Marcelo Pereira explica por que o Plano Estratégico propõe um novo projeto de Estado para o Amazonas
O maior desafio dos próximos anos vai além da Reforma Tributária. Será construir uma compreensão nacional mais ampla sobre o significado estratégico da Amazônia.
Coluna Follow-Up
BAA Entrevista
A cada temporada, a sociedade insiste em discutir candidatos. Raras vezes decide discutir o futuro. Esta conversa com o economista Marcelo Pereira, ex-superintendente da Suframa e um dos formuladores do Plano Estratégico de Desenvolvimento coordenado pelo senador Omar Aziz, pertence à segunda categoria.
Nesta edição especial da Follow Up, condensamos os principais eixos dessa reflexão. Em vez de reproduzir as quinze perguntas da entrevista original, organizamos o pensamento de Marcelo Pereira em cinco grandes temas que sintetizam os desafios e as oportunidades do Amazonas diante das transformações econômicas, tecnológicas e ambientais do século XXI.
O Amazonas precisa voltar a planejar o longo prazo
Follow Up – O Plano Estratégico parte da ideia de que o desenvolvimento deve ser tratado como política de Estado. Por que isso é tão importante?
Marcelo Pereira – O Amazonas conhece bem os efeitos da descontinuidade administrativa. Projetos relevantes acabam interrompidos a cada mudança de governo, desperdiçando recursos, tempo e oportunidades. A democracia pressupõe alternância de poder, mas não exige que cada gestão recomece do zero.
Foi justamente para enfrentar essa fragilidade que concebemos o Plano Estratégico como um instrumento de Estado. Nossa preocupação não era elaborar um conjunto de promessas para quatro anos, mas construir uma referência técnica baseada em diagnósticos, indicadores fiscais, análise institucional e planejamento integrado, capaz de orientar sucessivas administrações.
Essa visão explica a estrutura do documento. Responsabilidade fiscal, infraestrutura, logística, indústria, ciência, inovação, inteligência artificial, bioeconomia, energia e regularização fundiária aparecem como partes de uma mesma estratégia. Nenhum desses temas produz resultados isoladamente. O desenvolvimento depende da capacidade de integrá-los.
Também propomos mecanismos permanentes de avaliação, monitoramento de resultados, revisão de gastos e fortalecimento da transparência pública. Planejar deixou de ser um exercício burocrático. Tornou-se condição indispensável para enfrentar desafios como a Reforma Tributária, a diversificação econômica, a interiorização do desenvolvimento e a modernização da gestão pública.
Mais do que responder às necessidades do presente, o Plano procura oferecer ao Amazonas uma referência capaz de sobreviver aos ciclos eleitorais e orientar decisões estratégicas durante muitos anos.
O desafio de recupeara a capacidade de investir
Follow Up – O Plano dedica grande atenção às contas públicas e à Reforma Tributária. Por que esses temas ocupam posição tão central?
Marcelo Pereira – Porque nenhuma política pública consegue produzir resultados duradouros quando o Estado perde sua capacidade de investir. O diagnóstico que realizamos mostrou que o Amazonas enfrenta uma compressão crescente do espaço fiscal. As despesas obrigatórias aumentam, a capacidade de investimento diminui e a administração pública passa a dedicar cada vez mais recursos à manutenção da própria máquina.
A Reforma Tributária amplia ainda mais a necessidade de planejamento. O novo sistema exigirá adaptação institucional, aperfeiçoamento da administração tributária e utilização eficiente dos mecanismos constitucionais destinados à preservação da competitividade da Zona Franca de Manaus. Não basta garantir juridicamente o modelo. Será necessário aproveitar essa transição para modernizar a economia amazonense.
Por isso o Plano propõe uma nova cultura de gestão pública. Defendemos orçamento orientado por desempenho, revisão permanente dos gastos, fortalecimento da governança fiscal, utilização crescente de inteligência artificial na administração tributária e financeira e mecanismos que perm. itam acompanhar continuamente os resultados das políticas públicas.
