“Sobrevivam como puderem” — o pacto cínico contra a Amazônia que dá certo

Por que o Brasil bacana e rentista teme a plena realização da Zona Franca de Manaus — e o que essa omissão revela sobre o projeto de país que estamos dispostos a sustentar?

Coluna Follow-Up

Por Alfredo Lopes e Maurício Loureiro

Vamos começar pelo argumento da suficiência: “Vocês já têm demais.”

A ideia de que os incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus seriam suficientes para garantir o desenvolvimento da Amazônia é uma falácia cruel. Esses incentivos não são um privilégio, mas a contrapartida institucional mínima diante da distância, dos custos logísticos, da ausência do Estado e das barreiras impostas pelo próprio sistema tributário nacional. Na verdade, a contrapartida fiscal é um contrato com o governo brasileiro no contexto da redução das desigualdades regionais. Então, não há renúncia. Há um amontoado de benefícios de mão única para os cofres da Receita.

O que está por trás do “vocês já têm o suficiente” é o medo de que a ZFM cumpra sua promessa histórica: tornar-se um polo de ciência, tecnologia e sustentabilidade capaz de rivalizar em competitividade com outras regiões brasileiras — sem destruir a floresta. As mesmas forças que tentaram, através de decretos de condenação da ZFM, voltam a impor um veto explícito com narrativas baseadas em sofismas, maledicência e ausência de fundamento técnico ou constitucional.

A geopolítica da estagnação: quando crescer ameaça o equilíbrio de poder

O Brasil é um país em disputa interna. E, nesse cenário, a Amazônia é mantida em estado de contenção por motivos geopolíticos, disfarçados de dificuldades técnicas.

  • A BR-319 não é restaurada por falta de projeto? Não. É por excesso de covardia ou miopia política de Estado. As mesmas forças que tentaram esvaziar a contrapartida fiscal da ZFM removeram os recursos do orçamento para a recuperação da BR-319. Basta acompanhar a tramitação do orçamento — follow the money — para entender a prioridade viária na direção do Arco Norte.
  • As hidrovias do Amazonas — a BR-319 e a 174 — não são modernizadas por falta de recursos? Não. É por uso técnico raso, sem visão estratégica de efeito prático — ou porque “já temos demais.”
  • A logística competitiva não chega por inviabilidade econômica? Não. É por viabilidade política indesejável ou miopia logística em relação aos países que adotaram o modal e evoluíram — sem destruição.
A ideia de que os incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus seriam suficientes para garantir o desenvolvimento da Amazônia é uma falácia cruel. Esses incentivos não são um privilégio, mas a contrapartida institucional mínima diante da distância, dos custos logísticos, da ausência do Estado e das barreiras impostas pelo próprio sistema tributário nacional. Na verdade, a contrapartida fiscal é um contrato com o governo brasileiro no contexto da redução das desigualdades regionais. Então, não há renúncia. Há um amontoado de benefícios de mão única para os cofres da Receita.

É como se houvesse um pacto não escrito: “Não deixem o Amazonas se desenvolver de verdade, senão ele muda o jogo.”

A hipocrisia fiscal: quem dá mais é quem menos recebe

O Amazonas é um dos estados mais empobrecidos do país. E, ainda assim:

  • Recolhe mais da metade de todos os impostos federais da região Norte;
  • Está entre os oito maiores contribuintes da Receita Federal;
  • É provedor dos reservatórios que abastecem e iluminam o Sudeste e fornece os recursos hídricos e pluviométricos necessários ao agronegócio.

O que isso revela? Que a Amazônia financia o Brasil com sua indústria e com sua floresta, mas não recebe de volta sequer o investimento mínimo para garantir dignidade logística, energética ou social. Essa lógica colonial — ou de desdém deliberado — é tão perversa quanto silenciosa: transformam a floresta em símbolo retórico, mas os amazônidas em estatística marginal e em isolamento social persistente. Ela é tão antiga quanto a recusa da Amazônia — desde quando se chamava Grão-Pará e Rio Negro — em se submeter ao Império Colonial do Sudeste.

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foto: Moto Honda

Um plano de comunicação para combater a comédia perversa

Nosso papel, como alvos dessa narrativa marota, é desmontar essa hipocrisia com sabedoria, contundência e persistência. Para isso, propomos uma estratégia de contra-desinformação, com três pilares:

  • Desmascaramento narrativo: mostrar que não se trata de ingenuidade ou erro técnico. É projeto — um projeto disfarçado de vitimismo fiscal para evitar nossa cidadania econômica e presença geopolítica destacada.
  • Proposição prática: defender a infraestrutura verde como alternativa estratégica, impulsionada pela inteligência industrial regional, baseada na floresta em pé.
  • Mobilização pública: fazer o Brasil olhar para a Amazônia como prioridade de Estado, e não como margem geográfica ou problema ambiental a ser contido.
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Logística dos transportes é o fio da meada

Vamos sair

Vamos adotar as linhas da constitucionalidade para o esclarecimento de quem é quem no “pacto contra a Amazônia”, com os seguintes episódios — uma toada indignada em cinco atos:

🟠 Episódio 1 — A omissão como método

Nada passa de erro técnico. A BR-319 não avança por covardia política; hidrovias são mantidas com dragagens improvisadas; a ferrovia nem sai do papel por miopia ou cálculo anti-amazônico. Pior: Serafim Corrêa matou a jararaca e deu nome ao porrete. “O IPI é cobrado em duplicidade”, o que expande desonestamente a narrativa sem pudor da renúncia danosa. A omissão é estratégia deliberada, e não equívoco.

🟠 Episódio 2 — O argumento da suficiência

A retórica de que a Zona Franca de Manaus seria “incentivada demais” ignora a realidade técnica da região: distâncias continentais, custos logísticos altíssimos e ausência de infraestrutura. Esse discurso é usado para conter o crescimento da ZFM, que, de fato, pode se tornar um polo competitivo nacional — sem devastar a floresta.

🟠 Episódio 3 — Quem mais dá, menos recebe (em homenagem a Samuel Benchimol)

O Amazonas é um dos maiores contribuintes da Receita Federal e recolhe mais da metade de todos os tributos da região Norte. No entanto, recebe menos de 0,2 % dos investimentos federais em infraestrutura. Serafim esclarece que a renúncia fiscal nunca ultrapassou 7 % do total, contrariando as narrativas infundadas. Os 93 % restantes voltam ao Tesouro Nacional. Ainda assim, somos acusados de onerar o país.

🟠 Episódio 4 — A Amazônia como ameaça ao status quo

Com a floresta em pé — e industrializada — somos soberanos, autônomos e sustentáveis. Isso contraria o pacto de centralização vigente. Por isso, em vez de integrar a Amazônia ao país, mantêm-na isolada: território simbólico, vazio econômico, e alvo de narrativas que minimizam seus potenciais.

🟠 Episódio 5 — Uma nova estratégia para uma nova região

Chegou a hora de reescrever o pacto federativo com a Amazônia: com infraestrutura verde, respeito orçamentário e protagonismo científico. A floresta quer tecnologia e mercado — com justiça. Agora é o momento de decidir: Brasil marginal ou Brasil de futuro?

O Brasil centralizado quer permanecer de cócoras e de costas para a Amazônia. Nós seguimos de pé. E olhando para o futuro. Está na hora de virar o jogo.

Maurício Loureiro é conselheiro do Centro da Indústria do Estado do Amazonas e membro da Comissão da ESG

Mauricio Loureiro empresario e conselheiro do Centro da Industria do Estado do Amazonas 1
Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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