O Brasil está secando

Do atual governo não se pode esperar nada positivo. Políticas ambientais propositivas deveriam estar no centro dos debates para as eleições de 2022

Matéria Editorial publicada pelo Estadão

O Brasil está secando. Segundo o projeto MapBiomas, que reúne universidades, organizações ambientais e empresas de tecnologia, nos últimos 35 anos o País perdeu 16% da superfície de água e as queimadas atingiram 20% do território nacional.

Dois terços do fogo ocorreram em áreas de vegetação nativa. Cerrado e Amazônia concentram 85% da área queimada ao menos uma vez.

O padrão do fogo evidencia a relação com causas humanas. Entre 1985 e 2020, 61% das áreas afetadas foram queimadas duas vezes ou mais. No caso da Amazônia, 69% das áreas afetadas queimaram mais de uma vez; 48% queimaram mais de três vezes. A Amazônia, advertiu a coordenadora do MapBiomas Fogo, Ane Alencar, “é uma floresta úmida, o fogo não faz parte do seu regime natural, mas temos visto esse avanço puxado por fatores como o avanço das áreas de pastagem”.

Desde 2004, quando o desmatamento na Amazônia atingiu o pico das duas últimas décadas, ou 27,8 mil km², o País o reduziu expressivamente – ainda que insuficientemente –, chegando ao menor índice da série histórica em 2012: 4,6 mil km². Mas nos últimos dois anos o desmate se acelerou.

A perda de água é em certa medida mais preocupante, porque desde os anos 90 a desidratação é quase contínua e nos últimos 10 anos se acentuou, revelando que as crises hídricas deverão ser mais recorrentes e intensas. “O que assusta é a tendência de longo prazo. Cada vez que temos um ano de seca mais forte, o País pode se recuperar um pouco depois, mas parece que não consegue voltar ao patamar anterior”, disse o coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo. “Nesse ritmo, vamos chegar a um quarto (25%) de redução da superfície de água antes de 2050.”

A primeira das causas apontadas são as mudanças climáticas, que tendem a acentuar dois extremos: estiagens mais longas e extensas e chuvas mais curtas e intensas. “Chove muito, de forma concentrada, a água escorre e vai embora.”

Outro fator está ligado à expansão das fronteiras agrícolas. O aumento das represas em fazendas provoca o assoreamento e a fragmentação da rede de drenagem, desencadeando um ciclo vicioso: “Estas represas privadas tiram água do curso natural. Menos água, menos evapotranspiração das árvores da floresta, o que causa menos chuva, e mais seca. E para combater a seca”, conclui Azevedo, “mais reservatórios privados”.

Por fim, o desmatamento, sobretudo na Amazônia, está reduzindo, a um tempo, as chuvas e o efeito esponja das vegetações nativas, ou seja, a capacidade de absorver a água no solo e liberá-la aos poucos.

O Pantanal é o maior emblema da correlação nefasta entre queimadas e desidratação. Mato Grosso – que abriga Amazônia, Cerrado e Pantanal – é o Estado com maior área afetada pelo fogo e o segundo em perda de água, atrás apenas de Mato Grosso do Sul. Comparativamente, o Pantanal foi o bioma que mais queimou nas últimas três décadas – 57% de sua área queimou ao menos uma vez – e também foi o que mais secou – 74% de sua superfície aquática foi perdida. É outro ciclo vicioso: menos água deixa a matéria orgânica no solo mais vulnerável ao fogo. Mais fogo elimina a vegetação fundamental para proteger a nascente dos rios. Em 2020, o Pantanal registrou o recorde de queimadas, e neste ano já atingiu o mesmo patamar de área destruída até o mesmo período do ano passado.

Todos os biomas estão conectados; a degradação ambiental hoje está conectada à perda de capacidade agrícola amanhã; e as causas dessa degradação também estão conectadas. No caso das queimadas e da desidratação, entre as três causas, as mudanças climáticas, as interferências nos mananciais e o desmatamento, a primeira é mais difusa e global. Já as últimas podem ser contidas imediatamente com políticas públicas enérgicas. Aprimorar a regulamentação e fiscalização das represas privadas é indispensável. Mas o maior freio é a repressão ao desmatamento ilegal.

Do atual governo não se pode esperar nada positivo. O melhor a fazer é um esforço de contenção de danos. Mas políticas ambientais propositivas deveriam estar no centro dos debates para as eleições de 2022.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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