“Há fenômenos que crescem diante dos nossos olhos sem que percebamos seu verdadeiro significado. O avanço das motocicletas, bicicletas elétricas, motonetas, triciclos e outros veículos leves pelas cidades brasileiras é um deles”.
Boa parte do debate público continua tratando a transformação na mobilidade urbana como um problema de trânsito ou, quando muito, como um desafio para a segurança viária. Os números dos acidentes ocupam as manchetes. As estatísticas de infrações alimentam diagnósticos preocupantes. Quase nunca, porém, se pergunta por que milhões de brasileiros passaram a escolher justamente esses meios de transporte.
Possivelmente, porque a resposta seja mais profunda do que parece.
As cidades brasileiras ainda são planejadas para um país que já não existe.
Durante grande parte do século passado, o planejamento urbano foi concebido para um cidadão que saía de casa pela manhã, trabalhava em um único lugar e retornava ao fim do expediente. A cidade foi desenhada para automóveis, ônibus e horários relativamente previsíveis. O deslocamento era quase sempre linear.
O Brasil mudou.
A economia digital, os serviços por aplicativos, o empreendedorismo, a multiplicação dos pequenos negócios e as novas formas de trabalho criaram uma mobilidade completamente diferente. Milhões de pessoas percorrem dezenas de trajetos ao longo do dia. Entregadores, técnicos, vendedores, profissionais da saúde, representantes comerciais, pequenos empreendedores e prestadores de serviço dependem de deslocamentos rápidos, frequentes e de baixo custo.
Foi nesse ambiente que surgiu uma nova geração de meios de transporte. Motocicletas, bicicletas elétricas, motonetas, triciclos e outras soluções compactas passaram a constituir uma das infraestruturas da nova economia urbana. Entre elas, a motocicleta tornou-se a expressão mais visível dessa transformação.
A revolução ocorreu
Ela reduz o tempo de deslocamento, amplia oportunidades de trabalho, diminui custos operacionais e oferece mobilidade justamente onde o transporte público deixou de responder às necessidades da população.
Não se trata apenas de uma escolha individual. Trata-se de uma adaptação coletiva a uma realidade econômica que mudou antes da infraestrutura das cidades.
O paradoxo salta aos olhos.
Enquanto a sociedade reorganiza espontaneamente sua forma de se mover, boa parte do poder público continua planejando cidades segundo parâmetros concebidos há cinquenta ou sessenta anos.
A consequência aparece diariamente nas ruas.
Vias pensadas quase exclusivamente para automóveis. Pouca integração entre diferentes modais. Infraestrutura insuficiente para veículos leves. Calçadas abandonadas. Sinalização precária. Legislação fragmentada.
Fiscalização frequentemente voltada para punir comportamentos, mas incapaz de enfrentar as causas estruturais dos conflitos urbanos.
Esse descompasso ajuda a explicar parte da crescente tensão observada no trânsito brasileiro. Não porque motocicletas ou bicicletas elétricas representem uma ameaça em si, mas porque circulam em cidades que nunca foram planejadas para acolhê-las.
A reação mais comum costuma ser atribuir aos usuários desses veículos toda a responsabilidade pelo problema. Evidentemente, imprudência, excesso de velocidade e desrespeito às normas precisam ser combatidos com rigor. Mas limitar o debate ao comportamento individual significa ignorar uma transformação muito maior.
Quando uma mudança ocorre em milhões de decisões tomadas diariamente por cidadãos de diferentes classes sociais, profissões e regiões do país, talvez estejamos diante de um fenômeno estrutural, e não de uma simples soma de escolhas pessoais.
O próprio setor produtivo percebeu essa mudança antes do planejamento urbano.
O Polo Industrial de Manaus tornou-se um dos principais fornecedores dessa nova mobilidade brasileira. Todos os anos, milhões de motocicletas, motonetas e bicicletas saem de suas linhas de produção para atender uma demanda que continua crescendo. Não se trata apenas de fabricar veículos. Trata-se de responder a uma mudança profunda na maneira como os brasileiros trabalham, produzem riqueza e se deslocam.
Essa transformação dificilmente será revertida. Ao contrário, tende a acelerar com a eletrificação da mobilidade, o avanço das baterias, a digitalização dos serviços e a busca por soluções de transporte mais eficientes, econômicas e ambientalmente sustentáveis.
Hoje, a pergunta já não seria por que existem tantas motocicletas nas ruas brasileiras.
A pergunta correta seja por que nossas cidades continuam sendo planejadas como se essa nova mobilidade ainda não existisse.
O debate sobre mobilidade precisa deixar de discutir apenas quais veículos ocupam as ruas e começar a refletir sobre as cidades que estamos construindo. Quando milhões de brasileiros escolhem diariamente veículos leves para trabalhar, empreender, estudar e viver, talvez não seja a sociedade que esteja andando na direção errada.
É estranho constatar que algumas políticas públicas ainda insistem em procurar o futuro pelo retrovisor.