas. Uma vez suspensas na atmosfera, essas partículas podem percorrer grandes distâncias e ser inaladas por humanos e animais.

Grande quantidade de resíduos plásticos acumulados em aterro sanitário, evidenciando o impacto da poluição ambiental causada pelo descarte inadequado.
Poluição plástica em aterros contribui para a liberação de microplásticos transportados pelo ar em escala global. Foto: Tom Fisk/Pexels

Para chegar às conclusões, os pesquisadores Ioanna Evangelou, Silvia Bucci e Andreas Stohl reuniram 2.782 medições atmosféricas realizadas em diferentes partes do mundo. Os dados foram comparados com simulações computacionais baseadas em três modelos globais de emissões de microplásticos.

A comparação mostrou que os modelos superestimavam em várias ordens de magnitude a quantidade de partículas presentes no ar e depositadas na superfície terrestre. A partir desse descompasso, os cientistas recalibraram os cálculos e produziram novas estimativas para fontes terrestres e oceânicas.

Após os ajustes, os resultados mostraram que as emissões provenientes da terra continuam sendo amplamente dominantes. Segundo Andreas Stohl, mais de 20 vezes mais partículas de microplástico são lançadas na atmosfera a partir de áreas terrestres do que dos oceanos.

Apesar disso, os pesquisadores observaram um detalhe importante, embora a quantidade de partículas seja maior em terra, a massa total emitida pelos oceanos pode ser superior, devido ao tamanho médio mais elevado das partículas oceânicas.

O estudo também destaca que ainda existem grandes lacunas no entendimento sobre a circulação atmosférica dos microplásticos. Entre as principais incertezas estão a participação relativa de diferentes fontes de emissão e a distribuição real do tamanho das partículas transportadas pelo ar.

Os autores defendem a ampliação das medições globais para melhorar a precisão dos modelos climáticos e ambientais relacionados à poluição plástica. Segundo eles, compreender como os microplásticos se dispersam pela atmosfera é fundamental para avaliar impactos ambientais e possíveis riscos à saúde humana.

Leia o artigo na íntegra em: