O investimento invisível do Brasil

Coluna Follow-Up

Durante muito tempo, o debate sobre a Zona Franca de Manaus foi conduzido a partir de uma pergunta aparentemente objetiva: quanto custa ao Brasil manter um regime tributário diferenciado na Amazônia?

A resposta costuma aparecer em planilhas oficiais sob a rubrica “gasto tributário”. A expressão transmite a ideia de que a União estaria abrindo mão de arrecadação para favorecer determinadas empresas instaladas no Polo Industrial de Manaus. A partir dessa premissa, o debate torna-se previsível. Discute-se a dimensão da renúncia, a eficiência do modelo e sua compatibilidade com a concorrência, como se estivéssemos diante de um benefício fiscal semelhante a tantos outros existentes no país.

O equívoco começa aí

Nem toda redução de arrecadação corresponde a um subsídio. Em muitos casos, ela representa a forma escolhida pelo Estado para financiar objetivos que o mercado jamais realizaria espontaneamente. A própria Constituição brasileira reconhece essa diferença ao transformar a Zona Franca de Manaus em uma política permanente de desenvolvimento regional, vinculada à integração nacional, à redução das desigualdades e à proteção de uma região cuja importância ultrapassa em muito suas fronteiras geográficas.

A tributarista Mary Elbe Queiroz, uma das maiores especialistas brasileiras em reforma tributária, propõe uma reflexão que merece atenção. Ao analisar a Zona Franca, ela observa que o modelo não pode ser reduzido à categoria de incentivo fiscal. Trata-se de uma política pública de Estado, concebida para produzir resultados que extrapolam a arrecadação tributária e alcançam objetivos constitucionais, econômicos, ambientais e geopolíticos.

Aprofunda o debate

A questão deixa de ser quanto o governo deixa de arrecadar para perguntar quanto custaria ao Brasil abrir mão dos benefícios produzidos pela permanência de uma economia formal, industrial e tecnologicamente sofisticada na Amazônia.

Ao contrário de outras regiões brasileiras, a Amazônia convive com restrições ambientais que limitam, por razões de interesse nacional e internacional, a expansão de atividades convencionais de ocupação do território. Preservar a maior floresta tropical do planeta significa também restringir alternativas econômicas que, em outras partes do país, foram historicamente utilizadas para gerar riqueza.

Foi exatamente essa a escolha feita pelo Estado brasileiro ao consolidar a Zona Franca de Manaus. Em vez de transformar a floresta em madeira, carvão ou pastagem, optou-se por concentrar a geração de riqueza em um polo industrial urbano, capaz de criar empregos, arrecadação, conhecimento tecnológico e renda sem pressionar diretamente a cobertura florestal.

Teaser Infraestrutura para o desenvolvimento sustentavel da Amazonia e1662330380573 1

Trata de uma escolha de desenvolvimento.

Essa distinção ganha ainda mais relevância diante do conhecimento científico acumulado nas últimas décadas. Hoje se sabe que a Amazônia desempenha funções econômicas que permanecem praticamente invisíveis nas contas públicas. Os chamados rios voadores transportam enormes volumes de vapor d’água para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país, influenciando o regime de chuvas que abastece reservatórios hidrelétricos, irriga lavouras, sustenta a produção agropecuária e contribui para o equilíbrio climático de boa parte da América do Sul.

Estudos científicos publicados na revista Nature estimam que esse serviço ecossistêmico represente algo próximo de US$ 100 bilhões por ano apenas para o agronegócio brasileiro.

Essa riqueza não aparece no Orçamento da União. Também não aparece nas estatísticas de arrecadação. Mas desapareceria rapidamente caso a floresta deixasse de exercer sua função climática.

É curioso observar que o país registra contabilmente o custo da política destinada à Amazônia, mas ainda não desenvolveu mecanismos para registrar o valor econômico dos serviços ambientais que ela produz diariamente para toda a sociedade brasileira.

A contabilidade permanece torta

Essa lacuna ajuda a explicar por que a expressão “gasto tributário” se tornou insuficiente para descrever o significado da Zona Franca. Gasto pressupõe consumo de recursos sem geração equivalente de ativos. Investimento, ao contrário, produz retornos futuros, reduz riscos e preserva patrimônios estratégicos.

Sob essa perspectiva, a Zona Franca aproxima-se muito mais de um investimento nacional do que de uma renúncia fiscal.

Ela financia a permanência de uma economia formal em uma região onde o próprio Estado impõe severas limitações ao uso convencional do território. Sustenta centenas de milhares de empregos diretos e indiretos, fortalece a soberania sobre a Amazônia, amplia a presença institucional brasileira em uma área de crescente interesse geopolítico e reduz incentivos econômicos associados ao desmatamento.

Ao mesmo tempo, cria condições para que o país continue usufruindo dos benefícios climáticos proporcionados pela floresta em pé.

Essa é, com certeza, a mais urgente discussão da questão climática contemporânea. Durante boa parte do século XX, riqueza significava transformar recursos naturais em mercadorias. No século XXI, cresce rapidamente a compreensão de que conservar determinados ativos naturais produz valor econômico de monta. Mercados de carbono, pagamentos por serviços ambientais, créditos de biodiversidade e fundos climáticos caminham exatamente nessa direção.

A Zona Franca de Manaus nasceu décadas antes dessa linguagem se tornar corrente.

Sem utilizar esses conceitos, o Brasil já havia construído uma política pública que reconhecia, ainda que indiretamente, o valor estratégico da Amazônia para o desenvolvimento nacional.

Eis o momento de atualizar o vocabulário. Não porque a política tenha mudado.

Mas porque o mundo finalmente começou a compreender aquilo que a Constituição brasileira já havia intuído: há investimentos cujo retorno não cabe apenas na contabilidade tributária. Eles aparecem na estabilidade do clima, na segurança hídrica, na produção de alimentos, na geração de energia, na soberania territorial e na capacidade de oferecer às futuras gerações um patrimônio natural que continua produzindo riqueza mesmo quando permanece intacto.

É sob essa perspectiva que a Zona Franca de Manaus deve ser compreendida. 

Não como uma exceção fiscal concedida a uma região distante, mas como uma das mais duradouras políticas de investimento estratégico já adotadas pelo Estado brasileiro. Com certeza invisível para algumas planilhas. Cada vez mais indispensável para o futuro do país.


A Coluna Follow-Up é publicada sob a responsabilidade do CIEAM às quartas, quintas e sextas-feiras, no Jornal do Comércio do Amazonas, com a coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal brasilamazoniaagora.com.br 

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

Artigos Relacionados

As cidades ainda são planejadas para um Brasil que já não existe

“Há fenômenos que crescem diante dos nossos olhos sem...

Onda de calor na Coreia chega a 42,5°C e quebra recorde de 122 anos

Onda de calor na Coreia leva Yangsan a 42,5°C, recorde em 122 anos, e mobiliza medidas emergenciais contra os efeitos do calor e da seca.

A contradição dos minerais na transição energética: o custo material da energia renovável

Minerais na transição energética abastecem painéis, turbinas e baterias, ampliando desafios de extração, durabilidade e reciclagem.

Mobilidade em crise e o abandono do espaço urbano

"A mobilidade ativa e o espaço público para uma...

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, insira seu comentário!
Digite seu nome aqui