A responsabilidade fiscal, nesse contexto, deixa de representar apenas equilíbrio das contas. Ela passa a constituir instrumento de desenvolvimento. Um Estado financeiramente organizado consegue investir melhor em infraestrutura, educação, saúde, inovação e segurança jurídica, criando um ambiente mais favorável à atração de investimentos privados e à geração de oportunidades.
Mais importante do que discutir números, portanto, é compreender que responsabilidade fiscal e desenvolvimento econômico não competem entre si. São dimensões complementares de uma mesma estratégia de crescimento sustentável.
Zona Franca, Suframa e a diversificação da economia amazonense
Follow Up – Sua experiência à frente da Suframa influenciou diretamente a elaboração deste Plano. Que lições esse período deixou?
Marcelo Pereira – A Suframa oferece uma visão privilegiada da economia amazônica porque acompanha diariamente o setor produtivo, os investimentos, a evolução tecnológica e as mudanças regulatórias que afetam a competitividade regional. Essa experiência reforçou uma convicção importante: a Zona Franca de Manaus não pode continuar sendo analisada apenas pela ótica dos incentivos fiscais.
Trata-se de uma política pública de desenvolvimento regional prevista na Constituição, cuja contribuição ultrapassa a atividade industrial. Ela participa da integração nacional, gera empregos qualificados, atrai investimentos, incorpora tecnologia, fortalece a presença do Estado brasileiro na Amazônia e cria condições para que o desenvolvimento ocorra preservando a floresta.
Ao mesmo tempo, a experiência na Suframa mostrou que o modelo precisa continuar evoluindo. As transformações das cadeias globais de produção, a digitalização da indústria, a transição energética e a própria Reforma Tributária exigem novos investimentos em ciência, tecnologia, inovação, bioeconomia e formação de capital humano.
Outro aprendizado importante foi compreender que desenvolvimento regional não se constrói por compartimentos. Não basta fortalecer a indústria se persistem gargalos logísticos. Não basta atrair investimentos sem energia confiável, conectividade digital, infraestrutura científica e qualificação profissional. O Plano foi estruturado justamente para integrar essas agendas, permitindo que cada política pública fortaleça as demais.
Também considero indispensável recuperar a capacidade operacional da própria Suframa. Ao longo dos últimos anos, contingenciamentos sucessivos reduziram recursos que poderiam estar financiando projetos estruturantes para toda a Amazônia Ocidental. Valorizar a instituição significa fortalecer um dos principais instrumentos federais de desenvolvimento regional.
Essa visão integrada orienta todo o Plano Estratégico e procura preparar o Amazonas para um cenário econômico muito diferente daquele que existia quando a Zona Franca foi criada.
Um plano construído por muitas mãos para sobreviver aos governos
Follow Up – O que diferencia este Plano dos tradicionais programas apresentados em campanhas eleitorais?
Marcelo Pereira – A principal diferença está na metodologia. Em vez de começarmos pelas promessas, começamos pelo diagnóstico. Antes de propor soluções, procuramos compreender por que determinados problemas persistem há décadas e quais fatores econômicos, institucionais e sociais impedem sua superação.
Essa foi uma orientação muito clara do senador Omar Aziz. O objetivo não era produzir um documento voltado apenas para uma eleição, mas construir uma referência que pudesse permanecer útil ao Amazonas independentemente de quem estivesse à frente do governo. Isso exigiu reunir especialistas de diferentes áreas, promover o diálogo entre conhecimento técnico e experiência prática e tratar o desenvolvimento como um processo integrado.
Por essa razão, o Plano foi elaborado por economistas, juristas, engenheiros, pesquisadores, especialistas em infraestrutura, representantes do setor produtivo e profissionais ligados à gestão pública. Nenhum desafio do Amazonas pode ser compreendido por uma única disciplina. Questões fiscais dialogam com logística; logística interfere na competitividade; competitividade depende de inovação, educação, infraestrutura, energia e segurança jurídica. Essa visão sistêmica tornou-se uma das marcas do documento.
Também fizemos questão de concebê-lo como um instrumento aberto ao aperfeiçoamento permanente. O desenvolvimento não é um conceito estático. Novas tecnologias surgem, a legislação evolui, a economia mundial se transforma e a própria sociedade modifica suas prioridades. Um planejamento consistente precisa incorporar essa capacidade de aprender continuamente.
Outro aspecto importante é a preocupação com a execução. O Plano não se limita a indicar objetivos. Propõe mecanismos de governança, avaliação de desempenho, monitoramento de resultados e utilização de ferramentas modernas de gestão pública. Planejamento só produz credibilidade quando consegue transformar boas ideias em políticas públicas efetivas.
Talvez esse seja seu maior diferencial. Em vez de oferecer respostas prontas para um momento específico, procura construir uma cultura permanente de planejamento. Mais do que um programa de governo, pretende servir como uma plataforma de desenvolvimento para o Amazonas.
O Amazonas que interessa ao Brasil
Follow Up – Depois de participar da elaboração deste Plano, que mensagem o senhor gostaria de deixar aos amazonenses e aos brasileiros?
Marcelo Pereira – Talvez a principal contribuição deste trabalho seja convidar o Brasil a olhar o Amazonas sob uma perspectiva diferente. Durante muito tempo o debate nacional concentrou-se em perguntar quanto custa desenvolver esta região. Essa é uma discussão legítima, mas insuficiente. Tão importante quanto avaliar os investimentos realizados é compreender os benefícios estratégicos que o Amazonas oferece ao país.
O Amazonas ocupa uma posição singular no território brasileiro. Abriga a maior floresta tropical do planeta, influencia o equilíbrio climático da América do Sul, participa da segurança hídrica e alimentar nacional, concentra patrimônio biológico de valor científico extraordinário e representa uma das principais fronteiras geopolíticas do Brasil. Esses ativos ultrapassam os interesses regionais. São patrimônio estratégico da República.
Essa mesma lógica se aplica à Zona Franca de Manaus. Ela não deve ser analisada apenas pelo debate tributário. Ao longo de sua história, contribuiu para estruturar uma economia de elevada complexidade tecnológica, formar mão de obra qualificada, atrair investimentos, fortalecer instituições de pesquisa e criar uma alternativa concreta de desenvolvimento compatível com a conservação da floresta. O desafio agora é utilizar essa base para impulsionar uma nova etapa de diversificação econômica, incorporando ciência, inovação, bioeconomia e tecnologia às oportunidades abertas pela transição energética e pela economia do conhecimento.
Vivemos um momento de profundas transformações globais. Inteligência artificial, reorganização das cadeias produtivas, valorização dos ativos ambientais e mudanças no comércio internacional reposicionam a Amazônia no centro das grandes decisões econômicas do século XXI. O Amazonas precisa estar preparado para ocupar esse espaço.
Considero, por isso, que o maior desafio dos próximos anos vai além da administração da Reforma Tributária ou da ampliação da competitividade econômica. Será construir uma compreensão nacional mais ampla sobre o significado estratégico da Amazônia. Países que consolidaram projetos duradouros de desenvolvimento aprenderam a reconhecer que determinados territórios produzem benefícios muito superiores à sua arrecadação imediata. Eles fortalecem a soberania, estimulam a inovação, ampliam a segurança econômica e criam vantagens competitivas para toda a nação.
O futuro do Amazonas interessa aos amazonenses, mas interessa igualmente ao Brasil. Planejar seu desenvolvimento significa fortalecer a capacidade do país de enfrentar os desafios ambientais, econômicos, tecnológicos e geopolíticos das próximas décadas. Se este Plano contribuir para consolidar essa visão, terá cumprido uma de suas missões mais importantes.
Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br